A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 15

VASCO DA GAMA E O CAMINHO MARÍTIMO PARA A ÍNDIA

Conforme informação recolhida, com a devida vénia, no conhecido blogue Divulgando Banda Desenhada, eficientemente coordenado por Geraldes Lino, nosso amigo de longa data e bedéfilo dos “quatro costados”, a página supra, dedicada ao épico feito do navegador português Vasco da Gama, foi publicada na revista Eagle nº 50 (22/3/1951).

Embora o facto mereça relevo — pois os ingleses sempre ligaram mais importância aos seus feitos e aos seus heróis marítimos do que aos de outras nações —, não deixa de chamar a atenção a falta de autenticidade de alguns pormenores, a começar, desde logo, pelos navios, que pouco se parecem com as pequenas e frágeis caravelas portuguesas, de velame reduzido, facilmente manobráveis, mesmo no mar alto; pelo contrário, as imagens desta página lembram os pesados galeões dos séculos XVI e XVII com que os marinheiros e corsários ingleses conquistaram, a ferro e fogo, o domínio dos mares.

Na última vinheta, a fantasia do desenhador (cujo nome nós também ignoramos) foi ainda mais longe, ao transformar Belém, um local quase ermo, nessa época, num subúrbio ridente e populoso da capital portuguesa — que o êxito das expedições marítimas à Costa da Mina tinha transformado numa das mais ricas da Europa desse tempo.

Neste “quadradinho”, a imagem de quatro navios é outro atropelo ao rigor histórico, pois, na verdade, apenas dois regressaram da longa e tormentosa travessia até à Índia, em busca “de especiarias e de cristãos”. Os outros tiveram destino diferente: a caravela de Bartolomeu Dias deixou a frota, logo no início da viagem, para se dirigir à feitoria de S. Jorge da Mina, enquanto que a nau S. Rafael, capitaneada por Paulo da Gama, irmão do capitão-mor da armada, foi destruída pelo fogo, na costa de Mombaça, por ordem de Vasco da Gama (tal como acontecera à nau dos mantimentos, na viagem de ida, ao aportarem à Angra de São Braz), porque já eram poucos os marinheiros, no regresso da Índia, tornando ainda mais difícil a manobra e pondo em risco o sucesso da expedição.

Mais haveria a dizer, mormente quanto à estadia dos portugueses em Calecute, que não foi tão pacífica e festiva, nem tão longa, como o autor do texto dá a entender. Mas ficamos por aqui, sublinhando apenas, mais uma vez, a falta de rigor documental e histórico desta rubrica, pois a heróica epopeia de Vasco da Gama — magistralmente descrita por E.T. Coelho na sua obra-prima “O Caminho do Oriente” (Os Lusíadas da BD Portuguesa) — merecia outra abordagem, numa revista tão emblemática como a Eagle.    

Razão tem aquele velho ditado português: “no melhor pano cai a nódoa”…

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JOSÉ GARCÊS E A HISTÓRIA DE SILVES EM BD

Texto de José de Matos-Cruz

historia-de-silvesUm privilegiado cruzamento entre modos actuais de informação, meios consagrados de divulgação e métodos artísticos de expressão, consuma-se em A História de Silves em BD. Novo álbum de José Garcês — editado pela Câmara Municipal de Silves — que, assim, concretiza outras propostas de revitalização, em incidências sociais, políticas, criativas, e nas primordiais implicações comunitárias. Em referência e testemunho, «a história de um território com uma ocupação humana muito antiga e rica de factos e episódios, que remonta à Idade do Ferro, e por onde passaram gregos, fenícios, cartagineses, romanos e muçulmanos. Dá a conhecer importantes figuras da cultura e do desporto locais, bem como nos encanta com a célebre Lenda das Amendoeiras em Flor»… Eis uma aliciante incidência, pela concepção de mestre José Garcês, atribuindo à figuração narrativa uma componente interactiva, quanto à função pedagógica e ao entretenimento.

Com uma carreira intensa e multifacetada, que recentemente celebrou 70 anos, José Garcês considera que «o autor de banda desenhada procura transmitir, ao público em geral, uma mensagem visual apoiada num texto, e essa mensagem não terá de ser igual para um adulto ou uma criança com menos de dez anos. Se o conseguir, melhor para todos».garces-em-silves

Actualmente com 88 anos, e sendo ainda pintor, ilustrador e autor de construções de armar, José Garcês tratou em quadradinhos, por revistas, jornais e separatas, ou em livro e álbum, com uma importante vertente didáctica e notáveis valências gráficas e estéticas, os mais variados assuntos e géneros, desde a biografia, a natureza, a arquitectura e os temas militares, à História de Portugal, das cidades e vilas, ou à ênfase literária.

(Nota: texto e imagens reproduzidos, com a devida vénia, do blogue Imaginário-Kafre (http://imaginario-kafre.blogspot.pt/2016/12/imaginario-extra-jose-garces-e-historia.html), orientado por José de Matos-Cruz.

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 14

O HERÓICO CAVALEIRO D. NUNO (1)

Crónica do Condestável 725A figura do ilustre Condestável D. Nuno Álvares Pereira — que o escritor António Campos Júnior crismou de “guerreiro e monge” — foi dada a conhecer à juventude em várias histórias aos quadradinhos (como antigamente se chamava à narração figurativa) e nalguns livros de que ainda conservo grata memória, como os de uma popular colecção da Livraria Sá da Costa, que teve largas tiragens, com títulos dedicados à Odisseia, de Homero, à Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, à História Trágico-Marítima, aos Lusíadas e a muitas outras obras de cariz histórico, entre as quais a Crónica de Nuno Álvares Pereira, com texto de Jaime Cortesão e ilustrações de Martins Barata.

A vida do Condestável 727Foi nesse livro e noutro de leitura ainda mais apaixonante, “A Vida Grandiosa do Condestável”, escrito por Mário Domingues — autor de nomeada no campo da narrativa histórica, com vasta obra publicada pelas Edições Romano Torres —, que aprofundei os meus conhecimentos sobre um dos maiores vultos da nossa História, cujo papel na luta pela independência, durante a grave crise de 1383-85, foi ainda mais decisivo que o do Mestre de Avis, futuro rei D. João I. De facto, sem o Condestável, cujo patriotismo foi um exemplo para muitos portugueses daquela época, que hesitavam entre a facção do Mestre e a do rei de Castela, Portugal estaria condenado à derrota e ao domínio estrangeiro. Mas hoje, num tempo estranho e sem alma, em que as memórias desses feitos quase se apagaram, já nem se comemoram as grandes batalhas, como Aljubarrota e Atoleiros, que ilustram a grandeza do Condestável, do seu génio militar e político, e a bravura das hostes que fielmente o seguiram, contra a vontade de muitos nobres e das próprias Cortes.

Crónica do Condestável 2 726Como escreveu Jaime Cortesão na “Crónica do Condestável” (oriunda de autor anónimo do século XV): “(…) então a honra dos fidalgos estava em amar e ser fiel a seus senhores ou reis, fonte de todos os seus bens e privilégios. Apenas os cidadãos burgueses e a gente miúda, os que não eram filhos de algo, punham a honra em amar e defender a terra em que nasceram e as liberdades que haviam conquistado”.    

Desde essas leituras, dediquei especial interesse às histórias ilustradas sobre a figura do Condestável, algumas das quais já recordámos neste blogue (como a memorável versão de Fernando Bento publicada, em 1950/51, no Diabrete).

Por sinal, este eclético artista já tinha abordado o tema numa patriótica rubrica intitulada “Histórias da Nossa História”, com textos de Adolfo Simões Müller, que deu destaque no nº 147 do Diabrete (23-10-1943) às proezas de cavalaria do jovem Nuno Álvares Pereira.

Seguidamente apresentamos mais algumas páginas, com o traço de outros desenhadores (e os cá de casa parece terem sido os únicos a interessar-se, até agora, por este capítulo da nossa nacionalidade, menos universal do que a longa gesta dos Descobrimentos).

Camarada 16 - 3º ano 728Ombreando dignamente com os seus pares da BD histórico-didáctica, José Antunes publicou no Camarada nº 16, 7º ano (8-8-1964) — com capa de Júlio Gil — um curto episódio sobre o bravo guerreiro D. Nuno, que ainda moço imberbe já fora armado cavaleiro pela rainha Dona Leonor Teles, depois de ter provado o seu valor nas primeiras escaramuças com os inimigos do reino. Longe vinham ainda os tempos de Aljubarrota, mas a profecia do alfageme de Santarém, a quem Nun’Álvares encomendou uma espada, haveria de cumprir-se, forjando o seu épico e glorioso destino.

Embora tivesse ilustrado mais narrativas históricas no Camarada, com o seu traço cheio e um pouco anguloso, sombreado por fortes pinceladas em que vibrava um tributo aos mestres Alex Toth e Frank Robbins, da escola americana que tanto admirava, José Antunes só voltou a retratar a figura do Condestável numa capa realizada para a revista mensal Pisca-Pisca.

A história “O Cavaleiro D. Nuno” foi reeditada no nº 5 dos Cadernos Moura BD, dedicado a este talentoso ilustrador, que se distinguiu também como capista em várias publicações, graças à sua versatilidade e à sua cultura que lhe permitiam abordar qualquer tema.

D Nuno josé antunes 1 e 2

Evocando outro episódio da vida heróica e piedosa de D. Nuno Álvares Pereira, eis uma página dada à estampa no nº 59 (1960) da Fagulha, com o personalíssimo traço de Bixa (pseudónimo de Maria Antónia Roque Gameiro Martins Barata Cabral), uma das melhores colaboradoras dessa revista, editada pela Mocidade Portuguesa Feminina.

fagulha-59-1960

Por último (last but not least), uma referência a Mestre José Ruy, a quem poucos podem pedir meças no domínio da BD histórica e cuja vasta obra — com um estilo desenvolto, em que sobressai o apurado uso da cor, a harmonia da forma e o rigoroso equilíbrio da composição — tem alguns capítulos, embora breves, dedicados ao valoroso guerreiro que salvou Portugal das invasões castelhanas no século XIV.

Recordemos, por exemplo, o episódio “Os Duzentos Inimigos do Condestável”, publicado no Camarada nº 5, 2º ano (28-2-1959), em que D. Nuno se bate temerariamente contra uma chusma de castelhanos, até ser socorrido pelos seus companheiros de armas… curiosamente a mesma peleja que Fernando Bento retratou nas páginas do Diabrete, com o seu traço fluido e expressivo, num vigoroso e plástico preto e branco.

José Ruy (Camarada)

Aqui fica o registo de cinco estilos gráficos diferentes, que ilustram bem a riqueza e variedade da escola realista (e modernista) que inaugurou uma nova etapa nas histórias aos quadradinhos portuguesas, a partir dos anos 40 do século passado.

(Nota: a página de José Ruy foi extraída, com a devida vénia, do magnífico blogue BDBD, orientado por Carlos Rico e Luiz Beira. As restantes pertencem à minha colecção, bem como os livros apresentados também neste post).

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 13

Título D FilipaFilipa de Lancastre, casa de Avis, Garcês

Em 25 de Julho de 1415, teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portugueses, com uma grande expedição militar chefiada por el-rei D. João I e pelo con- destável D. Nuno Álvares Pereira, cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâmicas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

Nessa heróica empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em combate, os jovens infantes D. Henrique e D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado para reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e o segundo para suceder no trono ao Rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro — que seria chamado “o das sete partidas” — foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

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Um dos episódios mais marcantes, mas talvez menos recordados, hoje em dia, dessa histórica epopeia — assinalada, 600 anos depois, como o primeiro marco da globalização que encurtou as distâncias entre os povos e acelerou a marcha do progresso económico e social —, é o que revela a profunda afeição que D. Filipa de Lencastre (a rainha mãe de virtuosos dotes e de costumes austeros, que muito Mário Domingues - Ceutacontribuiu para o bom nome e o exemplar reinado de D. João I) sentia pelos seus filhos, a quem quis entregar as espadas de cavaleiros antes da partida para Ceuta, apesar de ter caído ao leito, gravemente enferma.

Mário Domingues, um popular escritor do século XX, que produziu vários romances históricos com biografias de reis, príncipes, cavaleiros, navegadores, poetas, sacer- dotes, estadistas, generais, passando em revista os períodos mais gloriosos, mas também os mais obscuros da nossa monarquia, evocou este edificante episódio num capítulo do livro “Grandes Momentos da História de Portugal” (2º volume), editado em 1962 pela F.N.A.T. (Federação Portuguesa para a Alegria no Trabalho). Os outros são dedicados à tomada de Lisboa por D. Afonso Henriques e ao cerco de Ormuz, em que se distinguiu Afonso de Albuquerque. Páginas da nossa História que atravessam cinco séculos!…

Filipa de Lancastre, Garcês 455Vítima da peste, causadora de inúmeras mortes, que grassava em Lisboa e adivinhando que o seu fim também estava próximo, D. Filipa quis dar o primeiro sinal aos seus filhos do glorioso futuro que os esperava, para bem do reino de Portugal, recomendando a Duarte, o primogénito e herdeiro do trono, que defendesse com toda a energia os seus súbditos e zelasse pelo cumpri- mento do direito e da justiça, a Pedro que estivesse sempre ao serviço das donas e das donzelas, e a Henrique, o mais novo dos três mancebos, mas também o mais audaz e sonhador, que protegesse “os senhores, cavaleiros fidalgos e escudeiros do reino, fazendo-lhes todas as mercês a que, por razão, tivessem direito”.

Depois, abençoou os filhos, entregando-lhes as três espadas que mandara forjar para aquele momento solene e com as quais seriam armados cavaleiros pelo rei, seu pai, na mesquita de Ceuta, após a conquista que transformou esta cidade marroquina no primeiro baluarte cristão do norte de África, inexpugnável durante séculos.

tira de Flipa a entregar espadas aos filhos

Mestre José Garcês — cujos trabalhos de inspiração (e fervor) nacionalista, o consagraram, ao longo de várias décadas, por mérito, experiência artística e conhecimentos didácticos, como um dos nossos autores de maior renome no campo da BD histórica — retratou a mesma cena num livro dedicado a D. Filipa de Lencastre (Edições Asa, 1987) e numa magnífica biografia aos quadradinhos do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano (1960), com texto de António Manuel Couto Viana. Mais sucintamente, representou-a também no 2º volume da História de Portugal em BD, projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com retumbante êxito, a partir de 1985.

Filipa de Lancastre, Garcês 2 e 3

Também Eugénio Silva, outro nome consagrado da geração que recebeu o clássico testemunho dos mestres pioneiros da BD realista, como Garcês, Fernando Bento e Eduardo Teixeira Coelho, teve o condão de ilustrar com o seu traço suave e poético, em duas páginas inseridas no livro escolar para a 3ª classe “Lições de História Pátria”, a biografia da excelsa rainha nascida em Inglaterra, no ano de 1360, em cuja linhagem corria o nobre sangue dos Lencastres e dos Plantagenetas, e que veio para Portugal anos depois, ainda jovem, para contrair núpcias com D. João I. Desse enlace forjado pelo destino e pelas relações dinásticas entre velhos aliados, nasceria a “Ínclita Geração” que engrandeceu o nome de Portugal aos olhos da Europa e deu novos mundos ao mundo.

Filipa de Lancastre,Eugénio Silva 1 e 2

Filipa de Lancastre,bento diabrete 201- vinheta 463Por último, recordamos, com as devidas honras, outro grande vulto da cultura e das artes figurativas portuguesas do século XX, o saudoso mestre Fernando Bento, que também evocou a lição maternal de D. Filipa de Lencastre e a sua ilustre descendência, numa patriótica rubrica do Diabrete intitulada “Histórias da Nossa História”, com texto de Adolfo Simões Müller — à qual já aludimos diversas vezes neste blogue.

O episódio que seguidamente apresentamos, com o título “As Três Espadas”, foi publicado no nº 201 (4 de Novembro de 1944) do “grande camaradão” da juventude portuguesa, editado pela E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade), proprietária do Diário de Notícias e que, em 1952, se tornaria também editora do Cavaleiro Andante.

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A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 12

SALGUEIRO MAIA, HERÓI DO 25 DE ABRIL

Salgueiro Maia 1   107

Salgueiro Maia 2      108Reviver a epopeia do jovem capitão Salgueiro Maia, um dos verdadeiros heróis da Revolução dos Cravos, que enfrentou corajosamente as forças da ditadura muito superiores em número, comandadas por oficiais fanáticos, prontos a disparar sobre as suas tropas — vindas de Santarém para ocupar o Terreiro do Paço e sitiar os ministérios —, é como ver desfilar no fundo da memória os vultos de outros heróicos portugueses que, desde remotas eras, se engrandeceram com feitos notáveis, ao serviço da Pátria. A BD também o homenageou, no 25º aniversário do 25 de Abril, com um belo álbum ilustrado por António Martins (edição da Câmara Municipal de Santarém, 32 págs., 1999).

Se há datas históricas que importa preservar em democracia, contra todas as investidas dos que, no mundo actual, sobrepõem os interesses económicos ao espírito nacionalista e patriótico, o 25 de Abril é uma delas! E Salgueiro Maia é a expressão mais nobre dos seus ideais!

Salgueiro Maia 3 e 4

Natural de Castelo de Vide, Salgueiro Maia tinha 29 anos quando participou na revolução; com larga experiência de operações militares adquirida na guerra do Ultramar, foi um dos “conspiradores” do chamado Movimento dos Capitães, que deu origem ao MFA (Movimento das Forças Armadas). Sempre coerente com as suas posições políticas e ideológicas, não quis assumir protagonismos e remeteu-se a uma modéstia exemplar, ao contrário de alguns dos seus camaradas, durante os anos agitados dos primeiros governos constitucionais. Morreu em 1992, aos 47 anos, com o posto de tenente-coronel. Tem uma estátua e nome de rua em Santarém, tal como em Castelo de Vide, onde foi sepultado.

Infelizmente, apesar destas homenagens, a sua memória vai caindo no esquecimento, sinal de degradação dos valores democráticos que ele convictamente defendeu, na acção firme e destemida à frente do regimento da Escola Prática de Cavalaria de Santarém.

Salgueiro Maia 5 e 6

A aurora da liberdade nasceu com os heróis que pegaram em armas, com os poetas, com os músicos, com os idealistas, com o povo que encheu as ruas, saudando a queda do regime e o fim da ditadura. Embora mais pálida, ela continua a iluminar o nosso horizonte e a acalentar as nossas esperanças… Porque é preciso não desistir do 25 de Abril!

Recordamos seguidamente um poema de Manuel Alegre dedicado a Salgueiro Maia, nas páginas do álbum onde a figura do intrépido capitão de Abril foi fielmente retratada por António Martins — um excelente desenhador, que merece também a nossa homenagem, mas cuja obra em BD permanece quase desconhecida.

Salgueiro Maia 7 e 8

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 11

O REGICÍDIO

O Regicídio - 2

História de Portugal (4º volume)O brutal assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, no primeiro dia de Fevereiro de 1908, foi o prelúdio do fim da monarquia, vítima dos seus próprios e trágicos erros, e da implantação da República, uma nova aurora política em que Portugal continuou a viver, nessa encruzilhada histórica, sob o domínio da contestação, da anarquia e das revoltas armadas que punham em causa a estabilidade económica, política e social. Tudo isso a juntar ao flagelo da 1ª Grande Guerra, com o seu cortejo de mortos e estropiados em batalhas inglórias. Na Banda Desenhada, o regicídio — um dos acontecimentos revolucionários de crucial importância que mudaram o destino do país no primeiro decénio do século XX —, foi retratado nalgumas obras de cunho didáctico, como a História de Portugal em BD, de A. do Carmo Reis e José Garcês, composta por 4 volumes publicados entre 1987 e 1989, pela Asa, e reeditados diversas vezes.

Viva a República

Num tom mais jocoso, tratando os assuntos sérios com a sua veia artística de consumado humorista, merece especial referência a História Alegre de Portugal, adaptada por Artur Correia da obra homónima de Pinheiro Chagas, numa edição da Bertrand (2002/2003), em dois grossos volumes (o segundo, de onde reproduzimos as páginas seguintes, com texto de António Gomes de Almeida).

Regicidio - Hist alegre P 1 e 2

Outro desenhador argumentista que pegou no tema, desenvolvendo-o de forma apurada, num registo realista e jornalístico fiel aos anais da época, foi Santos Costa, cujo trabalho, inicialmente publicado no semanário O Crime, em 1999, foi posteriormente reeditado no álbum Registos Criminais, com outras histórias do mesmo autor.

O Regicídio - 5

MATARAM O REI - capa350Mas o nosso principal destaque vai para um álbum de José Ruy intitulado Mataram o Rei!… Viva a República!, editado em 1993 pela Asa e reeditado em 2008 pela Âncora, onde o veterano Artista, com o seu traço sóbrio, a atenção aos pormenores, a fluência do estilo gráfico/narrativo, a faceta romanesca (que tem sido pouco valorizada nas apreciações críticas) e o rigor documental e histórico que preside a todos os seus trabalhos, reconstituiu de forma viva, lúdica e emotiva o ambiente social e político dessa época agitada, assim como o “pacto de sangue” entre membros da Carbonária e de forças republicanas, numa conspiração contra o governo e a figura do Rei que conduziu ao fatídico desenlace junto das arcadas do Terreiro do Paço, no dia 1 de Fevereiro de 1908, precipi- tando a queda do regime monárquico, ainda mais frágil no reinado de D. Manuel II.

Eis algumas páginas deste magnífico álbum de José Ruy, um autor/investigador que, com a sua obra vasta e diversificada, já com dezenas de títulos, muito tem enriquecido e prestigiado a BD portuguesa de temática histórica e didáctica.

MATARAM O REI - 1 e 2MATARAM O REI - 3 e 4

Em nota final desta breve (e quiçá incompleta) retrospectiva, queremos também chamar a atenção para outra abordagem, muito curiosa, do regicídio, que pode ser apreciada no conhecido blogue Leituras de BD: http://bongop-leituras-bd.blogspot.pt/2012/03/herois-ou-assassinos.html

Quatro páginas apenas, com guião de Nuno Amado, grafismo e cores de Daniel dos Santos, mas de uma intensidade estética e narrativa a justificar nota alta. Aqui mostramos duas dessas páginas, com a devida vénia ao Leituras de BD.

Heróis ou assassinos - pág. 2 e 3

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 10

1º DE DEZEMBRO

1 de Dez - Bento cabeçalho195Neste dia da Restauração da Independência — em que todos os portugueses deviam comemorar o glorioso 1º de Dezembro de 1640, data que por insólita decisão do actual governo deixou, desde há um ano, de ser feriado — apraz-nos “ressuscitar”, entre as brumas do passado, outra história aos quadradinhos com o traço febril, denso e luminoso de um mestre da narração figurativa, cujo nome não se apagará também da nossa memória: Fernando Bento. É mais um episódio da rubrica “Histórias da Nossa História”, profusamente recheado de texto narrativo, com o cunho inconfundível da prosa de Adolfo Simões Müller, que o “grande camaradão” da rapaziada, o popular Diabrete, apresentou no seu nº 153, de 4/12/1943, evocando uma data que nessa recuada época todos, miúdos e graúdos, se orgulhavam ainda de celebrar.

Título 1º de Dez1 de Dez - Bento 11931 de Dez - Bento 2194

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 9

Histórias da nossa história - Título

Folheando a colecção dos primeiros anos do Diabrete — uma revista que marcou o seu lugar na história da época de ouro da BD portuguesa, fazendo aguerrida (no bom sentido) concorrência aos seus rivais Histórias da nossa história - 1O Mosquito e O Papagaio — encontramos, a partir do n° 112, de 20 de Fevereiro de 1943, uma rubrica profusamente ilustrada que foi, sem dúvida, uma das primeiras a estender à imprensa infanto-juvenil o fervoroso culto do Estado Novo pelas grandes figuras da História Pátria.

Fernando Bento, que era, desde os primeiros números, um dos mais prolíficos e talentosos colaboradores artísticos do Diabrete, e Adolfo Simões Müller, seu director e mentor literário, cuja experiência era bem conhecida, encarregaram-se da tarefa com evidente entusiasmo, empolgados pelos ideais nacionalistas que viam na exaltação heróica dos feitos e das virtudes dos nossos remotos antepassados uma forma de doutrinar ideologicamente a juventude — tal como pretendia a escola da nova República.

Históriazinha de Portugal capa

Na rubrica Histórias da Nossa História, apresentada com regularidade durante largas dezenas de números, em imagens vigorosas e prosa liricamente apologética — como era timbre de Adolfo Simões Muller, que começou a distinguir-se na literatura infantil com uma obra do género, a Historiazinha de Portugal, ilustrada por Fernando Bento e Emmérico Nunes —, perpassou também a evocação de guerreiros, poetas, navegadores, santos, mártires, cronistas, sábios, fidalgos, cavaleiros, reis apostados em expandir o território e defender a independência, e rainhas virtuosas que queriam espalhar a caridade.

Históriazinha de Portugal contracapa

É claro que, na categoria grandes navegadores não podia faltar a evocação de Vasco da Gama, obreiro do sonho que empolgou a alma lusíada durante várias décadas, desde o Infante D. Henrique até D. Manuel I: a descoberta do caminho marítimo para a índia.

Outros heróis dos Descobrimentos fizeram também as honras da rubrica, com destaque naturalmente para o Infante de Sagres e para Pedro Álvares Cabral, que navegou em direcção ao Ocidente, aportando a uma terra desconhecida que, mais tarde, passaria a chamar-se Brasil. A figura do Adamastor surge também em grande plano, evocada pela primeira vez pelo traço vigoroso e expressionista de Fernando Bento.

Nos n°s 114, 133, 146 e 167 (1943-44) do Diabrete publicaram-se as páginas que a seguir reproduzimos, pela respectiva ordem, com o intuito de levar até aos nossos leitores alguns dos mais antigos exemplos da arte figurativa de um magnífico artista, que tantas histórias maravilhosas ofereceu à juventude, e acrescentar mais estes episódios à lista das versões ilustradas (especialmente aos quadradinhos) da gloriosa gesta dos Descobrimentos.

Histórias da nossa história - 2Histórias da nossa história 3Histórias da nossa história 4Histórias da nossa história 5

 

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 8

Estátua Vasco da Gama  838VASCO DA GAMA (1)

Entre as personagens da História de Portugal mais em foco, todas as que estão relacionadas com a época dos Descobrimentos adquiriram um cunho e um simbolismo especiais, nomeadamente Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Diogo Cão, Gil Eanes, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães e o Infante D. Henrique.

No campo da literatura juvenil e em particular da Banda Desenhada, todas foram retratadas por vários autores portugueses e até de outras origens, embora na maioria dos casos as versões alheias tenham tido pouca ou nenhuma divulgação entre nós, reduzindo bastante o conhecimento da importância e da projecção que os feitos heróicos dos nossos antepassados tiveram (e ainda têm) para muitos especialistas de diversas áreas, incluindo a Figuração Narrativa.

Albi del Vittorioso

Hoje, vamos recordar a figura de Vasco da Gama, fidalgo da confiança de D. Manuel I, natural de Sines, que se cobriu de glória por ter comandado a expedição que desbravou o caminho marítimo para a Índia, numa longa e atribulada viagem de dois anos (ida e volta), iniciada na praia do Restelo em 8 de Julho de 1497.

Milhares de jovens leitores d’O Mosquito reviveram no seu espírito, durante um período quase equivalente ao tempo real da viagem, a epopeia dos audazes navegadores portugueses, graças às magníficas imagens, em formato maior do que o normal (quatro, três e, às vezes, só uma por página), de uma magistral criação de Eduardo Teixeira Coelho, com o título “O Caminho do Oriente”, que um eminente crítico e estudioso das histórias aos quadradinhos, António Dias de Deus, comparou aos versos imortais de Camões, cognominando-a, com acerto, “Os Lusíadas da BD Portuguesa”.

Caminho do Oriente 1

Caminho do Oriente Vinheta Simão Infante849Descrito de forma lírica e empolgante por Raul Correia — e às vezes, também, em verso, como no episódio avulso da conquista de Lisboa aos Mouros, que o marinheiro trovador Fernão Veloso narrou aos seus companheiros, num momento de calmaria da viagem —, “O Caminho do Oriente” tem como principal protagonista um ladino garoto chamado Simão Infante, que veio para Lisboa, em cata de fortuna e de aventuras, e logo teve a sorte de se cruzar com Vasco da Gama, caindo nas boas graças do futuro Vice-Rei da Índia, pela sua esperteza, honestidade, arrojo e valentia.

Essas qualidades valeram-lhe também o favor régio e permissão para embarcar na pequena esquadra que se preparava para sulcar os mares desconhecidos, tornando realidade o velho sonho de descobrir a rota das Índias, das especiarias, das terras fabulosas que ocultavam preciosos tesouros.

Caminho do Oriente 2Caminho do Oriente 3

O sonho cumpriu-se e Simão Infante, depois de muitas e aventurosas peripécias em terras distantes e exóticas, que nunca sonhara conhecer — onde havia confraternizado com gentes de várias raças, aprendendo novos costumes e novas línguas, combatido perigos e inimigos de toda a espécie, às vezes escondidos na sombra, a ruminar planos de traição, e encontrado pitorescas personagens, como Tzerine, o mestre de artes marciais, e o faustoso Samorim, rajá de Calecut, que Vasco da Gama tratava com cortesia e prudente astúcia —, regressa ao reino com os sobreviventes da expedição, mais atilado e experiente do que à partida, graças a tudo quanto vira, aprendera e padecera.

Caminho do Oriente 4Caminho do oriente 5

E, como a razão assiste aos valentes, Simão Infante não hesita em provar, mais uma vez, que é um moço de rija têmpera e um patriota dos quatro costados, quando um bufão começa a escarnecer dos perigos e tormentos da viagem, maldizendo os intrépidos mareantes que tinham passado por tantas provações, sob o férreo comando de Vasco da Gama, para levar até aos gentios o nome de Portugal e a fama dos seus heróis.

Caminho do Oriente 6

História de longa duração, como já referimos, publicada entre os nºs 749 (28/8/1946) e 941 (30/6/1948) d’O Mosquito — embora com muitos intervalos, por doença ou excesso de trabalho de E. T. Coelho —, “O Caminho do Oriente” tornou-se uma das obras mais emblemáticas da BD portuguesa, vencendo a barreira do tempo para chegar até outros leitores, através das oportunas reedições no Jornal do Cuto, em 1971/72, e mais tarde na Antologia da BD Portuguesa, a primeira edição integral em álbum (seis volumes), a partir de provas originais, com posfácios de António Dias de Deus e textos revistos (depois de obtido o beneplácito do seu autor, Raul Correia), para evitar que as legendas, por vezes demasiado extensas, tapassem parte dos desenhos.

Vasco da Gama - Caminho do oriente Futura 1 e 2

Versões curtas, em jeito de biografia resumida, sobre a homérica epopeia de Vasco da Gama e do seu punhado de marinheiros, também as houve, realizadas por outros especialistas de temas históricos, como Baptista Mendes e Eugénio Silva, autores já familiares aos visitantes assíduos deste blogue.

A título de curiosidade, aqui ficam mais duas histórias com a sua assinatura, extraídas respectivamente do Mundo de Aventuras nº 476, de 25/11/1982, e do livro escolar Lições de História Pátria, com texto de Pedro de Carvalho.

Vasco da Gama -Baptista Mendes 1 e 2Vasco da Gama - Eugénio Silva 1e 2

Capa Pisca Pisca 17Outro desenhador português de ecléctica perso- nalidade artística, que deixou largo testemunho como pintor de excepcional craveira e desenhador de apurado estilo realista (embora, na BD, preferindo o preto e branco), Carlos Alberto Santos de seu nome, evocou também a figura e os feitos de Vasco da Gama numa história publicada a cores no nº 17 (Julho de 1969) da revista Pisca-Pisca, com o título “O Almirante das Naus da Índia” e texto de Olga Alves.

Pelo seu estilo vigoroso, as cores garridas e a abordagem concisa, mas sugestiva dos factos históricos, este breve episódio merece também ser recordado — o que fazemos, com a devida vénia, em jeito de homenagem ao prodigioso talento de um Mestre ainda vivo, que consagrou alguns dos seus ócios a uma paixão menor, mas indesmentível: a Banda Desenhada.

Vasco da Gama - Carlos Alberto 1 e 2Vasco da Gama - Carlos Alberto 3 e 4Vasco da Gama - Carlos Alberto 5          856