AS QUATRO ESTAÇÕES – 1

O papagaio de 29 de janeiro517

Nas revistas infanto-juvenis de publicação semanal que campearam na época pioneira da BD portuguesa, as estações e as principais datas do ano, incluindo feriados históricos e religiosos, eram um dos temas que com mais frequência surgiam nas suas capas, ilustradas por desenhadores nacionais de multifacetado talento, como Meco, Tom, Rudy, Stuart, Cottinelli Telmo, Rocha Vieira, Ruy Manso, José Félix, Ilberino dos Santos e outros, cujo traço rivalizava com os dos melhores artistas europeus do seu tempo, enriquecendo as páginas do ABCzinho, d’O Senhor Doutor, d’O Papagaio, do Tic-Tac e de outras revistas infanto-juvenis, pródigas em criações artísticas que conjugavam harmoniosamente a literatura gráfica e as histórias aos quadradinhos. Expressão icónica e síntese de uma nova forma de arte narrativa, que alguns adultos também apreciavam, estas eram, porém, mal toleradas e mal amadas pela cultura oficial, elitista e conservadora, que vigorou durante o Estado Novo. Mas isso é um tema para outros “debates”…

A bela imagem da estação “invernal” que apresentamos a abrir esta rubrica, foi dado à estampa n’O Papagaio nº 355, de 29/1/1942 (são já decorridos 72 anos), com a assinatura de Güy Manuel, desenhador de refinada sensibilidade que, tal como seu irmão Sérgio Luiz — ambos artistas jovens e inovadores, cujo talento o futuro se encarregou de prestigiar, mas precocemente desaparecidos na flor da idade —, recheou as páginas desta famosa revista infantil com ilustrações e histórias aos quadradinhos de apurado gosto estético, imprimindo de forma indelével o seu traço elegante e de inspiração romântica na escola modernista que começava, então, a abrir novos rumos à BD portuguesa.

Apresentamos seguidamente outro criativo exemplo da sua obra, publicado no mesmo número d’O Papagaio e que ilustra bem o que escrevemos.

O papagaio Aventuras de Gonçalo 2  519

GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 6

Depois da “Saga do Submarplano”, novos episódios de ROB THE ROVER (por Walter Booth)

Capa-36--Pelo-Mundo-Fora--

Pois o Rob the Rover está a ir na maior. Estou a encaixar tudo de maneira que a série, embora com as partes saindo separadamente, seja numerada por ordem cronológica. Um pouco como a Guerra das Estrelas, cujo primeiro episódio a aparecer foi o terceiro!

Com o arranjar das imagens (são “apenas” umas dez mil e trezentas!), fui descobrindo coisas muito interessantes que corroboram a opinião que eu já formara. O Booth não devia desenhar a história à página, mas em tiras de três vinhetas. E não devia trabalhar “em cima da hora”, com a rotativa à espera que ele mandasse os originais, mas com bastante antecedência, pois detectei que o Puck chegou a publicar algumas páginas fora de ordem, com páginas posteriores a serem publicadas antes, o que causou algum embaraço, pois, à maneira do Raul Correia, também nos textos se procura “emendar” o disparate. Não creio que mais ninguém tivesse dado pelo engano, mas um tipo que é também autor facilmente detecta enganos deste género. Enfim… A nossa versão até nisso é inovadora: escreve direito por linhas tortas!”

Capa-33---Pelo-Mundo-Fora

Isto dizia-nos José Pires, num e-mail que nos enviou há cerca de um mês, completando as informações sobre as novas séries, que já tem em fase adiantada de preparação, da monumental saga Rob The Rover, a obra-prima de Walter Booth e um marco da BD de aventuras em estilo realista, estreada na revista inglesa Puck em 15/5/1920. Graças ao enorme êxito que obteve, a sua publicação prolongou-se por 20 anos, até as restrições impostas pela 2ª Guerra Mundial ditarem o cancelamento do Puck e o inglório fim da série, que apenas sobreviveu durante mais duas semanas nas páginas do Sunbeam.

Capa-I---As-OrigensCapa-II--As-Origens-Capa-III---As-Origens

Para aguçar o “apetite” dos apreciadores desta magnífica saga, publicada em vários continentes e que os leitores daquele tempo jamais esqueceram — particularmente os jovens portugueses que a descobriram nas páginas d’O Carlitos, do Tic-Tac e d’O Mosquito —, mostramos (em ante-estreia) uma selecção de capas da 1ª parte, intitulada “As Origens” (3 volumes), e da última: “Pelo Mundo Fora” (11 volumes).

Mais um magnífico exemplo da arte de Walter Booth, harmoniosa e perfeita em todos os pormenores, realçada nestas imagens pelas cores que José Pires lhes aplicou com a ajuda do Photoshop… tarefa em que, aliás, já se revelou um verdadeiro mestre!

Pelo Mundo Fora - I - 1 (1Pelo Mundo Fora - I - 3 (1Pelo Mundo Fora - I - 5 (1Pelo Mundo Fora - I - 6

 

PARADA DA PARÓDIA – 5

TEMPOS DE CRISE (2)

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A ilustração é da autoria de Rudy (Manuel Joaquim Baptista), n’O Papagaio nº 321, de 5 de Junho de 1941. Os versos mal amanhados (como esta crise que não tem fim, apesar das vozes insistentes que nos querem convencer do contrário) são um “arranjo” do nosso Gato Alfarrabista. 

Papagaio 321 

O ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO… HÁ 28 ANOS

Mosquiro sentado com jornal

Quando passaram 50 anos sobre a data de nascimento d’O Mosquito ainda não havia Internet nem a “febre” das redes sociais e dos blogues que hoje cobrem e discutem todos os acontecimentos de relevo nas áreas da cultura, do desporto, da política (e em muitas outras), mas estava ainda em publicação a última série da mais famosa revista juvenil portuguesa, ressuscitada dois anos antes pela Editorial Futura, sob a direcção do malogrado dr. Chaves Ferreira, médico de profissão, amante das letras e da BD.

Mosquito 50 anos - Mosquito nº 12488Foi por sua iniciativa que um numeroso grupo de colaboradores dessa série (a quinta, no quadro histórico e cronológico d’O Mosquito), a que se juntaram outras figuras — algumas também já desaparecidas, como António Homem Christo, António Costa Ramos, Augusto Simões Lopes, António Barata e Lúcio Cardador —, se reuniu junto da antiga sede das Edições O Mosquito, onde funcionavam também as suas oficinas, na Travessa de S. Pedro, nº 9 (contígua ao Jardim de S. Pedro de Alcântara), e depois num restaurante do Bairro Alto para celebrar essa data histórica e, ao mesmo tempo, dizer adeus à nova série, cujo último número se publicou nesse mês de Janeiro de 1986.

Mosquito faz véniaO encontro promovido em pleno coração da imprensa lisboeta e o simbolismo da efeméride não passaram despercebidos a alguns jornais, como foi o caso do Diário de Lisboa e do Diário Popular, vespertinos na altura ainda em circulação, que no dia seguinte, 15 de Janeiro, publicaram com assinalável destaque as notícias que seguidamente reproduzimos.Mosquito 50 anos - Diário popular  486 Mosquito 50 anos - Diário de Lisboa487DiárioPopular - 50 anos do Mosquito copyDiário de Lisboa - 50 anos do Mosquito COPY

Mesmo sem Internet, Facebook, Google, Twitter, TV por cabo e outros avanços tecnológicos dos meios de comunicação que desde essa época se registaram a espantosa velocidade, um facto merece ser sublinhado: nos anos 80 do século XX (e até em décadas anteriores) os jornais davam mais importância à Banda Desenhada, como forma moderna e transversal de arte figurativa popular, do que dão hoje.

Mosquito ao guardachuvaMas os encontros entre gerações de leitores entusiastas, estudiosos, colaboradores e coleccionadores d’O Mosquito, esses não se extinguiram, nem o sentimento especial que Cardoso Lopes e Raul Correia, com o seu papel lúdico e educativo (mas distanciando-se da escola e da pedagogia), fomentaram numa larga camada da juventude portuguesa — que, por sua vez, o acalentou, num recanto nostálgico da sua memória, e o transmitiu no tempo, partilhando-o, pelo espírito e pelo exemplo, com as gerações futuras.

Mosquito 50 anos - Mosquito nº 12 B489

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 2

TIM-TIM: UM SALTO D’O PAPAGAIO PARA O DIABRETE

papagaio 540   479Tintin (em português, noutros tempos, escre- via-se Tim-Tim), que fez há alguns dias 85 anos, sendo portanto um dos heróis da BD mais antigos de que ainda se fala — e falará, pelo menos nos próximos 50 anos! —, estreou-se em Portugal n’O Papagaio, como muita gente sabe, onde viveu, desde 16 de Abril de 1936, algumas das suas primeiras aventuras, até ir de férias no Verão de 1945, o que lhe deu direito a honras de despedida na capa do nº 540, de 16 de Agosto (que ao lado reproduzimos). A falta de assinatura permite várias especulações quanto à autoria desta capa, mas o mais provável, na nossa opinião, é ter sido realizada por Rodrigues Neves ou Jorge Brandeiro (Rembrandas), dois dos principais colaboradores da revista, nessa fase ainda muito popular junto do público infanto-juvenil. O incansável globetrotter não tardou a regressar noutra grande aventura, “O Segredo da Licorne”, que seria a última publicada pel’O Papagaio, entre o nº 617, de 6/2/1947, e o nº 679, de 15/4/1948.

papagaio 617 + Tintin 593

Tempos depois, quando o garrido semanário, com um passado cheio de tradições e de magníficos colaboradores, interrompeu bruscamente a sua carreira, transformando-se, por motivos imprevistos, num pequeno suplemento da Flama, revista de actualidades pertencente à mesma editora, Tintin fez uma transferência de arromba para o Diabrete (que há muito o cobiçava), onde viveu uma nova era de popularidade e glória.

Sob a direcção de Adolfo Simões Müller, escritor, pedagogo e poeta, que também fora o principal responsável pelo aparecimento de Tintin n’O Papagaio (e pela primeira vez a cores!), o Diabrete publicou três das melhores aventuras do jovem e dinâmico repórter que até tinha, em versão francófona, um jornal com o seu nome: “O Ceptro de Ottokar” (estreada no nº 594, de 9/3/1949), “O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa” (idem, no nº 703, de 25/3/1950 ) e “As 7 Bolas de Cristal” (iniciada no nº 809, de 31/3/1951, e terminada no nº 887, de 29/12/1951, em que o Diabrete se despediu dos seus leitores).

Diabrete  702 +808

Todas elas fizeram as delícias dos jovens desse tempo, que as desfrutavam em dose dupla, semanalmente, nas páginas do “grande camaradão”, e de um ou outro adulto que, por curiosidade, folheava também as revistas dos filhos. O famoso herói de Hergé teve ainda o condão de inspirar a Fernando Bento, cuja fantasia gráfica o consagrou como um dos mais talentosos desenhadores do Diabrete, duas capas que merecem figurar na galeria das curiosidades avidamente procuradas por muitos tintinófilos.

Em ambas, respeitantes aos nºs 784, de 3/1/1951, e 807, de 24/3/1951 — a falta de numeração, nas capas, é um dos lapsos mais frequentes do Diabrete —, estão presentes Tintin, Milou (baptizado de Rom-Rom, como n’O Papagaio) e alguns dos seus companheiros, a par de outros heróis da revista, reconhecendo-se, por exemplo, as figuras de Bob e Lambique, protagonistas do clássico de Willy Vandersteen “Le Fantôme Espagnol” (que, no Diabrete, tomou o título de “O Mistério do Quadro Flamengo”).

Diabrete 807+ 784.

Os nossos agradecimentos a José Menezes (autor de magníficos estudos sobre O Papagaio e o Diabrete), por nos ter enviado a imagem da capa do nº 593, que serviu de introdução às aventuras de Tim-Tim e Rom-Rom no Diabrete. Reparem que está assinada por Hergé e que difere substancialmente da capa do álbum da Casterman (1939).

UM ANO DEPOIS…

1º ANIVERSÁRIO DO GATO ALFARRABISTA

Para celebrar o nosso 1º aniversário na blogosfera — corolário de 12 meses de regular actividade, que se saldou por um total de 152 posts (número ainda modesto, mas acima das previsões iniciais de um estreante nestas lides), com picos em Agosto e Dezembro, e mais de 20 000 visionamentos —, escolhemos um cartoon de Irene Trigo, jovem desenhadora de inegáveis méritos, embora com poucas obras publicadas, que herdou o talento artístico do seu ilustre progenitor Augusto Trigo.

Este cartoon foi reproduzido do nº 13 (Novembro de 1999) da revista Selecções BD (2ª série), onde serviu para apresentar o sumário, com legendas que nós agora modificámos, a pretexto desta efeméride. (Para ler o texto, basta clicar na imagem).

Anos Gato Alfarrabista

Na nova etapa que se abre à nossa frente, esperamos continuar a progredir no sentido de fazer deste blogue um dos que mais espaço e atenção dedicam ao valioso património literário e artístico com que muitos autores da época pioneira da BD portuguesa contribuíram para o prestígio e para a evolução da imprensa infanto-juvenil, das histórias aos quadradinhos, das artes gráficas e da cultura em geral.

NÚMEROS “PRIMUS”, NÚMEROS RAROS – 1

Mosquito nº 1 capa469

Hoje, 14 de Janeiro de 2014, celebra-se mais um aniversário (o 78º) da mítica revista infanto-juvenil O Mosquito, que ainda continua a ter muitos admiradores em várias faixas etárias que atravessam gerações, conferindo-lhe um estatuto raro, entre as suas congéneres, de caso emblemático de longevidade, na memória colectiva, e fenómeno sócio-cultural na sua época.

Como habitualmente, a data será festejada num almoço-convívio marcado para o próximo sábado, dia 18, num restaurante lisboeta. Nesse mesmo dia, pelas 17 horas, terá lugar na Livraria Barata (Avenida de Roma, 11) uma palestra de José Ruy, em que este ilustre autor de BD evocará o percurso d’O Mosquito, nos seus 17 anos de publicação ininterrupta, e explicará alguns dos processos tipográficos utilizados na sua confecção.

Raoul Correia e Cardoso LopesRecordamos que o primeiro número d’O Mosquito — hoje como ontem, uma raridade vendida quase a “peso de ouro”, apesar de ter sido reeditado em fac-simile, nos anos 70, pelo Jornal do Cuto — apareceu nas bancas com oito páginas, quatro delas a uma cor, ao preço de 50 centavos (cinco tostões), começando logo a distinguir-se entre o público infanto-juvenil como um caso sério de popularidade e tiragem, graças ao saber e competência dos seus dois fundadores, António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Raul Correia, cada um figura incontornável na vertente respectiva: a gráfica e a literária.

Mosquito nº 1 página 2  476Além de uma novela de aventuras, “O Enigma de Nelson Street”, escrita por Raul Correia, esse 1º número contava ainda com uma poética rubrica assinada pelo Avozinho (pseudónimo do seu director literário, ciosamente mantido em segredo, durante muitos anos), que se tornaria a figura mais tutelar e estimada da revista. Nas páginas seguintes incluíam-se três magníficas histórias ilustradas por notáveis artistas: “Pelo Mundo Fora”, série inglesa já famosa, com desenhos de Walter Booth, oriunda do Tic-Tac, revista fundada também por Cardoso Lopes, mas que este deixou para trás ao lançar-se numa empresa de maior envergadura, com a aposta nO Mosquito; “Pedro e Paulo, Marinheiros, e o Almirante Calheiros”, outra série inglesa, com o traço hilariante de Roy Wilson; e “Formidáveis Aventuras do Grumete Mick, do Velho Mock e do Cão Muck”, movimentada série, cheia de exóticas peripécias, criada pelo humorista espanhol Arturo Moreno, que foi, nessa primeira fase, um dos maiores êxitos do “semanário da rapaziada”. E havia ainda uma rubrica especial, o Correio da Tia Irene, dedicada às meninas, anunciando-se para o número seguinte uma página de engenhocas do Tiotónio, a cujo peculiar grafismo se deviam a cara alegre do petiz e a imagem do “mosquito” estampadas na capa.

Mosquito nº 1 Pág centralMosquito nº 1 pelo mundo fora   474

Por uns modestos cinco tostões, ao alcance de muitas bolsas paternas (embora a pobreza ainda alastrasse por todo o país), e com um sumário bem doseado, onde o texto não prevalecia sobre as imagens (como noutros jornais pouco ilustrados), não admira que a rapaziada desse tempo tenha embandeirado em arco, sentindo uma empatia irresistível com o simpático “insecto” que tão atraente e prazenteiro se apresentava, no seu cómodo formato. E, ao longo dos meses seguintes, a tiragem d’O Mosquito — que era, então, impresso em litografia numa pequena máquina sujeita a frequentes avarias —, não parou de aumentar, apesar de todos os percalços, consolidando o seu êxito entre os miúdos de boina e calção (alguns de pé descalço) que frequentavam, na sua maioria, as escolas primárias, e inaugurando uma nova etapa no progresso da imprensa infanto-juvenil portuguesa — que ficou conhecida como “época de ouro” e se perpetuou, de forma simbólica, na memória nostálgica de várias gerações.

Mosquito nº 1 Mick mock e Muck

GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 5

Depois da Saga do Submarplano, atenção às Viagens & Aventuras de ROB THE ROVER (por Walter Booth)

Em primeiro lugar, uma boa notícia: já está disponível o 2º volume da série do Submarplano (cuja capa voltamos a reproduzir), numa edição de José Pires, que os interessados poderão obter contactando-o pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt

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Posto isto, vamos a outras (excelentes) novidades… Nas mensagens que temos trocado com José Pires — nosso amigo de longa data e companheiro de muitas tertúlias, trabalhos e peripécias memoráveis —, ele deu-nos nota dos seus próximos e ambiciosos projectos editoriais, relativamente à continuação da magnífica série Rob the Rover, realizada pelo mestre Walter Booth nos tempos heróicos da BD inglesa, de que foi um dos maiores (e mais injustamente ignorados) pioneiros.

Transcrevemos com prazer os comentários de José Pires — nessa informal troca de opiniões por e-mail — e apresentamos algumas das curiosidades que ele já nos enviou, referentes aos novos fascículos que tem em preparação e que, juntamente com a longa e magistral Saga do Submarplano — para muitos leitores bem informados, o ponto mais alto desta fabulosa série —, irão constituir um extenso conjunto de 26 volumes, formando a mais completa, extraordinária e condigna reedição que se produziu até hoje, em todo o mundo, de um dos maiores marcos da BD de aventuras em estilo realista.

Aos leitores interessados nestas novas séries lembramos que, tal como os anteriores volumes das três maiores criações de Walter Booth A Saga do Submarplano, O Capitão Meia-Noite e O Gavião dos Mares —, estes terão tiragens limitadas, prevendo-se, por isso, que se esgotem também rapidamente.

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1)  JP Estou a digitalizar o princípio do Rob the Rover, que como sabes começou a ser feito noutros moldes muito diferentes da forma como depois a série se desenvolveu e prolongou.
Nesta fase, as histórias eram muito moralistas, cândidas, previsíveis e incipientes, com episódios que começavam e acabavam na mesma página semanal, muito bom para tenras criancinhas que havia que educar, mas, coisa que temo, vá aborrecer e desinteressar os actuais entusiastas, porque isto nunca fez parte do seu imaginário.

Que me dizes de atacarmos já o período das viagens e aventuras “around the world”, com os trepidantes episódios “à suivre”, deixando estes “tempos heróicos” para uma terceira parte sobre as origens da saga?  Não se perde nada com isto e só ajuda a encontrar a fidelização indispensável nestas coisas, não te parece? Isto é uma visão de puro marketing, que nada tem a ver com “razões lógicas”, mas comerciais, bem entendido.

Se já pouca malta se lembra d’O Mosquito — e nós, então, nem assistimos à 1ª série… eu só vi O Mosquito pessoalmente em fins de 1940, quando o meu tio Henrique veio de Elvas para junto de nós e mo mostrou —, d’O Carlitos, onde a 1ª página, de 15/5/1920, foi publicada [imagens seguintes], então não deve haver ninguém vivo ou capaz de se recordar disto, julgo eu.

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2)  JP Imagina que no lançamento do Rob, em meados de 1920, já havia mãozinhas estranhas a “mexer” na série. Nessa altura, o Booth ainda não devia ter um plano a longo prazo para a série, pois vê-se que a linha de guiões é muito titubeante, cheia de hesitações. E aquela tua dica de que teria sido esta a primeira HQ realizada em moldes realistas, faz todo o sentido, porque no rodapé da página do Puck aparece uma linha que diz: “Please tell to your friends about this fine cinema serial” (mais evidente é difícil!). E o pior é que este estilo narrativo (episódios semanais de página única) se prolonga — segundo o material que me forneceu o Américo Coelho — por mais de dois anos! Quase seis álbuns dos nossos, o que é excessivo, acho eu.

Esta fase só deveria aparecer quando os coleccionadores tivessem o Submarplano e as viagens e aventuras (Pelo Mundo Fora) completas. Então, sim, o pessoal já estaria preparado e “apto” para adquirir também “as origens” da série.

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O Booth tinha uma tendência natural para começar as suas narrativas com crianças a flutuar em jangadas, porque já “Os Órfãos do Mar”, também começam assim! Mas estes ainda estavam em pleno mar das Caraíbas, no Spanish Main dos fins do séc. XVI! Agora o Rob, perto da costa inglesa e a falar inglês, devia ser oriundo de um navio naufragado nas imediações. Seria facílimo descobrir a identidade dele, porque do “Titanic” não poderia ter vindo, pois o seu afundamento verificou-se oito anos antes.

Agora percebo melhor a razão porque no Uruguai a história se chamava “O Filho Adoptivo”, como me relatou um colega meu, daquela nacionalidade, lá na Publicis, nos anos 90.

Novo-cabeçalho

3)  JPAqui te envio mais um cabeçalho que eu não sabia que existia. É mesmo muito bonito, não achas? Marca precisamente a página onde o Booth, de repente, muda de páginas de doze vinhetas para apenas nove, maiores e mais altas. Isto obrigou-me a modificações de paginação inesperadas e radicais, a meio do percurso!

Enfim, paciência, não há remédio senão aceitar as coisas como elas são. Tive de adoptar o esquema que utilizei n’O Gavião dos Mares, onde a paginação era semelhante. Só que aqui, como o cabeçalho é consideravelmente mais alto, tive de bolar um novo esquema, incluindo também o rodapé.Pag-3- PT

Mais te informo que o Rob the Rover teve cinco cabeçalhos ilustrados (além de outros onde há só letras e “headlines”) e dois rodapés diferentes — giro para mostrares lá no teu blogue, não é verdade? Pois! Já estou a digitalizar o ano de 1931, imagina, e o Booth muda outra vez de cabeçalho e rodapé!

Cabeçalho-Um---CorSegundo-cabeçalho-corCabeçalho-três--Cor

4)  JP Cada vez me rendo mais ao virtuosismo do Homem, caramba! Era um génio, digo-te eu! Graças às maravilhas do Photoshop, posso remediar todos os estragos que me surgem nas vinhetas (bastantes, infelizmente), porque no Puck estão mal impressas ou lhes faltam pedaços, como nas próprias fotocópias, onde as vinhetas surgem por vezes distorcidas ou onduladas, e também lhes faltam pedaços! Uma neura, digo-te eu! Mas com a minha experiência, mais as habilidades quase inesgotáveis da máquina, consigo ultrapassar obstáculos que os rapazes dos anos 50/60 nem sequer se atreveriam a enfrentar!

Rob 224Rob 234

5)  JP Estou quase a acabar a digitalização do Rob the Rover e hoje trouxe do Coelho os últimos dois anos do Puck, até ao começo do Submarplano. Agora tenho de organizar a colecção, que será dividida em três partes: “As origens” (3 volumes), “Viagens e Aventuras” (6 volumes) e “Pelo Mundo Fora” (11 volumes). Com os seis do Submarplano, a colecção do Rob the Rover terá 26 volumes na totalidade. Mais ninguém no mundo deu tanta importância ao Walter Booth!

Capa-37--Pelo-Mundo-Fora--

Em breve vos daremos mais novidades sobre estas nostálgicas (e colossais) edições que José Pires tenciona levar a cabo num futuro próximo, com grande entusiasmo e a impressionante regularidade a que já nos habituou.

COLECÇÕES DE CROMOS – 6

Carlos Gonçalves (foto)No prosseguimento desta rubrica, começamos hoje a publicar uma série de artigos dedicados principalmente a colecções de cromos antigas e de teor futebolístico, da autoria do nosso amigo Carlos Gonçalves, grande coleccionador e estudioso da Banda Desenhada e de outros tipos de publicações, entre elas construções de armar e colecções de cromos (consta que, destas últimas, existem no seu acervo umas largas centenas!).

A Carlos Gonçalves — que foi merecidamente homenageado no recente Festival da Amadora, com a atribuição do Troféu de Honra — expressamos, mais uma vez, o nosso reconhecimento por toda a colaboração que amavelmente nos tem dispensado, desde a primeira hora.

Aproveitamos esta ocasião para prestar também uma sentida homenagem a uma grande figura do nosso desporto-rei, repentinamente desaparecida: Eusébio da Silva Ferreira, benfiquista de alma e coração, símbolo da força, da beleza e do poder do futebol português na sua época mais gloriosa, o “craque” que empolgou multidões nos estádios, o maravilhoso goleador que respeitava os seus adversários e era por eles admirado, o homem simples, de origem humilde, que se distinguiu pela simpatia, pelo desportivismo e pelo exemplo que deu às gerações futuras.

2013-05-02 16.19.56

A HISTÓRIA DOS CROMOS DA BOLA – 1

por Carlos Gonçalves

(Esta pequena resenha sobre os cromos da bola, só foi possível graças, em parte, aos estudos sobre este assunto que João Manuel Mimoso incluiu no seu site da Internet).

Um dos mentores e o mais célebre criador de cadernetas de cromos de caramelos da bola, chamava-se António Evaristo de Brito e nasceu em 1912, em Tomar. Aos 12 anos foi viver para Setúbal e trabalhou na mercearia que um seu irmão explorava naquela cidade. Foi lá que iniciou a sua actividade profissional.

Digitalizar0001Já nos anos 20, havia a Fábrica de Rebuçados Vitória (em Setúbal), que seria uma das primeiras fábricas a lançar no mercado os cromos de futebolistas. A Fábrica Águia era igualmente pioneira neste campo, tendo inclusive publicado uma caderneta de “Rebuçados Bandeiras”. A mesma fábrica, mais tarde, teve igualmente edições luxuosas e cativantes, com futebolistas e uniformes militares. Os cromos, muito vistosos, eram impressos a cores e em cartolina. As cadernetas tinham formato italiano.

Mais tarde, também apareceu uma Fábrica Victória no Porto, que lançou igualmente no mercado caramelos de cromos. Um dos factos engraçados é que essas cadernetas de pequeno formato, pouco mais eram do que um caderno escolar, de pequenas dimensões e com algumas folhas, nas quais se encontravam alguns rectângulos numerados, de 1 a 100 e de 1 a 200, onde eram colados os cromos. Estas cadernetas eram dedicadas aos temas zoológicos e históricos. Os cromos eram impressos a uma cor, mas demasiado grandes (para poderem embrulhar os caramelos), para o espaço (muito pequeno nas cadernetas), pelo que tinha de se cortar o cromo, de tal modo que este ficava reduzido a um diminuto quadradinho de papel.

Digitalizar0034Digitalizar0035 e 0036

Em 1930, António E. Brito constitui com seu irmão a Sociedade Lusitana de Confeitarias, com sede no Montijo, lançando no mercado a colecção de cromos “Rebuçados Internacionais”, que oferecia já aos coleccionadores uma bola de “cautchu”, outra de borracha, um canivete, uma caneta e mais outros pequenos brindes.

Entretanto, a Sociedade Lusitana muda de nome, devido à fusão com outras fábricas concorrentes. Aparecem, então, sob o nome da Fábrica Montijense, várias cadernetas, inclusive a “Coleção Caramelos Desportivos Emblemas Nacionais”, que também oferecia uma bola de borracha a quem apresentasse a caderneta completa.

Como curiosidade, lembramos que António E. Brito era de tal modo um sportinguista ferrenho, que nos 100 emblemas desportivos dessa colecção não constava o do Benfica!

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Ainda na década de 30, António E. Brito e seu irmão fundaram outra sociedade, a Industrial de Confeitarias, já com sede em Lisboa, que publicou novas cadernetas.

Uma desavença entre os sócios fez com que António E. Brito acabasse por criar a Fábrica Confeitaria Universo, igualmente com sede em Lisboa. As cadernetas foram melhorando no seu aspecto gráfico e na qualidade do papel. São dessa data os “Futebolistas de Portugal” e as “Caricaturas Desportivas”, esta com desenhos de José Pargana (1928-1988).

Digitalizar0014Caricaturas Pargana (Sporting) e BenficaDigitalizar0015

No início dos anos 40 nasceu a Fábrica Universal, na continuidade do nome usado até ali pelo mesmo empresário. Em 1944, António E. Brito era já um industrial com algum sucesso. A sua Fábrica empregava cerca de 60 pessoas e preparava-se para lançar novas cadernetas, desta vez em Espanha.

 

POSTAIS ILUSTRADOS – 2

Postal Vítor Péon 1 e 2

Eis dois raríssimos postais, com trajes típicos dos Açores (ilha Terceira) e da Madeira, ilustrados por Vítor Péon, na primeira metade dos anos 50 (a julgar pelo estilo e pela assinatura dentro de um círculo), quando este dinâmico e versátil artista, então no auge da sua actividade criadora, trabalhava ainda para a Agência Portuguesa de Revistas (APR).

Postal Vítor Péon 3   463

A editora destes postais, como se pode ler no verso (ampliando a imagem), tinha o sugestivo nome de Au Petit Peintre — casa centenária, fundada em 1909, com loja na rua de São Nicolau, em Lisboa, e que, se tiver resistido à crise, ainda deve existir no mesmo sítio. 

Dir-se-ia que, por coincidência, os caminhos do ilustrador já se cruzavam com uma Arte que, dentro de alguns anos, acenderia no seu espírito febril, sempre em busca do ideal estético, a centelha de uma paixão dominadora: a Pintura.

Le petit peintre