LEILÕES DE ORIGINAIS DE HERGÉ SÃO UM ÊXITO!

Tintin (Le Sceptre d'Ottokar)

Hergé (ou melhor, a sua mítica obra) soma e segue! No passado dia 30 de Abril, o cantor Renaud obteve a bonita soma de 1 milhão de euros por uma dupla prancha original de Tintin (com as dimensões 39,5 x 60 cms), num leilão realizado pela galeria Artcurial. Com 63 anos, Renaud achou chegado o momento de se desfazer de muitas peças da sua colecção, tendo posto à venda mais de uma centena (com trabalhos, entre outros, de Jacques Martin, Eddy Paape, Tibet, Tillieux, Walthéry, Mitacq, Varenne), mas foi o original de Hergé que, como era esperado, bateu o recorde desse leilão.

Como podem ver na imagem supra (reproduzida, com a devida vénia, da página on-line do jornal “Le Monde”), trata-se das duas últimas pranchas do mítico álbum Le Scèptre d’Ottokar, publicadas pela primeira vez, em 1938, no suplemento infantil Le Petit Vingtième, onde Hergé estreou as primeiras aventuras de Tintin. Outra dupla prancha do mesmo álbum, pertencente a outro coleccionador, já tinha sido vendida, em Outubro do ano passado, por 1,5 milhão de euros, num leilão da Sotheby’s realizado em Paris.

Tintin na SildáviaRenaud confidenciou à imprensa ter comprado o referido original por 100.000 francos, no final dos anos 80, à víúva do desenhador Etienne Le Rallic (autor do famoso Capitão Flamberge, personagem bem popular entre os leitores do Cavaleiro Andante). Falecido em 1968, o veterano Le Rallic colaborou com o criador de Tintin no início da 2ª Guerra Mundial e não deve ter sonhado que a prancha que Hergé lhe oferecera valeria, no futuro, tanto dinheiro! Quanto a Renaud, não há dúvida que fez um bom negócio… mesmo descontando o valor da inflação!

Como é do domínio público, os originais de Hergé produzidos antes da guerra suscitam a “cobiça” de inúmeros coleccionadores, não só de BD mas de arte em geral, sendo em regra os que atingem preços mais elevados, como uma página de guarda utilizada a partir de 1937 nos álbuns de Tintin (em que este aparece em 34 posições) e que foi vendida, há dois anos, por 2,65 milhões de euros, recorde mundial que ainda permanece imbatível. Mas até quando?…

O certo é que, como rezam os peritos e coleccionadores, a Banda Desenhada está a tornar-se um bom negócio e já são muitos os autores bem cotados neste mercado, com destaque naturalmente para os da escola franco-belga (Hergé e Tintin à cabeça). Quando é que os originais de autores portugueses começarão também a ser devidamente valorizados, desde logo no nosso mercado de arte? Porque já é tempo da Banda Desenhada fazer jus também, entre nós, ao seu título de 9ª Arte, com que foi crismada por alguns críticos e intelectuais franceses em meados dos anos 60. 

PÁGINAS SOLTAS – 1

AS IMPRECAÇÕES DO CAPITÃO HADDOCKTintin - Haddock 1

Haddock (delírio)É frequente os mais carismáticos heróis da Banda Desenhada terem um parceiro, um inseparável amigo e companheiro de aventuras, que serve quase sempre de seu contraponto, distinguindo-se por possuir outros dons e outras características (que também caem no goto dos leitores), mostrando uma faceta mais humana, com defeitos e virtudes — o que contribui para elevar o padrão das suas aventuras, sem prejuízo do estatuto mítico do herói principal. Isto tanto nas séries realistas como nas humorísticas…

Nesta peculiar categoria de personagens secundárias que rapidamente ascendem também ao “estrelato”, vem-nos de imediato à memória a incontornável figura do Capitão Haddock, talvez o mais famoso de todos os comparsas que enriqueceram criações emblemáticas, onde a aliança entre duas personagens, mesmo que diametralmente opostas, pede meças aos heróis solitários… embora já sejam poucos os que seguem este caminho.

Tintin - Capa CaranguejoTintin conheceu-o na aventura “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” (Le crabe aux pinces d’or), em que Haddock fazia o papel de um marinheiro alcoólico e embrutecido, com frequentes acessos de cólera, alucinações e perdas de memória, mas que graças à amizade com o jovem aventureiro conseguiu regenerar-se, passando a ter hábitos mais moderados. Excepto quanto à linguagem… que, pelo contrário, se tornou ainda mais irascível, recheada de extravagantes expressões oriundas de um copioso “jargão” que o velho marinheiro se compraz em refinar, somando-lhe novas injúrias, como uma espécie de glossário que não se cansa de rever e enriquecer.

Tintin - Haddock 2 a 5

Mais tarde, ao desvendar o segredo da “Licorne”, Haddock fica na posse de um nome aristocrático e de um sumptuoso palacete em Moulinsart, onde habita, em boa paz e harmonia, juntamente com Tintin, o professor Tournesol e o mordomo Nestor… mas nem por isso aprendeu a refrear os seus excessos de linguagem.

Aqui têm mais um hilariante exemplo (à boa maneira de Hergé) dessas intempestivas manifestações de mau humor — quase sempre provocadas por peripécias que bulem com os seus sentimentos e a sua noção de justiça, mas também, sob o efeito do álcool, com o seu vício e o seu feitio brigão —, extraído igualmente do episódio “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, que é um autêntico festival de impropérios!

Tintin - Haddock 6 a 9

Tintin - Cavaleiro Andante capa nº 405Ninguém consegue ter como Haddock, na ponta da língua, um vocabulário tão truculento, tão vivo, tão espontâneo, de tão grande riqueza e variedade verbal, lembrando uma torrente que jorra de um geiser fumegante ou uma cascata que rola fragorosamente por uma encosta, abafando todos os outros ruídos. Sobretudo quando ele usa um megafone, como na cena seguinte, a todos os títulos memorável, de Coke en stock.

Esta página foi publicada no Cavaleiro Andante nº 405, de 3/10/1959, revista onde Haddock ficou conhecido como Capitão Rosa, nome que o Diabrete tinha sido o primeiro a consagrar entre os leitores portugueses.

Tintin - mercadores de ébano