MASCARENHAS BARRETO – ESCRITOR, POETA, MUSICÓLOGO, HISTORIADOR E AUTOR DE BD

mascarenhas-barreto-camarada-64-270Com 93 anos, faleceu no dia 3 de Janeiro p.p. o escritor e historiador Augusto Cassiano Neves da Silveira de Mascarenhas de Andrade Barreto (conhecido por Mascarenhas Barreto), em cuja rica e vasta biografia se destaca a ligação ao Fado, com o livro “O Fado – Origens Líricas e Motivações Poéticas” e como letrista de canções, à Literatura Policial, como autor e tradutor, e à Banda Desenhada, como argumentista nas páginas do Camarada (1ª série) e do Cavaleiro Andante, usando, com frequência, o pseudónimo de João da Terra.

Foi também, no campo da historiografia, um tenaz defensor da tese de que Cristóvão Colombo era português, natural de Cuba (Baixo Alentejo), tema polémico sobre o qual escreveu vários livros e o argumento para dois álbuns de BD ilustrados por José Garcês, com o mesmo título: “Cristóvão Colombo, Agente Secreto de El-Rei D. João  II” (Edições Asa, 1992/93).

mascarenhas-barreto-camarada-55-269No Jornal da MP e no Camarada, revistas editadas pela Mocidade Portuguesa, escreveu também novelas his- tóricas e contos humorísticos, estes sob o pseudónimo de Impressão Digital, com um “façanhudo” detective, o Capitão Mostarda (que fazia lembrar Hercule Poirot e gozou de grande popularidade entre os leitores).

As suas outras histórias de BD no Camarada foram ilustradas por Júlio Gil (“Cid Campeador”, “O Segredo da Luva Cinzenta”, “O Samovar de Prata”), Marcello de Morais (“O Rapto da Rainha do Volfrâmio”, “Vic Este em Paris”, “O Segredo do Centauro”), Bastos Coelho (“O Estranho Caso de Bula-Ditadi”, “O Enigma do Lume”, “Um Plano Tenebroso”), mascarenhas-barreto-camarada-73-271José Leal (“O Gato Azul”, “Zephir”), António Vaz Pereira (“Por Terras Estranhas de Além-Atlântida), José Garcês (“O Terrível Espadachim”).

Com este mestre da BD portuguesa, colaborou também em duas histórias publicadas no Cavaleiro Andante, “Viriato” e “O Falcão” (1952/53), e noutro álbum editado pela ASA: “D. João V – Uma Vida Romântica” (1994).

No âmbito da literatura policial, além de ter sido um prolífico tradutor, especialmente para a célebre Colecção Vampiro, escreveu romances com pseudónimos estran- geiros (como Van der Bart) e em nome próprio, de parceria com Francisco Branco, uma das obras mais originais da sua carreira, com o título “O Clube dos Sete Anões”, publicada no volume nº 66 da Colecção Xis (1957).

Por amabilidade de Carlos Gonçalves, nosso colaborador e amigo de longa data, cujos valiosos préstimos nos cumpre mais uma vez agradecer, recordamos seguidamente uma elucidativa entrevista que este fez a Mascarenhas Barreto para a rubrica Correio da Banda Desenhada, sobre os primórdios da sua actividade como autor de BD, dada à estampa no jornal Correio da Manhã, em 24 de Fevereiro de 1983.

Nessa época, alguns jornais, com relevo para Correio da Manhã, A Capital, Diário Popular e Diário de Notícias (entre outros), publicavam regularmente abundante noticiário e artigos vários sobre BD, em secções orientadas, nalguns casos, por elementos do Clube Português de Banda Desenhada, como Carlos Gonçalves e Geraldes Lino. Bons tempos! Sobretudo, nessa matéria, comparados com os de hoje… em que nenhuma referência à BD se encontra no obituário de Mascarenhas Barreto. Uma lamentável lacuna!

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2 thoughts on “MASCARENHAS BARRETO – ESCRITOR, POETA, MUSICÓLOGO, HISTORIADOR E AUTOR DE BD

  1. Amigo Jorge Magalhães,
    Dou-lhe os parabéns por esta oportuna chamada de atenção para Mascarenhas Barreto, figura importante do mundo da BD portuguesa, que eu – confesso – não conhecia suficientemente. O nome de Mascarenhas Barreto apenas me soara três vezes: a primeira, através do álbum “Cristóvão Colombo, Agente Secreto del-Rei D. João II”, que realizou em colaboração com José Garcês, escrevendo o argumento (como você refere no texto); a segunda através do “Falcão”, outra obra com participação conjunta dos dois autores; e a terceira com a obra “Viriato”, publicada inicialmente no “Cavaleiro Andante” e que recentemente o Gicav reeditou num álbum que tive a oportunidade de restaurar e paginar. Precisamente acerca do “Viriato”, troquei algumas impressões com José Garcês que reuni numa das páginas do álbum pois achei interessante essas informações/curiosidades serem partilhadas com os leitores.
    O que é curioso é que, nessas impressões que troquei com José Garcês, ele afirmou-me peremptoriamente, que o argumento era de sua autoria, embora com algumas indicações dadas pelo Mascarenhas Barreto (no que diz respeito ao contexto histórico, ao vestuário, às armas…), ao contrário do que é afirmado na entrevista ao Correio da Manhã que ilustra este post, onde Mascarenhas Barreto se proclama também ele o autor desse argumento…
    Certamente uma involuntária confusão (ou de um ou de outro autores, pois já lá vão muitos anos desde que o “Viriato” foi escrito e desenhado) que talvez fosse interessante esclarecer em definitivo, se possível…
    Um grande abraço

  2. Caro Amigo Carlos Rico,
    Obrigado pelos seus comentários, sempre pertinentes, e por ter também recordado a reedição de “Viriato”, publicada pelo Gicav num belo álbum cujas páginas, reproduzidas do “Cavaleiro Andante”, foram por si impecavelmente restauradas.
    Como deve saber, “O Falcão”, outra história do mestre José Garcês publicada na mesma revista, teve também oportunidade de ser reeditada, quando eu e um pequeno grupo de amigos lançámos, em 1987, os “Cadernos de Banda Desenhada”. E ainda me recordo do trabalhão que deu recuperá-la, a preto e branco, em boas condições, num tempo em que ainda não se recorria aos computadores.
    Infelizmente, nenhum trabalho de Mascarenhas Barreto para o “Camarada” teve até hoje a mesma sorte… o que é pena, pois trata-se de criações interessantíssimas, com argumentos e desenhos que as tornam dignas de figurar numa antologia da BD portuguesa.
    Quanto à autoria literária do “Viriato”, não me admira que Mascarenhas Barreto tivesse feito confusão, pois nessa mesma entrevista reivindicou o argumento de “Fraser of Africa”, uma história de Frank Bellamy publicada numa revista portuguesa com o título “João de África”. Isto é, confundiu apressadamente a tradução (ou adaptação) da história com o argumento (que se deve na realidade ao novelista inglês George Beardmore). Ter-se-á também limitado, no caso de “Viriato”, a redigir o texto, além das informações que forneceu ao desenhador?
    O que ninguém põe em dúvida é que se trata de um dos melhores trabalhos da primeira fase da carreira artística de José Garcês, que muitos leitores do “Cavaleiro Andante” ainda hoje recordam, mesmo sem terem visto o álbum publicado pelo GICAV. E, quanto a mim, isso conta mais do que criar agora uma espécie de polémica póstuma, em que Mascarenhas Barreto já não pode intervir… embora tudo leve a crer que ele se enganou, pois Garcês ainda tem boa memória!

    Um grande abraço,
    Jorge Magalhães

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