NOTÍCIAS DO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA (CPBD)

Prestes a completar 39 anos de existência oficial, marcada por várias e intermitentes fases, da afirmação crescente à precária intervenção — que não escamoteiam, contudo, os seus êxitos e o seu papel dinamizador, durante quase duas décadas, do panorama da BD portuguesa, através das muitas e relevantes iniciativas que pôs em prática CPBD boys P&B —, o CPBD prepara-se, agora, para encetar uma nova etapa, depois de um período de relativa “obscuridade”, em que conti- nuou, porém, a contar com o apoio de um grupo de dedicados sócios, que não deixaram extinguir a lúdica “chama” dos  ideais que presidiram à sua criação, mantendo as reuniões regulares na sede, a celebração dos aniversários com um almoço tradicional e a publicação do seu Boletim, o mais antigo fanzine editado no nosso país e um dos mais antigos de toda a Europa.

Desta nova etapa, que pelas propostas anunciadas se augura tão dinâmica e frutuosa como as de épocas anteriores, durante o período de maior influência e projecção do CPBD, dá conta uma circular que nos foi enviada pelos seus responsáveis e que divulgamos neste espaço com o maior prazer, desejando também ao CPBD (dentro em breve com nova sede, em mais amplas e funcionais instalações) a renovação dos seus grandes êxitos e do seu espírito associativo, num futuro próximo, de molde a contribuir ainda mais para o progresso e para a identidade histórica da Banda Desenhada portuguesa.

Circular do Clube Português de Banda

 

COLECÇÃO “DESIGN PORTUGUÊS”

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No penúltimo volume desta colecção, mais uma louvável iniciativa cultural do jornal Público — no âmbito do Ano Internacional do Design Português —, deparámos com uma agradável surpresa, entre as ilustrações que recheiam profusamente uma extensa cronologia das principais efemérides que assinalam a história do design em Portugal: a capa d’O Mosquito nº 566 (25/11/1944), da autoria de Eduardo Teixeira Coelho, à época um dos seus mais talentosos e apreciados colaboradores.

Não foi a única e merecida alusão à Banda Desenhada, enquanto manifestação artística, como uma “disciplina” complementar também ligada à evolução das artes figurativas, pois no 4º volume (que abarcou o período 1960-1979) surgiu a capa do Lobo Mau nº 2, datado de 7/6/1979, e no 2º volume (1920-1939) pudemos ler uma breve referência ao ABC-zinho: publicação infantil “central no desenvolvimento da banda desenhada”.

Design português Público 5

É pena que nesta colecção dedicada a uma arte mista, gráfica e decorativa, com reflexos noutros sectores das Belas Artes, e que documenta a história do progresso social, económico e cultural dos últimos 115 anos, com referência directa aos principais criadores do design português, a Banda Desenhada (que também veio de meados do século XIX) tenha ficado ingloriamente esquecida (ou subalternizada), como uma espécie de “parente pobre” que não tem o privilégio de poder sentar-se à mesa com os convivas mais ilustres.

O MOSQUITO E A MÚSICA

Este é outro post que partilhamos com O Voo d’O Mosquito, blogue da Loja de Papel criado em Agosto de 2014, para homenagear um dos títulos mais carismáticos da história da BD portuguesa. Ultimamente, O Voo d’O Mosquito tem diversificado os seus temas, abordando, por exemplo, as curiosas relações lexicais de um nome que existe em todas as línguas — e que nalguns países europeus deriva do termo latino musca (mosquito em português, castelhano e inglês) — com outras formas de uso, cujo duplo sentido quase traduz uma reinvenção do vocábulo original. Um exemplo que vem a propósito: O Mosquito = jornal infanto-juvenil.

No artigo O Mosquito e a Música, que a seguir reproduzimos, esse duplo sentido está bem explícito, induzindo uma série de correspondências lógicas: mosquito → letra de canção → disco → desenho animado.

Vejam n’O Voo d’O Mosquito outros curiosos posts sobre o mesmo tema.

The Doors & The Mosquito

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Quem diria que o nome de um insecto tão popular como o nosso Mosquito até aparece com destaque em letras de canções?!… Pois aqui têm a prova, neste pitoresco tema da célebre banda de rock The Doors, criada em 1965 por Jim Morrison e Ray Manzarek, dois estu- dantes da escola de cinema de Los Angeles, que também gostavam de música.

A banda, composta por mais dois elementos, Robby Krieger e John Densmore, somou êxitos após êxitos, como Waiting for the Sun, Light my Fire, Love Her Madly, People Are Strange, Break on Through, Touch Me, Riders on the Storm, Moonlight Drive, Roadhouse Blues, Strange Days, L.A. Woman e muitos outros, editados em discos que venderam milhões de cópias.

Jim Morrison - The Doors

Jim The Doors (cartaz do filme)Morrison morreu em 1971, supostamente por causa de uma overdose, e a banda desfez-se pouco tempo depois, mas a sua aura no panorama da música rock persiste ainda hoje, graças à polémica herança artística de Morrison e às homenagens que lhe foram prestadas em diversos medias, nomeadamente no filme reali- zado por Oliver Stone, em 1991, com o actor Val Kilmer no papel do célebre cantor e compositor, e num recente documentário sobre a banda: When You’re Strange, narrado por Johnny Depp.

«Morrison era um poeta», afirmou, certa vez, Ray Manzarek, também já falecido, «e um poeta anseia que as suas palavras sejam ouvidas».

Pois, caros amigos, nesta canção dos The Doors, incluída no álbum Full Circle — último lançado pela banda, depois da morte de Jim Morrison —, qual é a palavra que dá o mote, o nome que fica a bailar no ouvido? Até apetece repeti-lo muitas vezes… E ouçam como mosquito em espanhol rima bem com burrito, duas palavras com sonoridades musicais.

Só temos pena de não vos poder mostrar a banda ao vivo… mas em contrapartida, noutro vídeo que vale a pena ver e ouvir, surge uma conhecida personagem que “interpreta”, à sua (irresistível) maneira, o tema da canção. Divirtam-se com ela e com a animada música de uma das mais célebres bandas de rock de todos os tempos… que acabaria, com um dos seus êxitos, por ficar também ligada ao nosso Mosquito!

 

O NAUFRÁGIO DA LÍNGUA – 2

Utilizando um exemplo, que a nós também pareceu significativo, dos atropelos e confusões a que a língua pátria está sujeita com a implantação do novo Acordo Ortográfico, o blogue Largo dos Correios, dirigido pelo nosso amigo António Martinó de Azevedo Coutinho, recorreu mais uma vez à inspiração e ao humor que, entre outras virtudes, há muito são seu atributo, e saiu-se com esta feliz imagem do Zé Povinho, “baralhado” (mas ao mesmo tempo divertido) com o sentido etimológico de expressões que dantes bem conhecia… mas em que a falta de um acento faz, agora, toda a diferença.

cabeçalho Largo dos Correios1Aguenta, povo, aguenta

by largodoscorreios – 20/5/2015

aguenta-povo

PARADA DA PARÓDIA – 10

O NOVO “PAPÃO”… OU A DIFERENÇA QUE FAZ UMA PEQUENA PARTÍCULAO novo papãoCartoon de José Bandeira, publicado no Diário de Notícias de 19 de Maio p.p., de onde o reproduzimos com a devida vénia e o nosso preito de homenagem ao autor, um dos maiores humoristas gráficos portugueses, e ao jornal, pelo destaque que tem dado à série Cravo & Ferradura, já de longa duração.

“PATAGÓNIA” – UMA GRANDE AVENTURA ÉPICA!

Patagónia - capa   173

Seja qual for o prisma por que a encaremos, “Patagónia” — uma novela gráfica que chegará em breve às bancas portuguesas, com o selo da Polvo Editora — merece o título de obra-prima do fumetto italiano e, por aditamento, da longa historiografia de Tex Willer, o famoso ranger do Texas, criado em 1948, no apogeu da BD infanto-juvenil, por dois autores de grande craveira: Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini.

Pranchas de PatagóniaObra de outra dupla excepcional, Mauro Boselli e Pasquale Frisenda, esta história desenrolada num cenário invulgar, que nada tem de comum com o Oeste americano — apesar de alguns pontos de convergência nas encruzi- lhadas do destino que instigou os povos indígenas a uma épica luta pela sobrevivência, quer nas pampas argentinas, quer nas pradarias da América do Norte —, é um marco incontornável, no seu género, uma aventura cujo fôlego gráfico e narrativo atinge proporções raramente vistas na saga texiana e noutras obras que se apresentam com o modesto rótulo de histórias de cowboys ou westerns convencionais… por vezes tão inglório quanto redutor! Desde 1948 até ao século XXI, o western fez um longo caminho, conquistando novas audiências entre um público mais maduro e exigente, que continua a elegê-lo como um dos seus géneros favoritos.

Patagónia (badanas)Aproveitando a realização, em Anadia, durante o penúltimo fim-de-semana, da 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, onde esteve patente uma exposição dedicada a “Patagónia”, a editora Polvo procedeu ao lançamento oficial do magnífico álbum com esta extraordinária epopeia — iniciativa oportuna e que constitui também um feito digno de nota, porque nunca o mítico herói bonelliano se apresentou ao público português vestido com tão requintadas galas: isto é, num grosso volume com mais de 200 páginas, impressas em papel de boa gramagem, com uma nitidez perfeita do preto-e-branco, capa em cartolina com badanas, prefácio e tradução excelentes de José Carlos Francisco, dinâmico presidente do Clube Tex Portugal, e um dos maiores coleccionadores e divulgadores de Tex a nível mundial.

Pasquale Frisenda em Anadia (2015)A tudo isto, que não é pouco, acresce ainda um conjunto de ilustrações inéditas, reali- zadas por Pasquale Frisenda, com estudos para as capas e para alguns dos persona- gens desta memorável aventura, em que Tex Willer (Águia da Noite) está acompanhado pelo seu filho Kit (Falcão Pequeno).

O consagrado desenhador de “Patagónia” marcou também presença na 2ª Mostra de Anadia, presidindo à cerimónia de lançamento do seu álbum, ao lado do editor Rui Brito, e brindando o público com uma sessão de autógrafos e desenhos ao vivo.

Patagónia - rosto  174A mim — que não pude comparecer ao evento por motivos de força maior, mas também tive direito a um autógrafo do mestre italiano, graças aos bons ofícios de João Amaral, a quem expresso uma vez mais, e publicamente, a minha gratidão —, coube- -me um exemplar com a magnífica ilustração colorida que aqui ao lado vos apresento.

Grazie mille, Pasquale Frisenda!

 (Nota: algumas das imagens que ilustram este post foram extraídas, com a devida vénia, do Tex Willer Blog, onde poderão ver muitas reportagens sobre eventos texianos, incluindo a 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, que trouxe a Anadia outro notável desenhador italiano: Stefano Biglia).

O NAUFRÁGIO DA LÍNGUA

Nunca me pronunciei sobre o novo Acordo Ortográfico (que para mim é como se não existisse, pois continuo fiel às minhas raízes linguísticas, escrevendo como aprendi, há muito tempo, nos bancos da escola), mas tenho acompanhado com interesse o debate cada vez mais aceso acerca de um documento que parece ter sido feito à pressa, e não agrada a gregos nem a troianos… excepto a um pequeno grupo de “eminências pardas” que gostam de ditar novas regras, impondo aos outros as suas esdrúxulas ideias, sem se importarem (porque nunca os avaliam antecipadamente) com as consequências e os danos que irão causar no sistema estabelecido — pois os sistemas são como os edifícios, não se podem abalar as fundações sem correr o risco de abrir brechas que farão ruir toda a construção.

Algumas novas regras serão, porventura, perfeitamente justificáveis; mas outras roçam o ridículo e o absurdo, porque conferem a certas palavras e expressões um sentido muito diferente (por vezes, até antagónico). Atente-se neste exemplo: Alto e pára o baile! — tirando-lhe o acento, resulta nisto: Alto e para o baile!

ACORDO ORTOGRÁFICO FOTOO jornal Público, bastião de um jornalismo que preserva a cultura e a língua, tem sido dos mais combativos na denúncia intransi- gente do novo AO e muitos dos artigos que tem publicado sobre o assunto encontraram pronto eco no blogue Largo dos Correios, superiormente administrado pelo Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, que já alinhou desde há muito  com os que defendem a abolição urgente desse Acordo — agora em vigor com a força impositiva da lei, excepto para quem queira usar o direito de desobediência, como afirmaram Bagão Félix e Pacheco Pereira nos seus programas televisivos. Afinal vivemos ou não numa democracia? A questão fundamental é que este AO nunca foi referendado. Como qualquer lei arbitrária pode, portanto, ser alvo de contestação.

Hoje — porque a polémica não acabará tão cedo —, quero contribuir também para o debate, especialmente em honra do Professor Martinó, divulgando um artigo que me foi enviado por um amigo e que li com prazer, pois trata-se de um dos mais brilhantes e lúcidos depoimentos que sobre o tema tive oportunidade de apreciar até agora.

O citado artigo, que seguidamente transcrevemos, foi publicado no jornal brasileiro A Folha de São Paulo (suponho que já há algum tempo) e é da autoria de um escritor português, a quem são devidos todos os elogios pela síntese clara e objectiva que esmalta as suas frases. Como, por exemplo: “A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se (…) pela partilha da sua diversidade”.

Nada mais verdadeiro. Quem o não o entende, peca por excesso de zelo ou, melhor dizendo, por capricho e por arrogância. Para já não falar de (crassa) ignorância…

Naufragar é preciso?

Texto de João Pereira Coutinho (escritor português)

“Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?

Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?

A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extraterrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.

Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta “Folha”, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil. Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.

Questão de educação.

Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.

A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem as zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.

A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.

Resultado: é o desacordo total, com todo o mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?

Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.

Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.

Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo”, etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.

Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.

Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que estudou atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.

A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.

Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.

Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.

Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.

De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?”

UM RAIO DE LUZ E DE ESPERANÇA

Fátima, 13 de Maio… Há quase 100 anos, três humildes pastorinhos assistiram, na Cova da Iria, a uma deslumbrante aparição que os deixou mudos de assombro. A sua milagrosa história e a sua fé inabalável no que tinham visto e ouvido, apesar do repúdio das autoridades e da própria Igreja, contagiaram uma nação inteira, reavivando o fervor religioso que os novos dogmas republicanos e ateístas tinham duramente atacado. Meses depois, perante uma multidão de curiosos e de crentes, seria confirmado o milagre… e a glória dos três pastorinhos.

Alusivas a esta data que continua a atrair a Fátima milhares de peregrinos de todo o mundo, numa grande manifestação de fé, eis duas belas ilustrações de Augusto Trigo — que aqui recordamos novamente —, dadas à estampa no Mundo de Aventuras nº 448, de 13 de Maio de 1982.

Fátima 13 de Maio copy

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 11

OS CAVALEIROS DO VALE NEGRO (1ª parte)

José Ruy (1950)Hoje, dia de aniversário de Mestre José Ruy, a quem endereçamos com muita amizade os nossos parabéns e votos de longa vida, começamos a publicar mais uma história realizada nos primórdios da sua carreira, quando ele era um dos mais jovens e mais activos colaboradores d’O Papagaio, vistoso semanário infanto-juvenil cuja redacção era chefiada, nessa época, por Carlos Cascais. José Ruy tinha, então, apenas 17 anos e as suas inspirações artísticas vinham de temas como as aventuras na selva, policiais, de piratas e de cowboys.

Género difícil e exigente mas apaixonante, o western, com as suas ramificações literárias e cinematográficas, que o fascinavam desde a infância, foi para José Ruy uma experiência nova nas páginas d’O Papagaio, que a acolheu com as devidas honras, reservando-lhe lugar condigno e as suas cores mais garridas, nos nºs 665 a 681, publicados entre 8 de Janeiro e 29 de Abril de 1948.

Cavaleiros do Vale Negro - 678A história, com o palpitante título “Os Cavaleiros do Vale Negro”, tinha argumento de Roussado Pinto nos primeiros episódios… mas, como José Ruy nos revelou, essa colaboração foi sol de pouca dura, porque Roussado Pinto, com o seu feitio irrequieto, decidiu, entretanto, experimentar outros voos. O facto, porém, importa ser salientado, não só como uma excepção na carreira de José Ruy (que só repetiria a experiência de desenhar aventuras de cowboys uma única vez), mas também por ter sido a primeira escrita, ainda que parcialmente, por um dos maiores argumentistas da BD portuguesa.

Nos episódios seguintes, José Ruy teve de se desenvencilhar sozinho, mas criar uma história não era problema para ele, como demonstrou sobejamente n’O Papagaio, onde até chegou a ilustrar contos da sua própria autoria… que já revelavam, além do talento artístico, uma veia literária digna do seu fértil imaginário.

A par destas primeiras páginas, reproduzimos seguidamente um breve depoimento com que José Ruy amavelmente satisfez a nossa curiosidade, respondendo a algumas questões que lhe pusemos acerca da sua primeira história de cowboys, de que em breve publicaremos os restantes episódios.

Cavaleiros do Vale negro - 1 e 2Cavaleiros do Vale negro - 3 e 4

Confesso que esta história foi uma das que mais me entusiasmou quando, ainda menino e moço, lia O Papagaio — que, nessa fase, ainda publicava as aventuras de Tintin (O Segredo da Licorne) e prosseguia a sua carreira de vento em popa, com o concurso de uma equipa jovem e talentosa, formada nas suas páginas. As palavras, agora, são de José Ruy:

«Em finais de 1947, perfaziam-se três anos que publicava ininterruptamente as minhas histórias em quadrinhos n’O Papagaio, bem como novelas e contos, quando o Roussado Pinto — que se instalara também na redacção d’O Papagaio — fez a proposta de me escrever um argumento. Era uma novidade para mim, pois até aí sempre fizera os argumentos e guiões para as minhas histórias.

O Roussado Pinto, desde que o seu jornal infanto-juvenil O Pluto acabara, estava a evidenciar-se com as suas novelas e guiões, colaborando em revistas, almanaques, no Século Ilustrado e onde podia. O Tiotónio d’O Mosquito havia-o acolhido na sua redacção, onde eu trabalhava já na selecção litográfica das cores».

Cavaleiros do Vale negro - 5 e 6Cavaleiros do Vale negro - 7 e 8

«Considero ter sido uma experiência agradável e fiquei satisfeito com a ideia. É diferente dialogarmos com alguém que nos apresenta uma ideia já estruturada e a que temos de dar resposta, do que o monólogo que existe quando somos nós próprios a fazer enredo e desenho. Ele descrevia como idealizava a cena, a posição das figuras e outros elementos, os campos de visão, quem falava primeiro e a seguir, o que obrigava a uma certa disciplina na montagem das composições.

Só tinha um contra, dava-me os guiões muito em cima da hora, o que me obrigava a fazer alguns longos serões para não falhar na entrega dos originais.

Algum tempo depois, Roussado Pinto saiu d’O Papagaio e deixou o argumento em meio. Disse-me que lhe desse continuidade, pois achava-me em condições para o fazer. E sem saber de todo o que ele havia idealizado para desfecho da história, lá fui inventando outros episódios até à sua conclusão».