JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 4

JFK E OS “BOINAS VERDES”

Há casos (e não são poucos) em que o sucesso de uma obra literária é passaporte imediato para a sua adaptação cinematográfica e, muitas vezes também, para a banda desenhada, onde pode dar origem a um novo caudal narrativo, numa transposição paralela entre duas artes comunicantes, o cinema e a BD, que se imitam e se completam.

Já tivemos oportunidade de abordar (nesta rubrica do Gato Alfarrabista) a presença de John F. Kennedy (1917-1963), o mais carismático presidente norte-americano, num media tão popular como o dos comics, onde foi representado ao lado de alguns dos maiores super-heróis da Marvel e da DC, com destaque para Superman, personificando, tal como este, um obreiro da paz e do progresso, sempre pronto a defender o bem-estar e a segurança dos seus concidadãos.

Registamos hoje, a título de curiosidade, outra homenagem que lhe foi prestada, mas numa categoria diferente: as tiras diárias (daily e sunday strips) publicadas em inúmeros jornais dos Estados Unidos, que rivalizavam, em larga escala, com a popularidade e difusão dos comic books.

No caso vertente, trata-se de “Tales of the Green Beret”, série criada em 1966 por Robin Moore, em que avulta — sobre o discurso demagógico e militarista do argumento, a favor da intervenção norte-americana no Vietname —, o extraordinário virtuosismo gráfico de Joe Kubert, um mestre da 9ª Arte com uma estética insuperável do claro-escuro.

Em 1985, uma pequena editora americana chamada Blackthorne compilou em três álbuns a quase totalidade desta série, composta por tiras diárias e páginas dominicais (a cores), em que figuram várias referências a JFK, venerado pelos Boinas Verdes como seu comandante supremo e um dos Presidentes americanos que, em momentos de grave crise, como a dos mísseis russos em Cuba, souberam agir com coragem, fé, energia e patriotismo. Os primeiros episódios desta série, hoje quase esquecida — ao contrário da guerra do Vietname, sempre presente nas memórias do século XX —, foram publicados no Mundo de Aventuras (2ª série) nº 259, de 14/9/1978.

Segundo declarações de Robin Moore, que ao criar as personagens se inspirou no seu best-seller com um título idêntico: The Green Beret (adaptado também ao cinema, em 1968, com grande aparato, por John Wayne), a ideia nasceu como reacção à famosa série cómica Beetle Bailey (Recruta Zero), onde os militares e os seus códigos de conduta eram satiricamente ridicularizados.

Uma edição portuguesa do livro de Robin Moore surgiu nos escaparates em 1969, com o selo da Editorial Íbis, mas a sua publicação deve-se certamente ao êxito alcançado, nas telas portuguesas, pelo filme de John Wayne, um dos actores mais populares dessa época, investido novamente nas funções de realizador e produtor, em prol dos ideais republicanos e militaristas de que também era fervoroso adepto.

Com a guerra do Ultramar ainda em curso, não admira o paralelismo que surgiu, na mente de muitos espectadores, entre este filme e a acção do exército português em África. Quanto ao projecto dos comic strips, patrocinado pelo Chicago Tribune Syndicate, esse já não teve tanto êxito. Com início em 4 de Abril de 1966, foi cancelado, cerca de dois anos depois, devido aos violentos protestos contra a guerra do Vietname, transversais, nessa época, a todos os medias e a todas as classes da sociedade norte-americana, o que levou muitos jornais a suspender a sua publicação.

Jorge Magalhães

JOSÉ PIRES E JEAN-LUC VERNAL

José Pires não foi o primeiro desenhador português a colaborar numa das mais prestigiosas revistas europeias de BD: o Tintin belga; mas foi seguramente o que mais páginas publicou nessa revista, em parceria com dois talentosos argumentistas, então ainda no início de uma promissora carreira: Jean Dufaux e Benoît Despas.

Tudo isso só se tornou possível porque o chefe de redacção do Tintin era Jean-Luc Vernal, um homem profissionalmente de vistas largas que soube avaliar os méritos artísticos de José Pires, dando-lhe o ensejo de iniciar também uma nova carreira (pois em Portugal, até essa data, tinha publicado ainda poucas obras, preferindo dedicar-se a tempo inteiro à publicidade).

O gesto de Jean-Luc Vernal valeu-lhe a gratidão e a admiração de José Pires, que passou a ser (re)conhecido dentro e além fronteiras do seu país, como um versátil autor de BD a quem estava reservado um brilhante futuro.

jean-luc-vernalNo depoimento que se segue, José Pires expressa mais uma vez a sua admiração, respeito e estima por aquele que lhe proporcionou a primeira grande (e bem sucedida) aventura da sua carreira, recordando uma relação profissional que a breve trecho se transformou numa excelente amizade, tanto com Vernal como com Dufaux e Despas. Tempos profícuos e gloriosos, que a infausta notícia do falecimento de Jean-Luc Vernal trouxe de novo à memória de José Pires e que este com viva emoção, decidiu partilhar com os nossos leitores — entre os quais se contam certamente muitos admiradores da sua obra —, num preito de homenagem a outro grande autor de BD chamado Jean-Luc Vernal! 

JE VOUS REMERCIE BIEN, MONSIEUR VERNAL, ET À TOUT À L’HEURE!

Foi por Jorge Magalhães que recebi a infausta notícia do recente falecimento de Jean-Luc Vernal. Pelo verdadeiro Senhor que ele foi e por todo o apoio e consideração demonstrada que recebi dele, tal notícia provocou-me severo abalo psicológico. Foi ele quem me abriu as portas do lendário magazine belga Tintin, no já distante ano de 1984. Foi nessa altura que me decidi a enviar às Editions du Lombard a capa e 10 páginas avulsas do meu álbum do Will Shannon, “O Poço da Morte”, mais tarde publicado pela Editorial Futura numa das suas colecções.

Infelizmente, os meus fracos conhecimentos de francês levaram-me a cometer um erro logo no título da capa (Puit, em vez de Puits), mas nem mesmo isso fez Jean-Luc Vernal atirar-me para o cesto dos papéis. Dias depois, vislumbrei na minha caixa de correio o timbre inconfundível de Tintin e Milou impressos a vermelho num envelope que me era dirigido. Tratava-se de uma missiva de Monsieur Vernal que me dizia que, face a não poder emitir uma opinião sobre uma história de 46 páginas, das quais apenas podia ver 10, ainda por cima sem texto em francês!, nada podia decidir.

la-mort-de-natchezAssim, propunha-me se eu estaria disposto a fazer a experiência num “maxi-chapitre” (história de 15/16 páginas), de colaboração com um argumentista belga. Claro que aceitei e foi assim que travei conhecimento com o Jean Dufaux, que na altura começava a despontar nos quadros da editora Lombard.

Jean Dufaux (de quem eu jamais ouvira falar) mandou-me as primeiras páginas de uma história intitulada “La Mort de Natchez”, que tinha como personagem principal um mestiço apache/mexicano chamado Irigo. Dizia-me que havia gostado do meu estilo de desenho e estava disposto a colaborar comigo futuramente: acabámos por fazer seis episódios do Irigo (e um extra), mais do que o suficiente para dois álbuns. É curioso que enquanto por aqui os nossos “experts” me achavam um seguidor de Franco Caprioli, por causa do meu pontilhado, na Bélgica chamavam-me o “Manara Portugais”, o que estava mais de acordo com a realidade, pois eu seguira os processos gráficos de Milo Manara, desenvolvidos na sua série Giuseppe Bergman.

Depois fui até Bruxelas, onde Monsieur Vernal, um sujeito alto e bem parecido, me recebeu galhardamente na redacção da Lombard. Manifestou-me o seu agrado pelo meu trabalho e foi então que me apresentou o Jean Dufaux, com o qual mantive uma longa relação de amizade. Chegou mesmo a passar uma semana em Portugal, ficando hospedado em minha casa. Mais tarde, Jean Dufaux, que se incompatibilizara com a nova direção da Lombard (uma editora Católica), foi trabalhar para França, com a Glénat, deixando-me sem saber o que fazer à vida, pois eu já me acomodara com os francos belgas que vinham mensalmente da editora.

Resolvi, pois, fazer uma adaptação de “A Morte do Lidador”, de Alexandre Herculano, baseada na que fizera 30 anos antes Eduardo Teixeira Coelho. Mas tal ideia revelou-se impraticável: os estilos de paginação e legendagem eram incompatíveis com os actuais. Deste modo, tive de fazer uma nova planificação e, com a ajuda de um colega que era professor de francês, enviei as 10 páginas, desta vez com texto em francês, para a Bélgica. Monsieur Vernal aceitou o meu trabalho, que foi também publicado no Tintin, em 1987, sob o título “La Mort du Batailleur”.

Abriu-me assim, pela segunda vez, as portas da revista que dirigia e, dizendo-me que “vous êtes vraiment à l’aise au Moyen Age”, arranjou-me um segundo guionista belga, Benoît Despas, que ele tinha recentemente admitido como colaborador, e que era especialista em assuntos da Idade Média.

du-guesclin-copyCom Benoît Despas fiz várias histórias de carácter medieval, como uma série sobre o Condestável francês Bertrand du Guesclin, que acabou publicada no Kuifje, a versão flamenga do Tintin. Um periódico local comentou tratar-se “da história de um Condestável francês, contada aos flamengos, escrita por um valão e desenhada por um português!”

Mas, por imposição dos herdeiros de Monsieur Hergé, o jornal Tintin acabou, sendo substituído por uma nova publicação, agora com o título de Hello BD. Ali, a convite de Monsieur Vernal, eu e o Benoît Despas fizemos uma série sobre os Templários, que acabaria por se tornar no meu primeiro álbum em língua estrangeira, tudo graças aos bons ofícios de Monsieur Vernal. Esse álbum, “Le Sang et la Gloire”, acabou mesmo por ser o mais vendido no mercado francófono na sua semana de lançamento.

Mais tarde, estive de novo em Bruxelas e, na companhia de Benoît Despas, tive uma nova entrevista com Monsieur Vernal, que nos encomendou nada menos de três álbuns, para executar no ano seguinte! Um sobre a guerra dos Boers, outro sobre os Francos e um terceiro sobre os Apaches, pois Monsieur Vernal achava que eu era muito competente a desenhar índios. Mas estes projectos jamais se realizariam. Monsieur Vernal seria substituído por Yves Sente, que desde logo descartou a encomenda feita, fechando-me as portas da editora, agora que o Hello BD terminara a carreira e a editora passara a dedicar-se inteiramente aos álbuns, acabando com a pré-publicação.

os-celtas-miticosTempos depois, em 1994, fui contactado por Monsieur Vernal, que, tendo em vista uma editora própria, me convidava para trabalhar com ele numa série de álbuns de sua autoria, de carácter fantástico, pedindo-me ao mesmo tempo para eu fazer uma prospecção junto das editoras portuguesas com as quais eu trabalhava, para lhe manifestarem o seu eventual interesse nas suas futuras produções. Desta feita, enviei-lhe os desenhos que ele me pedira e notas de encomenda da Meribérica, das Edições ASA, da Futura e das Edições Âncora.

Mas nunca mais tive notícias de Monsieur Vernal, nem sei se a sua editora chegou alguma vez a existir, pois ele necessitava de um suporte bancário para avançar com o seu projecto. Tive agora a infausta notícia do seu falecimento, aos 72 anos apenas. Mas jamais esquecerei a sua figura e o seu fidalgo trato para comigo e tudo quanto lhe fiquei a dever. Que Deus o tenha no seu eterno descanso, cher Monsieur Vernal!                         JOSÉ PIRES

MARIA ISABEL DE MENDONÇA SOARES – UMA VIDA DEDICADA À LITERATURA INFANTIL

ma-isabel-m-soares-retratoA escritora Maria Isa­bel de Mendonça Soares, que dedicou a vida à promoção do livro infantil, faleceu no passado dia 24 de Janeiro, aos 95 anos. Nascida em Lisboa, em 1922, era autora de dezenas de livros para crianças, tendo começado a es­crever na década de 1940.

De acordo com a biografia patente na página oficial da Direcção-Geral do Li­vro, dos Arquivos e das Biblio­tecas (DGLAB), a autora fundou as Bibliotecas Infantis “A Desco­berta”, da Associação de Pedagogia Infantil, e dedicou-se du­rante várias décadas à forma­ção de educadores de infância e ao ensino de Literatura para a Infância e Cultura Portuguesa. Foi ainda tradutora de livros para crianças, como, por exemplo, a série “Pedrito Coelho”, de Beatrix Potter, e adap­tou contos tradicionais e po­pulares.

«A obra desta autora é essencialmente de carácter pedagó­gico. Atenta aos problemas do seu tempo e às crianças, directas destinatárias da sua obra. num estilo leve e carregado de humor, não renuncia ao seu lugar de adulto junto das crianças», lê-se nessa biografia.

fagulha-livro-de-contos369Entre as obras de Maria Isa­bel de Mendonça Soares cons­tam “Os Marujinhos Perderam o Norte” (1958), “Roda Roda” (1969). “Algodão e Algodinho” (1973), “Viva a Laranja” (1977), “Contos no Jardim” (1977) e “Dias de Festa”. Colaborou ainda em várias publicações para a infân­cia, algumas das quais ligadas à Mocidade Portuguesa, como Lusitas, Fagulha, Girassol, Ca­maradaPisca-Pisca, FarolJoão Ratão e Fungagá da Bicharada.

Nesta área, a autora agora desaparecida deixou avultada obra, sobretudo em duas revistas editadas pela Mocidade Portuguesa Feminina, a Lusitas e a Fagulha, onde além de contos redigiu também argumentos para histórias aos quadradinhos. Alguns desses contos estão compilados no 1º volume da Colecção «Fagulha», cuja capa acima reproduzimos. Provavelmente foi o único número publicado dessa colecção, pois a revista Fagulha terminou a sua existência logo após o 25 de Abril.

Em complemento destas páginas que mostram dois trabalhos de Maria Isabel de Mendonça Soares para a Fagulha, com ilustrações de José Garcês e Júlio Gil, em forma de BD, reproduzimos também uma breve mas elucidativa entrevista, publicada no Jornal da Madeira em 6/4/1988, que a autora concedeu a Maria Margarida Macedo Silva (fundadora e directora da rede de Bibliotecas Infanto-Juvenis “O Jardim”), e na qual se refere detalhadamente à sua colaboração em várias revistas infanto-juvenis.

Nota: agradecemos a Carlos Gonçalves ter-nos facultado este documento.

 (Para ver/ler as imagens em toda a sua extensão, clique duas vezes sobre as mesmas).

FALECEU JEAN-LUC VERNAL, O CRIADOR DE “JUGURTHA” E “IAN KALÉDINE”

jean-luc-vernalDas Éditions du Lombard, chegou-nos a triste notícia da morte de Jean-Luc Vernal, no passado dia 15 de Janeiro, aos 72 anos. Filho do escritor John Francis, herdou do pai o talento para contar histórias, a paixão pela História e o gosto pela Banda Desenhada.

Foi jornalista, escritor e argumentista de BD, tendo trabalhado com famosos desenhadores como Hermann (com quem criou as premissas da incontornável série Jugurtha, depois ilustrada por Franz), Convard (em Cranach de Morganloup), Renaud (em Brelan de Dames) ou Ferry (na série Ian Kalédine), por exemplo. Esta última e Jugurtha tiveram larga difusão em Portugal, tanto em revistas como em álbuns.

Entre 1979 e 1991, foi chefe de redacção das revistas Tintin e Hello BéDé. Como nota particularmente curiosa, recorde-se que nessas revistas colaborou, graças a Vernal, um consagrado desenhador português, José Pires, autor da série “western” Irigo (com guiões de Jean Dufaux) e do álbum, sobre a história dos Templários, Le Sang et la Gloire (em parceria com Benoît Despas), editado pela Lombard.

De realçar que Vernal foi, também, o primeiro jornalista belga a denunciar o genocídio no Camboja, perpetrado pelos fanáticos Khmer Vermelhos.

(Notícia divulgada pelo blogue BDBD e pelo site da Lombard, de onde extraímos, com a devida vénia, alguns excertos).

MASCARENHAS BARRETO – ESCRITOR, POETA, MUSICÓLOGO, HISTORIADOR E AUTOR DE BD

mascarenhas-barreto-camarada-64-270Com 93 anos, faleceu no dia 3 de Janeiro p.p. o escritor e historiador Augusto Cassiano Neves da Silveira de Mascarenhas de Andrade Barreto (conhecido por Mascarenhas Barreto), em cuja rica e vasta biografia se destaca a ligação ao Fado, com o livro “O Fado – Origens Líricas e Motivações Poéticas” e como letrista de canções, à Literatura Policial, como autor e tradutor, e à Banda Desenhada, como argumentista nas páginas do Camarada (1ª série) e do Cavaleiro Andante, usando, com frequência, o pseudónimo de João da Terra.

Foi também, no campo da historiografia, um tenaz defensor da tese de que Cristóvão Colombo era português, natural de Cuba (Baixo Alentejo), tema polémico sobre o qual escreveu vários livros e o argumento para dois álbuns de BD ilustrados por José Garcês, com o mesmo título: “Cristóvão Colombo, Agente Secreto de El-Rei D. João  II” (Edições Asa, 1992/93).

mascarenhas-barreto-camarada-55-269No Jornal da MP e no Camarada, revistas editadas pela Mocidade Portuguesa, escreveu também novelas his- tóricas e contos humorísticos, estes sob o pseudónimo de Impressão Digital, com um “façanhudo” detective, o Capitão Mostarda (que fazia lembrar Hercule Poirot e gozou de grande popularidade entre os leitores).

As suas outras histórias de BD no Camarada foram ilustradas por Júlio Gil (“Cid Campeador”, “O Segredo da Luva Cinzenta”, “O Samovar de Prata”), Marcello de Morais (“O Rapto da Rainha do Volfrâmio”, “Vic Este em Paris”, “O Segredo do Centauro”), Bastos Coelho (“O Estranho Caso de Bula-Ditadi”, “O Enigma do Lume”, “Um Plano Tenebroso”), mascarenhas-barreto-camarada-73-271José Leal (“O Gato Azul”, “Zephir”), António Vaz Pereira (“Por Terras Estranhas de Além-Atlântida), José Garcês (“O Terrível Espadachim”).

Com este mestre da BD portuguesa, colaborou também em duas histórias publicadas no Cavaleiro Andante, “Viriato” e “O Falcão” (1952/53), e noutro álbum editado pela ASA: “D. João V – Uma Vida Romântica” (1994).

No âmbito da literatura policial, além de ter sido um prolífico tradutor, especialmente para a célebre Colecção Vampiro, escreveu romances com pseudónimos estran- geiros (como Van der Bart) e em nome próprio, de parceria com Francisco Branco, uma das obras mais originais da sua carreira, com o título “O Clube dos Sete Anões”, publicada no volume nº 66 da Colecção Xis (1957).

Por amabilidade de Carlos Gonçalves, nosso colaborador e amigo de longa data, cujos valiosos préstimos nos cumpre mais uma vez agradecer, recordamos seguidamente uma elucidativa entrevista que este fez a Mascarenhas Barreto para a rubrica Correio da Banda Desenhada, sobre os primórdios da sua actividade como autor de BD, dada à estampa no jornal Correio da Manhã, em 24 de Fevereiro de 1983.

Nessa época, alguns jornais, com relevo para Correio da Manhã, A Capital, Diário Popular e Diário de Notícias (entre outros), publicavam regularmente abundante noticiário e artigos vários sobre BD, em secções orientadas, nalguns casos, por elementos do Clube Português de Banda Desenhada, como Carlos Gonçalves e Geraldes Lino. Bons tempos! Sobretudo, nessa matéria, comparados com os de hoje… em que nenhuma referência à BD se encontra no obituário de Mascarenhas Barreto. Uma lamentável lacuna!

TUDO COMEÇOU COM O RATO MICKEY!

walt-disneyReza a lenda que Walt Disney, artista pobre, sem esperança de triunfar no meio cinematográfico, onde era um ilustre desconhecido, foi “ajudado” por um rato que lhe fazia companhia no seu estúdio e que ele, certo dia, resolveu desenhar, baptizando-o com o nome de Mickey, num assomo de genial inspiração.

Depois, a lenda transformou-se em história, onde ficaram gravados com letras de ouro os nomes de Disney, de Mickey e de outras célebres personagens criadas (ou revividas) pelo seu fabuloso e mágico mundo dos desenhos animados: Pinóquio, Branca de Neve, DumboDonald, Peter Pan, Cinderela e muitas mais.

Um mundo onde o real se confunde com a fantasia e o sonho transporta o espírito dos espectadores de todas as idades nas suas asas douradas. Walt Disney morreu há 50 anos, rico como Crésus, mas nunca esqueceu o ratinho que lhe deu alento e esperança quando o seu estúdio não passava de um humilde apartamento.

Em homenagem à memória do maior mago do cinema, apresentamos um trabalho que lhe foi dedicado pelo Diabrete, no seu nº 790, de 24/1/1951, com o traço de outro consagrado humorista, o excelente desenhador português Marcelo de Moraes.
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IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO SANTOS (1933-2016)

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A Banda Desenhada, a Cultura e as Artes Plásticas portuguesas acabam de ficar mais pobres, pois perderam um dos seus maiores valores das últimas décadas…

Com 83 anos, faleceu ontem de madrugada, no Hospital Egas Moniz, onde estava internado há vários dias, devido ao súbito agravamento do seu estado de saúde, o pintor e ilustrador Carlos Alberto Ferreira dos Santos, nascido em 18 de Julho de 1933, em Lisboa, e cuja carreira artística começou bem cedo, depois de ter entrado como aprendiz para a Bertrand & Irmãos, apenas com 10 anos de idade. Consolidando essa iniciação nas artes gráficas, trabalhou também na Fotogravura Nacional e no atelier de publicidade de José David. 

O seu enorme talento começou a notabilizar-se noutra empresa de grandes dimensões, a Aguiar & Dias (vulgo APR ou Agência Portuguesa de Revistas), onde colaborou assiduamente desde o 1º número do Mundo de Aventuras, integrando pouco tempo depois o seu quadro de desenhadores privativos.  Embora relativamente escassa no campo da Banda Desenhada, a sua produção como ilustrador é vasta e diversificada, com destaque para a “História de Portugal” em cromos, um grande sucesso editorial, e outras valiosas colecções do mesmo género, assim como para o álbum “Camões – Sua Vida Aventurosa”, editado pela APR em 1972 e anos depois reeditado, a cores, pela ASA. Foi também autor das mais eróticas ilustrações da BD portuguesa, para a revista Zakarella da Portugal Press.

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Mais vasta e rica ainda é a sua obra como pintor, consagrada à divulgação dos grandes heróis e dos feitos mais relevantes da nossa História Pátria. Com efeito, foi a pintura (e só ela) que lhe permitiu exteriorizar a sua verdadeira personalidade artística. As suas telas estão espalhadas por diversas instituições públicas e particulares, como o Museu Militar do Porto, suscitando também o interesse de coleccionadores de todo o mundo.

O funeral de Carlos Alberto realiza-se na próxima quinta-feira, às 11h00, no cemitério do Alto de S. João, depois da missa de corpo presente, pelas 10h30, na Igreja do Santo Condestável, bairro de Campo de Ourique (onde o artista casou, em Janeiro de 1959, com a pintora Maria de Lurdes Paes).

Em memória de um extraordinário vulto das artes gráficas e plásticas portuguesas dos últimos 60 anos e de um homem de gentileza ímpar, reproduzimos seguidamente um artigo publicado na revista Temas nº 3 (Abril de 2000), em que se evoca o seu percurso, breve mas igualmente extraordinário, como banda desenhista.

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Nota – Tive a grande honra de colaborar com Carlos Alberto, como argumentista, num projecto que me encheu de satisfação (mas que seria a sua última obra em banda desenhada): a história “O Rei de Nápoles”, com 14 páginas a cores, publicada no 4º volume da colecção Contos Tradicionais Portugueses em BD, das Edições ASA (1993).

Na cena de abertura dessa história, de ambiente medieval, propus-lhe retratar uma caçada a um dos muitos animais selvagens que povoavam as florestas europeias desse tempo. Mas Carlos Alberto opôs-se, alegando respeitar, por princípio humanitário, a vida dos animais, qualquer que fosse a sua espécie. E a cena ficou assim…

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Infelizmente, os seus problemas de visão afastaram-no definitivamente da BD e até da ilustração, para se dedicar apenas à pintura, onde deixou obras que perpetuam a tradição dos grandes mestres figurativos, honrando o nosso património artístico e cultural. Mas as suas criações para o Mundo de Aventuras, o Jornal do Cuto e outras revistas de banda desenhada também não serão esquecidas!

O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 3

EPÍLOGO (QUE ERA PARA SER UMA INTRODUÇÃO)

Em Janeiro de 2003, fui convidado pelas Edições Asa (que ainda não pertenciam ao Grupo Leya) para coordenar um livro dedicado a Vasco Granja, nome emblemático da comunicação social portuguesa nos últimos decénios do século passado, figura incontornável de programas de televisão e de colóquios, exposições e festivais de Banda Desenhada, que se realizaram, nessa época, um pouco por toda a Europa.

Granja livroPioneiro de uma abordagem mais intelectual à Narração Figurativa, 9ª Arte ou Banda Desenhada (termo que foi o primeiro a intro- duzir no nosso léxico), como se convencionou chamar, desde então, às tradicionais histórias aos quadradinhos, Vasco Granja foi alvo, nesse livro, de especial homenagem por diversos autores de BD, entre os mais notáveis do nosso meio, alguns dos quais (a maioria, aliás) ilustraram guiões escritos por mim, em que ele, Vasco, era a personagem principal.

Conseguimos reunir uma numerosa equipa — 14 desenhadores! —, mas outros ficaram de fora por razões várias que os impediram de aceitar o nosso convite. Uma delas foi a falta de tempo, por estarem ocupados com outros trabalhos. Tive, assim, de abandonar, com muita pena, algumas ideias já postas em prática e que eram destinadas a desenhadores específicos, aqueles que me pareciam ter mais aptidões ou predisposição para as ilustrar. O conto humorístico que publicámos neste blogue, com o título supra, em honra de outra grande personalidade da BD portuguesa, foi inspirado numa dessas ideias que não passaram do esboço de um guião.

A recente morte de Mário do Rosário — uma das figuras que participavam nessa história, ao lado de Vasco Granja e de outros ilustres comparsas — despertou-me memórias adormecidas e o desejo de construir uma narrativa, refazendo um tema que, há treze anos, não cheguei a concluir para ser transformado em imagens. Espero que o resultado, tanto tempo depois, seja digno da pequena homenagem que quisemos prestar a quatro grandes pioneiros da BD portuguesa, e em particular àquele cuja obra, como director e editor da emblemática 2ª série d’O Falcão, marcou também uma época.

O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 2

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia publicada na página online do jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016 (2 de 2):

Domingo, 6 de Agosto de 1972 (12h30)

As primeiras notícias da corrida são pouco animadoras e já há apostadores desiludidos, pois registou-se um acidente, perto da Nazaré, que quase ia vitimando Mário do Rosário, o concorrente que, fazendo jus ao seu favoritismo, levava quase meia hora de avanço sobre o mais próximo perseguidor, José Baptista.

Um cão que apareceu, de repente, na estrada, diante do carro lançado a alta velocidade, fez Mário do Rosário perder o controle da viatura e embater num poste de iluminação, depois de ter rodopiado algumas dezenas de metros, sem capotar. O Volkswagen ficou muito danificado e o seu condutor, gravemente ferido, teve de ser levado para o hospital. Aguarda-se ainda o primeiro boletim médico. Mas a corrida prossegue, agora com mais hipóteses de vitória para José Baptista e a sua equipa feminina.

Outro boletim noticioso, que fez manchete na última página do jornal desse mesmo dia:

Última hora — O “Rally dos Quatro Magníficos”, como foi baptizada esta singular corrida organizada pelo Automóvel Clube de Portugal e patrocinada pelo nosso vespertino, em que os participantes são todos especialistas de banda desenhada, teve mais uma baixa. José Baptista, que substituíra o acidentado ás da velocidade Mário do Rosário no comando da prova, sofreu também um percalço, apesar de conduzir com mais segurança. Perto do quilómetro 350, a sua viatura despistou-se bruscamente, por razões desconhecidas, numa curva pouco apertada, e saiu da estrada, indo enfaixar-se numa grande meda de feno que alguns trabalhadores agrícolas removiam para dois tractores. Felizmente, nenhum deles foi colhido pelo espampanante “bólide” sem direcção.

Segundo estas testemunhas, o Buick onde seguiam José Baptista e as suas assistentes ficou totalmente coberto de feno. Só se ouviam gemidos… mas pareciam de prazer!

Ao que apurámos, estes concorrentes sofreram um choque emocional — assim como o carro, cujo motor se foi abaixo — e resolveram desistir da corrida, que termina hoje, em Bragança, já depois do fecho desta edição.

Segunda-feira, 7 de Agosto de 1972

Terminou em Bragança, como estava anunciado, o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova por etapas organizada pelo ACP, com o patrocínio do nosso jornal, que já ontem à tarde tinha ficado reduzida a dois concorrentes, Vasco Granja e Roussado Pinto, depois dos acidentes sofridos por Mário do Rosário (que continua internado, mas livre de perigo) e José Baptista, acompanhado pelas suas assistentes.

Vasco Granja, que parecia ter todas as condições para ganhar tranquilamente a corrida, pois já levava um grande avanço sobre o seu adversário — que não é adepto de grandes velocidades, como nos declarou, mantendo sempre uma média de 50 kms à hora —, foi obrigado a desistir por causa de três furos simultâneos! Um azar dos diabos (passe a expressão), provocado, segundo os juízes da corrida, por excesso de peso.

Como já referimos na nossa reportagem, este concorrente, que também é coleccionador de banda desenhada, nunca se separa dos seus álbuns favoritos, edições raras e preciosas avaliadas em muitas centenas de escudos, e transportava mais de 30 quilos de bagagem. Por esse motivo é que não pode viajar de avião! 

Desclassificado por “grave falha técnica” (parece que os juízes não gostaram do excesso de peso), viu chegar a Bragança, já de noite, o concorrente em quem ninguém apostou, dado o seu manifesto desinteresse pela corrida (mas não pela comida, pois levou consigo uma magnífica merenda, digna de Pantagruel, como se fosse para um piquenique). 

Foi, pois, Roussado Pinto o vencedor do “Rally dos Quatro Magníficos”, cometendo uma proeza que ficará para a história do automobilismo, com o recorde da mais baixa velocidade em corridas do género. O troféu ser-lhe-á entregue em Lisboa, numa cerimónia em que estarão presentes altas individualidades do desporto e do Automóvel Clube de Portugal. Segundo uma fonte do ACP, o Citroën 2CV que se cobriu de glória na corrida, sem sofrer o menor dano, será também exposto ao público, no próximo Salão Automóvel.

Quarta-feira, 9 de Agosto de 1972

Para remate da reportagem com que acompanhámos o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova que acabou com a inesperada vitória de Roussado Pinto — um concorrente que tinha afirmado, antes da partida, não ter pressa em chegar à meta —, fomos ontem de manhã ao Hospital de S. José, em Lisboa, onde está internado Mário do Rosário, devido ao grave acidente que sofreu logo no primeiro dia da corrida, quando já levava vantagem sobre os seus três adversários.

Uma perna e um braço partidos e outras contusões mais ligeiras vão obrigá-lo a permanecer no hospital durante algumas semanas, o que não parece incomodá-lo, pois mantém o seu ar descontraído, espalhando bom humor à sua volta, como se estivesse num hotel, rodeado de amigos. As enfermeiras que o digam…

Nessa mesma manhã, tinha recebido a visita dos seus ex-adversários e o encontro deixou-o visivelmente satisfeito.

Quando entrámos no quarto, onde era, de momento, o único enfermo, saudou-nos efusivamente, apesar dos membros engessados não lhe permitirem muitos movimentos, e logo nos pôs a par dos seus últimos planos:

— Os meus amigos… isto é, os meus rivais… estão fartos de gozar comigo por eu ter a mania das velocidades. Mas se não fosse aquele estúpido animal, tinha ganho a corrida… e com grande avanço! Já ninguém me apanhava!

Pelos vistos, não perdera a prosápia nem a auto-confiança, como confirmaram as palavras seguintes, em tom peremptório:

Já lhes disse que se preparem para a desforra! Estou aqui para as curvas! Sou campeão de vendas com o Falcão! E hei-de vencer a próxima corrida!

Registámos esta declaração triunfal no nosso bloco-notas e fizemos questão de observar:

— Falta aqui um dos seus amigos… o Major Alvega…

Mário do Rosário percebeu a nossa ironia, mas retorquiu imediatamente, com um sorriso melífluo estampado no rosto:

— Não falta, não senhor… Esse está sempre ao meu lado!

E mostrou-nos uma mão-cheia de exemplares d’O Falcão, com histórias do Major Alvega, que tinha em cima da mesa dos medicamentos, ao pé da cama.

— Apesar do meu acidente, o Major Alvega continuará a voar, para deleite dos seus milhares de admiradores! Comigo, o trabalho está sempre adiantado…

Não temos pejo em confessar, amigo leitor, que esta foi uma das reportagens mais singulares que já realizámos em toda a nossa carreira jornalística. E admitimos também que nunca encontraremos, com toda a certeza, outra personalidade tão pitoresca como Mário do Rosário, que faz gala em afirmar que aprendeu com o Major Alvega a ser destemido como os pilotos da RAF, heróis da Segunda Guerra Mundial!

Um homem que, fiel a um dos seus nomes de baptismo (Durão), professa altivamente o lema “Dos fracos não reza a História”!

Nota final — Alguns leitores manifestaram a sua curiosidade sobre o nome desta corrida, criado também pelo Automóvel Clube de Portugal. Pois fiquem sabendo que os “quatro magníficos” não eram os concorrentes — embora bastante apreciados na sua área profissional —, mas as míticas viaturas que tiveram o prazer de conduzir… infelizmente com resultados desastrosos para alguns deles!

FIM da reportagem (e do conto) 

Repórter anónimo: Jorge Magalhães