NÚMEROS “PRIMUS”, NÚMEROS RAROS – 2

O MOSQUITO RESSUSCITADO… Mosquito Futura - nº 1   727PELA 4ª VEZ (1)

Mosquito Futura - Postal d'AnúncioHá três décadas, em Abril de 1984 — ano que os leitores do célebre romance futurista de George Orwell guardarão sempre na memória —, saiu o primeiro número de uma nova série d’O Mosquito, a mítica revista nascida em 14 de Janeiro de 1936 por obra de dois amigos com jeito para escrever e desenhar e já com larga experiência, sobretudo o primeiro, no campo do jornalismo infanto-juvenil: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

Ostentando um cabeçalho com a imagem simbólica de um “mosquito ardina”, criada em 1943 por E. T. Coelho, o mais notável colaborador do seu primeiro ciclo vital, esta nova série d’O Mosquito, a quinta por ordem cronológica — que até teve direito a uma campanha publicitária, em vésperas do seu lançamento —, foi o corolário dos álbuns publicados pela Editorial Futura, com recuperação de histórias Mosquito Futura - almanaque 1984    726que se tornaram grandes clássicos, como “O Caminho do Oriente” (a obra-prima de E. T. Coelho), e de um Almanaque O Mosquito, editado em finais de 1983, numa tentativa nostálgica de reviver um título cheio de nobres tradições e o respectivo Almanaque O Mosquito e a Formiga, cujo número único saiu no Natal de 1944.

A penúltima “ressurreição” d’O Mosquito tinha ocorrido quase dez anos antes, mas foi de todas a mais efémera, pois saldou-se também por um número isolado — hoje uma raridade que não vale o seu preço de mercado, já que nada de importante acrescentou ao prestigioso historial do seu “irmão” mais velho, ao contrário da 2ª série, dirigida e editada, em 1960/61, por José Ruy, num esforço pioneiro e entusiástico que se traduziu pela publicação de 30 fascículos semanais. Neles foram reeditadas algumas séries clássicas d’O Mosquito e revividas célebres personagens como o Capitão Meia-Noite e Rudy Carter, a par de outro material inédito.

A 3ª série, publicada também em 1961, sob a égide de António Costa Ramos, teve apenas quatro números, num formato idêntico à anterior e com um sumário ainda mais nostálgico, que abrangia séries cómicas e grandes êxitos do passado, como O Gavião dos Mares, O Voo da Águia e Pelo Mundo Fora. Mas os leitores dos anos 60 já estavam noutra “onda”!…

Mosquito Nº13 - 2ª serie & nº 3 3ª serie

A aventura d’O Mosquito, da Editorial Futura — de início com periodicidade bimestral, depois mensal —, não foi além de 12 números, mas tanto bastou para marcar a diferença em relação às outras revistas de BD que apareciam nas bancas, Mosquito Futura - nº 1 Sumário739nomeadamente as duas mais antigas: O Falcão, do Grupo de Publicações Periódicas, e o Mundo de Aventuras, da Agência Portuguesa de Revistas (APR), que, apesar de ainda terem um público fiel, já se aproximavam também, a passos largos, do seu fim.

Tive o raro privilégio de coordenar simultaneamente, durante cerca de 22 meses, O Mosquito da 5ª série e o Mundo de Aventuras, que já contava a bonita idade de 35 anos. Essa acumulação de funções paralelas em revistas quase concorrentes, não me acarretou quaisquer problemas porque os meus vínculos com a APR já eram, então, de natureza precária, pois tinha passado voluntariamente ao regime de colaborador em part-time. Apesar disso, ainda me aguentei no Mundo de Aventuras até ao seu “estertor” final, que coincidiu com a queda, não menos dolorosa e lenta, da APR, a maior empresa do seu ramo até à década de 80.

N’O Mosquito da Futura tentei, com o precioso e incondicional apoio do seu director, o malogrado Dr. Chaves Ferreira, fundir a tradição clássica com uma linha mais modernista, o que nos permitiu apresentar obras de autores contemporâneos, sobretudo europeus e sul-americanos, que ainda hoje são grandes figuras do mundo da BD.

Mosquito Futura - nº 1 Desafio 1e 2

Logo no primeiro número (com histórias curtas ou com séries), foi a vez de Eduardo Teixeira Coelho (O Desafio), António Hernandez Palácios (Manos Kelly), Juan Jimenez (Ás de Espadas), Júlio Ribera (Nunca Estamos Contentes), Esteban Maroto (Zodíaco) — e seguidamente de Jordi Bernet, Moebius, Mandrafina, Solano Lopez, Milo Manara, Guido Buzzelli, Jesús Blasco, Hugo Pratt, Paul Gillon, Yves Chaland, Richard Corben e outros.

Alguns destes nomes, como Moebius, Chaland e Mandrafina, foram mesmo estreias absolutas no panorama da BD portuguesa.

Mosquito Futura - nº 1 Zodiaco 1 e 2

Mosquito Futura - nº 1nunca estamos contentes 1  e 2

Procurámos também que a revista incluísse colaboração de desenhadores nacionais, de preferência com histórias inéditas, apesar disso acrescentar mais despesas ao seu oneroso orçamento, visto que o material estrangeiro nos ficava geralmente mais barato. Encargos a ter em conta, pois a revista fora planeada, de início, com 60 páginas, oito das quais a cores, além das capas, seguindo o modelo das suas congéneres espanholas Blue Jeans, Comix, Cimoc e Totem (estas ainda mais volumosas).

Nesse caderno central a cores teve honras de estreia a magnífica série Manos Kelly, com a deslumbrante paleta de um mago da BD espanhola: António Hernandez Palácios.

Mosquito Futura - nº 1 Manos Kelly 1 e 2

Ao nosso convite responderam, de imediato, Estrompa e Augusto Trigo, autores de características muito diferentes, mas já de mérito consagrado — o primeiro com a rubrica satírica Clássicos e Desintegrados, sucessão de hilariantes pastiches de personagens célebres da BD, e o segundo (a quem se deve a capa do número inaugural) com a sua esplendorosa série de temática africana Kumalo, um dos muitos trabalhos em que colaborei com ele, como autor do argumento, e que ainda hoje é um dos nossos preferidos.

Sobre o mesmo tema, escrevi também, para esse primeiro número, um artigo de divulgação intitulado “A África Negra na BD Portuguesa”, em que passei em revista outras obras de conhecidos autores nacionais desenroladas em paragens africanas.

Mosquito Futura - nº 1 Kumalo 1 e 2Mosquito FUTURA - nº 1 Kumalo 3 e África Negra na BD 2

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IN MEMORIAM

RACHEL LOUISE CARSON

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Este ano o Google não tem parado de nos oferecer magníficos doodles (logotipos) sobre os mais diversos temas, em especial num contexto histórico e cronológico, dedicados a efemérides curiosas e a figuras notáveis das artes e das ciências.

paz_01_img0045Esta criatividade de um dos portais mais concorridos da Internet tem despertado a nossa curiosidade e o nosso interesse, incitando-nos, com natural agrado, a fazer-lhe elogiosas referências e a pesquisar infor- mações sobre alguns dos assuntos (e nomes) abor- dados, para as partilharmos com os nossos leitores.

Um dos mais recentes doodles evocou a figura de Rachel Louise Carson (1907-1964), eminente escritora e bióloga americana que começou, ainda muito nova, a escrever histórias sobre animais, inspiradas nas obras de Beatrix Potter, alimentando, ao mesmo tempo uma grande paixão pelas ciências da Natureza, em particular pela biologia marinha, na qual se especializou ao serviço do US Bureau of Fisheries (baptizado, mais tarde, com o nome de Fish and Wildlife Service), onde produziu, em 1935, uma série de artigos para um programa radiofónico destinado a promover o interesse do público pela vida aquática.

Rachel CarsonO seu primeiro livro sobre o tema, com o título Under the Sea Wind, foi publicado em 1941 pela popular editora Simon & Schuster e a curiosidade com que foi recebido pelo público e pela crítica — embora o seu êxito comercial tivesse ficado aquém das expectativas — animou-a a prosseguir os seus trabalhos, cultivando sempre a simbiose entre um esmerado estilo literário e o rigor da investigação científica.

Graças ao renome que obteve com o seu segundo livro, The Sea Around Us, publicado em 1951 pela Oxford University Press — e que figurou, durante quase dois anos, na lista de best-sellers do New York Times —, Rachel Carson pôde alargar a sua influência a outros sectores, envolvendo-se em causas polémicas, como o uso de pesticidas na agricultura, e tornando-se a primeira ecologista americana a defender com êxito a proibição do DDT e de outros produtos igualmente nocivos para o ambiente.

The Sea Around Us film posterUma das suas obras mais emblemáticas, Silent Spring, publicada em 1962 (dois anos antes da sua morte, vítima de cancro), lançou as bases do movimento ecológico, não só nos Estados Unidos, como no mundo inteiro; e The Sea Around Us — o primeiro dos seus livros a proporcionar-lhe desa- fogo financeiro, permitindo-lhe trocar o funcio- nalismo público pela actividade literária e científica em full time — mereceu a atenção do produtor e realizador Irwin Allen, que lhe dedicou um documentário, distinguido em 1953 com o Óscar da respectiva categoria (embora Rachel não tivesse gostado da versão final do argumento, recusando-se, daí em diante, a aceitar outros convites cinematográficos).

O êxito desse documentário e o interesse pela exploração do mundo submarino, fomentado pelas obras de Rachel Carson, deram origem, nos anos 50 e 60, a vários comic books com idêntico tema, baseados, na sua maioria, em filmes e séries televisivas de grande popula- ridade, como Sea Hunt, Around the World Under the Sea e Voyage to the Bottom of the Sea.

Around the world under the sea& Bottom of the sea

PARADA DA PARÓDIA – 7

O FILHO DE NEPTUNO

Ora aqui têm outra história de náufragos, desta feita pelo traço de Zé Manel, não menos singular, minimalista e sugestivo que o de Bara e com um pormenor que seduz sempre todos os seus admiradores: o suave e erótico encanto das suas “musas” femininas, as esculturais beldades que nenhum outro desenhador humorístico retratou com tanta perfeição, autênticas ninfas (no sentido mais poético e metonímico da palavra) que povoaram de ardentes fantasias muitos sonhos de papel.

Este cartoon de Zé Manel surgiu no nº 95 (1971) de Bomba H, antologia humorística em formato de livro de bolso, cujas capas ilustrou durante vários números.

Zémanel - Bomba H

CURIOSIDADES DO “DIABRETE” – 12

Diabrete título concurso 12 meses 1

Nesta página, ilustrada pelo magnífico traço de Cambraia e referente ao mês de Maio, o Diabrete celebrava, com um mês de atraso, a descoberta da terra de Vera Cruz, ocorrida em 22 de Abril de 1500, quando o navegador Pedro Álvares Cabral, em rota para as Índias, chegou, pela primeira vez, às costas de um novo continente — mais ao sul da região atingida, em 1498, por Cristóvão Colombo —, onde mais tarde os colonos portugueses se fixariam também, levando aos indígenas a espada da conquista e a cruz do Evangelho.

Terra de Vera Cruz, assim baptizada em honra da fé cristã, e posteriormente conhecida pelo nome de Brasil, quando os primeiros colonos (ou bandeirantes) começaram a explorar as suas imensas riquezas, incluindo a preciosa madeira de uma árvore de cor esbrazeada, que crescia em abundância no luxuriante território e a que deram o nome de “pau-brasil”.

concurso dos 12 meses diabrete 806

Esta página do Diabrete, alusiva ao último mês do seu grande concurso, foi dada à estampa no nº 806, de 21/3/1951. Noutras edições, correspondentes aos nºs 804, de 14/3/1951, e 805, de 17/3/1951, surgiram mais informações sobre a origem histórica do nome dos meses, que tanta curiosidade pareciam despertar aos leitores do “grande camaradão”.

concurso dos 12 meses diabrete 804 e 805

 

 

OS REIS DO RISO – 5

OS PIGMEUS E O PAPAGAIO… OU UM NÁUFRAGO SOLITÁRIO QUE PERDEU AS CHAVES AO REGRESSAR A CASA

Max (Spirou)Uma das séries mais divertidas e originais da BD europeia é, sem dúvida, Max, o Explorador (Max l’Explorateur), criada por Guy Bara, em meados dos anos 50, nas páginas dos jornais France-Soir e Le Soir, e que posteriormente apareceu em revistas de BD como o Tintin e o Spirou. Durante alguns anos, Bara explorou com êxito a fórmula dos gags numa única página, a exemplo de outras séries mediáticas, mas trilhando sempre caminhos inovadores e de fecunda inspiração. Para o Spirou chegou a realizar, em 1964 e 1965, duas histórias à suivre, que saíram em álbum com os títulos Max et le Triangle Noir e L’Orteil de Vichnou.

Publicada também no Tintin português, a série não passou despercebida aos apreciadores do humor com uma pitada de non-sense e uns grãos de surrealismo, na melhor tradição da escola inglesa, de que Bara foi um discípulo directo e um incondicional admirador.

Max (Tintin)No meu caso, sempre tive especial predilecção por esta série, pelo estilo linear e eficaz de Bara, pelo seu burlesco sentido de humor, pelo exemplar domínio da farsa (quase) sem palavras, em que usava magistralmente balões icónicos e onomatopeias, e sobretudo pelo seu pitoresco personagem, que lembra, sob vários prismas, a figura de um “rei” da pantomina, na época dourada do cinema mudo: Buster Keaton, o inimitável Pamplinas, como era conhecido em Portugal e noutras partes do mundo.

As páginas que hoje apresentamos, extraídas de vários números do “nosso” Tintin, são um bom exemplo da linguagem mímica (e minimalista) de Bara, um autor completo que soube criar um herói diferente, numa escola humorística tão rica e singular como a franco-belga, compondo uma original comédia de aventuras recheada de bizarras peripécias, em lugares exóticos onde Max põe à prova o seu espírito de explorador, sem nunca perder a típica fleuma.

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IN MEMORIAM

MARY ANNING

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Mary AnningOutro magnífico cabeçalho do Google, desta feita dedicado a Mary Anning (1799-1847), famosa paleontóloga inglesa que, em 1810, apenas com 11 anos, descobriu o primeiro fóssil de ictiossauro nas falésias de Dorset, um achado que media cinco metros de comprimento e lhe despertou o interesse por essas gigantescas criaturas do passado, transformando-a numa autêntica “caçadora de fósseis”, como principal meio de subsistência da família, depois de ficar órfã do pai, ainda muito jovem.

Com o tempo, Mary Anning tornou-se uma das mais reputadas especialistas britânicas sobre fósseis mari- nhos da Idade Jurássica e algumas das suas descobertas, oriundas da região de Lyme Regis, onde vivia, estão expostas no Museu de História Natural de Londres. 226-843Como reza a Wikipédia, “o seu trabalho contribuiu para mu- danças fundamentais no pensamento científico sobre a vida pré-histórica e a história da Terra”, mas nunca foi reconhecido pela comunidade científica da Grã-Bretanha, que desdenhava as suas origens humildes e a sua fraca instrução. Aliás, no século XIX, as mulheres eram ainda dis- criminadas, sobretudo as das classes pobres.

Embora o grande escritor Charles Dickens tenha sido uma das primeiras personalidades inglesas a elogiar esta notável pesquisadora, escrevendo em 1865 que Mary Anning, a filha de um carpinteiro, era digna do nome e do lugar que conquistara à sua própria custa, marysó mais de 160 anos após a sua morte a Royal Society a incluiu numa lista das dez mulheres britânicas que mais tinham con- tribuído para o progresso da Ciência.

Aqui está uma história verdadeira que dava uma bela biografia em banda desenhada. Não só por causa das curiosidades científicas, mas também de outros factos extraordinários que aconte- ceram a Mary Anning, alguns terri- velmente dramáticos, pondo em perigo a sua vida. Até é muito possível, aliás, que essa biografia em quadrinhos já tenha sido feita. Alguém nos saberá informar?

 

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 3

QUANDO CHARLOT ERA CRIANÇA

A Dog's Life (Charlot)Charles Chaplin (1889-1977), um dos maiores cineastas de todos os tempos e o comediante de carisma mais universal, que logrou com as suas pantominas divertir e encantar públicos de todas as idades, através de sucessivas gerações, pode não ter mudado os destinos políticos do país para onde emigrou, os Estados Unidos da América — que, aliás, até o perseguiu por causa das suas ideias es- querdistas —, mas foi seguramente uma das per- sonalidades mais influentes do século XX, cuja mensagem humanista contra as injustiças sociais chegou ao coração de muitos povos, ensinando-os, através da figura carismática de Charlot, o desa- jeitado vagabundo do eterno e malicioso sorriso, a ver o próximo de maneira diferente e a respeitá-lo com todas as suas qualidades e defeitos.

Self-made man nascido num dos bairros mais pobres de Londres, Chaplin teve uma infância infeliz, mas rica em peripécias, digna de um romance de Charles Dickens.

Para os nossos leitores que não conhecem a sua biografia, aqui fica uma curta história publicada no Mundo de Aventuras nº 428, de 24/12/1981 — com texto de Yves Duval e oriunda do Tintin nº 44 (33º ano), de 31/10/1978 —, que pelo traço de um notável desenhador belga, Franz Drappier (infelizmente também já desaparecido), retrata alguns episódios da infância de Charles Chaplin, o filho da pobreza e da desunião familiar (seus pais, uma cantora e um actor de music-hall alcoólico, viveram quase sempre separados), cujo génio brotou como uma flor no meio de uma estrumeira.

Charlot Criança 1 e 2Charlot Criança 3 e 4

FERNANDO RELVAS E A REVISTA “TINTIN” NO CNBDI

Fernando Relvas

Ah! Que saudades do jovem Relvas, quando começou a colaborar no Tintin português, com “O Espião Acácio”, “Rosa Delta Sem Saída”, “L123”, “Cevadilha Speed” e outras histórias (ainda hoje de culto, extravasando as fronteiras do seu tempo) que animaram, a preto e branco, as páginas de uma revista carismática, mas a precisar, nessa altura, de renovação.

Relvas Cevadilha Speed (Tintin)Relvas foi o sangue novo, o artista jovem, independente (no sentido de não seguir nenhuma escola) e criativo que trouxe ao Tintin uma lufada de modernismo, com o seu estilo vanguardista, a sua estética do claro-escuro que realçava o efeito psicológico do jogo de sombras, das largas manchas que alastravam sobre as figuras, no papel, como reflexos de um imaginário delirante e irreverente (por vezes, ambíguo) e de um pincel insatisfeito, sempre em busca de novas experiências, de novos processos… Que continuaria a ensaiar, sem conhecer limites, na etapa seguinte da sua carreira, ao assentar arraiais noutro prestigioso semanário, o Se7e.

Ah! Que saudades do grande Relvas desses tempos! (Re)vejam-no agora, através de alguns dos seus melhores trabalhos, na mostra que o CNBDI inaugura amanhã, às 19h00, e que estará patente na sua sala de exposições temporárias até 27 de Junho. A não perder!

CNBDI (Exposição Relvas)

CURIOSIDADES DO “MUNDO DE AVENTURAS” – 2

ARTE E RELIGIÃO

No seu nº 448 (aliás, 1700, pela numeração antiga), em pleno mês de Maio de 1982, o Mundo de Aventuras evocou também, pela primeira vez, as aparições de Fátima e as figuras dos três humildes pastorinhos, apresentando uma história curta ilustrada por Fernand Cheneval, com texto de Yves Duval: “Fátima, Terra Eleita de Nossa Senhora”.

Fátima 13 de MaioOriunda do Tintin belga, ela já fora publicada, anos antes no Pisca-Pisca (a cores, como na versão original); e há alguns meses, num post que pode ser visto aqui, este blogue teve também oportunidade de recordá-la e de prestar homenagem aos seus autores.

Nesse mesmo número do Mundo de Aventuras, cujo tema principal era dedicado a Fátima e aos milagres que trans- formaram a Cova da Iria num santuário universal da fé e da religião católicas, avultam também a bela capa de Augusto Trigo e uma eloquente ilustração que o mesmo realizou para o artigo de abertura que eu escrevi, com o simbólico título “Um Raio de Luz”.

N610_0015_branca_t0A componente religiosa desse número incluiu ainda um conto de Raul Correia, com ilustrações de E. T. Coelho, oriundo do célebre Almanaque d’O Mosquito e d’A Formiga publicado 38 anos antes. Nas páginas seguintes, desen- rolava-se uma aventura do Príncipe Valente, datada de 1975, quando John Cullen Murphy já era o novo desenhador da série.

Como simples curiosidade, mas um tanto ou quanto invulgar numa revista juvenil com as características temáticas do Mundo de Aventuras (ao ponto desses mesmos trabalhos terem sido comentados por um grande número de leitores), aqui ficam as duas magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista tão ecléctico que se desempenhava com eficácia e superior talento de qualquer tarefa que lhe fosse confiada. E também, como é óbvio, as de E. T. Coelho, um dos maiores mestres da ilustração e da BD nascidos em Portugal, cujo dinâmico e harmonioso traço fez escola durante os anos 40 e 50 do século passado.

Fátima - um raio de luz e Terra EleitaFátima - O milagre 1 e 2

CURIOSIDADES DO “MUNDO DE AVENTURAS” – 1

“PÉROLAS” PERDIDAS (1)

Folheando ao acaso as páginas de alguns números do Mundo de Aventuras (2ª série) e do Mundo de Aventuras Especial — para reviver outros tempos e outras ocupações (e sensações), mais estimulantes do que a carreira que eu largara ao entrar na APR (Agência Portuguesa de Revistas), a de classificador de café no Instituto do Café de Angola —, encontrei estas amostras de três séries praticamente desconhecidas: Grubby, Deems e Stimey, que já não me lembro de onde foram desencantadas.

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Capa de GrubbyCom excepção de Warren Sattler (actualmente com 79 anos), que animou Grubby, série ambientada no Oeste americano, de 1964 a 1999 — e chegou a trabalhar com Harvey Kurtzman no magazine Help, além de ter sido colaborador da Charlton Comics e de revistas tão carismáticas como National Lampoon e Playboy —, os desenhadores que criaram as outras séries, Tom Oka (aliás, Okamoto), americano de origem japonesa, e Martin (?), não têm currículo especial (ou mesmo ne- nhum currículo conhecido), apesar dos méritos patenteados nestas tiras, o que torna a sua origem ainda mais obscura. Eis alguns elementos que respigámos sobre a primeira:

Distribuída pelo Al Smith Service, um pequeno sindicato (ou agência de imprensa) americano, Deems teve uma curta existência, como tira diária, entre 1951 e 1955, mas desconhece-se a data exacta do seu início, assim como o término da página dominical. Okamoto, que foi animador da Disney, criou outra série, em 1956, intitulada Little Brave, para o United Feature Syndicate, uma agência de maiores dimensões, mas acabaria, ao que parece, por desistir da profissão de cartunista, dedicando-se à publicidade.

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Quanto a Stimey, cuja origem supomos ser inglesa ou australiana, apresenta sempre tiras numeradas e sem data, assinadas por Martin, um nome comum, que também pode ser pseudónimo. O seu protagonista parece, aliás, um típico cockney.

Passando por cima de todas as dúvidas e incertezas, até surgirem dados mais concretos sobre estas curiosas séries humorísticas que o Mundo de Aventuras publicou nos anos 70, quase sempre em rodapé de página, aqui fica uma pequena amostra das “pérolas” perdidas que a BD prodigamente nos oferece, resgatadas do fundo da memória, como as que jazem nos recifes e nas lagoas dos nossos sonhos, incólumes e esquecidas.

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