OS REIS DO RISO – 3

NEM TUDO O QUE LUZ É OURO…

E para acabar com sorrisos e boa disposição mais um ano de “vacas magras”, em que muitos políticos e doutas personalidades continuaram a repisar os mesmos discursos, vendendo promessas e ilusões, aqui têm uma história de tesouros, com o traço — que alguns dos nossos leitores poderão não reconhecer — de um dos mais geniais humoristas da BD portuguesa: Artur Correia.

Este curto episódio foi publicado no número de Natal do Camarada (2ª série) de 1958, revista em que floresceu uma notável escola de desenhadores humorísticos, com Artur Correia, Carlos Roque, Fernandes Silva e Ricardo Neto no topo da lista. 

Um bom ano de 2014 para todos são os votos d’O Gato Alfarrabista!

Artur Correia - O tesouro 1 e 2

O HUMOR DE AUGUSTO TRIGO – 1

Image converted using ifftoanyGeralmente considerada mais acessível, em termos criativos, do que a BD de estilo realista (o que é um erro), a BD humorística chega, geralmente, a um universo de lei- tores muito mais vasto, o que explica o êxito de grandes séries de renome mundial, publicadas em milhares de jornais e revis- tas, e as exigências que elas impõem, no dia a dia, aos seus autores — visto que a cons- trução de gags para um trabalho dessa natureza, circunscrito quase sempre a um pequeno grupo de personagens e a cená- rios que pouco se renovam, requer doses quase ilimitadas de imaginação. Por isso, são poucos os exemplos de artistas que conseguem, como Augusto Trigo, dividir-se entre os dois campos, demonstrando uma polivalência, uma eficácia e um engenho que tornam difícil escolher a faceta que pesa mais na balança das nossas preferências.

São esses três factores que queremos aqui realçar, apresentando alguns exemplos da vertente humorística, para muitos desconhecida, de um grande e versátil desenhador, de cujas mãos saem sempre trabalhos dignos da nossa admiração — como os cartões de Boas Festas com que nos tem presenteado, desde há vários anos, alguns dos quais (com temas africanos do seu particular afecto) queremos partilhar também convosco, nesta despedida de 2013, desejando a Augusto Trigo a continuação de uma carreira repleta de êxitos, em qualquer das áreas onde sobressai o seu talento.

Trigo Natal 1Trigo Natal 2Trigo Natal 3    404Trigo Natal 4    405Trigo Natal 5  407Trigo Natal 6  408

IN MEMORIAM

JOSÉ ORTIZ (1932-2013)

ORTIZ 1ª IMAGEM

Hombre - José OrtizO grande mestre do claro-escuro, o desenhador de estilo gótico que assombrou os fãs da Creepy e da Eerie com as suas histórias de terror; o artífice de pesadelos futuristas e de um hombre que vagueia num mundo em estado selvagem, assolado pelos mesmos males que podem, um dia, cair sobre o nosso; o especialista do western que deu novo vigor à imagem de um ícone da BD italiana, o “sexagenário” Tex Willer — repousa agora tranquilamente nas lonjuras desérticas de Tombstone, junto do seu principal companheiro de jornada, António Segura (1947-2012), e daquelas lendárias figuras do autêntico Far West que reviveu com pujante realismo: Wyatt Earp, Bat Masterson, Buffalo Bill, Wild Bill Hickok, Jesse James, Butch Cassidy, Sundance Kid, Billy the Kid

Hombre +Tex Pág. (José Ortiz)Ortiz - Wild Bill Hickok 1+2Ortiz - Buffalo Bill 1 + 2Ortiz - Wyatt Earp+ Billy the Kid 397Tex - por José Ortiz

 

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 11

Natal  Diabrete 1950     383

A encerrar o primeiro ciclo desta rubrica — que abarcou um longo período, de 1933 a 1950 —, eis mais uma homenagem que fazemos ao Diabrete, a revista infanto-juvenil que todos os anos, por tradição, oferecia aos seus leitores as mais belas capas de Natal.

Desde 1941 que essas capas eram realizadas por Fernando Bento, cujo génio gráfico, cénico e ilustrativo não parava de evoluir, rivalizando com o dos seus colegas artísticos, ao serviço de revistas com as quais o Diabrete mantinha animada competição, como O Mosquito, o Tic-Tac, O Papagaio, O Faísca e O Senhor Doutor.

Natal  Diabrete  50 - poema Natal Feliz 392Algumas, apesar da sua longevidade, foram ficando pelo caminho, porque não souberam adaptar-se aos ares do tempo, aos novos gostos do público, que O Mosquito e o Diabrete tinham apurado com a apresentação de novos heróis, em aventuras mais modernas e trepidantes, ilustradas por artistas de grande craveira, e com a importância cada vez maior que davam às histórias aos quadradinhos. Em 1950, a luta entre os dois grandes rivais continuava acesa, com ligeira vantagem d’O Mosquito, que contava ainda com um importante trunfo, as excelentes criações de Eduardo Teixeira Coelho — artista ímpar no panorama nacional —, e soubera renovar-se, acompanhando a evolução das próprias modas juvenis, ao apostar em séries inglesas e americanas de estilo mais adulto (como o seu congénere Mundo de Aventuras, um novo título que começava a disputar seriamente o domínio do mercado).

Mas, mantendo viva a tradição, o Diabrete atingia sempre um ponto alto com os seus números especiais de Natal, que tinham o dobro das páginas e apresentavam um sumário bem recheado, com episódios completos e séries em continuação, além dos contos, das rubricas mais variadas, de interesse lúdico e didáctico, e dos poemas de Adolfo Simões Müller, como era norma na revista dirigida por este fervoroso educador da juventude.

Natal  Diabrete  O tesouro do cap Rosa [ minas de SalomãoNatal  Diabrete  50 - Bob e bobette390

Não fugindo à regra, o número de Natal de 1950 — que seria o penúltimo no já longo historial do Diabrete — encheu de júbilo os leitores que o receberam como prenda nesse dia festivo, oferecendo-lhes magníficas aventuras como “O Tesouro do Cavaleiro da Rosa” (com Tim-Tim à procura do segredo do Licorne), “O Mistério do Quadro Flamengo”, episódio de outra famosa série belga (Bob e Bobette, criação de Willy Wandersteen), “As Minas de Salomão”, ilustradas por Fernando Bento, a partir do famoso romance de Rider Haggard (que muitos ainda atribuem a Eça de Queirós), “Histórias dos Velhos Deuses”, as mitológicas proezas de Teseu, herói de Atenas, revividas pelo traço de Marcello de Morais, “Aventuras do Capitão Hatteras”, versão de uma obra de Júlio Verne, realisticamente adaptada por A. Maniez — que também ilustrou uma das histórias completas deste número, com o título “Os Ajudantes do Menino Jesus” —, e mais, muito mais, num total de 32 páginas que todos os fiéis amigos do “grande camaradão” liam com deleite, mergulhados num mundo de diversão e fantasia que até os fazia esquecer as outras prendas natalícias.

Natal  Diabrete  50 - Ajudantes M Jesus 1 e 2

Este número — cuja capa, interrompendo a série de magníficas ilustrações de Fernando Bento, foi o trabalho de estreia, primoroso na sua simplicidade, de um novel colaborador, José Manuel Soares, a quem estava reservado um auspicioso futuro artístico — inseria ainda um Presépio ilustrado por Pili Blasco, irmã do mestre espanhol Jesús Blasco, à qual se deviam duas histórias de género romântico (mas que os rapazes também apreciavam): “O Príncipe Valente e a Menina Cega” e “O Ferreiro de Coração de Oiro”.

Natal  Diabrete  50 - Presépio 1  388

Por último, não podemos esquecer o tradicional poema de Adolfo Simões Müller, cujas evocações da quadra natalícia tinham sempre uma toada diferente (podem lê-lo na abertura deste post), e a divertida história “Diabrete Pai Natal, em que o estro humorístico de Fernando Bento, sem perder o seu cunho próprio, foi buscar inspiração a uma farsa de Cuto, o célebre herói criado por Jesús Blasco, que O Mosquito, em peripécias bem mais realistas, continuava a apresentar nas suas páginas.

Natal  Diabrete  50 - pai natal bento391

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 10

Natal - O Gafanhoto 1948 371

Com data do dia de Natal de 1948, apareceu nas bancas o garrido número especial de uma nova revista de pequeno formato — idêntico ao que O Mosquito adoptara anos antes —, e que era dirigida por um experiente profissional das artes gráficas e da imprensa infanto-juvenil: António Cardoso Lopes (Tiotónio).

Na ficha técnica, o seu nome aparecia igualmente como editor, sob o patrocínio das Edições O Mosquito, localizadas na mesma sede, à Travessa de S. Pedro – 9, em Lisboa, e de que ele continuava a ser proprietário. Este facto insólito e incompreensível para muitos leitores desse tempo devia-se à brusca cisão entre os dois directores d’O Mosquito, a qual impelira Raul Correia, com armas e bagagens (isto é, com a revista “debaixo do braço”), a dizer adeus ao seu sócio e a assumir com outros apoios a continuidade da mais antiga publicação infanto-juvenil portuguesa.

Tendo ficado sem o título que mais êxito e prestígio dera à sua editora, mas dono de uma oficina com equipamento do melhor que havia na época, Cardoso Lopes não perdeu tempo a engendrar novos projectos e assim nasceu O Gafanhoto, em 11/12/1948, criado à imagem d’O Mosquito, na fase que durara entre 1942 e 1945, mas com outro conteúdo, em que ainda se sentia a mão de Tiotónio no plano gráfico e artístico, mas sem um elemento primordial e que fazia toda a diferença: o talento literário de Raul Correia.

Natal - O Gafanhoto poema Correia 372

Curiosamente, neste número de Natal (com uma capa desenhada por Cardoso Lopes, em que o bonacheirão velhote de fartas barbas brancas exibia algumas preciosidades saídas da “fábrica de sonhos” das Edições O Mosquito), um dos principais temas alusivos à quadra era uma poesia de Raul Correia, com o título “Noite de Natal”, publicada em tempos idos, com o cognome de Avozinho, no jornal que ainda lhe pertencia. A única novidade natalícia foi o Presépio apresentado em separata, modesto e simples, à semelhança do próprio “insecto” recém-nascido, ainda a exercitar timidamente as suas patas, na esperança de saltar maiores distâncias.

Natal - O Gafanhoto Presépio 373

Embora não tivesse tido vida longa (por razões que nunca foram completamente esclarecidas), O Gafanhoto conseguiu granjear o entusiasmo de um vasto grupo de simpatizantes, graças não só ao seu preço e à sua periodicidade concorrenciais com os d’O Mosquito e do Diabrete, mas também a algumas excelentes histórias que apresentou nas suas páginas, nomeadamente a que tinha por título “As Aventuras de Gafanhoto” — adaptação livre (para “encher o olho” ao leitor) de uma série americana bem conhecida, com um simpático chinês que apreciava tiradas filosóficas, chamado Ming Foo, e que era desenhada por Nicholas Afonsky.

Natal - O Gafanhoto As Aventuras de G 374

Na última página deste número, sob o título Necas, Tonecas & C.ª, surgiam outros célebres personagens oriundos das mesmas fontes, que também já tinham feito as delícias dos leitores d’O Mosquito. Cardoso Lopes, cujos trunfos como editor de uma nova revista eram ainda poucos, soube apostar numa das séries cómicas mundialmente mais famosas, desenhada, nesse período, por Harold Knerr, mas cujo nome original — Katzenjammer Kids — continuava a ser desconhecido da maioria dos jovens portugueses.

As tropelias dos dois garotos endiabrados, cujo maior divertimento era pregar partidas ao façanhudo Capitão Barbaças, sem receio das reprimendas nem dos castigos dos adultos, provocaram muitas gargalhadas e foram um dos principais factores de êxito d’O Gafanhoto, nessa primeira etapa da sua existência.

Natal - O Gafanhoto Necas e Tonecas 375

A HISTÓRIA DO PRESÉPIO EM BD

Presépio Camarada 1963Num dia tão especial como o de hoje, a nossa escolha não poderia ter recaído em melhor exemplo do significado profundo do tema da Natividade e da mensagem redentora que esta fez chegar a todo o mundo e ao coração dos homens, através de imagens tão humildes e enternecedoras como a do Menino Deus nos braços de Sua Mãe ou deitado nas palhas de uma pobre manjedoura.

A história que seguidamente apresentamos,    O Poverello e o Presépio de Greccio“, com a assinatura de dois mestres da BD franco-  -belga, Yves Duval (texto) e William Vance (desenhos), foi publicada no número de Natal do Camarada, 2ª série, 6º ano, dado à estampa em 28 de Dezembro de 1963, com uma bela capa de Júlio Gil, e narra a cruzada de dois frades mendicantes (um deles chamado Francisco de Assis) e de outros homens de boa vontade que, há mais de oito séculos, levaram a cabo uma missão cheia de fé, acendendo, pela primeira vez, na noite escura da Idade Média as luzes do Presépio de Natal.

No Tintin belga, onde Vance iniciou em 1962 a sua brilhante carreira, este episódio surgiu no nº 52, de 25 de Dezembro desse ano, com o título Le Poverello et la Crèche de Greccio”.

Il poverello1 e 2Il poverello 3 e 4

Noutro número de Natal do Camarada, este de 1958 — ano do lançamento da 2ª série da revista da Mocidade Portuguesa, dirigida por Marcelo de Morais —, a história da criação do Presépio foi ilustrada por um grande desenhador português, cujos magníficos trabalhos recheiam muitas revistas da chamada “época de ouro”, incluindo o Camarada, e que ainda hoje, apesar dos seus 85 anos, continua em actividade.

Pelo traço harmonioso de José Garcês, “Aquele Rapaz de Assis”, título do episódio que podem visionar a seguir, conta outra versão de um acontecimento que as lendas e as narrativas históricas atribuem a S. Francisco, o humilde monge que trocou a riqueza, a boémia e a companhia dos mais afortunados pela autêntica doutrina de Jesus Cristo, tornando-se um dos mais fervorosos apóstolos da caridade e do amor ao próximo.

O Rapaz de Assis 1 e 2

CURIOSIDADES DO “DIABRETE” – 7

Diabrete título concurso 12 meses 1

A página que hoje apresentamos de um dos mais populares concursos realizados pelo Diabrete, com ilustrações de José Cambraia e duas quadras que continham uma espécie de adivinha sobre o nome de cada mês, que era preciso apor numa legenda em rodapé — tarefa bastante fácil, aliás, mesmo sem ler os versos, graças à inspiração artística e às alegres imagens de Cambraia —, esta página, dizíamos nós, merecia ter sido publicada na solene e festiva data que o seu conteúdo evocava: a noite da Consoada, das grandes reuniões familiares, dos risos, do prazer e da emoção infantil, na expectativa de que o Pai Natal descesse outra vez, noite alta, pela chaminé, com o seu saco carregado de prendas. Um ente real, na mente das crianças, mas “invisível”, que nunca se deixava surpreender durante o cumprimento da sua nobre missão, na noite mais bela do ano.

Em vez disso, esta página saiu no Diabrete nº 804, de 14 de Março de 1951, muitos meses antes da data tão ansiada, apenas como mais uma etapa de um concurso que também estava recheado de presentes (ou prémios) valiosos. Tantos anos depois, quis o nosso Gato Alfarrabista dar-lhe o lugar que merece, apresentando-a nesta noite tão especial, com a fé de que alguns jovens desse tempo (hoje já de cabelos brancos e rodeados de netos) que nos honrarem com a sua companhia, não tenham ainda esquecido o Diabrete nem, quiçá, o sensacional Concurso dos 12 Meses — desdobrado em três — que tanto alvoroço provocou entre os milhares de leitores do “grande camaradão”.

Concurso dos 12 meses - Natal

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 9

Natal - Diabrete 1947

Eis a capa do Diabrete nº 467-468, de 20/12/1947, em que Fernando Bento, mais uma vez, representou de forma ímpar o mundo infantil, associado aos festejos, aos brinquedos, às manhãs radiosas e à eufórica alegria da quadra “mais bela do ano”.

Natal - Diabrete 1947 Tarzan

Este número de Natal do Diabrete, o grande rival d’O Mosquito, transformado em bissemanário desde o nº 262, sob a direcção de Adolfo Simões Müller — e preenchido por outros excelentes colaboradores artísticos, como Emilio Freixas, Luís de Barros, Vítor Péon e Burne Hogarth, o genial desenhador de Tarzan, um dos heróis mais antigos que apareciam nas suas páginas —, foi para mim (numa altura em que começava a sentir-me um pouco desiludido com O Mosquito) uma edição muito especial, por causa, antes de mais, do traço esfuziante de Fernando Bento, então no auge dos seus dotes gráficos, do seu engenho cénico e da sua fértil fantasia, que ilustrou também a preceito dois originais de Simões Müller (cujo estro poético e literário era muito apreciado pela juventude): um conto para os mais pequenos, com o título “O Natal dos Brinquedos”, e dois suaves sonetos publicados na contracapa, para juntar à série que Müller escrevia, por tradição, em todos os números natalícios do Diabrete.

Natal - Diabrete 1947 brinquedos e poema muller

Outros motivos especiais de interesse desta edição, com 32 páginas (número duplo), eram as histórias de Vítor Péon que o recheavam de uma ponta à outra (nada mais nada menos do que quatro), principalmente uma vibrante aventura de índios e cowboys, com o título “A Revolta dos Navajos”, cujas oito páginas (metade das quais a cores) formavam um novo volume da magnífica colecção de fascículos com histórias completas que o Diabrete costumava oferecer como brindes de Natal.

Natal - Diabrete 1947 -A revolta dos Navajos 1 e 2Natal - Diabrete 1947 Texas Moore

Outro memorável brinde deste número, bem condimentado de acção, aventura, humor e fantasia, foi o calendário para 1948 publicado nas páginas centrais, mais um trabalho assinado por Vítor Péon, mostrando, para surpresa e gáudio dos leitores do Diabrete, a sua faceta humorística, em doze pitorescas imagens transbordantes de jovialidade.

Natal - Diabrete 1947 Calendário 1

 

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 8

Pluto nº 5

Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

Assim é feito o Pluto - 2  346

Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

Pluto - Roubo e Crime [ 3 balas

Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

Pluto - Trovão e Felizardo

Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

Pluto - Mãezinha + hoje não!1

A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números, mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde conseguiu introduzir algumas HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

Pluto - Presépio

A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, quase 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima revista.

E, como já estamos a curtos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar a todos os nossos leitores e amigos os primeiros votos de Boas Festas do Gato Alfarrabista.

Présépio 2 APrésépio 3