DOM AFONSO HENRIQUES NA BANDA DESENHADA – UMA GRANDE EXPOSIÇÃO EM VISEU

Conforme notícia que atempadamente divulgámos, abriu ao público no passado dia 27 de Agosto, em pleno Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, a exposição intitulada “Dom Afonso Henriques na Banda Desenhada” — uma organização do GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu), com o apoio da Câmara Municipal daquela cidade, da Viseu Marca e do IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude).

Os nossos colegas do BDBD, Luiz Beira e Carlos Rico, estiveram lá, aquando da inauguração, e fizeram uma magnífica reportagem fotográfica que pode ser vista no seu blogue: http://bloguedebd.blogspot.pt/2017/09/d-afonso-henriques-na-bd-reportagem.html

Antes da inauguração da exposição no Pavilhão Multiusos — segundo informa o BDBD —, teve lugar, mesmo ao lado, num pequeno mas acolhedor auditório, o lançamento oficial do álbum “D. Afonso Henriques – A Balada da Conquista de Lisboa”, narrativa extraída da obra “O Caminho do Oriente”, com texto de Raul Correia e desenhos de E. T. Coelho, cuja capa aqui reproduzimos, com a devida vénia ao BDBD e ao GICAV.

A sessão teve início com um curto mas interessante vídeo, onde o numeroso público presente visionou imagens virtuais da nova Arena de Viseu, um espaço magnífico completamente apetrechado para receber eventos culturais e desportivos, que em breve (crê-se que dentro de um ano) tomará o lugar do Pavilhão Multiusos. A cerimónia teve a participação do Director Executivo da Viseu Marca, Dr. Jorge Sobrado, da Presidente do GICAV, Drª. Filipa Mendes, e de Carlos Almeida, coordenador do GICAV responsável pela área da Banda Desenhada.

Após o lançamento do álbum, seguiu-se a inauguração oficial da exposição, um conjunto de vinte painéis em grande formato, com exemplos de praticamente todas as BD’s onde a figura de D. Afonso Henriques, o Conquistador, foi retratada por desenhadores de várias gerações, entre os quais, além de E. T. Coelho, Artur Correia, Baptista Mendes, Carlos Alberto, Carlos Rico, Eugénio Silva, Filipe Abranches, José Antunes, José Garcês, José Projecto, José Ruy, Pedro Castro, Pedro Massano, Santos Costa e Vítor Péon.

Vista parcial da exposição, com o painel dedicado a E.T. Coelho em grande plano, à direita, e ao lado o de José Antunes; também em 1º plano, de costas, o desenhador Baptista Mendes, outro autor com participação nesta grandiosa mostra (foto do BDBD).

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NOVA PALESTRA NO CPBD SOBRE “A LEI DA SELVA” DE EDUARDO TEIXEIRA COELHO

No próximo sábado, dia 6 de Maio, na sede do Clube Português de Banda Desenhada, realiza-se mais uma palestra do ciclo “A Lei da Selva de Eduardo Teixeira Coelho”, que será igualmente apresentada por Mestre José Ruy, autor do powerpoint que ilustrará essa sessão, com numerosos exemplos da arte magistral de E. T. Coelho.

Aproveitamos a oportunidade para mostrar seguidamente algumas imagens da sessão anterior, realizada em 22 de Abril p.p., que embora pouco concorrida mereceu o interesse e o aplauso de todos os presentes, premiando o mérito da obra e a feliz ideia de José Ruy de homenagear um dos melhores trabalhos de E. T. Coelho e Raul Correia para O Mosquito, recentemente reeditado, pela primeira vez, em álbum.

As fotos são de Dâmaso Afonso, activo membro do CPBD, a quem saudamos com amizade, agradecendo novamente a prestimosa colaboração que tem oferecido aos blogues da nossa Loja de Papel.

CITAÇÃO DO MÊS – 29

EDUARDO TEIXEIRA COELHO

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«Geralmente eu aparecia com as páginas prontas e umas notas a lápis debaixo de cada boneco, e a partir dali ele [Raul Correia] escrevia. Sempre foi assim em todas as histórias. E era simples. Naturalmente, às vezes dizia-lhe o que pensava fazer».

 (Excerto de uma entrevista publicada em Selecções BD nº 1, 2ª série, Novembro de 1998, a primeira que E. T. Coelho concedeu a uma revista portuguesa).

“OS DOZE DE INGLATERRA” – por E.T. Coelho (4)

12654220_902723516493237_4320641162970025297_nComo oportunamente informámos, realizou-se no dia 10 de Fevereiro, no Centro Nacional de Cultura, uma sessão de lançamento do álbum “Os Doze de Inglaterra”, com desenhos de Eduardo Teixeira Coelho, editado pela Gradiva. Ao assinalável evento deram ainda maior brilho as intervenções de três ilustres oradores: Dr. Guilherme Oliveira Martins, Dr. Guilherme Valente (editor da Gradiva) e Mestre José Ruy, que coordenou esta edição.

Recordamos que a história “Os Doze de Inglaterra”, considerada unanimemente como uma obra-prima da BD portuguesa, foi publicada n’O Mosquito, em 1950-51, numa fase da revista que não primava pela excelência gráfica, nem pelo respeito devido às obras dos seus colaboradores artísticos, visto que o abundante texto das legendas “usurpava”, por vezes, o espaço destinado aos desenhos, causando-lhes danos parciais, mas irreparáveis, como aconteceu em muitas páginas desta magnífica criação de Eduardo Teixeira Coelho.

Felizmente, José Ruy (com a intenção de preservar um precioso espólio) guardou as respectivas provas de impressão e foi a partir desse primitivo material, com os desenhos sem cortes, que foi possível restaurar, de forma quase perfeita, a beleza da arte inigualável de um dos maiores ilustradores portugueses de todos os tempos.

12 de I - Mosquito 1294 959Segundo revelações de José Ruy — que assistiu à realização desta obra, por partilhar, na época, um atelier com E.T. Coelho, sito na Calçada do Sacramento, em Lisboa —, a impressão d’O Mosquito era feita nas oficinas da Bertrand & Irmãos, mas estava confiada a aprendizes (talvez por se tratar — a ironia é nossa — de uma revista juvenil!), enfermando inevi- tavelmente de muitas “mazelas”, agravadas pelo tamanho das legendas escritas por Raul Correia, numa prosa de pitoresco recorte literário, mas por vezes demasiado redun- dante, inspirada, como sustenta José Ruy, num opúsculo da autoria de António Campos Júnior (1850-1917), consagrado autor de narrativas históricas, cuja obra mais célebre é “A Ala dos Namorados”, publicada em 1905.

“Continua o enigma sobre o opúsculo que eu vi o ETC manusear, da «autoria» de Campos Júnior; este nome estava impresso na capa branca só com letras. O Coelho desenhava ao meu lado (tínhamos, nessa altura, um ateliê na Calçada do Sacramento, onde também o Mário Costa, aguarelista, tinha o seu no sótão, enquanto que o nosso era numa sala com janela para a rua). Até a autoria desse texto está em dúvida quanto a ser de Campos Júnior. Umas fontes afirmam que sim, outras que não, e o seu biógrafo não incluiu este romance na sua obra, mas que vi essa publicação, não tenho dúvida.

Sempre pensei que Raul Correia teria outro exemplar, pois este nunca deixou de estar em poder do ETC. Mas é certo que o Coelho desenvolveu «buchas» nos episódios picarescos da aventura do Magriço. Certo, certo, é que o Raul Correia escrevia as legendas com base nos desenhos, como fazia com todas as histórias, criando uma bela e «extensa» prosa que subia pelas pernas das personagens, tapando-lhes grandes partes.

O Coelho nunca se insurgiu, aceitava isso como um ‘Karma’, sem nunca se impor. E ia desenhando, sabendo que partes da composição seriam amputadas. E, nessa altura, não se vislumbrava a hipótese de ser reeditada. Procurei nesta edição cortar as redundâncias do texto, poupando assim muito espaço e fazendo coincidir, em cada vinheta, o assunto que aí se desenvolve”.

doze-de-inglaterra-cnc-2E o resultado está à vista, acrescentamos nós — graças à dedicação, ao brio profissional e ao esforço desinteressado de José Ruy, cuja carreira  acompanhou muito de perto a d’O Mosquito, durante a sua época de maior apogeu —, num belo álbum da Gradiva que fará certamente as delícias de todos os admiradores do talento ímpar de E.T. Coelho, e também de uma nova geração que, por lamentável lapso dos nossos editores, nas últimas três décadas, desconhece quase em absoluto a obra e a importância deste autor.

Aqui fica, pois, um breve registo com imagens do encontro realizado há 15 dias no Centro Nacional de Cultura, para apresentação, como já referimos, do álbum “Os Doze de Inglaterra”, uma das maiores obras-primas de E.T. Coelho. As fotos são de José Boldt, a quem agradecemos (assim como a José Ruy) a amável e sempre pronta colaboração.

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OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (2)

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A propósito do álbum que será lançado em breve pela Gradiva, com a reedição de uma das melhores histórias ilustradas por E.T. Coelho, cuja publicação teve lugar n’O Mosquito, entre Dezembro de 1950 e Dezembro de 1951 — e à qual já nos referimos com destaque num post anterior, que podem (re)ver aqui —, divulgamos seguidamente um texto de José Ruy, outro grande autor português de BD, com vasta obra de reconhecido mérito, que muito nos tem honrado com a sua colaboração e a sua amizade.

É de realçar, fazendo nossas as palavras de José Ruy, não só a qualidade gráfica desse álbum como as características que o distinguem da edição d’O Mosquito (e de outra, nos anos 70, sob a égide do Jornal do Cuto), pois foi realizado com base em provas originais, sem legendas, o que permitiu ultrapassar alguns defeitos dessas publicações, conservando, em todo o seu esplendor, a beleza imaculada da arte de E.T. Coelho.

As duas páginas, com novas legendas, e as capas do álbum foram-nos também enviadas por José Ruy, podendo apreciar-se numa das imagens o contraste, por causa das cores e dos textos (que tiveram de ser refeitos para não cortarem pormenores dos desenhos), entre a mesma página publicada n’O Mosquito e a que consta do álbum.

OS DOZE DE INGLATERRA EM QUADRINHOS

«A grande novidade deste final de ano e início de 2016 é a brilhante iniciativa da editora Gradiva ao publicar uma obra notável, Os Doze de Inglaterra, adaptada em quadrinhos, a partir de um opúsculo atribuído a Campos Júnior, por Eduardo Teixeira Coelho, com o seu traço magistral. A história, com 112 páginas primorosamente desenhadas e inicialmente publicada n’ O Mosquito nos anos de 1950/51, foi agora recuperada numa edição de luxo e insere-se na comemoração dos 80 anos da saída do primeiro número deste mítico jornal, a 14 de Janeiro de 1936.

Aquando da primeira publicação no jornal O Mosquito, devido ao texto excessivo, embora muito bem escrito, de Raul Correia, partes importantes dos desenhos foram lamentavelmente amputadas e a sua composição gráfica alterada devido a esse facto. Apresenta-se-nos agora a ocasião única de podermos, pela primeira vez, observar os desenhos completos do grande ilustrador E. T. Coelho.

O aspecto de cada página, embora muito melhorado pelas novas tecnologias ao nosso alcance, mantém as características da publicação no jornal O Mosquito, com a sua textura peculiar. É uma edição a não perder, por todos os que mantêm a recordação desse tempo e pelos que tomarem agora contacto, pela primeira vez, com a obra de E.T. Coelho, descobrindo a mestria deste exímio e consagrado autor de histórias em quadrinhos, reconhecido não só em toda a Europa como além dela.

Deixo aqui um conselho, se me permitem: façam já a sua reserva de um exemplar na editora (http://www.gradiva.pt), pois a edição será limitada.

O editor da Gradiva, Guilherme Valente, está, por isso, de parabéns por esta preciosa edição. Destaco a dedicação dos técnicos especializados da casa impressora, a Multitipo, e do arranjo da capa sobre um desenho de E.T. Coelho, pelo gráfico Armando Lopes, ele também autor de histórias em quadrinhos.

Compete-nos a todos, admiradores da arte de Teixeira Coelho, acarinhar esta heróica iniciativa, adquirindo exemplares e divulgando-a como merece.

Se um livro é sempre uma boa prenda para alguém que estimamos, este fará, sem dúvida, a felicidade de quem gosta de ler e aprecia as histórias em quadrinhos de qualidade».

José Ruy

OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (1)

Nos finais de 1950, O Mosquito — uma das mais antigas e famosas revistas da “época de ouro” da BD portuguesa — voltou a passar por profundas transformações, mudando de formato e aumentando o número de páginas (de oito para dezasseis), mas sem alteração do módico preço de 10 tostões (1 escudo), que mantinha simbolicamente há vários anos. O objectivo dessa mudança radical era continuar a atrair o interesse da rapaziada, oferecendo-lhe mais páginas e mais histórias pelo mesmo preço, embora o formato tivesse sido reduzido para metade, como na 2ª fase, publicada durante quase meia década — talvez a mais gloriosa da sua história —, entre Janeiro de 1942 e Dezembro de 1945.

A concorrência dos seus maiores rivais, como o Mundo de Aventuras (nascido pouco tempo antes, em Agosto de 1949) e o Diabrete (que já ia no 9º ano de publicação), foi, aliás, uma das razões mais fortes que ditaram essa decisão, largamente anunciada (e aplaudida pela esmagadora maioria dos leitores) nos últimos números do formato precedente, fazendo jus ao lema d’O Mosquito, tantas vezes repetido: Cada vez melhor!

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O principal colaborador artístico da revista continuava a ser Eduardo Teixeira Coelho, que deslumbrara a numerosa hoste dos seus juvenis admiradores com as magníficas adaptações de contos e novelas de Eça de Queirós publicadas pel’O Mosquito sem interrupção, desde o nº 1113: A Torre de D. Ramires (novela longa extraída do romance A Ilustre Casa de Ramires), O Defunto e O Suave Milagre.

12 Inglaterra Mosq 1280 704Histórias escritas por um dos maiores prosadores da língua portuguesa, que se transfiguraram, através do traço destro e harmonioso de outro extraordinário artista, numa obra-prima dos quadradinhos nacionais, digna até de chegar ao conhecimento de um público mais ecléctico e culturalmente mais amadurecido — como era o sonho de Raul Correia, grande promotor dessa fervorosa home- nagem ao insigne romancista que tanto admirava —, o que só viria a acontecer muitos anos depois, com a sua compilação em álbuns pelas editoras Vega e Futura.

No entanto, ao iniciar-se no nº 1201, de 27 de Dezembro de 1950, uma nova etapa, outra surpresa estava reservada aos leitores d’O Mosquito. Mas não foi o Eça que regressou às suas páginas, para mágoa de alguns — já contagiados pelo ritmo e pelo estilo lapidar da sua prosa —, embora E.T. Coelho continuasse presente, com outra excelente criação de ambiente histórico.

Tratava-se de uma narrativa com texto de Raul Correia, cujo enredo era baseado num tema conhecido de muitos jovens, sobretudo daqueles que já frequentavam o curso liceal, onde nas aulas de Português era obrigatória a leitura d’Os Lusíadas, o poema épico de Luís de Camões que descreve, em estâncias imortais, alguns dos maiores feitos da nossa História.

12 Inglaterra Mosq 1288Inspirando-se na romântica e heróica gesta dos Doze de Inglaterra — um grupo de jovens cavaleiros da corte de D. João I, o Rei de Boa Memória, que foram a Inglaterra participar num torneio em defesa de doze damas injuriadas por membros da nobreza, mais rudes no tratamento cortês do que no manejo das armas, como ficou provado durante a liça, para glória dos doze mancebos portugueses, entre os quais se destacou a bravura de Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço —, E.T. Coelho produziu outra obra-prima de perfeita beleza, que infelizmente n’O Mosquito perdeu muitos dos seus atractivos por causa do formato reduzido da revista e, sobretudo, do aspecto gráfico das vinhetas, onde o texto cortava, por vezes, a margem inferior dos desenhos.

Ressalvados, porém, esses defeitos — além da publicação descontínua, devido aos frequentes atrasos de E.T. Coelho, ocupado com outras tarefas —, não há dúvida de que os leitores d’O Mosquito acompanharam sempre com grande entusiasmo o relato das façanhas do Magriço, que decidiu fazer uma longa viagem por terra com o seu escudeiro, pisando somente solo inglês 12 Inglaterra Mosq 1285 705(para se juntar aos outros cavaleiros embarcados, tempos antes, em Lisboa) depois de viver inúmeras e pitorescas aventuras.

Com mais de 100 páginas, impressas a duas cores e cujo lugar de honra foi, durante muitos números, o espaço central da revista, com legendas em rodapé que tinham o cunho fluente e emotivo da prosa de Raul Correia, “Os Doze de Inglaterra” constitui, como já referimos, um magnífico exemplo do deslumbrante estilo de E.T. Coelho, então no cume da sua evolução artística, iniciada cerca de oito anos antes nas páginas de revistas como O Senhor Doutor, o Engenhocas e O Mosquito.

12 Inglaterra Mosq 1287 706Uma obra que obteve grande êxito e ficou na história da BD portuguesa, digna, por todos os motivos, de ser apresentada às gerações actuais, numa nova e cuidada edição, sob os auspícios de outro grande nome das histórias aos quadradinhos, mestre José Ruy — que acompanhou grande parte da carreira de E.T. Coelho em Portugal, como amigo e colega de trabalho, e é um dos mais profundos conhecedores da sua obra — e de uma editora com notável projecção em várias áreas, nomea- damente na da Banda Desenhada: a Gradiva.

Brevemente, divulgaremos uma nota informativa de José Ruy, onde essa sensacional novidade, ou seja, a apresentação em álbum (a partir de provas originais) de “Os Doze de Inglaterra” — coincidindo, a título de expressiva homenagem, com o 80º aniversário d’O Mosquito, que ocorrerá no próximo mês de Janeiro —, é descrita e explicada com mais pormenores.

O MÍTICO NÚMERO 100 – 1

O “CENTENÁRIO” DO TIC-TAC

O pato TictacRecheado de simbolismo e de inexplicável atracção, o número 100 é, por natureza, um número mágico, quase cabalístico, que parece representar, no imaginário colectivo, um marco difícil de atingir, uma barreira que só é ultrapassada por aqueles que se esforçam em obter a vitória, ou seja, os mais lutadores, os mais persistentes e melhor preparados no exercício do seu mister, qualquer que ele seja.

Tictac numero 100 capaNa própria existência humana há uma meta que a todos atrai, mas que poucos conseguem alcançar: os 100 anos de idade, um século de vida! Claro que, por vezes, a importância que se dá ao número 100 é exagerada, mas na vida de uma revista periódica, mormente as do género infanto-juvenil — que são as mais precárias, pois dependem exclusivamente do frágil poder de compra de um público que ainda não trabalha nem tem rendimentos, a não ser os que provêm da gene- rosidade e das posses dos seus familiares —, ele tem um valor mais do que simbólico, pois coroa uma lenta caminhada de semanas, meses (ou até anos), ao serviço de uma causa que só interessa, geral- mente, aos seus promotores e aos seus jovens beneficiários.

Quase todas as publicações portuguesas de maior longevidade, destinadas a esse público juvenil, festejaram condignamente o seu número 100, não deixando de sublinhar as etapas percorridas e os êxitos averbados durante o percurso — sinal de vida mais longa e próspera, nem sempre confirmada pelos acontecimentos posteriores.

Iniciando esta rubrica, aqui vos apresentamos a capa centenária da revista Tic-Tac (2ª série), que deu especial destaque ao mítico número 100, dedicando-lhe uma sugestiva ilustração, realizada por um dos seus mais talentosos e experientes colaboradores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), que tempos depois (Janeiro de 1936) viria a tornar-se co-fundador e director artístico do novel semanário O Mosquito.

Na terceira página desse número, datado de 11 de Novembro de 1934, um extenso editorial assinalava a centenária proeza, que o Tic-Tac (cujo nome era o de um pato!) voltaria a repetir, anos volvidos, pois chegou a atingir o nº 263.

Tictac numero 100 pag 2 e 3

Entre outras matérias de interesse, o nº 100 publicava histórias aos quadradinhos cómicas e realistas, como Diabruras do Zeca e Toi (com texto de Tio Luiz e desenhos de José Félix), Kid, a Águia Humana e Pelo Mundo Fora (célebre série inglesa magistralmente ilustrada por Walter Booth), uma novela policial de empolgante enredo, da autoria de Raul Correia, com o título A Vida Aventurosa de António de Lencastre, um concurso cinematográfico, uma secção charadística sugestivamente intitulada Para Moer o Juízo, versos de Aníbal Nazaré e, para rematar este sumário bem recheado, a rubrica  Histórias dos Portugueses, assinada por dois nomes ilustres: o escritor Eduardo de Noronha e o ilustrador Rocha Vieira. Quase tudo “prata da casa”, como era norma na maioria das publicações infanto-juvenis dessa época.

Tictac numero 100 pag 5 e 7

Tictac numero 100 pag 8 e 9

Fazia também parte desse número uma separata com a “caraça” de um famoso actor cómico, o Estica (Oliver Hardy), Os pequenos leitores eram convidados a apresentar-se com ela, como se brincassem ao Carnaval, durante a emissão do programa infantil da Rádio- -Graça, o que lhes valeria uma recompensa.

Apesar da sua idade “centenária”, o patinho Tic-Tac (sempre acompanhado pelo coelhinho Rabanete) apresentava-se em excelente forma… prometendo continuar, por mais alguns anos, a ser um dos amigos predilectos da juventude portuguesa.

Tictac numero 100 pag 6 e 12

LEI DA SELVA OU LEI DA SELVAJARIA HUMANA?

Cecil the lion - 2

A notícia correu mundo, através da imprensa, da rádio, da televisão e das redes sociais, provocando a indignação dos defensores da natureza e dos direitos dos animais (mas não só). Também a Avaaz reagiu abertamente, alertando mais uma vez a opinião pública e a consciência dos líderes políticos mundiais para os perigos que ameaçam várias espécies à beira da extinção, por causa da caça furtiva e do comércio ilegal que grassam nalguns países africanos e asiáticos, cecil_640onde a corrupção e a falta de leis (e de meios) para protecção da natureza permitem que os caçadores e os traficantes continuem a exercer impunemente a sua nefanda actividade.

Mas o caso agora tão falado é ainda mais chocante: um dentista americano, pelos vistos bem sucedido na sua actividade profissional, pagou milhares de dólares para ter o “prazer” de matar um leão, que era um ex-libris e a principal atracção de um parque natural do Zimbabwe, visitado por turistas, fotógrafos e naturalistas de todo o mundo.

Exposição de troféus de caçaChamava-se Cecil esse leão, tinha coleira de identidade e era alvo das atenções do público e das equipas de vigilância da reserva de Hwange, que o consideravam dócil, quase inofensivo. Mas isso não o impediu de ser caçado e abatido, sem piedade, como rezam as notícias, pelo tal dentista milionário (já habituado a essas proezas), que merecia estar, agora, atrás das grades no Zimbabwe, à espera de julgamento pela sua acção “frívola e cruel” — como a baptizou Miguel Esteves Cardoso no Público —, mas já regressou aos Estados Unidos e à sua confortável vidinha de “respeitável” cidadão.

Este triste e ignóbil episódio, que nos faz ter vergonha dos nossos semelhantes (e são muitos) que não respeitam o direito à vida das outras espécies que povoam este planeta, fez-nos recordar uma excelente história aos quadradinhos publicada há muitas décadas no saudoso jornal O Mosquito, com ilustrações de um dos maiores artistas que já se distinguiram nessa modalidade: Eduardo Teixeira Coelho.

A Lei da Selva 1

Curiosamente, a história em causa, intitulada “A Lei da Selva”, tinha como protagonistas os animais selvagens da fauna africana, em especial os mais majestosos, feros e temidos de todos os felinos, que pelo seu porte imponente e pelos seus hábitos quase “aristocráticos” merecem estar no topo da realeza, à escala zoológica.

Lei da Selva 2       385Nesta grande aventura, que E.T. Coelho ilustrou de forma magnífica, demonstrando ser um mestre da arte figurativa e um profundo conhecedor da anatomia animal, são os leões que têm a primazia, nomeadamente uma jovem cria que escapou de morte certa, depois dos seus pais terem sido abatidos a tiro por um caçador. Sobrevivente, quase por milagre, de uma incrível odisseia — em que tem de arrostar inúmeros combates com os seus inimigos (que não são apenas as outras feras, mas também os Lei da Selva 3       386supersticiosos caçadores indígenas que não lhe dão tréguas) e contra as forças da natureza, ainda mais implacáveis e destruidoras, na sua fúria cega e sem limites —, esse leão acaba por ser um símbolo da coragem, da resistência e da vontade de viver, triunfando de todos os perigos e armadilhas, graças a uma lei ainda mais forte do que a lei da selva: a lei do instinto, da sobrevivência e do amor… ao acasalar pela primeira vez e ser pai de uma vigorosa ninhada que garantirá a preservação da sua indomável raça. Uma aventura cheia de peripécias dramáticas, de lutas sem fim, mas com um final feliz!

Jornal do Cuto 9         387Reeditada em 1971/72 no Jornal do Cuto, outra memorável publicação juvenil, dirigida por Roussado Pinto, esta história (em que merece também destaque o vigor literário das legendas de Raul Correia) será, em breve, apresentada no nosso blogue irmão O Voo d’O Mosquito, em homenagem aos seus dois carismáticos autores, a um tema que não perdeu actualidade e a uma das fases mais assinaláveis da incontornável carreira de E.T. Coelho n’O Mosquito.

Aguardem, pois, pelos primeiros episódios de “A Lei da Selva”, uma obra-prima que desenhadores como Emilio Freixas, Jesús Blasco, Jayme Cortez e José Ruy consi- deraram um caso excepcional de talento e inspiração, pela mestria gráfica patente em todas as suas páginas. Uma história que, no dizer de Roussado Pinto, era a preferida do próprio E.T. Coelho e que merecia já ter sido também reeditada em álbum, como outros grandes clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa.

 

 

IN MEMORIAM

MARIA DA CONCEIÇÃO GANDRA CARDOSO LOPES (1932-2015)

Maria da conceição lopes

Foi com pesar que soubemos, pelo nosso amigo Leonardo De Sá, do falecimento, no passado dia 21 do corrente, de uma das filhas de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), nascida em 29 de Fevereiro de 1932.

Maria da Conceição era presença assídua, desde há vários anos, nos convívios anuais comemorativos do aniversário d’O Mosquito, a mítica revista infanto-juvenil fundada em 14 de Janeiro de 1936 por Cardoso Lopes e Raul Correia, e que teve vida para além do fim.

Tio tónioNo início dos anos 50, Tiotónio emigrou para o Brasil, onde permaneceu até ao fim da sua vida, trabalhando no ramo que melhor conhecia: o das indústrias gráficas — e voltando as costas para sempre a Portugal e ao jornalismo juvenil de que foi um dos mais reputados pioneiros.

Sobre os lances da sua vida pessoal e da sua extensa carreira profissional e artística — dedicada não somente a O Mosquito como a outras revistas de referência no panorama da BD portuguesa do século XX —, existe um livro profusamente ilustrado, da autoria de Leonardo De Sá, com fotos de família e documentos raros e inéditos: Tiotónio – Uma Vida aos Quadradinhos, publicado em 2008 pela editora Bonecos Rebeldes, na colecção nonArte. Uma obra fundamental, rematada por uma exaustiva bibliografia da vasta produção de António Cardoso Lopes Jr.

À família enlutada de Maria da Conceição Gandra Cardoso Lopes — e em particular à sua irmã Maria José, que sempre a acompanhava nas deslocações aos convívios d’O Mosquito — apresentamos as nossas sentidas condolências.

NO ANIVERSÁRIO DO JORNAL DO CUTO (1971-78)

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Cumpre-se hoje mais um aniversário do Jornal do Cuto, lançado em 7 de Julho de 1971 pela Portugal Press, editora fundada por Roussado Pinto (1926-1985), cuja actividade profissional na área Roussado Pinto foto Ada Banda desenhada já vinha de longe, desde títulos como O Pluto, Titã, Flecha e Valente, criados nos anos 40 e 50.

A essas efémeras tentativas de fazer concorrência a outras revistas juvenis solidamente implantadas no nosso meio editorial, como O Mosquito, o Diabrete, o Cavaleiro Andante e o Mundo de Aventuras, seguiu-se, duas décadas depois, a sua primeira empresa apoiada em bases financeiras mais firmes e o primeiro dos seus títulos que iria alcançar um satisfatório êxito comercial, aliado a uma longevidade que só foi abruptamente interrompida por motivos de saúde do seu director.

Jornal do Cuto 2 300 - 7Roussado Pinto não interrompeu aí a sua carreira, continuando a dirigir os destinos da Portugal Press durante um novo período, que ficou assinalado por um dos maiores êxitos da imprensa portuguesa dessa época: o Jornal do Incrível.

Mas a sua grande paixão, como ele próprio tantas vezes confessou, era a Banda Desenhada, à qual deu o melhor de si próprio como propagandista e pioneiro de uma nova forma de arte popular que conhecia como poucos. Aliás, apesar de todas as contingências e adversidades do destino, nunca quis interromper a sua luta, sonhando ainda, pouco tempo antes de sofrer outro enfarte, em Março de 1985, reunir condições para ressuscitar o Jornal do Cuto. Infelizmente, já era tarde…

Nos primeiros números desta excelente revista, que durou até ao nº 174, publicado em 1/2/1978, destaca-se o equilíbrio entre autores clássicos oriundos d’O Mosquito — como Eduardo Teixeira Coelho (A Morte do Lidador, A Lei da Selva), Raul Correia (Cantinho de um Velho, O Navio Negro), Percy Cocking (Serafim e Malacueco) e Jesús Blasco, criador do mítico herói que Roussado Pinto escolheu para nome do seu novo jornal — e outros, sendo de referir entre estes a presença de Bud Sagendorf (Popeye), Mac Raboy (Flash Gordon), Alberto Salinas (Moira, a Escrava de Roma) e Russ Manning (Tarzan), além de José Batista e Carlos Alberto (este último ilustrador, com o pseudónimo de M. Gustavo, da rubrica Quadros da História de Portugal, publicada em separata).

Jornal do Cuto 2 A 300 7

Outros vieram depois, também coroados por justa fama — como Alex Raymond, Mel Graff, Roy Crane, Hal Foster, Lee Falk, Phil Davis, José Luís Salinas, Walter Booth, Reg Perrott, Roy Wilson, Franco Caprioli, Emilio Freixas, Frank Bellamy, Sergio Toppi, Vítor Péon, Orlando Marques — e as homenagens ao Mosquito continuaram a ser uma das tónicas dominantes do projecto mais acalentado por Roussado Pinto, que se desdobrava em múltiplas tarefas, escrevendo, coordenando, traduzindo e até maquetizando a revista.

Jornal do Cuto 3 300 - 7Lembro-me de só ter visto o Jornal do Cuto, pela primeira vez, seis meses depois do seu lançamento, porque nessa altura vivia em Angola, aonde as revistas de BD (e outras) só chegavam por via marítima. Não porque as viagens através do Atlântico demorassem tanto tempo, como é lógico, mas porque era assim que funcionavam os circuitos comerciais e as leis da distribuição entre Angola e a metrópole. Por incrível que pareça!…

Seja como for, ainda recordo com nitidez esse primeiro encontro e a extraordinária emoção que senti ao ver numa loja do Lobito, cidade do sul de Angola onde estava de passagem, uma revista cuja capa me despertou imediatamente as memórias de Cuto, o maior herói d’O Mosquito, um dos gloriosos ídolos da minha geração.

Jornal do Cuto 4 - 300 7 2A partir desse dia, não fui capaz de esperar tanto tempo para ler o Jornal do Cuto e tornei-me assinante da revista por via aérea, tal como já era do Tintin e do Diário de Notícias (que publicava aos sábados um interessante suplemento intitulado Nau Catrineta, onde podíamos matar as saudades do Zorro e do Cavaleiro Andante).

Quanto ao Mundo de Aventuras, confesso que nessa época não estava no topo das minhas preferências (por causa do seu aspecto modesto, num formato muito reduzido), embora continuasse a acompa- nhar as aventuras de heróis como Mandrake, Rip Kirby, Garra de Aço, Matt Dillon, Matt Marriott e outros, sem imaginar, nem em sonhos, que viria a tornar-me seu colaborador (e depois coordenador), por ironia do destino, quando regressei à metrópole, poucos meses antes do 25 de Abril de 1974. E foi então que tive o privilégio de conhecer pessoalmente Roussado Pinto, com quem já trocava correspondência desde os primeiros números do Jornal do Cuto.

Jornal do Cuto 5 300 7À sua afabilidade e simpatia, à sua generosa amizade, ao seu caloroso e contagiante entusiasmo, ao seu epicurista gosto pela vida, que nada parecia afectar — nem mesmo os avisos dos médicos, que o admoestavam por trabalhar e comer demais —, à sua sabedoria sempre pronta a dar uma ajuda aos mais novos e inexperientes, devo muitos momentos de inesquecível convívio e camaradagem, e alguns dos mais preciosos conselhos que obtive na minha actividade profissional ligada à BD.

Por isso, ao recordar esta efeméride do Jornal do Cuto, quero também prestar, mais uma vez, homenagem ao seu criador, um ícone da Banda Desenhada portuguesa (e não só), cuja vasta obra permanece viva na memória nostálgica de várias gerações, com quem partilhou muitos êxitos e desaires, assim como muitos episódios de trinta anos de laboriosa carreira, ao serviço de uma causa que nunca renegou.

Nem mesmo quando o seu maior projecto (e triunfo) jornalístico, o Jornal do Incrível, que o absorveu por completo, durante os últimos anos de vida, se interpôs entre o amor pela BD e a dedicação a uma editora que estivera à beira da falência… mas que ele deixou, ao partir de súbito para outra grande aventura, com um saldo largamente positivo.

Obrigado por tudo, Roussado Pinto!