NAQUELE TEMPO – 3

PÁSCOA NO CIRCO

F. Funcken (por Tibet)Apresentamos seguidamente, a título de curiosidade, mais algumas capas ilustradas por Fred Funcken, o grande artista belga desa- parecido, com 91 anos, em 16 de Maio de 2013. Todas são alusivas a histórias completas publicadas no Tintin, de que Funcken foi um dos mais prolíferos e assíduos colaboradores desde o ano de 1952. Portanto, estas histórias — que o Cavaleiro Andante reproduziu também a partir do nº 105, de 2 de Janeiro de 1954 — assinalam as suas primeiras incursões (ainda a solo) no prestigioso semanário de Hergé e Jacobs, assim como o início de uma longa e frutuosa parceria com o argumentista Yves Duval.

Grande especialista da BD histórica, criador (juntamente com sua mulher Liliane) de séries famosas como Le Chevalier Blanc, Capitan e Harald le Viking, o talento de Funcken dispersou-se (mas sem nunca descurar a forma) por dezenas de episódios curtos sobre os mais variados temas e figuras célebres, que muitos rapazes de várias nacionalidades leram com curiosidade, gosto e proveito, adquirindo, dessa forma, um interesse irresistível pelo conhecimento da História Universal.

Tintin 19 - 23 - 24Tintin 28 - 33 - 35Tintin 38. - 42 - 46

O tema deste segundo post dedicado à Páscoa e a Fred Funcken é mais uma das excelentes histórias completas — no tempo das perseguições aos cristãos, em vida do imperador Valeriano — que rechearam o seu longo percurso artístico. Esta última, com o título “Pâques dans l’arène” e texto de Yves Duval, foi publicada no Tintin belga nº 15 (15º ano), de 13/4/1960, e em Portugal no Cavaleiro Andante nº 538, de 21/4/1962.

Boa leitura e feliz domingo de Páscoa!  (Para ler a história, mais ampliada, basta clicar duas vezes sobre as páginas).

Páscoa no circo - 1 e 2Páscoa no circo - 3 e 4

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NAQUELE TEMPO – 2

 EM MEMÓRIA DE FRED FUNCKEN (1)

F. Funcken (por Tibet)Ainda não tínhamos tido oportunidade, neste blogue, de homenagear condignamente Fred Funcken, embora ele seja, desde que comecei a ler o Cavaleiro Andante, um dos meus desenhadores favoritos. Falecido com 91 anos, em 16 de Maio de 2013, deixou-nos uma vasta obra, que muitas revistas portu- guesas, além do Cavaleiro Andante e dos seus Álbuns e Números Especiais, tornaram conhecida e apreciada por várias gerações, nomeadamente O Falcão (1ª série), Zorro, Pisca-Pisca, Nau Catrineta, Tintin e Mundo de Aventuras (2ª série).

L'Age d'Or - Os FunckenGrande especialista da BD histórica, criador (juntamente com sua mulher Liliane) de séries famosas como Le Chevalier Blanc, Capitan e Harald le Viking, o seu talento, durante muitos anos, dispersou-se (mas sem nunca descuidar a forma) por dezenas de episódios curtos sobre os mais variados temas e figuras históricas, que muitos rapazes desse tempo devem ter lido (como eu) com curiosidade, gosto e proveito.  

Colaborador do Spirou e do Tintin, foi sobretudo nesta revista que a sua carreira sofreu um grande impulso, tornando-se um desenhador apreciado pelo estilo fluido e minucioso, capaz de abordar todos os assuntos com extrema facilidade. Até no western, género difícil, ao alcance de poucos (como a BD histórica), conseguiu também marcar presença, com heróis populares como Jack Diamond, Doc Silver e Tenente Burton, cujo êxito comercial, embora não tivesse rivalizado com o de outras séries do género, lhe permitiu prosseguir desafogadamente a sua vida artística.

Funcken Tintin 23 e 7

Depois de se unir a Liliane pelo matrimónio e por sólidos laços profissionais — ao ponto de ser difícil destrinçar o seu trabalho em comum —, tornou-se uma das maiores autoridades em assuntos históricos, dedicando-se infatigavelmente, com a valiosa colaboração da mulher, a uma obra monumental, em vários volumes, sobre militaria, com o título genérico Le costume et les armes des soldats de tous les temps.

Le costume et les armes (Funcken) - com filetes

Funcken CA 105No Cavaleiro Andante, do qual fui leitor assíduo desde que chegou às bancas, em Janeiro de 1952, já me tinham despertado a atenção algumas histórias completas que se estrearam depois do nº 104, sobretudo as que exibiam a assinatura de Funcken, com a sua verídica abordagem de temas históricos (de todas as épocas), graças a um estilo realista até aos mínimos detalhes, em larga medida mais rigoroso e bem documentado do que o de outros desenhadores que professavam a mesma escola.

Em memória desse tempo e dessas leituras, que ainda hoje me provocam uma leve emoção nimbada de nostalgia — quando me revejo à janela, esperando ansiosamente que o ardina com os jornais (e o Cavaleiro Andante) passasse na minha rua —, aqui vos deixo mais uma história completa e inédita (entre nós), com o traço de Liliane e Fred Funcken, baseada num dos mais trágicos e sinistros períodos da Revolução Francesa, Funcken CA 106cujo advento se comemora na data da tomada da Bastilha pelo povo amotinado: 14 de Julho de 1789.

Neste curioso episódio, “Au Temps des Sans-Culottes”, oriundo do Tintin nº 40 (17º ano), de 2/10/1962, com texto de Yves Duval, colaborador assíduo dos Funcken, evoca-se o chamado “reino do Terror” (1793-94), época em que, sobre toda a França, após a queda da monarquia e a morte do rei, pairava a sombra da guilhotina e do implacável tirano Robespierre, presidente da Junta de Salvação Pública, que em 28 de Julho de 1794, devido ao golpe da véspera — 9 do Termidor, no calendário da Revolução —, seguiria o mesmo caminho das suas vítimas.

Sans culottes (sem calções), termo que designava o povo, os revoltosos, a “arraia-miúda”, acabou por ser uma das expressões mais simbólicas da Revolução Francesa.

Funcken Sans culottes 1 e 2Funcken Sans culottes 3 e 4

NAQUELE TEMPO – 1

A PAIXÃO DE CRISTO (segundo Paul Cuvelier)

Paul Cuvelier (auto-retrato)Nesta quadra pascal, em que as tradições familiares e religiosas são mais unas e ungidas de fé do que noutras celebrações litúrgicas (pelo menos, nos países em que predomina o catolicismo), queremos recordar outro grande autor da escola franco-belga, Paul Cuvelier (1923-1978), pintor por vocação e artista profissional de BD por acaso e necessidade de ganhar a vida, cuja obra ainda hoje figura nos melhores compêndios dedicados à 9ª Arte, como um modelo estético e figurativo de excepcional beleza, nomeadamente a sua grande série Corentin Feldoë, nascida em 1946, com o primeiro número da revista Tintin.        

Sujeito a profundas crises de depressão, que limitavam a sua capacidade de trabalho e a vontade de obedecer às exigências dos editores e do público — fazendo-o trocar com frequência as histórias aos quadradinhos pela pintura, onde encontrava um lenitivo para as suas frustrações como autor de BD —, Cuvelier - Epoxy     634Cuvelier realizou também algumas histórias de cariz mais adulto, entre elas a admirável Epoxy, cujo argumento, proposto por Jean Van Hamme, lhe permitiu ilustrar um tema em que podia dar largas à sua mestria no desenho anatómico e à voluptuo- sidade das formas femininas.

Tintin nº 9 (1949)Em 1984, a Lombard, editora para a qual Cuvelier trabalhou durante grande parte da sua carreira, de- dicou-lhe um magnífico livro recheado de ilustrações, Corentin et les Chemins du Merveilleux, por onde des- filaram outras personagens e séries oriundas do seu fervilhante mas atormentado espírito criativo: Line, Wapi, Flamme d’Argent, Tom Colby, etc.

No género juvenil, foi também autor de algumas excelentes histórias curtas, com destaque para um episódio bíblico publicado no Tintin nº 13 (8º ano), de 1/4/1953, com o título “En ce temps-là”. Em Portugal, a sua estreia ocorreu no Cavaleiro Andante nº 171, de 9/4/1955, onde as aventuras de Corentin não tardariam também a ter um lugar especial (depois de fugaz passagem pelo Titã, revista de vida efémera, mas conteúdo digno de nota), continuando posteriormente, ainda com maior destaque, na edição portuguesa da epónima revista belga e no Mundo de Aventuras Especial.

Cuvelier - CA 422  e capa MA 10

Como referimos na abertura, esta Sexta-Feira Santa parece-nos um bom pretexto para homenagearmos Paul Cuvelier e a sua curta mas relevante obra de feição clássica, que tantos admiradores lhe granjeou entre o seu público mais fiel — o leitorado juvenil—, apresentando, na versão do Tintin, a história da Paixão de Cristo, cujo traço primoroso, em que ressaltam a perfeição anatómica e a fidelidade dos décors, parece inspirado pelas magistrais criações dos mestres da escola flamenga.

En ce temps-là  1 e 2En ce temps-là 3  e 4En ce temps-là 5       633

Nota: Por coincidência, o excelente blogue Largo dos Correios, superiormente escrito e orientado pelo Professor António Martinó Coutinho, um mestre da pedagogia e da palavra, que muito tem ensinado sobre BD (mas não só) — e cujas elogiosas referências ao Gato Alfarrabista muito nos orgulham e incentivam, pois não se devem apenas à gentileza entre confrades, por partilharmos agora a blogosfera, onde encetámos uma nova amizade —, o Largo dos Correios, como íamos dizendo, dedicou também um post a Paul Cuvelier, reproduzindo na íntegra esta história de Páscoa e outra preciosidade do Tintin belga, a capa do nº 13 (8º ano), realizada por Hergé (como podem ver e apreciar em http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/04/17/feliz-pascoa-com-tintin/).

Esta coincidência — ou melhor, convergência de ideias e de gostos — não impede que, ao iniciarmos uma nova rubrica, façamos também uma modesta homenagem ao grande mestre da escola de Bruxelas (um caso ímpar entre a equipa artística do Tintin), tal como há semanas já tínhamos planeado.