COLECÇÕES DE CROMOS – 2

OS TRÊS MOSQUETEIROS

Os 3 Mosqueteiros 386Em princípio dos anos 50, como referimos no artigo anterior, surgiu uma novidade, no sentido mais literal do termo, que iria revolucionar por completo o comércio das pequenas estampas coloridas e os gostos dos coleccionadores, alargando consideravelmente o âmbito desse fascinante universo. Novidade que o Mundo de Aventuras, revista que      já ia no seu 3º ano de publicação, fazendo acérrima concorrência ao Mosquito e ao Diabrete, se encarregou de divulgar com grande destaque nas suas páginas, a partir          do nº 111, de 27/9/1951.

Tratava-se de uma colecção de 144 estampas, baseada            no espectacular filme “Os Três Mosqueteiros” (realizado por George Sidney para a MGM e estreado três anos antes), com    a particularidade de apresentar fotogramas coloridos que se vendiam em “envelopes surpresa”, podendo a respectiva caderneta, com uma garrida capa extraída também do filme, ser adquirida à parte, por intermédio de qualquer fornecedor ou da própria editora, a Agência Portuguesa de Revistas (APR). Esta, aliás, oferecia aos compradores a possibilidade de completarem mais rapidamente a sua colecção, encomendando as últimas 30 estampas em falta (desde que os restantes cromos já estivessem colados na caderneta).

A ideia era prática e engenhosa, embora não se pudesse classificar como original, pois fora importada da vizinha Espanha, onde as colecções de cromos, através de editoras especializadas como a Bruguera, tinham atingido uma época de grande apogeu e diversidade. Em Portugal, porém, nada podia garantir à priori que essa iniciativa, em moldes tão diferentes dos tradicionais, fosse também coroada de êxito. Por isso, não só a primeira escolha deve ter sido maduramente ponderada, como a própria campanha publicitária no Mundo de Aventuras e noutras revistas da APR, concebida por quem percebia do assunto — e não duvido de que Roussado Pinto, à data chefe de redacção do MA, tenha sido um dos seus responsáveis —, merece encómios pela dimensão e pelo impacto que registou, contribuindo de forma positiva para aguçar a curiosidade e o interesse dos potenciais compradores.

Os 3 Mosqueteiros 2 387O certo é que essa colecção de estampas dedicada aos heróis do célebre romance de Alexandre Dumas (que são quatro e não três, como toda a gente sabe), com imagens a 7 cores (!) da soberba versão cinematográfica de ­1948, interpretada por Gene Kelly, Lana Turner, Van Heflin, June Allyson e Vincent Price, foi um êxito estrondoso — embora só tivesse sido lançada um ano depois —, esgotando-se mais rapidamente do que todos esperavam, a tal ponto que foi preciso imprimir três edições para satisfazer a intensa procura.

Estava aberto o caminho para outras colecções de cromos da APR, uma empresa em crescimento, quase todas com a mesma origem — a fecunda Editorial Bruguera, de Barcelona —, que arreigaram o gosto, entre miúdos e graúdos, por esse tipo de coleccionismo cultural e recreativo, fomentando, ao mesmo tempo, a moda dos “envelopes surpresa” com três cromos, pelo módico preço de 40 centavos (e sem lambuzar os dedos).

 Nota: Todas as imagens que ilustram este artigo foram extraídas do Mundo de Aventuras e da caderneta com os cromos de “Os Três Mosqueteiros”, pertencentes à minha colecção. Posso acrescentar, com legítimo orgulho, que qualquer destes exemplares está em muito bom estado.  

Os 3 Mosqueteiros capa e contracapa

Os 3 Mosqueteiros 5 e 6

Os 3 Mosqueteiros7 e 8

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QUANDO O FUTEBOL VOLTOU AO CAVALEIRO ANDANTE – 1

Aqui têm mais algumas curiosidades do futebol que preencheram as páginas das revistas portuguesas de banda desenhada,  nomeadamente do Cavaleiro Andante, já na fase em que este popular semanário — o grande rival do Mundo de Aventuras na década de 50 — começava a sentir os efeitos de um lento mas irreversível declínio.

Desportos 105Depois de apresentar durante vários anos um suplemento desportivo, desde o nº 62 até ao nº 313,      o Cavaleiro Andante, dirigido por Adolfo Simões Müller, resolveu incluir no seu sumário uma série de artigos dedicados às principais equipas do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, na época 1959/60. Essa publicação teve início no nº 437, de 14/5/1960, englobando referências à origem e ao historial dos clubes, com destaque para os seus triunfos mais importantes, e aos jogadores que pertenciam às equipas de honra. Trata-se, sem dúvida, de um valioso documento de época para todos os amantes do futebol, que através destas páginas do Cavaleiro Andante — inspiradas numa ideia semelhante posta em prática pelo semanário italiano Il Vittorioso, pouco tempo antes — podem recordar os seus clubes favoritos e as respectivas equipas… tal como eram há 53 anos!

Esta nova série desportiva do Cavaleiro Andante, recheada de informações e de fotos sobre os jogadores que disputavam o Campeonato Nacional da 1ª Divisão, prolongou-se até ao       nº 454, de 10/9/1960, quase sempre com destaque na primeira página, o que deve ter ajudado a aumentar as vendas da revista durante esse período — que anunciava já tempos de crise e de inevitáveis mudanças, com as histórias em continuação a serem  substituídas pouco a pouco por episódios completos, mais do agrado (aparente) dos leitores.

Recordamos hoje as quatro primeiras equipas apresentadas nesses números do Cavaleiro Andante, com textos de um “sabichão” na matéria, que não quis quebrar o anonimato; mas supomos tratar-se de Carlos Pinhão (1924-1993), jornalista desportivo com largo currículo, bem conhecido no seu meio profissional.

(Nota: Agradecemos a José Menezes por nos ter facultado a imagem que ilustra este texto, com a capa de um dos suplementos desportivos do Cavaleiro Andante)

CA - Futebol 1 e 2

CA - Futebol 3 e 4

CA - Futebol 5 e 6

CA - Futebol 7e 8

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

RETROSPECTIVA – 2

Prosseguindo esta retrospectiva integrada num ciclo de homenagem a José Baptista, um dos nossos maiores desenhadores e autores de BD, apresentamos hoje outro dos seus primeiros trabalhos, mas de um género muito diferente daquele com que fez a sua estreia, há cerca de 55 anos.

JoBatA temática policial era uma das mais apreciadas pelos leitores do Mundo de Aventuras, onde campeavam vários detectives de ilustre estirpe, como Ruben Quirino (Rip Kirby), Kerry Drake, Nero Wolfe e Dick Tracy, embora nem todos tivessem a mesma quota de popularidade, devido a prolongadas ausências para partilharem outros espaços.

Com um traço vigoroso, em que avultavam as sombras densas e o recorte duro das formas, numa espécie de alto contraste do branco e negro, José Baptista parecia naturalmente dotado para esse tipo de histórias, que faziam apelo ao hiper-realismo e à acção violenta, inspirando-se nos filmes de gangsters que ainda empolgavam as audiências, como nos anos 30 e 40.

O género policial e os cenários realistas de fundo urbano e contemporâneo eram também do agrado de alguns jovens colaboradores do Mundo de Aventuras, como José Antunes, José Manuel Soares, Raul Cosme e Filipe Figueiredo, que foram buscar os seus modelos a séries americanas e espanholas; mas, no caso de Jobat, este preferiu apelar às suas próprias reminiscências, como comentou num artigo publicado na rubrica “9ª Arte” do jornal               O Louletano, a propósito da sua primeira obra do género, com um jornalista português chamado Luís Vilar, que gostava de agir como um detective privado em vez de ficar sentado à secretária, levando as suas reportagens até ao limite do risco pessoal e físico.

Condor Popular capa200Embora os assuntos históricos tivessem prevalecido na obra deste autor, deixando Luís Vilar num lugar secundário que não lhe permitiu romper o barreira do tempo, os dois episódios em que participou — um mais longo, com dez páginas, publicado em 1958 no Mundo de Aventuras nºs 452 a 461, e o outro, com oito páginas, inserido de forma discreta no Condor Popular nº 4, 20º volume —, mereceram um olhar mais atento de Jobat quando este, cedendo às minhas pressões (que não foram poucas), aceitou finalmente reeditá-los na citada rubrica “9ª Arte”.

Apresentamos hoje o segundo desses episódios (primeiro por ordem cronológica), que, de acordo com Jobat, foi publicado no primeiro trimestre de 1958, mas teve realização atribulada, com um intervalo de vários meses entre as primeiras e as últimas páginas.

Aliás, nesta história — que reproduzimos directamente do “velhinho” Condor Popular, com as cores originais, embora Jobat (sempre exigente em relação à qualidade) a tenha retocado por inteiro, aquando da publicação no jornal O Louletano,melhorando alguns pormenores e corrigindo defeitos de impressão —, Luís Vilar surge na pele de um detective com currículo especial, a quem a famosa Scotland Yard, ciente dos seus méritos (e dos seus métodos, filiados na escola dos “duros”, à boa maneira de Sam Spade e Lemmy Caution), encarrega de combater o crime nas ruas de Londres. Por que razão se tornou depois jornalista, é uma pergunta que ficou sem resposta…

Luis Vilar 1 et 2

Luis Vilar 3 et 4

Luis Vilar 5 et 6

Luis Vilar 7 et 8

COLECÇÕES DE CROMOS – 1

AS GULOSEIMAS QUE DELEITAVAM TAMBÉM O ESPÍRITO

img071Não sou um especialista nesta matéria, apenas um coleccionador curioso que se interessa por vários temas culturais e didácticos dentro do género (e há inúmeras colecções de grande qualidade e beleza que os ilustram às mil maravilhas), em particular relacionados com o cinema, o desporto (por exemplo, a tauromaquia), a literatura, a História e os quadradinhos. É provável que tenha deixado alguns de fora, mas como já disse não sou um especialista com vastos conhecimentos sobre o assunto, bem pelo contrário. Portanto, como diria Pacheco Pereira, só posso falar do que sei, do que vi, do que possuo ou do que me emprestarem.

Comecei a coleccionar cromos há muito tempo, ainda menino da primária, quando as pequenas e artísticas estampas, na maioria de tema desportivo, com as efígies de jogadores de futebol que toda a rapaziada idolatrava (tanto ou mais do que hoje!), se vendiam até nas mercearias, pois vinham nas embalagens de chocolates e pastilhas elásticas ou a embrulhar caramelos — método utilizado para promover os produtos de firmas como “A Oriental”, a “Universal”,   “A Holandesa” e Digitalizar0003“A Francesa”. Eram  fábricas de doçarias (ou confeitarias) que escolhiam os cromos como uma forma popular, lúdica e acessível de comercializar os seus produtos. E a prova é que a miudagem aderiu com entusiasmo, mais por gostar de futebol do que por gulodice, juntando todos os tostões que podia para comprar as pequenas e coloridas estampas.

Após saborear com delícia (e sem excessos) o seu conteúdo e de aumentar a colecção, era preciso descobrir o “boneco” mais difícil e mais pretendido, aquele que dava direito à caderneta onde as respectivas estampas deviam ser coladas, habilitando assim o seu feliz possuidor a aliciantes prémios (entre os quais, claro, bolas de futebol). Lembro-me de que, no afã de conseguir o maior número de cromos sem gastar dinheiro (pois as mesadas, nesses tempos, eram curtas), até se formavam equipas entre amigos e colegas da escola, que os disputavam em renhidas competições de berlindes!

Essa fórmula inteligentemente comercial, com brindes e guloseimas à mistura, durou muitos anos e esteve na origem de algumas das mais antigas e preciosas colecções de cromos que invadiram o nosso mercado. Mas, em princípio dos anos 50, surgiu uma novidade, no sentido mais literal do termo, acolhida com surpresa e curiosidade (e também com algum desconsolo, por parte dos mais gulosos!).

Digitalizar0008

Nota: as imagens das cadernetas que ilustram este primeiro artigo foram-nos amavelmente enviadas pelo nosso amigo Carlos Gonçalves, a quem agradecemos, mais uma vez, toda a colaboração que nos tem prestado.

VASCO GRANJA, JOSÉ RUY E O 25 DE ABRIL

Em 2003, durante uma série de homenagens a Vasco Granja, uma das figuras mais populares e carismáticas da BD portuguesa no último quartel do século XX, as Edições ASA convidaram-me para coordenar um livro sobre a vida e a obra daquele que ficou conhecido, entre os mais jovens espectadores da RTP, pela alcunha pitoresca de “pai da Pantera Cor-de-Rosa”, embora tivesse sido, pela sua militância cultural, cívica e política, ao longo de várias décadas, muito mais do que apresentador de um célebre programa de televisão.

Vasco Granja  e o 25 de Abril  foto191 Explorando múltiplos aspectos da ecléctica personalidade de Vasco Granja, essa monografia, com o título “Uma Vida… 1000 Imagens”, reuniu um elenco de destacados desenhadores que criaram várias histórias, com argumentos meus, em que Vasco Granja (ou o seu alter ego) se transformava também num herói de BD. Tive assim, sob esse grato pretexto, a oportunidade de trabalhar, pela primeira vez, com alguns artistas que há muito admirava (e ainda admiro), e ao mesmo tempo de prolongar a homenagem num registo mais divertido e fantasista ou numa dimensão mais onírica — ainda que biográfica, sob certos aspectos —, a que resolvi chamar, parafraseando livremente o mítico Moebius,   “A Garagem Aberta de Vasco Granja”.

O resultado excedeu as minhas expectativas, menos por mérito pessoal do que graças ao talento dos desenhadores envolvidos nesse projecto (apesar da opinião pouco abonatória de certo crítico da altura, cujo nome me dispenso de citar); e o mais importante é que Vasco Granja se reviu com gosto nessas amenas caricaturas, em que, a par dos elementos de pura ficção, se espelhavam algumas facetas do seu carácter profundamente humanista e também vários percursos da sua carreira atribulada, entre ofícios e campanhas, tanto culturais como políticas, a que dedicou, com paixão e coragem, grande parte da sua vida.

Vasco Granja  e o 25 de Abril  1 192 Na história curta que a seguir apresentamos, e que assinala a minha primeira colaboração, como argumentista, com Mestre José Ruy, a ideia foi relacionar o papel de pioneiro de Vasco Granja na área dos fanzines de banda desenhada (entre outras) com a faceta bem conhecida de resistente anti-fascista, que nunca baixou os braços, antes do 25 de Abril, em defesa das suas convicções. E, como a muitos outros, isso valeu-lhe ser perseguido pela Pide e preso várias vezes, por motivos quase irrisórios, como o de se dedicar a actividades cineclubistas ligadas ao cinema dos países da então chamada “Cortina de Ferro”.

É claro que nesta história, ilustrada a preceito por José Ruy, com uma noção detalhista, como é seu timbre, dos lugares e das personagens, que se transfiguram em imagens reais, arrancadas ao quotidiano — mesmo quando trabalha em temas históricos, como a “Peregrinação” ou “Porto Bonvento” —, o objectivo era pôr a nu e a ridículo os métodos da polícia política, num tempo em que todos os cidadãos eram suspeitos e a desconfiança dos sicários do regime, relativamente aos que mantinham sob mais apertada vigilância, atingia, por vezes, as raias do absurdo.

O nome da tipografia “clandestina” que dá o título à história foi inspirado pelo de um oficial do mesmo ofício, com quem trabalhei durante muitos anos, no tempo (que me parece já tão distante) em que tinha a meu cargo o Mundo de Aventuras.

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