OS REIS DO RISO – 8

JOSÉ VILHENA – O “BOCAGE” DO SÉCULO XX

José Vilhena (1927-2015) desapareceu do número dos vivos no passado dia 3 de Outubro, com 88 anos de idade, vítima de doença prolongada cujo fim já há muito era esperado.

Vilhena - História UniversalA história do humorismo português, sobretudo no período “negro” em que vigorou o regime fascista do Estado Novo, sofreu uma perda irreparável. Embora Vilhena já não fosse uma figura pública, pois tinha cessado a sua actividade artística há alguns anos, retirando-se discretamente quando o seu estado de saúde começou a agravar-se, o seu nome e a sua obra perduraram na memória de uma vasta legião de leitores até às actuais gerações.

Perseguido pela PIDE e pela Censura, impla- cáveis com todos os que ousavam desafiar “as leis e a sã moral” impostas por um sistema hipócrita e repressivo de governo, Vilhena nunca desistiu, porém, de manifestar o seu inconformismo e a sua ausência de preconceitos e de tabus, que escandalizavam e ofendiam muitos sectores da sociedade provinciana de um Portugal mesquinho e mergulhado em tédio, subserviente ante os poderosos e defensor de uma serôdia moralidade burguesa (e religiosa), que ele tomava sempre como um dos seus principais alvos.

Numa modesta homenagem ao polémico carica- turista e escritor satírico (com dezenas de livros publicados, a maior parte clandestinos, proibidos e “excomungados” pela Censura), que se elevou acima desse anátema e da mediocridade política e social reinante, mesmo depois da “Revolução dos Cravos”, evocamos também algumas capas que produziu, nos anos 50, para uma das revistas humorísticas a que a sua arte e o seu espírito brejeiro ficaram indelevelmente ligados: O Mundo Ri — onde já escrevia textos satíricos num português vernáculo que deliciava os leitores, como o que reproduzimos no final deste post, com o título “Grande e órrivel crime”.

O Mundo ri 83, 92, 96O Mundo ri 94, 99, 101O Mundo ri 103, 104, 105Vilhena poema 567

 

OS REIS DO RISO – 7

WOLINSKI: A VIDA É BELA!

Wolinski - 50 ans de dessins

Nesta rubrica, homenageamos hoje a memória de Georges Wolinski (1934-2015), desenhador e humorista de génio, morto no cobarde atentado contra o Charlie Hebdo, em 7/1/2015. Aos 80 anos continuava a ser o mesmo iconoclasta de sempre.

Morreu no seu posto, ao lado dos seus camaradas, brandindo certamente uma caneta — símbolo da sua coerência, a mesma com que desenhava, escrevia e fazia opinião, há mais de 50 anos — contra as armas que lhe apontavam.

A Légion d‘honneur, a mais alta condecoração francesa, com que foi agraciado em 2005, não podia ter ido parar a peito mais valoroso!

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OS REIS DO RISO – 6

ESTROMPA – O HUMOR À FLOR DA PELE

ESTROMPA photo 920Este mês ficou assinalado pelo brusco desaparecimento de outra notável figura da BD portuguesa, um dos mais singulares humoristas da sua geração, mas de carreira tão discreta como a sua própria personalidade, que — apesar da formação que obteve na Escola António Arroio — procurou seguir novos rumos, fazendo a ponte entre um certo classicismo (de inspiração tradicional) e um conceito mais vanguardista, fortemente marcado pelo estilo underground que caracterizou indelevelmente o seu traço.

Tive o prazer de trabalhar com Estrompa, em perfeita sintonia, nalguns projectos de que guardo boa memória, como O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura (1984-86) — onde ele animou a rubrica Clássicos & Desintegrados —, as Selecções BD (2ª série), da Meribérica/Liber (1998-2001), e o livro de homenagem a Vasco Granja, “Uma Vida… 1000 Imagens”, editado pela Asa em 2003. Durante uma relação de amizade encetada muitos anos antes, sempre admirei o seu profissionalismo, o seu sentido de humor, a sua franqueza, a sua honestidade, o seu respeito pelo próximo, a sua inata simplicidade.

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Esta foi também a faceta mais marcante do seu carácter, distinguindo-o de outros autores do seu tempo que tiveram carreira pública mais notória, não porque o excedessem em mérito e brio profissional, mas porque quiseram estar na primeira linha, enquanto que ele sempre se remeteu a um obscuro e modesto recolhimento, embora atravessado por Shock fanzine 28 (Estrompa)alguns flashes de brilhante inspiração, como denota o seu trabalho gráfico nalguns fanzines (Shock, Banda, CafénoPark), e sobretudo a mais emblemática das suas criações: uma série policial recheada de humor negro, com as confidências, bem apimentadas de sexo, anarquia e violência, de um satírico (e sátiro) anti-herói conhecido pela alcunha de Tornado.

Nas Selecções BD, onde esta série fez uma breve reaparição (nº 9, Julho 1999), enquadrada por um exce- lente estudo de Geraldes Lino, Estrompa realizou também alguns trabalhos dignos de nota (mas a cores, registo pouco comum no seu currículo), cujo mote obedecia a uma regra simples: a apresentação do sumário em jeito de cartoon, numa dupla tira, com tema livre. Tarefa em que ele se sentiu como peixe na água, rivalizando com outros autores que também se encarregaram desse espaço criativo e de síntese gráfica, muito apreciado pelos leitores da revista.

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Como preito à sua memória e ao seu talento artístico, num género em que se cotou como um dos melhores humoristas da sua geração, tanto pelo estilo inconfundível como pela prosa vernácula, sem “meias tintas” — que nascia espontaneamente do seu espírito anti-conformista, despido de preconceitos moralistas, do seu olhar singelo e, ao mesmo tempo, límpido e maduro, capaz de transformar a realidade urbana numa crónica brejeira de costumes, matizada de comédia policial —, aqui ficam também dois sumários a cores que a Selecções BD apresentou nos nºs 28 e 29 (2001), e o episódio de Tornado 1989 (título completo da série) publicado no nº 9 da mesma revista.

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OS REIS DO RISO – 5

OS PIGMEUS E O PAPAGAIO… OU UM NÁUFRAGO SOLITÁRIO QUE PERDEU AS CHAVES AO REGRESSAR A CASA

Max (Spirou)Uma das séries mais divertidas e originais da BD europeia é, sem dúvida, Max, o Explorador (Max l’Explorateur), criada por Guy Bara, em meados dos anos 50, nas páginas dos jornais France-Soir e Le Soir, e que posteriormente apareceu em revistas de BD como o Tintin e o Spirou. Durante alguns anos, Bara explorou com êxito a fórmula dos gags numa única página, a exemplo de outras séries mediáticas, mas trilhando sempre caminhos inovadores e de fecunda inspiração. Para o Spirou chegou a realizar, em 1964 e 1965, duas histórias à suivre, que saíram em álbum com os títulos Max et le Triangle Noir e L’Orteil de Vichnou.

Publicada também no Tintin português, a série não passou despercebida aos apreciadores do humor com uma pitada de non-sense e uns grãos de surrealismo, na melhor tradição da escola inglesa, de que Bara foi um discípulo directo e um incondicional admirador.

Max (Tintin)No meu caso, sempre tive especial predilecção por esta série, pelo estilo linear e eficaz de Bara, pelo seu burlesco sentido de humor, pelo exemplar domínio da farsa (quase) sem palavras, em que usava magistralmente balões icónicos e onomatopeias, e sobretudo pelo seu pitoresco personagem, que lembra, sob vários prismas, a figura de um “rei” da pantomina, na época dourada do cinema mudo: Buster Keaton, o inimitável Pamplinas, como era conhecido em Portugal e noutras partes do mundo.

As páginas que hoje apresentamos, extraídas de vários números do “nosso” Tintin, são um bom exemplo da linguagem mímica (e minimalista) de Bara, um autor completo que soube criar um herói diferente, numa escola humorística tão rica e singular como a franco-belga, compondo uma original comédia de aventuras recheada de bizarras peripécias, em lugares exóticos onde Max põe à prova o seu espírito de explorador, sem nunca perder a típica fleuma.

Max 1Max 2Max 3

 

OS REIS DO RISO – 4

GUARDADO ESTÁ O «PASSAROCO»…

Que melhor legenda para esta sátira humorística de Joaquin Lavado — mais conhecido universalmente pelo nome de Quino, o “pai” de uma garota adorada por leitores de todas as idades (e nacionalidades), a Mafalda, que vê o mundo e os seus amigos com olhos de adulto — do que o estribilho de uma das mais populares “canções de protesto” de Zeca Afonso, ainda actual 40 anos depois do 25 de Abril: Eles comem tudo… eles comem tudo… eles comem tudo… e não deixam nada!

cinegética - Quino 597

OS REIS DO RISO – 3

NEM TUDO O QUE LUZ É OURO…

E para acabar com sorrisos e boa disposição mais um ano de “vacas magras”, em que muitos políticos e doutas personalidades continuaram a repisar os mesmos discursos, vendendo promessas e ilusões, aqui têm uma história de tesouros, com o traço — que alguns dos nossos leitores poderão não reconhecer — de um dos mais geniais humoristas da BD portuguesa: Artur Correia.

Este curto episódio foi publicado no número de Natal do Camarada (2ª série) de 1958, revista em que floresceu uma notável escola de desenhadores humorísticos, com Artur Correia, Carlos Roque, Fernandes Silva e Ricardo Neto no topo da lista. 

Um bom ano de 2014 para todos são os votos d’O Gato Alfarrabista!

Artur Correia - O tesouro 1 e 2

OS REIS DO RISO – 2

HÄGAR E ASTÉRIX NA ESCÓCIA

Na mais recente aventura de Astérix e Obélix editada pela ASA, os dois irredutíveis gauleses (agora, com Uderzo já na reforma, confiados a uma nova e talentosa dupla de criadores), foram de abalada até à Escócia (aliás, Caledónia), misterioso e longínquo país nórdico onde viviam os Pictos, um dos povos mais belicosos desse tempo — e com costumes tão estranhos que deixaram atónitos os nossos heróis.

Hagar Conquista a Europa capaPois também noutra famosa série humorística, Hägar the Horrible (ou Hägar, o Abominável, como foi traduzida algumas vezes, entre nós), da autoria de Dick Browne, um mestre do género, vencedor do prémio Reuben (que fisicamente até se parecia com o seu personagem), a Escócia surge, às vezes, como cenário. Eis um exemplo, quando o truculento chefe dos Vikings, sempre pronto para a guerra e para a farra — sem contar com outras actividades que lhe permitem passar longas temporadas fora de casa, onde quem manda é a sua esposa Helga, uma espécie de Valquíria —, encontra, ao invadir novamente a Escócia, uma “pavorosa” criatura que logo lhe desperta a fúria guerreira. E o resultado está à vista… nesta página de 13/1/1974.

Hagar, o abominável247

Astérix e Obélix, ao ouvir tão estridentes acordes, portaram-se de maneira mais civilizada (salvo alguns tabefes de Obélix, numa primeira reacção, bastante moderada para o seu feitio!), ou não fossem os Gauleses, como todos sabem, um povo superior aos “horríveis” Vikings… apesar de não terem muito respeito pelo seu bardo Assurancetourix!

Astérix entre os pictos - 1248

OS REIS DO RISO – 1

QUANDO OS PROFESSORES FAZEM GREVE…

… O RESULTADO ESTÁ À VISTA! Podia ser esta a legenda da ilustração que mais abaixo vos apresentamos, uma das muitas e divertidas cenas com que Bob de Moor – que foi, como sabem, um dos mais próximos amigos e colaboradores de Hergé – animou as capas do Tintin belga, durante um largo período, chegando às vezes o seu estilo a confundir-se com   o do próprio Mestre.

Esta capa diz respeito ao Tintin nº 4, 5º ano, de 26/1/1950.

TINTIN LA CLASSE SANS MAÎTRE cover

Claro que no editorial desse número, com o título “La classe sans maître”, a “lição” era outra e fazia-se a apologia dos alunos bem comportados, através da curiosa história de um professor, numa pequena localidade suíça, que teve de ausentar-se da escola por motivos de força maior, mas em vez de escolher outro mestre para o substituir deixou uma carta aos seus discípulos, exortando-os a não seguir o exemplo dos mais estouvados, na sua ausência, e a aproveitar a liberdade que eles lhe dava para mostrarem que eram dignos dessa prova de confiança.

TINTIN LA CLASSE SANS MAÎTRE 2Segundo reza o texto, como podem ler na imagem (bastando fazer zoom com um click), os alunos da tal escola primária não fizeram “orelhas moucas” aos conselhos do seu professor e dedicaram-se com afinco ao estudo, mesmo sem vigilância externa, enquanto o mestre esteve ausente… ao contrário da indisciplinada turma que       Bob de Moor retratou com a sua veia humorística e a sua fértil fantasia, para gáudio dos leitores do Tintin.

Desenhador extremamente versátil, com algumas obras de cariz realista (como Conrad le Hardi e Cori le Moussaillon) cujo traço não desmerece comparado com o de Jacques Martin e outros autores da época, especialistas em temas históricos, Bob de Moor distinguiu-se sobretudo pela sua fidelidade à “linha clara” e ao estilo que cultivou no convívio e na aprendizagem com Hergé e do qual brotaram criações delirantes como L’Enigmatique Monsieur Barelli, Les Aventures du Professeur Tric e Pirates d’Eau Douce.

Bob de Moor no seu estúdiorCom esse estilo mimético, consagrou-se    à tarefa de actualizar os cenários e o aspecto dos personagens nalgumas aventuras de Tintin que redesenhou a pedido de Hergé, como L’Ile Noire”, por exemplo. E foi também o braço direito do Mestre de Bruxelas em episódios que se tornaram míticos como “On a Marché Sur la Lune” e “Coke en Stock”.

As rocambolescas aventuras, em tom semi-realista, do “misterioso” Senhor Barelli, que nasceram no Tintin belga        nº 30 (5º ano), de 27/7/1950, foram publicadas em álbum pela Bertrand (Barelli e os Agentes Secretos) e pelo Tintin, da mesma editora, depois de uma fugaz aparição no Flecha nos 12 a 37 (1954-55), pequeno semanário dirigido por Roussado Pinto, que teve vida breve e deixou quase todas as suas histórias incompletas. Nessa estreia, Barelli mudou de nome, transformando-se no Senhor Barrelas!

TINTIN E PAG. Nº 30

Flecha 12 e 13

E já que estamos em “maré” de professores, aqui têm uma página de Les Aventures du Professeur Tric… série bem divertida, por sinal, criada em 1950 e constituída geralmente por gags curtos, mas que também teve episódios com mais fôlego, em que a comicidade deste personagem um pouco excêntrico e amigo da natureza atingiu o ponto mais alto.

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Algumas dessas peripécias deleitaram também os leitores do Cavaleiro Andante, onde o Professor Tric foi baptizado com o nome de Sr. Pantaleão, fazendo boa figura ao lado de uma destemida pandilha de estudantes e do Professor Ideias, um extravagante inventor ainda mais “lunático” do que o seu famoso colega Professor Tournesol.

CA 111 E 121

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CA 203 e Natal acidentado

E eis mais duas páginas com o traço de Bob de Moor, extraídas da história “Piratas de Água Doce”, outra divertida criação do grande artista flamengo, que o Cavaleiro Andante publicou entre os nºs 479 e 494 (1961).

CA Piratas de Água doce 1 e 2