RECORDAÇÕES DE FÉRIAS

Embora alguns felizardos (e felizardas) continuem de férias em Setembro, a grande maioria tem de regressar ao trabalho e a outras ocupações (como os políticos e o seu séquito de comentadores) quando os cálidos dias de Agosto chegam ao fim.

Para mitigar as saudades desse tempo que passou tão depressa, aqui têm, caros amigos do Gato Alfarrabista, outra capa do Tintin belga dedicada às “belles vacances”, com a assinatura de um jovem talento que dava os primeiros passos a caminho da fama. Serão capazes de descobrir o seu nome?

Tintin 28-1951 capa

E, para os que sabem francês, reproduzimos também a nota de abertura, com uma “ode” poética às férias grandes, e um belo conto de Jacques Lillois, com ilustrações de René Follet, publicados no mesmo nº 28 (6º ano), do Tintin belga.

Tintin 28-1951nota de aberturaNão só as férias, nesse tempo, eram maiores, como os jovens preferiam geralmente a leitura a outras distracções. Lembro-me bem de levar sempre um livro e algumas revistas — como O Mosquito e o Mundo de Aventuras — quando ia para a praia de Santo Amaro de Oeiras, a minha preferida. E a família chegou mesmo, em anos seguidos, a passar lá um mês inteiro, numa casa alugada. Então, ia abastecer-me regularmente a um quiosque onde não faltavam as revistas de BD que saíam todas as semanas… incluindo o Diabrete, que em Agosto de 1951 ainda se publicava, mas não tardaria a chegar ao fim da sua carreira, para dar lugar ao Cavaleiro Andante, outra revista que eu não dispensava nas férias grandes (e no resto do ano).

Se os dias de lazer eram passados na praia,    as noites eram dedicadas ao convívio com os amigos, pois juntara-se um grupo de jovens veraneantes, em Oeiras, que à noite se encontravam, sempre no mesmo sítio, para fumar e conversar (a praia, o futebol e o ciclismo eram os principais temas de verão… o liceu ficava esquecido), e atirar piropos às garotas que passeavam pelo parque. Belos tempos!

Tintin 28- conto 1 e 2

Foi também na praia de Santo Amaro de Oeiras, mas noutro ardente verão, que me deliciei a ler os primeiros episódios de uma nova aventura de Cuto, “A Ilha dos Homens Mortos”, e de “O Defunto”, um conto de Eça de Queirós, magistralmente ilustrado por E. T. Coelho, que O Mosquito começou a publicar em 26/7/1950. Lembro-me tão bem desse dia como se fosse hoje!… E, para rematar este saudosista apontamento estival, aqui ficam, dedicadas especialmente aos admiradores de E. T. Coelho e de Jesús Blasco (que ainda são muitos), a primeira página de “O Defunto” e duas páginas de Cuto, extraídas dos nsº 1157 e 1158     d’O Mosquito. Qualquer dia O Gato Alfarrabista tem de recuperar estas histórias.

O Defunto900

Cuto Vermelho

Cuto Azul

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JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 8

«RAPTORES» – Curiosidades tipográficas – por JOSÉ RUY

(O processo que criei para fazer as cores das histórias n’O Papagaio, depois deste ter sido incluído, como suplemento, na Flama).

Papagaio 684Quando O Papagaio era uma revista autónoma em relação à edição, as capas e as páginas centrais eram impressas pelo processo litográfico a quatro cores, na Litografia Sales, e o resto do interior em tipografia, na Renascença Gráfica. Na parte tipográfica, as ilustrações eram reproduzidas em zinco- gravura, portanto com o desenho a traço, sem sobreposição de qualquer cor.

A partir da transformação desta revista infanto-juvenil num suplemento da Flama, a sua impressão passou a ser tipográfica, embora a revista-mãe tivesse as capas em rotogravura, bem como as páginas centrais.

Mas aqui beneficiávamos de uma cor sobreposta nos desenhos a preto. Essa cor podia ser feita com esbatidos, em aguarela, mas obrigava a que a reprodução fosse em fotogravura, mais cara que as zincogravuras, traço e cheios, sem esbatidos. A empresa impunha-nos que fizéssemos as cores só para zincogravura, por uma questão económica.

Para obter os mesmos efeitos, imaginei um processo para conseguir as meias-tintas sem a necessidade de usar a fotogravura.

José Ruy - Trama examploPedi que a oficina fizesse uma gravura de trama (rede) larga, com a dimensão de 14×48 cm (que era a medida que usava nas tiras das histórias em quadradinhos) e imprimisse em papel fino e acetinado que aguentasse a pintura com tinta-da-china e guache.

Coloquei a tira de papel com a trama impressa sobre o original da minha história, desenhado ao dobro, numa mesa de transparências, e apliquei guache branco para eliminar a rede onde era necessário (nas margens e certas zonas do desenho), pintando com tinta preta as manchas que pretendia ficassem em cor cheia.

José Ruy - Veleiro sequência 1 e 2José Ruy - Veleiro sequência 3 e 4

Vinheta de “Raptores”. O desenho da cor é feito a preto e só na máquina de impressão aparece a cor desejada.

Quando o desenho reduzia, a rede ficava mais fina, obtendo o efeito que aparece na reprodução. Tínhamos, assim, uma meia-tinta e uma cor cheia contornando os desenhos, sem ser necessário usar a fotogravura.

 O meu colega e amigo Vítor Silva, que também publicava histórias e ilustrações, gostou do processo e passou a usar essas tiras que a gráfica imprimia em grandes porções. Ainda conservo uma boa quantidade, que sobrou depois do suplemento ter acabado.

Quando idealizei desenhar as «Lendas Japonesas» traduzidas por Wenceslau de Moraes, pensei em conseguir um efeito melhor, e em vez da meia-tinta uniforme, procurei fazer mesmo esbatidos em dégradé, além das manchas de cor cheia. Experimentei usar papel Fabriano de grão muito largo, que sobrepus à mesma nos desenhos a tinta-da-china, sobre a mesa de transparências, e apliquei lápis litográfico, que tem uma grande intensidade de negro. Com mais ou menos pressão sobre o papel obtive o efeito que se pode ver na impressão. Com a redução, o granitado transformou-se em grão fino e a gravura continuou à mesma a ser feita em zincogravura e não fotogravura.

José Ruy (Junho 2013)

pequeno bonzo sequência

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 7

RAPTORES – 3

Aqui têm mais quatro episódios desta trepidante aventura de ambiente marítimo, desenhada por José Ruy nos seus “verdes anos” para a 2ª série d’O Papagaio, quando este semanário infantil, dirigido durante os primeiros tempos por Adolfo Simões Müller, interrompeu bruscamente a sua longa carreira, recheada de êxitos, transformando-se num modesto suplemento da revista de actualidades Flama — embora  continuasse a acolher trabalhos dos seus melhores colaboradores, como José Ruy, Vítor Silva e Carlos Cascais.

Raptores 8 e 9Raptores 10 e 11 (Nota: vejam no próximo post um curioso artigo de José Ruy sobre os processos de impressão desta e de outras histórias d’O Papagaio)

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

RETROSPECTIVA – 4

Jobat MA 453Prosseguindo esta homenagem à memória do nosso saudoso amigo e grande artista José Baptista (Jobat), recentemente falecido, apresentamos a 2ª e última parte da história “Um Caso de Contrabando”, publicada no Mundo de Aventuras nºs 452 a 461 (1958), com um dinâmico repórter detective chamado Luís Vilar, cuja apresentação já aqui foi feita.

Sobre este episódio, transcrevemos também alguns comentários do próprio Jobat, vindos a lume na rubrica “9ª Arte” do jornal O Louletano, onde Luís Vilar reviveu as suas aventuras, depois de muita insistência minha.

Nessas notas bibliográficas e de cunho nostálgico — apesar das reticências com que satisfez o meu pedido —, Jobat recordou pormenores curiosos de “Um Caso de Contrabando”, cuja acção tinha situado nas paragens algarvias onde nasceu.

Louletano - Páginas Esquecidas 2Aqui têm o resto desse texto, com o título Páginas Esquecidas, cheio de referências que poderão contextualizar analisando as imagens respectivas.

«Na última página, a décima, na 3a e 4a vinhetas, as    refe­rências estão mais defini­das, embora na 3a vinheta de forma sub­til, ofuscada pela sombra: o finalizar das palavras “Olaria Ve­lhote”, com um trabalha­dor, de pá     nas mãos, a alimentar um forno incandescente, por detrás do “João Carlos”, em 1o plano à esquerda. A 4a vinheta dessa página é porven­tura a mais explícita, em termos de referências: em plano, a casa da D. Adelaide, bastante conhecida – e frequentada – por muito boa gente de Loulé, com o respectivo poial junto à porta, e as escadinhas, à direita, que levam à Igreja Matriz. Um     per­sonagem típico, característico dessa época, anima o lado direito da mesma vinheta: quem de Loulé não conhecia o “Zé Cuco”?

É óbvio que as referências aqui assinaladas passaram     des­percebidas ao comum dos leitores, mesmo aos de Loulé. Aliás, o objectivo de as inserir foi alcançado: estarem lá sem que dessem por isso. Porém… foi um segredo que quis hoje partilhar com os meus leitores, muito em especial com os louletanos desse tempo… e, como é lógico, também com os mais jovens. Boa leitura».

Apesar da sua curta existência, Luís Vilar não deixou de fazer boa figura ao lado dos outros heróis do Mundo de Aventuras, na sua maioria de origem americana. Tal como José Baptista, esperamos que os leitores de hoje também o apreciem.

Para voltar a ver a 1ª parte, clique aqui

Jobat - Luis Vilar 6+7Jobat - Luis Vilar 8+9Jobat - Luis Vilar 10+capa

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 3

A CONQUISTA DE CEUTA (por José Garcês)

Em 25 de Julho de 1415 (há quase 600 anos), teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portugueses com uma grande expedição militar em que participaram os filhos de El-Rei D. João I, e cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâmicas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

A conquista de Ceuta CA 104Nessa empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em combate,     os jovens infantes D. Henrique e     D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado a reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e   o segundo a suceder no trono ao rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

Recordando esta efeméride tão importante na história da expansão marítima e colonial portuguesa dos séculos XV e XVI, retirámos dos arquivos do passado uma página magnificamente ilustrada por Mestre José Garcês, que o Cavaleiro Andante — muito receptivo, nessa época, aos trabalhos de inspiração (e exaltação) histórica, em que Garcês, por mérito e experiência, já era um autor consagrado —, deu à estampa no nº 104, de 26 de Dezembro de 1953.

Anos depois, em 1960, Garcês realizou uma magnífica biografia do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano. Com um âmbito mais vasto, essa história, escrita por António Manuel Couto Viana, descrevia minuciosamente os preparativos da expedição a Ceuta, enaltecendo a heróica acção de D. Henrique nesse primeiro feito militar e nas empresas que se seguiram — apesar do desastre de Tânger, que quebrou o ânimo de D. Duarte e arrastou o Infante D. Fernando para o cativeiro, numa das horas mais negras da gesta dos portugueses em África.

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A Grande AventuraOs mesmos acontecimentos foram retratados por Garcês, de forma mais sucinta (se bem que com um enquadramento sócio-político mais rigoroso), no 2º volume da sua História de Portugal em BD, relevante projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com extraordinário êxito, a partir de 1985. Ainda hoje, Garcês encara essa obra como o ponto máximo da sua carreira de autor de BD, cimentada por uma sólida formação histórico-didáctica e artística.

Aqui ficam também essas páginas do álbum A Grande Aventura, que documentam o fervor com que o moço e valoroso infante D. Henrique, futuro duque de Viseu e grão-mestre da Ordem de Cristo, participou na cruzada por um reino maior, além das terras conhecidas e desconhecidas, dos areais do norte de África até aos cabos tormentosos que nenhum navegante se atrevera ainda a dobrar.

A Grande Aventura  1 + 2

A Grande Aventura  3 + 4

Aproveitamos esta ocasião para desejar a Mestre José Garcês, que celebrou há um mês       o seu aniversário, as maiores felicidades, associando-nos a todos os seus admiradores e amigos que ainda recordam os belos momentos que passaram a ler as suas histórias.

Lanças n'África + Sangue português+Sanceau

Sobre esta época da nossa História — primeira etapa da expansão ultramarina e das conquistas de praças-fortes aos inimigos tradicionais, os Mouros, que era mister combater por causa da sua religião e do comércio de especiarias com o Levante — há três livros que registei na memória e que se lêem como autênticos romances de aventuras: Lanças n’África e Sangue Português, antologias de contos de Henrique Lopes de Mendonça — um dos mais notáveis romancistas históricos do século passado e autor da letra do Hino Nacional —, e Os Portugueses em Marrocos, da escritora inglesa Elaine Sanceau, que viveu muito tempo no nosso país e dedicou várias obras ao império colonial português e às suas figuras mais importantes, sendo, por isso, muito elogiada (e condecorada) por Salazar.

Nota: Agradecemos, mais uma vez, a Carlos Gonçalves a sua amável colaboração, ao enviar-nos prontamente seis páginas do episódio publicado em 1960 no Camarada.

 

A VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA

Nicolau_e_Trindade_dos_anos_30Com o futebol um pouco “adormecido” durante o estio — ou, pelo menos, mais afastado das competições nacionais até ao início de nova época —, Julho e Agosto são meses tradicionalmente dominados por outra grande modalidade desportiva, o ciclismo, com destaque para o Tour de France e, no nosso (mais tacanho) circuito caseiro, a Volta a Portugal, que já chegou ao fim da sua 75ª prova, com a vitória de um galego, Alejandro Marque, e da sua equipa.

Volta a Portugal 1Ao vermos as imagens, nos telejornais, dos velozes ciclistas que se lançam briosamente ao assalto das estradas e das pistas de montanha onde a glória pode estar à sua espera, perpassam-nos pela memória os nomes e os feitos de grandes ídolos do passado como Fausto Coppi, Gino Bartali, Louison Bobet, Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Miguel Indurain, José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Alves Barbosa, Moreira de , Ribeiro da Silva, Joaquim Agostinho, Marco Chagas e outros mais, que os autores de BD, nalguns casos, ajudaram também a cobrir com os louros da fama.

agostinho_joaquimUm desses exemplos, no sumário historial desportivo da BD portuguesa, é “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, episódio publicado no vespertino A Capital, durante a Volta a Portugal de 1973, cujo registo biográfico se transformou numa autêntica reportagem ilustrada, graças ao traço dinâmico e às envolventes composições de Fernando Bento, para quem o ciclismo não era um tema inédito.

Em 2010, associando-se às celebrações do centenário do genial Artista, o Gicav, promotor e organizador do Salão de BD de Viseu, reeditou esse trabalho — perdido, como tantos outros, nas páginas de jornais que já não existem — em homenagem ao talento do Mestre também já desaparecido, dedicando-lhe um magnífico álbum de grande formato, a fim de permitir aos seus indefectíveis admiradores uma apreciação mais perfeita do expressivo e documental estilo exibido nessas 16 pranchas, quase como se estivessem a admirar os originais.

Joaquim Agostinho Capa+1

Joaquim Agostinho 2 + 3

Ao longo da sua prolífica carreira, Fernando Bento fez várias ilustrações sobre temas desportivos, incluindo caricaturas de “ases” do ciclismo n’Os Sports e tiras sobre a Volta a Portugal na secção infantil do República. No Cavaleiro Andante chegou mesmo a contar a história do popular velocípede de duas rodas numa página recheada de curiosos apontamentos sobre a evolução da sua forma e do seu funcionamento. Nascida de uma ideia totalmente absurda, que era a da locomoção pedestre num ridículo veículo de madeira sem pedais, a bicicleta tornou-se, graças a um pequeno acidente, o meio de transporte ideal (embora destinado a poucos passageiros), antes da invenção do automóvel, e ganhou direito de cidadania em todos os países do mundo.

Volta a Portugal 3

CAVALEIRO ANDANTE 146A página que aqui reproduzimos foi publicada no nº 23, de 7/6/1952, do Cavaleiro Andante, onde tempos depois não tardariam a surgir vários episódios curtos sobre temas desportivos, na sua maioria desenhados por Jean Graton (o futuro criador de Michel Vaillant), que dedicou também especial atenção às peripécias e às emoções do desporto mais popular, logo a seguir ao futebol, em Espanha, França, Itália, Bélgica, Portugal e noutros países europeus.

Mas dessas histórias (e de outras que as antecederam) falaremos com mais detalhe em próximos artigos sobre este aliciante (e pouco divulgado) tema.

A título de curiosidade, apresentamos também uma página com um mapa da 19ª Volta a Portugal (cujo vencedor foi Alves Barbosa), publicada no Cavaleiro Andante nº 242, de 18/8/1956, em que a rapaziada podia seguir as etapas da prova e fazer, ao mesmo tempo, uma espécie de jogo com os amigos, que consistia simplesmente em anotar no mapa os seus prognósticos para os vencedores de cada etapa, somando 10 pontos quando acertavam.

Os pitorescos “bonecos” que ilustram essa página, com um traço humorístico inconfundível, são de Artur Correia, um dos mais apreciados e mais antigos colaboradores da revista, cujos trabalhos recheavam o suplemento infantil O Pajem.


Volta a Portugal 2

PARADA DA PARÓDIA – 2

TEMPOS DE CRISE

Os tempos eram outros, bem entendido — e também de incerta esperança —, mas esta “pitoresca” imagem de José Manuel Soares, na capa da revista Cara Alegre nº 22, de 15/1/1975 (dirigida por Henrique Parreirão), parece bem a propósito dos dias de Agosto que vão correndo… com biquínis, praia, sol, calor e alguma “pasmaceira” das gentes que fazem contas à vida e daquelas que acreditam (como a miss da capa) que tristezas não pagam dividas, mesmo com um orçamento cada vez mais reduzido.

Parada da Paródia 2 846

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 2

A BATALHA DE ALJUBARROTA E A ALA DOS NAMORADOS

DIABRETE 733Há algumas datas históricas que vale a pena recordar e celebrar, pelo que representam para a nossa identidade como nação secular, altiva e independente, mesmo quando não são (ou já deixaram de ser) feriados nacionais. Uma delas é a da batalha travada em Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, entre as fracas hostes (mas o fraco fez-se forte, como cantou Camões) do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o imponente exército castelhano que, na mira de se apoderar do frágil reino governado por um jovem monarca — escolhido pelas Cortes, na qualidade de Mestre de Avis, para suceder a    D. Fernando —, entrara com grande alarde por terras da Beira, abrindo triunfalmente caminho até ao sul, no intuito de pôr cerco a Lisboa.

Nos nºs 734 a 785 do Diabrete (1950/51), Fernando Bento, então no auge do seu estilo pleno de fluidez, sobriedade e movimento, narrou de forma magnífica a vida e os feitos do Condestável, a cuja nobreza, patriotismo e valentia Portugal ficou a dever, nesses tempos heróicos e conturbados, a manutenção da sua independência.

DIABRETE 767 e 769

DIABRETE 770 e 771

Cav Andante 67Outro popular semanário juvenil, o Cavaleiro Andante, dirigido também por Adolfo Simões Müller, escritor e poeta de forte veia nacionalista, depois de ter dado à estampa no nº 67, de 11/4/1953, uma página magistralmente ilustrada por Fernando Bento, com estâncias d’Os Lusíadas alusivas à “incerta guerra” que “uns leva a defensão da própria terra, outros a esperança de ganhá-la”, voltou a assinalar essa gloriosa efeméride, apresentando nas páginas centrais do seu    nº 241, de 11/8/1956, um magnífico poster a cores, com a assinatura de José Manuel Soares, dedicado à maior vitória do Exército português contra um inimigo numérica e militarmente muito superior, mas que foi completamente destroçado pela bravura e tenacidade das nossas hostes e pela ardilosa estratégia do Condestável.

Cav. Andante 241

Ala dos namorados azulejo copyNesse mesmo número, o Cavaleiro Andante tinha em publicação o episódio histórico “A Ala dos Namorados”, baseado na obra homónima de António de Campos Júnior, cujo tema era a luta de um punhado de jovens patriotas — dos quais fazia parte o célebre Álvaro Coutinho, o “Magriço” — em defesa da independência, durante a crise de 1384/85 (depois das revoltas populares contra Leonor Teles e da morte do conde Andeiro), culminando na batalha de Aljubarrota, em que participaram a fina-flor da nobreza, a peonagem, besteiros e lanceiros endurecidos por muitos combates, e a juventude heróica que ardia no desejo de expulsar os castelhanos invasores.

Cav Andante 220   A obra de Campos Júnior foi adaptada por uma excelente dupla formada por Artur Varatojo e José Manuel Soares, que nas páginas do Cavaleiro Andante souberam retratar com emoção, fiéis ao espírito do romance (embora cometendo a proeza de condensar em 24 pranchas uma obra tão extensa), aquele que foi, no meio de inenarráveis sofrimentos e de graves ameaças externas — como o bloqueio naval do Tejo por uma poderosa frota castelhana, aliado à peste e à fome causadoras de inúmeras vítimas entre a população de Lisboa —, um dos períodos mais negros e, ao mesmo tempo, mais triunfantes e decisivos da História de Portugal.

Cav Andante 239 e 240

Cav Andante 241 e 242

Ant BD Portuguesa820Apresentada entre os nºs 218 e 249 do Cavaleiro Andante, com algumas páginas a cores e outras a preto e branco, “A Ala dos Namorados” foi reeditada em 1986 num volume da Antologia da BD Portuguesa (Editorial Futura), enriquecido com textos de Artur Varatojo e de Luiz Beira e uma magnífica capa de José Manuel Soares, reprodução de um quadro a óleo que este fecundo e versátil artista, nome consagrado da pintura e da “época de ouro” da BD portuguesa, expôs no Mosteiro da Batalha.

Em 1956, o Mundo de Aventuras — que no campo da BD histórica de produção nacional procurava tomar a dianteira ao seu rival Cavaleiro Andante — publicou também uma vida do Santo Condestável, em páginas com três vinhetas uniformes intercaladas por farta prosa, da lavra, ao que supomos, do seu director José de Oliveira Cosme, humorista, poeta, músico, homem da Rádio, tradutor e autor de livros de multifacetada espécie e colaborador de várias publicações infanto-juvenis, desde os anos 30, em que foi chefe de redacção do semanário O Senhor Doutor.

ma 375 830Os desenhos dessa narrativa ilustrada, dada à estampa nos nºs 374 a 385 do Mundo de Aventuras, eram da autoria de um dos melhores artistas da “casa”, o ainda jovem Carlos Alberto, cujo talento se espraiava já por colecções de cromos — como a famosa História de Portugal —, capas de livros e revistas, ilustrações de contos, histórias aos quadradinhos, traçando firmemente um assinalável percurso artístico que, mais tarde, se consumaria numa das artes mais nobres e consagradas, a Pintura, em que granjeou ainda maior reputação, com trabalhos que figuram em numerosas colecções nacionais e estrangeiras.

Talvez por ter renunciado cedo à BD, Carlos Alberto não se considera um desenhador como muitos outros, embora reconheça que ficou a dever à narração figurativa (também chamada 9ª Arte) a experiência, o rigor e os conhecimentos — a composição das cenas e o movimento das figuras, por exemplo — que lhe permitiram fazer um certo tipo de pintura.

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Um dos Quadros da História de Portugal, realização de Carlos Alberto (com o pseudónimo de M. Gustavo), que o Jornal do Cuto publicou em separata no nº 34, de 23/2/1972, retrata de forma intensamente realista o desfecho da batalha de Aljubarrota, com el-rei D. João prostrado pela fadiga e pela emoção da vitória, diante do estandarte castelhano que Antão Vasques, um dos bravos oficiais das suas hostes, lhe veio depor aos pés.

Jornal Cuto 34Outros nomes ilustres da BD portuguesa, como Vítor Péon, José Garcês, José Ruy, José Antunes e Artur Correia (este em registo obviamente humorístico), também evocaram os feitos de Nuno Álvares Pereira e, em particular, a batalha de Aljubarrota, mas reservamos alguns desses trabalhos, dispersos em revistas e álbuns, para um próximo post.

Queremos, porém, num preito à memória do saudoso Mestre Vítor Péon, apresentar, como condigno remate deste artigo, a sua vigorosa reconstituição da célebre batalha, tal como foi publicada, com uma nova página, no Mundo de Aventuras nº 358 (2ª série), de 14/8/1980. A versão original pode ler-se no Tintin nº 2 (1º ano), de 8/6/1968.

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ma 358 - 3 e 4

XVIII Salão Internacional de BD de Viseu

BD REGRESSA À CIDADE DE VIRIATO

Como tem sido largamente noticiado, inaugura-se já amanhã, dia 10, pelas 17:00 horas,        o XVIII Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, que este ano conta com a participação, como convidado especial, de Andrea Venturi, conceituado desenhador da equipa de Tex Willer, o mais popular herói da BD western, tanto em Itália como em muitos outros países do mundo, incluindo Portugal e Brasil.

convite Viseu 804Além de uma exposição com originais de Venturi, estarão também patentes ao público no recinto do Salão (mais uma vez integrado no vasto Pavilhão Multiusos da tradicional Feira de          S. Mateus) mostras dedicadas a Sergio Bonelli, numa homenagem póstuma ao mítico fundador de uma das maiores editoras europeias; ao centenário do famoso desenhador belga Willy Wandersteen; às adaptações em BD de várias obras de Eça de Queiroz; aos 50 anos do Homem-Aranha; ao humor no Jornal do Exército (1961-1974), com destaque para os cartoons de Zé Manel; a Comés, outro famoso nome da BD franco-belga, recentemente falecido;    a alguns autores portugueses como João Amaral (que desenhou o cartaz do Salão e receberá este ano o troféu Animarte BD), Álvaro, Rui Lacas e Santos Costa; a Corto Maltese no século XXI, com uma galeria de pastiches realizados por vários desenhadores da nossa praça, numa iniciativa de Geraldes Lino, que será outra personalidade homenageada… e a lista não fica por aqui!

Com um programa tão vasto e atractivo está de parabéns o GICAV (Grupo de Intervenção     e Criatividade Artística de Viseu), que mais uma vez meteu ombros à tarefa de organizar o Salão. E não temos a menor dúvida de que os seus esforços serão recompensados com uma grande afluência de público bedéfilo oriundo de vários locais do país. Pela nossa parte, lamentamos não poder estar presentes e desejamos o maior sucesso (como nas 17 edições anteriores) à infatigável equipa coordenada por Luís Filipe e Carlos Almeida.

Tex-a-caminho-de-Viseu

Reproduzimos esta imagem, com a devida vénia, do Tex Willer Blog

VIVAM AS FÉRIAS!

Neste tempo de férias, de sol e de calor (que, afinal, não desiludiu as expectativas… valha-nos isso!), evocamos a capa do Tintin belga nº 27 – 5º ano, de 6/7/1950, que recriou de forma divertida, pela mão de um anónimo desenhador, o espírito de comunhão com a natureza e de saudável descontracção com que miúdos e graúdos encaram sempre     (e em todas épocas) esse período do ano tão apetecido… e infelizmente tão curto como os autênticos dias de Verão!

capa Tintin nº 27