A GRANDE AVENTURA DO JORNAL TINTIN

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Depois do Paris Match, que lhe dedicou um número especial com 112 páginas, recheadas de artigos, entrevistas e imagens de interesse histórico, a revista especializada dBD assinalou também o 70º aniversário do Tintin belga, nascido em 26 de Setembro de 1946, por iniciativa de Raymond Leblanc, fundador das Éditions du Lombard, e sob a direcção artística do mais famoso autor dessa época, Georges Rémi (Hergé), a quem coube a tarefa de reunir uma ecléctica equipa de colaboradores, da qual fizeram parte, nos primeiros tempos, Edgar Pierre Jacobs, Jacques Laudy, Paul Cuvelier, Le Rallic e ele próprio.

Tão intemporal como o célebre herói que lhe deu o nome, o semanário “dos jovens dos 7 aos 77 anos” (que já não se publica desde 1988) continua a perdurar na memória dos seus fiéis leitores espalhados pelo mundo — e que em Portugal, graças a uma edição lançada em Junho de 1968, foram também da ordem das dezenas de milhares.

Nessas luxuosas publicações, recentemente distribuídas nas bancas portuguesas e que recomendamos sem reservas a todos os tintinófilos, em geral, e aos visitantes deste blogue, em particular, constam várias homenagens aos principais heróis da revista e seus autores, com destaque para uma grande entrevista com Raymond Leblanc (no Paris Match Hors-Série) e para séries emblemáticas como Blake e Mortimer, Alix, Dan Cooper, Chlorophylle, Modeste et Pompon, Ric Hochet, Michel Vaillant, Corentin, Thorgal, Bernard Prince e muitas outras, à testa das quais figura naturalmente o incontornável personagem que deu fama, glória e fortuna ao seu criador: o sempre jovem Tintin, que Hergé quis que morresse com ele, mas que afinal lhe sobreviveu mesmo sem viver novas aventuras, para deleite de quem ainda sonha com um mundo transfigurado pela inocente magia do exotismo.

LEILÕES DE ORIGINAIS DE HERGÉ SÃO UM ÊXITO!

Tintin (Le Sceptre d'Ottokar)

Hergé (ou melhor, a sua mítica obra) soma e segue! No passado dia 30 de Abril, o cantor Renaud obteve a bonita soma de 1 milhão de euros por uma dupla prancha original de Tintin (com as dimensões 39,5 x 60 cms), num leilão realizado pela galeria Artcurial. Com 63 anos, Renaud achou chegado o momento de se desfazer de muitas peças da sua colecção, tendo posto à venda mais de uma centena (com trabalhos, entre outros, de Jacques Martin, Eddy Paape, Tibet, Tillieux, Walthéry, Mitacq, Varenne), mas foi o original de Hergé que, como era esperado, bateu o recorde desse leilão.

Como podem ver na imagem supra (reproduzida, com a devida vénia, da página on-line do jornal “Le Monde”), trata-se das duas últimas pranchas do mítico álbum Le Scèptre d’Ottokar, publicadas pela primeira vez, em 1938, no suplemento infantil Le Petit Vingtième, onde Hergé estreou as primeiras aventuras de Tintin. Outra dupla prancha do mesmo álbum, pertencente a outro coleccionador, já tinha sido vendida, em Outubro do ano passado, por 1,5 milhão de euros, num leilão da Sotheby’s realizado em Paris.

Tintin na SildáviaRenaud confidenciou à imprensa ter comprado o referido original por 100.000 francos, no final dos anos 80, à víúva do desenhador Etienne Le Rallic (autor do famoso Capitão Flamberge, personagem bem popular entre os leitores do Cavaleiro Andante). Falecido em 1968, o veterano Le Rallic colaborou com o criador de Tintin no início da 2ª Guerra Mundial e não deve ter sonhado que a prancha que Hergé lhe oferecera valeria, no futuro, tanto dinheiro! Quanto a Renaud, não há dúvida que fez um bom negócio… mesmo descontando o valor da inflação!

Como é do domínio público, os originais de Hergé produzidos antes da guerra suscitam a “cobiça” de inúmeros coleccionadores, não só de BD mas de arte em geral, sendo em regra os que atingem preços mais elevados, como uma página de guarda utilizada a partir de 1937 nos álbuns de Tintin (em que este aparece em 34 posições) e que foi vendida, há dois anos, por 2,65 milhões de euros, recorde mundial que ainda permanece imbatível. Mas até quando?…

O certo é que, como rezam os peritos e coleccionadores, a Banda Desenhada está a tornar-se um bom negócio e já são muitos os autores bem cotados neste mercado, com destaque naturalmente para os da escola franco-belga (Hergé e Tintin à cabeça). Quando é que os originais de autores portugueses começarão também a ser devidamente valorizados, desde logo no nosso mercado de arte? Porque já é tempo da Banda Desenhada fazer jus também, entre nós, ao seu título de 9ª Arte, com que foi crismada por alguns críticos e intelectuais franceses em meados dos anos 60.