AS QUATRO ESTAÇÕES – 11

FÉRIAS FELIZES

A felicidade mais pura irradiada por uma jovem banhista que goza a plenitude das sensações estivais em comunhão com o sol, o céu dourado, o mar liso como um espelho e o aroma salgado da brisa, num plácido dia de Agosto… ou a eterna alegoria do Verão e das férias na inspirada síntese gráfica de MÉCO, um dos mais talentosos e apreciados ilustradores que despontaram nas revistas infanto-juvenis, como Joaninha e O Papagaio, em meados do século XX.

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CAVALEIRO ANDANTE – UMA REVISTA DE BD QUE FEZ HISTÓRIA ENTRE A “GENTE NOVA”

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Se tivesse sobrevivido mais seis décadas — feito ao alcance, por razões óbvias, de poucas publicações periódicas, a começar pelas de banda desenhada —, o Cavaleiro Andante, nascido em 5 de Janeiro de 1952, faria hoje 65 anos!

Efeméride meramente simbólica, mas que nos apraz registar, mais uma vez, em honra de uma emblemática revista, de características únicas no seu género, editada pela Empresa Nacional de Publicidade e dirigida por Adolfo Simões Müller, que introduziu em Portugal, na esteira de Tintin e de Hergé — embora estes fossem oriundos d’O Papagaio e do Diabrete —, os maiores heróis e autores da BD franco-belga, como Blake e Mortimer (de Edgar P. Jacobs), Lucky Luke (de Morris), Michel Vaillant (de Jean Graton), Dan Cooper (de Albert Weinberg), Buck Danny (de Hubinon e Charlier), Jerry Spring (de Jijé), Ric Hochet (de Tibet e Duchâteau), a par de outras grandes criações europeias.

Por outro lado, se o Cavaleiro Andante tivesse tido existência mais efémera, como algumas revistas do seu tempo — que viveram pouco mais do que as rosas —, talvez não tivessem florescido nas suas páginas muitas obras que enriqueceram o património artístico da BD portuguesa, com a assinatura de Fernando Bento, José Ruy, José Garcês, Artur Correia, Fernandes Silva, José Manuel Soares e Stuart Carvalhais.

Honra, pois, a uma saudosa revista que durou apenas uma década, mas sem a qual a história da BD portuguesa teria ficado, certamente, mais pobre!

COMO TINTIN E OS SEUS AMIGOS SAUDAVAM O ANO NOVO

Com as capas de Natal e de Ano Novo assinadas por Hergé — e que, por isso, valem hoje fortunas no mercado de originais, onde as obras do criador de Tintin têm batido todos os recordes —, a famosa revista belga nascida em 26 de Setembro de 1946, sob o signo do mais popular herói da BD europeia, levou a muitos lares, espalhados por quatro continentes, os seus votos de Boas Festas, enchendo de encanto e de júbilo, com as suas magníficas galas, muitos milhares de espíritos juvenis.

Mal sonhava Hergé, nessa época, que os seus trabalhos seriam tão apreciados e que atingiriam no futuro, em pleno século XXI, um valor material e simbólico que ultra- passaria o de muitas obras de arte. Justificadamente, aliás, como provam estas capas do Tintin respeitantes aos neófitos anos de 1950 e 1952, onde o notável talento gráfico de Hergé (e dos seus colaboradores) se conjuga com a mais espirituosa fantasia.

Que, para os amantes da 9ª Arte (sem limites etários), as mesmas galas, o mesmo prazer e a mesma jovialidade, que Hergé tão bem sabia retratar, se renovem todos os dias em 2017, são os votos d’O Gato Alfarrabista e dos outros blogues da Loja de Papel.

AS QUATRO ESTAÇÕES – 10

O PRIMEIRO VERÃO

Esta capa do Papagaio nº 699, que chegou às mãos dos seus leitores em 2/9/1948, marca o início da breve colaboração de José Garcês (então ainda nos primórdios da sua carreira) com a revista que apresentou em Portugal um dos maiores heróis da BD europeia.

As saudades de Tintin (que “desertara”, poucos meses antes, com armas e bagagens, para o Diabrete) ainda se faziam sentir, mas a redacção d’O Papagaio procurava minorar essa ausência recorrendo a novos e brilhantes colaboradores, como Garcês, José Ruy, Artur Correia e Vítor Silva, cujos trabalhos deram um aspecto renovado e mais airoso à revista, naquela que seria a sua última fase como publicação independente.

Garcês com cerca de 24 anosAliciado por projectos mais ambiciosos, em jornais como o Camarada e o Lusitas, que reclamavam também os seus préstimos e talentos, Garcês demorou-se pouco tempo no semanário infantil mais antigo e garrido dessa época (em comparação com O Mosquito e o Diabrete), mas soube inspirar-se nas suas linhas mestras… como ilustra esta capa dedicada à primeira infância, em que o jovem artista (que só seria pai dali a alguns anos) não precisou de modelo para retratar o gorducho petiz que brinca tranquilamente na areia, gozando, pela primeira vez, as delícias da praia e do verão.

Julho, animado e soalheiro, prelúdio das férias sempre tão desejadas, é também um mês especial para o decano dos autores portugueses de BD, pois foi no dia 23/7/1928, em plena canícula do estio, que veio a este mundo.

Juntando-se aos seus familiares e amigos, e à grande legião dos seus admiradores espalhados por todo o país, O Gato Alfarrabista aproveita esta oportunidade para felicitar calorosamente José Garcês por mais um aniversário, desejando-lhe as maiores felicidades e novos êxitos numa carreira que ainda está longe do fim.      

COLECÇÃO BANDA DESENHADA (OS VELHOS E BONS HERÓIS DA BD CLÁSSICA) – FASCÍCULOS 1 E 2

Visão - Heróis da BD

A propósito desta colecção, de que já saíram dois fascículos com a revista Visão, concordamos por inteiro com as críticas que Pedro Cleto lhe fez no seu blogue As Leituras do Pedro (ver em http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/2016/03/coleccao-banda-desenhada-com-visao.html), nomeadamente quanto à selecção dos títulos, que deixa muito a desejar por falta de critério, misturando revistas importantes com outras que não fizeram história. O mais grave, quanto a nós, é terem incluído também O Mosquito, através da sua série menos representativa, com um único número publicado em 1975. Até podia ser um número com um conteúdo interessante, como é o d’O Falcão, por exemplo, mas bem pelo contrário… pois trata-se de uma medíocre historieta inglesa. Mais valia terem optado por um número da 2ª série, dirigida e editada por José Ruy, no início dos anos 60 (período que se enquadra no desta colecção). Ou mesmo da 3ª, com quatro números apenas, mas que reeditou algumas célebres criações de grandes autores ingleses.

A ideia de aumentar o formato d’O Falcão #577, com uma aventura do popular “ás” da aviação Major Alvega (de que falaremos noutro post), não foi má de todo, mas a qualidade do papel, demasiado transparente, estragou as boas intenções. Nem mesmo as revistas desse tempo (como o Mundo de Aventuras ou o Jornal do Cuto) usavam papel tão amarelado (para não lhe chamar “ordinário”). Dá a impressão de que os autores desta colectânea quiseram dar-lhe um aspecto tão “retro” que escolheram esse tipo de papel por ser o mais adequado aos seus intentos. Mas falharam redondamente, porque mesmo revistas mal conservadas não “envelheceram” tanto (salvo em casos extremos) como aparentam os exemplares já publicados pela Visão. Tenho no meu acervo revistas bem mais antigas, algumas com 80 anos ou mais, num estado de conservação tal que parecem ter saído da gráfica há poucos meses… descontando, claro, as diferenças de impressão, pois os processos tipográficos desse tempo eram rudimentares comparados com os actuais.

A questão do formato também não nos satisfaz, pois foi preciso reduzir o de algumas revistas (caso do Mundo de Aventuras, do Jornal do Cuto e do Cavaleiro Andante) e aumentar outros (como o d’O Falcão e d’O Mosquito). Portanto, não lhes podemos chamar fac-similes, porque as revistas originais têm dimensões bastante diferentes. Preferíamos que se tivesse optado por revistas de pequeno formato, como o d’O Falcão (2ª série), já que a ideia era criar um padrão uniforme. As revistas de formato maior destoam nitidamente do conjunto, apesar da sua leitura não ser muito prejudicada. Verdade se diga, vendo a questão por outro prisma, que o formato padronizado tem vantagens para os leitores que quiserem encadernar os seis fascículos. Mas alguém lhes dará valor daqui a alguns anos?

Viusão - Encarte A 171

Quanto ao impacto desta colecção junto do público em geral, não queremos, por ora, fazer prognósticos. Trata-se, como é óbvio, de uma amálgama de títulos destinada aos leigos e não aos coleccionadores. Alguns destes, entre os mais nostálgicos, apreciarão certamente a iniciativa, os mais novos desinteressar-se-ão, em absoluto, ou poderão adquirir um ou outro título, por mera curiosidade. De qualquer forma, deve haver também um nicho de mercado para este tipo de edições, mas apresentadas de forma mais cuidada e com as devidas anotações teóricas e críticas (mesmo feitas à parte). A história da BD em Portugal também inclui, em larga percentagem, as revistas de índole mais juvenil, que ajudaram a fomentar o gosto de muitas gerações pela leitura e pelos quadradinhos. E a Visão, semanário de grande tiragem e projecção nacional, poderia ser um bom veículo para as dar a conhecer ao público de hoje. Mas faltou o “golpe de asa” a este projecto…

O 2º fascículo inserido na edição da semana passada, com uma reprodução do Mundo de Aventuras #32 (2ª série), contendo três histórias completas, entre elas uma aventura de Mandrake e Lotário, tem para mim um significado especial, pois foi no número seguinte que comecei ‘off the record’ a coordenar esta revista. Por razões que não interessa agora explicar, só bastantes números depois, quando esta série do MA chegou ao nº 100 (já com outro formato), é que o meu nome apareceu como coordenador na ficha técnica, lá se mantendo até ao último número (589), saído em Janeiro de 1987.

O fim de uma era de saudosa memória, pela qual passaram alguns dos maiores nomes da BD portuguesa, como E.T. Coelho, Vítor Péon, Fernando Bento, Simões Müller, Cardoso Lopes, Raul Correia, Roussado Pinto, Jayme Cortez, José Ruy, José Garcês, Carlos Alberto, José Antunes, José Baptista, Artur Correia, Carlos Roque, Eugénio Silva, Júlio Gil, Vítor Mesquita, Pedro Massano, Augusto Trigo, Fernando Relvas e muitos mais!…

Voltando ao MA #32, o episódio de Mandrake, desenhado por Fred Fredericks, não é dos melhores desta fase, mas nele reaparece um dos mais carismáticos inimigos do mestre da magia: o “Bando dos Oito”, o que lhe confere algum interesse. E gostei também de rever duas histórias que traduzi para este número, com o Devil Doone, um detective de origem australiana que se safava sempre do perigo, e Roland Garros, célebre herói da aviação francesa, na 1ª Guerra Mundial. Bons tempos em que uma certa ingenuidade e um saudável pendor ecléctico caracterizavam ainda a BD de cariz mais popular!

Visão encarte 2

O OVO DA PÁSCOA DE HERGÉ!

Como já mostrámos algumas vezes, o Tintin belga escolhia sempre um dos seus melhores desenhadores (neste caso, o mais apto de todos, ou seja, Hergé) para assinalar a Páscoa e outras quadras festivas, cumprindo uma tradição fortemente enraizada, nessa época, em muitas revistas infanto-juvenis. Portugal seguiu-lhe o exemplo, mas nenhum desenhador abordou o tema de forma tão singela e espontânea e, ao mesmo tempo, tão inspirada, como Fernando Bento no Diabrete, durante anos a fio.

Esta capa do mestre belga, cuja assinatura já chamava a atenção dos coleccionadores, graças à popularidade do seu maior herói — que vivia, nesse interim, peripécias de grande emoção numa aventura desenrolada em terras do “Ouro Negro” —, assinala a Páscoa de 1949, e também o 4º ano de publicação do triunfante semanário Tintin, nascido em 26 de Setembro de 1946, como resultado do feliz encontro de Hergé, seu futuro director artístico, com o arguto e dinâmico editor Raymond Leblanc.

Encontro que envolveu outras novelescas peripécias, alguns sobressaltos, por causa das acusações de colaboracionismo que pendiam sobre Hergé (exageradas, aliás), mas tudo acabou em bem. O futuro veio dar razão a Raymond Leblanc… Quem quiser adquirir estes antigos exemplares do Tintin nos alfarrabistas ou na eBay, terá de desembolsar algumas dezenas de euros… só por causa da valiosa assinatura de Hergé!   

 

OPERAÇÃO BD NOSTALGIA NA REVISTA “VISÃO”…

… OU O REGRESSO DOS VELHOS HERÓIS!

Visão - heróis da BD 2152

Numa iniciativa que muitos bedéfilos saudarão certamente com regozijo, a revista Visão resolveu celebrar o seu 23º aniversário de uma forma especial, oferecendo aos seus leitores, durante seis semanas, uma deliciosa [sic] colecção de Banda Desenhada antiga publicada em Portugal, que começa com o saudoso Major Alveja e engloba também outros heróis de mítica fama como Mandrake, Fantasma ou Flash Gordon.

Numa altura em que alguns jornais, com inegável destaque para o Público, têm dedicado à BD uma atenção especial, apresentando colecções baseadas nos grandes clássicos da escola franco-belga e nos maiores super-heróis norte-americanos (sem esquecer o precioso filão das graphic novels), registamos naturalmente com agrado — ainda que com algumas reservas em relação ao critério selectivo, sobretudo dos dois últimos títulos — este  “brinde” aos amantes das histórias aos quadradinhos de outra época e de outro género de heróis, quando as bancas se enchiam de revistas de cariz popular, com títulos emblemáticos que ainda hoje ecoam no imaginário de várias gerações e povoadas por trepidantes aventuras, cujos arquetípicos personagens — alguns já quase com um século de existência — parecem ter o condão de viver para sempre!

Fazemos votos de que outros heróis “adormecidos” no tempo, mas não na memória dos que com eles cresceram, sonharam e viveram muitos momentos de exuberante fantasia, possam em breve voltar à acção, em iniciativas semelhantes à que a revista Visão decidiu levar a cabo para assinalar, de forma diferente, um aniversário que decerto ficará também na memória dos seus inúmeros e fiéis leitores.  

AS QUATRO ESTAÇÕES – 9

DITOSO INVERNO

Puck 1924 111A menos de 15 dias do começo da Primavera, o tempo não dá sinais de mudar, como se o Inverno, este ano, quisesse permanecer mais algumas semanas connosco, brindando-nos com o sopro agreste das nortadas, o frio cortante que trespassa a pele e o manto espesso de neve que ainda cobre as serranias, em muitos recantos de Portugal.

Quase todos os dias é também a chuva que fustiga o céu pardacento, parecendo desmentir aquele adágio que os miúdos, dantes, apregoavam alegre- mente, ao sair da escola, vendo o sol romper entre as nuvens: “ Março marçagão, de manhã Inverno e à tarde Verão…” Agora, esse dito caiu em desuso.

Mas o Inverno, por muito incómodo e agressivo que seja, às vezes, também tem os seus encantos e é ainda para muita gente a estação do ano que, quando acaba, lhes deixa mais saudades… Dos passeios na neve, das aldeias vestidas de branco, do calor da lareira, do convívio mais íntimo com os parentes, no Natal e no Ano Novo, das prendas, dos votos de felicidade, da comunhão com a natureza e com a sua beleza nua, mas já à espera da seiva que a revestirá de verdura, de novas plantas, flores e frutos.

Puck 1924 p 1 112Algumas imagens do Inverno persistem, por isso, na nossa memória… como se fossem extraídas de um quadro ou de uma gravura que pendurámos na parede e que vemos todos os dias. Também têm esse condão as gravuras que recheiam os almanaques editados noutros tempos por várias revistas infantis, sobretudo em países mais conservadores como a Inglaterra, onde esses almanaques tiveram vida longa, oferecendo aos seus jovens leitores um pitoresco caleidoscópio de contos, artigos, curiosidades, passatempos, ilustrações a granel, e até algumas “picture stories”, isto é, histórias aos quadradinhos, em estilo cómico e realista, que faziam jus ao talento dos melhores desenhadores da sua época.

No almanaque do Puck (uma das mais famosas dessas revistas inglesas) para o ano de 1924, o Inverno vestia as suas melhores galas, pródigo de encantos e de prazeres que os mais novos festejavam com alvoroço, tocados pela magia das cores e das formas. Exemplo disso é esta tradicionalista ilustração de um pintor chamado Archibald Webb (1887-1944), que reproduzimos desse gracioso almanaque natalício, com quase 200 páginas e em muito bom estado de conservação, apesar dos seus 92 anos de idade!

   

COMO TINTIN APRENDEU A FALAR PORTUGUÊS

O Papagaio nº 3 (Tom)Já não é novidade para ninguém que Portugal foi o primeiro país não francófono a traduzir as aventuras de Tintin, graças a uma feliz conjugação de gostos e de vontades, entre o Padre Abel Varzim, que frequentara no início dos anos 30 a Universidade de Lovaina, onde conheceu a obra de Hergé, e Adolfo Simões Müller, director da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença.

A influência de Abel Varzim foi decisiva na compra dos direitos de Tintin para Portugal, como comprova a sua correspondência trocada com Hergé, mas é igual- mente verdade que Simões Müller ficou tão interes- sado como ele na publicação das aventuras do juvenil repórter que tanta celeuma levantara com a sua viagem ao país dos Sovietes — a primeira de muitas, pois na pele de destemido aventureiro iria correr meio mundo e viver extraordinárias peripécias, defrontando sinistros inimigos e fazendo também inúmeros amigos, entre os quais alguns companheiros inseparáveis.

O Papagaio nº 15 (Tom)O Papagaio, como ficou honrosamente registado nos anais da BD portuguesa, era uma revista para miúdos com um assinalável conteúdo artístico e literário. Naquele tempo de “vacas magras” para a imprensa infantil, nenhuma outra revista do seu género, nomeadamente o Tic-Tac e O Senhor Doutor, conseguia rivalizar com o colorido, a graça e o primor gráfico e estético estampados em todas as suas páginas.

Era, na época, finais dos anos 30, um dos maiores encantos dos miúdos, mesmo daqueles que ainda não andavam na escola, e as mães, os pais, os amigos, os professores, aconselhavam vivamente a sua leitura, como útil e pedagógico instrumento de aprendizagem das primeiras letras (e primeiras artes). Muitos lares portugueses em que havia crianças tinham, naquele tempo, o lúdico hábito de comprar semanalmente O Papagaio, que era, na sua fase inicial, a revista infantil de maior tiragem e expansão.

Quando eu nasci, já O Mosquito reinava nas preferências da miudagem, que aprendera rapidamente a ler e achava O Papagaio caro demais para as suas modestas posses, pois custava 1$00, o dobro do que O Mosquito lhes oferecia em páginas recheadas de muito maior emoção. Enquanto que O Papagaio, de certa forma, representava a classe burguesa mais endinheirada, O Mosquito hasteava a bandeira dos mais pobres, dos mais humildes e necessitados. Democraticamente, acabaram todos por se juntar, por uma questão de interesses e de gostos, e O Mosquito tornou-se o campeão da popularidade, apesar de não ter nas suas páginas (bem mais modestas que as d’O Papagaio) um herói como Tintin.

O Papagaio (monografia)Mas voltando atrás, aos primeiros anos da minha infância, nunca esqueci os dias soalheiros passados a desfolhar um volume que a minha carinhosa madrinha me tinha oferecido e que eu alegremente, e sem grandes escrúpulos de consciência, “maltratei” tantas vezes que acabou por ficar num estado lastimoso. Era o primeiro volume d’O Papagaio, magnífica edição cartonada que se tornou uma valiosa raridade, e apesar dos danos que sofreu nas mãos de um garoto traquinas, com pouco mais de três anos, ainda hoje conservo o que dele resta.

Foi, sem dúvida, O Papagaio que despertou a minha ligação afectiva com os “bonecos” e as histórias aos quadradinhos, pois lembro-me perfeitamente de olhar maravilhado para alguns dos desenhos que enchiam de humor, encanto e fantasia as suas páginas, especialmente os de Thomaz de Mello (Tom) e José de Lemos, dois dos melhores colaboradores artísticos d’O Papagaio, cuja peculiar estilização gráfica despertou também as primeiras emoções estéticas noutros garotos da minha idade.

Papagaio 53Quando eu me encantava e divertia a folhear (e a recortar, colar e pintar) esse volume — cuja capa foi reproduzida num valioso trabalho monográfico de José Menezes, já com várias edições —, ainda não tinha tido nenhum contacto com a figura de Tintin, que só faria a sua entrada triunfal no nº 53 (2º volume) e era, então, um herói completamente desconhecido dos miúdos portugueses. Nenhum sabia a sua origem, nem o verdadeiro nome do seu autor. Verdade se diga que isso, para a maioria, não tinha importância, pois Tintin fora-lhes apresentado como um juvenil repórter e explorador português, cuja idade rondava os 15/16 anos, mas desem- poeirado, intrépido e capaz de se desenvencilhar como um adulto, em quaisquer circunstâncias.

Sendo um aventureiro de características tão independentes acabou por sair da esfera da ficção, tornando-se tão real como os outros heróis, de “carne e osso”, que a miudagem via no cinema. Portanto, não precisava de ter “pais”, nem bilhete de identidade, nem residência fixa, para ser credível como um herói d’O Papagaio que viajava por todo o mundo, um repórter de 1ª linha cujas crónicas eram publicadas em imagens, para lhes dar ainda maior realismo. Hergé e o director do Petit Vingtième contribuíram voluntariamente para essa dualidade, quando Tintin (em pessoa) desembarcou apoteoticamente na gare central de Bruxelas, regressado da sua famosa reportagem na União Soviética.

Papagaio 51A primeira aventura de Tintin em português estreou-se, como referimos, no nº 53 d’O Papagaio, dado à estampa em 16 de Abril de 1936, e foi também a primeira (coisa que não é novidade para ninguém) a ser publicada a cores no espaço europeu, o que agradou (como também se sabe) a Hergé, cada vez mais cordial no trato com Simões Müller.

Mas a primeira autêntica aparição de Tintin, com essa garrida paleta cromática que dava outro aspecto aos seus trajes de cowboy (visto que a aventura se desenrolava na América do Norte, em pleno país do famoso Al Capone), foi na capa do nº 51, de 2 do mesmo mês de Abril, onde já eram patentes as encrencas em que o nosso herói se ia meter.

A partir desse momento, mesmo sem abrir a boca, Tintin já começava a falar português, comportando-se até como um vulgar emigrante açoriano ou madeirense que tivesse demandado o Novo Mundo em busca da riqueza e das oportunidades que na sua terra escasseavam. E as suas aventuras continuaram a ser seguidas com entusiasmo pelos leitores d’O Papagaio, que viam nele um símbolo da coragem e do espírito nómada e aventureiro que tinham feito a grandeza lusíada noutras eras.

Papagaio 115 e 138Português de adopção, por obra do Padre Abel Varzim e de Adolfo Simões Müller, português ficou enquanto andou a saltitar de revista em revista, d’O Papagaio para o Diabrete e deste para o Cavaleiro Andante, depois para o Foguetão e o Zorro. Só mais tarde, com uma pequena mudança ortográfica no “registo civil” (à qual, a bem dizer, ninguém ligou importância) regressou às origens, recuperando o seu estatuto mítico de “cidadão universal”.

Papagaio 366 087

Nota: Agradecemos a Leonardo De Sá algumas correcções feitas a este texto (ver 1º parágrafo) e aconselhamos a leitura do seu comentário. A capa d’O Papagaio comemorativa do seu 7º aniversário (na imagem supra), é de um dos mais jovens e talentosos colaboradores desta revista, precocemente desaparecido: Güy Manuel.

O CARNAVAL DO “DIABRETE”… HÁ 72 ANOS!

Em 1944, iniciando uma tradição que se manteve até ao último ano da sua existência, o Diabrete festejou o Carnaval “a época do sonho”, em que “os meninos e as meninas se mascaram e se julgam transportados, por graça de misteriosa varinha de condão, a um mundo distante e diferente” — com uma feliz iniciativa que iria espalhar a alegria e o alvoroço entre alguns dos seus leitores mais folgazões, residentes de norte a sul do país.

Como estava escrito em letras gordas no rodapé da primeira página do nº 163, dado à estampa em 12 de Fevereiro de 1944, a oito dias do início da quadra carnavalesca, esse número inseria nada mais nada menos do que “6 fatos de máscara”.

Aqui têm, na mesma imagem, o cabeçalho e o rodapé desse número.

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Claro que não se tratava de máscaras completas, como nas lojas, mas sim de “seis lindíssimos figurinos” criados por um exímio desenhador, cujo nome já era bem conhecido da juventude portuguesa, sobretudo daquela que não dispensava a leitura, todas as semanas, do seu “grande camaradão”. Ora o Diabrete enfrentava, nessa época, a larga audiência e a radiosa fama do seu principal concorrente, O Mosquito, onde fazia também brilhante figura outro notável desenhador português: Eduardo Teixeira Coelho.

Mas o facto de ambas competirem no mesmo terreno com todas as “armas” ao seu alcance, não significava que as hostes estivessem divididas, isto é, muitos leitores d’O Mosquito gostavam também de ler o Diabrete, e vice-versa. E o apreço que nutriam pelo talento de E.T. Coelho, então ainda na fase de ilustrador, com um pujante estilo realista que rivalizava com os dos melhores artistas estrangeiros do seu género, equiparava-se ao que sentiam pelos trabalhos de Fernando Bento, cuja pitoresca arte decorativa dava uma alegre vivacidade e uma sofisticação especial a todos os números do Diabrete.

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A página que acima reproduzimos, com uma sugestiva ilustração de Fernando Bento, abria as “cortinas” de um “palco” onde se exibiam seis maravilhosos e originais trajos de Carnaval (nada fáceis de confeccionar, aliás!), criados pelo traço exuberante e pela pueril fantasia de um desenhador cuja carreira começara precisamente no teatro.

Para tornar a sua “ideia luminosa, espantosa e estonteante” ainda mais irresistível, o Diabrete decidiu promover uma espécie de concurso entre as hábeis mães (ou tias e avós) costureiras, oferecendo aliciantes prémios aos seus leitores mais prendados, isto é, vestidos a preceito e prontos a posar para o fotógrafo. Naquele trágico tempo de guerra, cujos ecos ribombavam ainda além-fronteiras, e de carestia para inúmeras famílias portuguesas, não eram muitos, certamente, os miúdos que podiam dar-se ao luxo de pedir aos pais uma boneca ou uma bola de futebol! Nem sequer de concretizar um sonho ainda mais ambicioso: tomar parte num desfile de máscaras carnavalescas.

Quanto aos vistosos figurinos criados por Fernando Bento (em que os rapazes estavam em supremacia), note-se que foram inspirados nalguns dos personagens que animavam as páginas do Diabrete (menos o Tarzan, que só usava tanga!), com relevo para um dos mais carismáticos: o azougado saloio Zé Quitolas, com o seu trajo típico e o seu “burrico” pela trela, que graças ao versátil traço de Fernando Bento tantas e tão divertidas peripécias proporcionou aos pequenos leitores do “grande camaradão de todos os sábados”.

Diabrete 163 - 4