CAÇADA EM ÁFRICA – 4

Cabeçalho O PREDADOR

REGRESSO A CASA

A história de Walter Palmer, afortunadamente para ele, não acaba aqui… Podia ter morrido nas garras e nos dentes do leão, mas a sua boa estrela tinha-o premiado com a sorte grande, nesse dia. O felino não estava com fome e como Palmer, apesar de transido de medo, teve o bom senso de se fingir de morto, a fera acabou por deixá-lo em paz, depois de o farejar longamente, grunhindo baixinho como para manifestar o seu mau-humor.

Quando viu, pelo canto do olho, o majestoso leão afastar-se em passos lentos, seguindo o mesmo trilho iluminado pelo luar por onde viera, e desaparecer na espessura da selva, Palmer sentiu uma onda de alívio tão grande que até as lágrimas lhe vieram aos olhos. Nunca estivera tão perto da morte!…

Ferido e combalido, esvaindo-se em sangue e cheio de tremuras por causa do frio da noite, como se a temperatura tivesse descido muitos graus, pegou na carabina, caída perto do sítio onde o leão o atacara, e arrastou-se como pôde até ao sopé da colina. Depois, escondeu-se entre a erva alta, rezando para que os outros habitantes das redondezas, com instintos mais ferozes, não o encontrassem naquele estado.

Acabou por sucumbir ao cansaço e às dores que sentia no braço mordido pelo leão e adormeceu, antes do sol raiar de novo sobre o lago. Quando acordou, em pleno dia, sentia-se ainda mais exangue, com o cérebro meio toldado pelas recordações da terrível noite por que passara. Mas não tardou a raciocinar que se ficasse ali não teria muitas hipóteses de sobreviver à noite seguinte, quando os grandes carnívoros regressassem ao lago para matar a sede. Era só uma questão de tempo…

Como não conhecia o caminho de regresso, andou em círculo, durante muitas horas, completamente desorientado, receando que a sorte o abandonasse e que outro felino viesse ao seu encontro. Mas a sua boa estrela continuava a ampará-lo porque, como na jornada da véspera, quando viajara em companhia de Van Helsing, através do parque, não avistou nenhum animal. Até os herbívoros pareciam ter-se sumido no interior da selva.

Cerca do meio-dia, prestes a sucumbir outra vez ao cansaço e martirizado pelo calor (a temperatura já devia rondar os 50 graus!), ouviu bruscamente um ruído insólito, que crescia de minuto a minuto, e compreendeu, instantes depois, com um sobressalto de esperança, que a salvação podia estar perto. O que lhe parecera, de início, o eco de uma trovoada, era o ruído do motor de um Land-Rover descapotável que rolava numa pista próxima, entre espessas nuvens de poeira.

Palmer soltou um grito estrangulado, como o de um náufrago prestes a afogar-se, e esbracejou freneticamente, com as poucas forças que lhe restavam, tentando chamar a atenção dos ocupantes do veículo — que felizmente não era o de Van Helsing, o homem que o traíra, deixando-o à beira da morte. No meio da sua agitação, nem sequer se lembrou de disparar uma salva de tiros.

Mas na savana o olhar atinge grandes distâncias e Walter Palmer foi imediatamente avistado. O Land-Rover mudou de rumo e dirigiu-se ao seu encontro, avançando aos solavancos por um trilho sinuoso, entre a erva baixa.

Poucas horas depois, Palmer estava outra vez na presença de Van Helsing e atirava-lhe à cara uma chusma de insultos, acusando-o de ser um facínora e reclamando a devolução do dinheiro que pagara por aquela caçada “infernal”. O guia, impávido e sereno, limitou-se a mostrar-lhe uma cópia do contrato com a sua assinatura, apontando as tais letrinhas quase minúsculas que lhe tinham passado despercebidas e que diziam textualmente:

“No caso do nosso cliente não acatar as instruções e as ordens que lhe forem dadas pelo superintendente do parque, fica inteiramente sujeito às consequências desse comportamento. Nenhum dos nossos elementos poderá ser responsabilizado pelos danos que um caçador imprevidente vier a sofrer, em contacto com os animais mais perigosos”.

— Isto é bem claro! Você desobedeceu-me, pondo em risco a sua vida e a minha… caso eu quisesse intervir. Nem o melhor caçador do mundo ousaria enfrentar um leão a pé firme, como se fosse toureá-lo! E, ainda por cima, em plena noite! Só um louco faria isso… e você é louco, Palmer! Um louco perigoso!

Por mais que Palmer barafustasse, chamando-lhe outros nomes ainda mais pejorativos, Van Helsing não lhe deu ouvidos e acabou por recambiá-lo para Maputo, sem lhe pedir desculpa, depois de um curativo rápido aos seus ferimentos.

A viatura que o conduziu transportava também as suas bagagens. Palmer suspirou de alívio e de contentamento quando voltou a avistar as populosas avenidas de Maputo, cheias de árvores floridas e de pacíficos transeuntes, e pediu que o deixassem num hotel.

— Tenho ordem para o levar ao hospital — disse o condutor. Mas Palmer insistiu que queria ficar no hotel e o carro saiu da faixa de rodagem, entrando noutra avenida.

— Mr. Van Helsing não vai ficar contente! — retorquiu o condutor, um rapaz negro de cara jovial, meneando a cabeça, em jeito de protesto. — Ele gosta que cumpram as suas ordens.

— Pois diga-lhe que eu fui ao hospital e que os médicos me deram logo alta. O que eu quero é ver-me livre disto!

Horas depois, lavado, barbeado e vestido com roupas novas — e também já refeito dos seus ferimentos de pouca gravidade —, Walter Palmer dirigiu-se à esquadra central da polícia, onde contou o que lhe acontecera por culpa de Van Helsing, a quem acusou formalmente de tentativa de homicídio. Em Moçambique todos falavam inglês e o chefe da polícia ouviu-o com atenção, tomando notas num bloco de apontamentos, sem o interromper.

Depois, pediu-lhe que esperasse alguns minutos numa sala próxima. Palmer sabia que ele ia telefonar a alguém, talvez ao seu superior hierárquico, mas esperou pacientemente durante mais de uma hora. Por fim, a porta da sala abriu-se e um agente voltou a conduzi-lo ao gabinete onde fora atendido.

— Mr. Palmer, a sua história é inacreditável! — exclamou, sem rodeios, o chefe da polícia. — Não temos conhecimento de que se realizam caçadas proibidas em Moçambique… e nenhum hospital o atendeu, para tratar os seus alegados ferimentos. Portanto, para nós o senhor é um mentiroso e um visitante indesejável. Vamos cancelar o visto do seu passaporte, para que regresse imediatamente aos Estados Unidos…

A momentânea expressão de espanto de Walter Palmer deu lugar a um acesso de cólera.

— Os senhores estão a brincar comigo?! Eu quero processar Van Helsing pelo que fez, deixando-me à mercê de um leão! Nenhuma autoridade, nenhum tribunal, podem negar-me esse direito, nem aqui nem no Burundi!

O polícia cruzou os dedos, apoiando os cotovelos na beira da secretária, e respondeu, com uma fleuma quase britânica:

— Mr. Van Helsing é um cidadão respeitável, que cumpre rigorosamente as nossas leis. Estamos ao corrente de todas as suas actividades e podemos testemunhar, perante qualquer tribunal, que ele seria incapaz de cometer um acto tão condenável. O senhor quer convencer-me de que escapou miraculosamente ao ataque de um leão, depois de Van Helsing se ir embora?

— Ainda tenho as marcas dos seus dentes bem visíveis no meu braço. Quer que lho mostre? — retorquiu Walter Palmer, fazendo o gesto de arregaçar uma manga.

— Pode ter sido mordido por um cão… Todos sabem, Mr. Palmer, que os americanos têm a mania das grandezas!

— Isto é um escândalo! Uma afronta! O cúmulo da xenofobia! — vociferou Palmer, sem conter a irritação. — Parece-me que a justiça aqui não funciona!

O outro fuzilou-o com um olhar ameaçador e respondeu friamente:

— Mr. Palmer, o senhor tem seis horas para abandonar este país! Ordens superiores!

— Pode ter a certeza de que não perco o primeiro avião para os Estados Unidos… Nunca mais porei os pés em Moçambique! — volveu Palmer, rubro de cólera.

Menos de seis horas depois, estava a bordo de um aparelho das linhas aéreas moçam- bicanas, que levantou voo de Maputo, rumo a Nova Iorque, sobrevoando o Oceano Índico.

Mas as desventuras de Walter Palmer não acabaram naquele dia. Ao chegar a casa, foi recebido por uma Brenda lavada em lágrimas, que já sabia tudo o que lhe acontecera, pois Palmer telefonara-lhe durante o voo.

— Não suporto mais esta vida! Ainda te hei-de ver morto, por causa da tua estúpida paixão pela caça!

— Mas Brenda darling… eu só queria provar-te que sou um homem sem medo… para te orgulhares ainda mais de mim!

— De que me serve a tua coragem quando estiveres morto?! Que valia têm para uma viúva os troféus que o marido conquistou, arriscando a vida, para os pôr numa sala e exibir aos seus amigos? Não és um bravo, Walter, és um predador!

E Brenda rompeu num choro convulsivo. Era a primeira vez que Palmer a via naquele estado. Meses depois, estavam divorciados.

A vida seguiu o seu curso e Walter Palmer voltou a casar. Continuava a ser rico, apesar da fortuna que gastara com o divórcio (a “tímida” Brenda mostrara-se inflexível, exigindo tudo aquilo a que tinha direito), mas sentia-se acabrunhado porque nunca mais tivera coragem para se dedicar à caça, evitando até ler revistas e ver filmes sobre safaris virtuais.

A traumática experiência de Moçambique não lhe saía da memória. E o pior de tudo é que só possuía um troféu: a cabeça (falsa) de um leão que “matara” no Zimbabwe. Uma cabeça que nem sequer era a de Cecil, o leão mais famoso da reserva de Hwange, autêntica relíquia nacional, que já morrera de velhice.

Van Helsing também já não pisava terras africanas. Tinha partido para outras paragens, no Extremo Oriente, onde as caçadas (reais) ao tigre atraíam os homens mais ricos do mundo. Um verdadeiro “maná” para um guia experiente como ele. Palmer, que nunca mais lhe pôs a vista em cima, soube apenas que voltara a mudar de nome.

O mais irónico deste mirabolante caso é que talvez Van Helsing tenha passado a chamar-se “Drácula”… em honra de Bram Stoker!

FIM

 

CAÇADA EM ÁFRICA – 3

Cabeçalho O PREDADOR

Caros amigos:

Como sabem todos os que leram as duas primeiras partes deste conto, Walter Palmer (personagem fictícia com um nome real), um milionário americano apaixonado pela caça grossa, cujo maior desejo era matar um leão — num tempo em que, para proteger a escassa fauna africana, só eram permitidas caçadas virtuais —, ficou em situação crítica ao desafiar um felino de grande porte, durante uma caçada ilegal em Moçambique.

Abandonado à sua sorte por Van Helsing, o guia do parque de Chitengo, por reagir abruptamente, num rompante de audácia, recusando-se a disparar sobre o leão a prudente distância, Palmer enfrenta uma morte quase certa, à mercê do rei da selva, que já lhe ferrou as poderosas dentuças num braço.

Gorongosa (grupo de leões)

Gostaríamos de testar a opinião dos nossos leitores, com uma espécie de quizz, apresentando-lhes cinco hipóteses para o desfecho deste conto.

Que acontecerá a Walter Palmer?

– É morto e devorado pelo leão, pagando assim a sua imprudência e a sua desmedida paixão pela caça.

– É salvo por Van Helsing, que se arrependeu e voltou atrás, disparando sobre a fera, mesmo com risco de o atingir também a ele.

– É salvo por um guarda-florestal que surge providencialmente (tal como a Cavalaria nos westerns, quando os rostos-pálidos estão cercados pelos índios).

– Consegue salvar-se in extremis, pelos seus próprios meios.

– O leão foge quando rebenta uma tempestade tropical, deixando-o ainda com vida.

Amanhã publicaremos a última parte deste conto.

CAÇADA EM ÁFRICA – 2

Cabeçalho O PREDADOR

A LINHA VERMELHA

Walter Palmer tinha boas relações, uma fé cega nos seus recursos e uma profissão que lhe permitira enriquecer rapidamente.

Obcecado pelo seu instinto venatório e pelas promessas que fizera a Brenda, para lhe provar que era um grande caçador, não descansou até organizar um novo safari. Dessa vez, conquistou mesmo um troféu… uma cabeça empalhada de leão (parecido com o velho Cecil), que se via à légua não ser verdadeira.

A proeza também não lhe provocou a mesma emoção, como se a febre da caça grossa já não lhe esquentasse o cérebro. Correra tudo bem, o monitor só interviera no último segundo, para salvar o leão, mas Walter Palmer não estava satisfeito. No fim de contas, tudo aquilo fazia parte de um jogo…

Queria ter um troféu a sério… embora soubesse que isso era um desejo quase irrealizável, num mundo onde escasseavam as espécies selvagens e as leis da caça tinham sido severamente restringidas. Todos os países do continente negro protegiam agora a sua diminuta fauna, perseguindo sem tréguas os caçadores furtivos… que eram a espécie em vias de extinção. Nem mesmo os homens mais ricos do planeta podiam infringir essas leis, furando a barreira proteccionista. Só lhes restavam as caçadas virtuais.

Mas seria mesmo assim? Certo dia, Walter Palmer ouviu falar de uma organização clandestina que podia proporcionar-lhe o raro prazer de uma caçada a sério… embora por um preço dez vezes superior ao de um safari virtual.

Palmer era um homem teimoso, que nunca desistia dos seus projectos. Contratou detectives, pagou a informadores, para descobrir o rasto secreto dessa misteriosa organização. Não conseguiu os seus intentos, apesar de ter gasto muito dinheiro… e sentiu-se tão desanimado que até pensou em desistir para sempre da sua maior paixão.

Nunca lhe passou pela cabeça que o dinheiro deixa rasto e que pode atrair aqueles que, à primeira tentativa, preferem recusá-lo. Chegou, por isso, o dia em que Walter Palmer teve a maior surpresa da sua vida, quando foi contactado, através de um velho amigo, também caçador, por essa misteriosa organização.

— São pessoas de confiança, Walter — disse-lhe o amigo. — Podem realizar safaris em qualquer parte do mundo, com animais que é proibido caçar… mas querem ser bem pagos, porque têm de fazer muitos subornos.

— Bem sabes — respondeu Palmer — que o dinheiro para mim não conta. Pagarei o que for preciso para caçar um animal de grande porte… de preferência um tigre ou um leão! Infelizmente, já não há elefantes!

— É verdade, Walter… Só nos Jardins Zoológicos!

Duas semanas depois, Walter Palmer voava para Moçambique, um país onde nunca estivera. Desta vez, Brenda e os seus amigos não o acompanhavam, porque um grupo numeroso de turistas atrai mais atenções.

Não teve quaisquer problemas com as autoridades aduaneiras, embora trouxesse armas de caça na bagagem. Moçambique também realizava caçadas virtuais… desde que os interessados pagassem bem.

Palmer ficou com a sensação de que naquele país o dinheiro podia abrir todas as portas, porque ninguém lhe fez perguntas do género: “Em que região vai caçar?” ou “Quanto tempo fica em Moçambique?”

À sua espera, no aeroporto, estava um simpático homem negro que falava bem inglês e que, mal acabaram as formalidades do desembarque, o conduziu até uma limousine, que arrancou velozmente pelas avenidas de Maputo até se perderem de vista os seus imponentes arranha-céus de estilo europeu. Palmer, que queria apreciar a paisagem, aceitara de bom grado aquele meio de transporte, em vez de um helicóptero que o levaria ao seu destino em poucas horas.

Para ele, o principal atractivo dessa nova experiência, que tão ardentemente ambicionava, não era apenas o de viver uma caçada a sério, mas também o de experimentar a sensação de regressar ao passado, num cenário onde a natureza ainda parecia virgem e intocável, sem a tecnologia dos parques onde se realizavam caçadas virtuais.  

No dia seguinte, após uma viagem calma por boas estradas, com algumas paragens em pequenas localidades para comer e desentorpecer as pernas, chegaram a uma zona onde se erguia um aldeamento turístico e um enorme parque, cercado por altas vedações, aparentemente electrificadas. Nalgumas guaritas avistavam-se homens armados.

— Chegámos ao nosso destino, Mr. Palmer — disse o motorista, abrindo a porta do lado do passageiro, para que este saísse. — A partir de agora, será nosso hóspede durante dois dias. Desejo-lhe boa sorte!

Antes que Palmer tivesse tempo de abrir a boca, a viatura arrancou bruscamente, deu a volta a uma rotunda fronteira ao parque, com um chiar de pneus, e desapareceu numa nuvem de poeira, pelo mesmo caminho por onde viera.

Palmer ficou especado diante da porta do recinto, com a bagagem aos seus pés, mas não teve de esperar muito tempo. O grande e sólido portão abriu-se e um homem armado aproximou-se dele. Era branco e parecia ter quase dois metros de altura.

— Bem-vindo a Chitengo, Mr. Palmer! Sou Van Helsing, o seu futuro guia. Espero que tenha uma estadia agradável nas nossas instalações, equipadas com todo o conforto, como os melhores hotéis de Maputo. Venha comigo e não se preocupe com as suas bagagens. Os meus auxiliares tratarão de tudo…

Nas horas seguintes, Van Helsing mostrou-se também uma boa companhia, apesar dos seus modos rudes com os negros que trabalhavam no parque, da sua tez tisnada pelo sol que lhe dava um aspecto de mestiço, do seu curioso nome e de um brilho ameaçador no olhar quando alguma coisa não corria bem… lembrando o fulgor selvagem de uma leoa ou de um leopardo, prestes a desferir o bote. Mas Palmer, encantado com a hospitalidade do seu novo guia, não reparou nisso.

Depois de uma noite tranquila, em que sonhou com Brenda e com o troféu real que levaria para casa, a cabeça de um belo leão de juba negra — como Cecil, a velha mascote da reserva de Hwange, que gostaria de ter “caçado” —, acordou na manhã seguinte com um redobrado entusiasmo, pois tudo lhe parecia correr agora à medida dos seus desejos.

Partiram num Land-Rover, depois do almoço, e enquanto guiava por pistas de terra batida rodeadas de vegetação, onde não se avistava um único animal selvagem, com grande desapontamento de Palmer, Van Helsing explicou-lhe os procedimentos a adoptar quando se encontrasse frente a frente com a sua presa.

— Pode ficar tranquilo, porque eu estarei sempre ao pé de si. O primeiro tiro é seu, mas se falhar intervirei a tempo. Numa caçada a sério, convém não esquecer as regras básicas. Antes de mais, não ter medo… porque os animais pressentem a fraqueza, mesmo num ser humano. Se hesitar, tolhido pela cobardia — e o tom de voz de Van Helsing pareceu modificar-se, como se quisesse frisar ironicamente esta palavra —, não terá tempo para evitar a investida do animal… a menos que eu consiga detê-lo!

— Não sou cobarde, nem vim de tão longe para desperdiçar esta oportunidade… mas confio em si, se algo correr mal. Espero não fazer este safari em vão, porque quero regressar a casa com o troféu que prometi à minha esposa.

— Não se esqueça de que a sua vida é mais importante do que um troféu. Mantenha a calma e esteja atento às minhas instruções. Sou eu que oriento a caçada. Eu é que escolho o local e a presa!

— Bem sei, Van Helsing. Quando assinei o contrato, garantiram-me que você era um homem experiente e de confiança, embora não quisessem dizer-me o seu nome.

O outro riu alto, abafando por momentos o ruído do motor.

— Nesta profissão, o segredo é a alma do negócio. Movo-me à vontade em Moçambique porque ninguém conhece o meu verdadeiro nome. E muito menos no estrangeiro… Adivinhe lá onde é que fui buscar este?

— Talvez a um romance de Bram Stoker, não? — respondeu Palmer, rindo-se também. — A ideia não foi má…

O carro continuou a rodar pelas pistas poeirentas, sem que nenhum animal aparecesse no horizonte, até chegarem a uma vasta planura, rodeada de colinas verdejantes, onde a superfície tranquila de um lago se estendia a perder de vista.

— Chegámos ao ponto do rendez-vous. É aqui que todos os animais do parque vêm beber, os predadores e a caça. Neste local, as regras mudam e estabelecem-se tréguas provisórias. Mas essas tréguas não se aplicam a nós… Se quer apanhar um leão ou um leopardo, espere pela noite, Palmer, quando eles se aproximarem da água. O vento estará a nosso favor e haverá lua cheia. Condições ideais para uma caçada bem sucedida!

Van Helsing, que conhecia bem o terreno, designou o lugar onde se deveriam esconder, a poucos metros de distância do lago, junto de uma pequena elevação de terreno. A trilha que os animais, sobretudo os felinos, costumavam utilizar era bastante afastada, mas ao alcance de tiro. Palmer ficou satisfeito com o sítio e preparou-se para a longa espera, vendo a luz do dia desaparecer rapidamente no horizonte e as sombras da noite começarem a ser devassadas pelo pálido resplendor da lua.

A meio da noite, a selva encheu-se de ruídos, que trespassavam a folhagem como setas disparadas em várias direcções por atiradores ocultos. Mas em breve começaram a distinguir-se sombras que se moviam discretamente em direcção à água. Primeiro os herbívoros, com passos furtivos, agitando nervosamente as orelhas e revirando as negras pupilas onde se espelhava o brilho da lua. Bebiam em pequenos grupos, enquanto outros ficavam a vigiar, imóveis e rígidos como estátuas. Da espessura da selva vinha um concerto pouco harmónico de rugidos e de uivos, mas os herbívoros não abandonaram a margem do lago antes de saciar a sede.

Palmer sentiu o guia tocar-lhe num ombro e falar-lhe num tom sussurrante, com a boca colada ao seu ouvido.

— Chegou a hora dos carnívoros… Esteja atento, Palmer, porque é um espectáculo que não deve perder!

Palmer não precisava de recomendações nesse sentido, porque não o perderia por nada deste mundo. Os primeiros felinos surgiram no terreno iluminado pela lua, abeirando-se do lago sem pressas, num andar lento e coleante, que contrastava com os movimentos furtivos dos herbívoros. Dois leopardos, talvez macho e fêmea, que se afastaram quando um búfalo trotou pesadamente em direcção ao lago. Do seu esconderijo, os dois homens ouviram com nitidez o búfalo sorver o precioso líquido em grandes haustos, como se quisesse matar a sede com toda a água do lago.

Depois, a silhueta maciça onde o luar desenhava bizarros arabescos deu meia-volta e afastou-se, de cabeça baixa, olhando apenas o terreno que pisava.

— E agora? — perguntou Palmer, ciciando também ao ouvido do caçador boer. — Quando é que aparecem os leões?

Van Helsing não precisou de responder. De súbito, na orla da trilha por onde tinham desaparecido os dois leopardos, desenhou-se um vulto imponente, cuja majestade ofuscava a da própria natureza banhada pelo luar. Palmer arregalou os olhos porque nunca tinha visto um leão tão corpulento e com uma juba tão espessa a emoldurar um focinho que inspirava respeito, mesmo àquela distância. Nem mesmo Cecil lhe podia pedir meças!

Em passadas lentas, bamboleando o enorme corpo coberto de pelagem fulva, que a claridade do astro nocturno tornava ainda mais luzidia, o leão aproximou-se tranquila- mente da água, sem sequer olhar em volta, porque as margens do lago estavam desertas.

Baixou a cabeça e bebeu longamente, sorvendo também a água com ruído, como fizera o búfalo. Van Helsing soergueu-se e fez sinal a Palmer para o imitar.

— O leão está sozinho… Eis a sua presa, Palmer! É agora ou nunca!

O ouvido apurado do felino deu-lhe o sinal de alarme. Parando de beber, ergueu a cabeça e fitou a colina onde os dois homens estavam emboscados. Depois, começou a rosnar surdamente. Era, de facto, um magnífico exemplar e se a sua ferocidade igualasse a sua imponência, Palmer teria razões de sobra para desejar abatê-lo ao primeiro tiro.

Pegou na Winchester de longo alcance, que durante a espera pousara ao seu lado, ajustou com cuidado a mira telescópica e firmou os dedos no cano e no gatilho, encostando a coronha ao ombro direito. Ao seu lado, Van Helsing não desviava os olhos do vulto corpulento do leão, que se mexia, inquieto, continuando a soltar rugidos de ameaça, embora a distância não lhe permitisse ver os inimigos que pressentira pouco antes.

— Que raio! Isto não é o que eu esperava! — exclamou Palmer, com um repentino sobressalto de orgulho. — Você acha que eu vim a África, pela terceira vez, para matar um leão a esta distância? Que mérito é que há nisso? Se atirasse agora, daqui onde estamos, bem merecia que me chamassem cobarde!

Van Helsing fitou-o com espanto.

— Que disparate é esse? Ouça, homem, você não pode desafiar um leão daquele tamanho em campo aberto!

Palmer levantou-se, encostou a espingarda ao ombro e começou a descer a colina, sem olhar para o guia.

— Venha atrás de mim… Você tem obrigação de me proteger… Um de nós há-de matar aquele leão, mas o troféu será meu! Foi para isso que paguei uma fortuna, Van Helsing! Sou eu que tenho o direito de dirigir esta caçada!

Pensou em Brenda e um sorriso de triunfo contraiu-lhe os lábios, numa espécie de esgar sardónico e auto-complacente, que se regozijava com o seu próprio rompante, sem medir o perigo a que se expunha.

Mas Van Helsing ficou onde estava e nem sequer engatilhou a espingarda. Palmer julgou ouvir uma risada seca, enquanto se dirigia em passos lentos para o leão, que continuava imóvel, rosnando baixo, com a língua pendente e os longos caninos rebrilhando na luz alva do luar. Não parecia surpreendido com a presença do intruso.

— Você é louco, homem! Louco e imprudente! — gritou Van Helsing, numa voz entrecortada por uma série de pragas que Palmer não entendeu. — Devia ter lido melhor o contrato que assinou connosco… Nunca lhe disseram para prestar atenção às letras mais pequenas?

Pela primeira vez, ao encaminhar-se para o leão, Palmer hesitou. A fera olhava-o fixamente, sem denotar qualquer espécie de receio. Então, o caçador parou e mediu a distância que o separava do felino. Já não eram cem metros, nem cinquenta. Apenas alguns passos… Na sua temeridade, nascida de um impulso inconsciente de que já começava a arrepender-se, aproximara-se demasiado da presa. E as palavras do guia eram a constatação de que algo defraudara as suas expectativas… de que a caçada correra mal.  

Van Helsing voltou a romper o silêncio, mas a sua voz agora era quase estridente.  

— Nenhuma lei me obriga a protegê-lo, Palmer! Você está por sua conta e risco, porque atravessou a linha vermelha… Aqui o mais importante são os leões! Se o caçador pisar essa linha, deixamo-lo à mercê das feras, sem dó nem piedade! Ouviu bem, Palmer? Devia ter lido as entrelinhas do contrato!

Ouviu-se um rugido mais forte e o breve estampido de uma arma. Depois, um trotar leve e rápido e um grito abafado. Como uma cortina que se cerra devagar, o silêncio recaiu sobre o lago, cujas águas cintilavam suavemente na meia-luz projectada pela lua cheia.

Van Helsing, de espingarda em punho, desceu a colina, em passos lentos e cautelosos. O leão, que tinha os dentes fincados num braço de Walter Palmer, olhou para ele com indiferença, como se fosse mais um vulto indistinto nas sombras da noite. Van Helsing seguiu o seu caminho, até ao sítio onde ficara o Land-Rover. Nem uma só vez olhou para trás. O leão ia estar ocupado até de madrugada. Ninguém lhe disputaria a presa, a não ser as hienas, quando ele já tivesse saciado o seu apetite. Era assim a lei da selva…

O ruído do carro que se afastava quebrou o silêncio da noite. Walter Palmer, semi- -inconsciente, conseguiu perceber, pela primeira vez, que estava realmente sozinho.

FIM DA 2ª PARTE

CAÇADA EM ÁFRICA – 1

Cabeçalho O PREDADOR

NO ÚLTIMO SEGUNDO

Walter Palmer crispou a mão direita na coronha da carabina, enquanto suores húmidos lhe perlavam a testa e os seus olhos tentavam perscrutar o mato denso, à sua frente, onde a fera se acoitara. Era um leão corpulento, um velho macho de juba negra e espessa, que rugia surdamente, oculto nas profundezas de uma moita de espinhos, onde um homem não podia penetrar. Como obrigá-lo a sair dali?

A luz crua do sol inundava a savana e o tórrido céu africano enchia-se de nuvens fugazes, que não chegavam para ocultar os perfis dos morros e das colinas distantes, onde tinham ficado o Land-Rover e os outros membros do safari, entre os quais estava a tímida esposa de Walter Palmer. Este sabia que todos seguiam a caçada com os binóculos.

O guia, em voz baixa, voltou a aconselhar-lhe prudência:

— Cuidado! Não se aproxime demais… O leão já nos pressentiu e pode atacar de repente!

— Mas estamos a lidar com um animal ferido… Eu já o atingi de raspão numa espádua… Deve estar mais assustado do que enfurecido!

— Todo o cuidado é pouco, Mr. Palmer! Os leões não são gatos inofensivos!

De repente, deixaram de ouvir o rosnar do leão. Um estranho silêncio caiu sobre a selva, naquele fim de tarde do Zimbabwe, banhado por uma luz purpurina coada pelas franjas coloridas das nuvens. Palmer sentiu os músculos crisparem-se de novo, num espasmo de incontido nervosismo, embora procurasse disfarçá-lo. Com o dedo no gatilho, avançou mais um passo, olhando de soslaio para o guia, que não se mexera.

— Daqui a pouco começa a escurecer… Temos meia-hora para o fazer sair da toca… Estou disposto a arriscar, Kramer. Se o vir entre aqueles arbustos, dou-lhe logo um tiro! A esta distância, não posso falhar!

— Não faça isso — disse Kramer. — Podemos voltar amanhã… Garanto-lhe que o velho Cecil não se irá embora!

Cecil era o nome do leão. Palmer abanou a cabeça, num gesto de impaciência.

— Investi muito dinheiro neste safari e não quero sair daqui sem um troféu… como prometi à Brenda. Não posso desiludi-la!

De súbito, o leão acossado voltou a rugir. Palmer ergueu o cano da arma e o seu olhar fixou-se no sítio onde o eco do rugido se misturara com um leve restolhar. Depois, deu mais um passo em frente.

— Atenção! — exclamou o guia, engatilhando a sua carabina. — Eu protejo-o, Palmer… mas veja lá se sabe o que está a fazer!

Nesse mesmo instante, ouviu-se um tropel a curta distância e Palmer, voltando-se de chofre, viu uma leoa contornar outro maciço de arbustos e correr para ele, em grandes saltos, leves e elásticos, tão velozmente que as suas patas mal pareciam tocar no solo. Devia estar a duzentos metros, talvez menos…

A testa e a cara de Walter Palmer voltaram a orlar-se de gotas de suor e as suas pulsações aumentaram, enquanto levava febrilmente a arma à cara, apontando ao vulto cada vez mais próximo do felino. Estava ligeiramente rígido, mas ao mesmo tempo empolgado pela excitação do perigo, sentindo a adrenalina destilar no seu próprio cérebro. Era a primeira vez que experimentava as verdadeiras emoções de uma caçada em África!

— Dispare, Palmer, dispare! A leoa está quase em cima de si! Tem dez segundos…

Palmer engoliu em seco, ao ouvir a voz do guia, como se esta soasse em uníssono com o tropel abafado da leoa, marcando a contagem do tempo.

— Dez segundos… nove… oito…

Premiu com força o gatilho, mas o estampido do tiro não se ouviu. A arma tinha-se encravado! Nada poderia deter, agora, o ímpeto da leoa. A menos que…

— Falhou, Palmer! — disse o guia, cuja voz o outro continuava a ouvir em surdina, repercutindo-se estranhamente no zumbido que lhe invadira o cérebro.

— Falhou, com mil diabos! Tenho de accionar o dispositivo…

Num gesto rápido, Kramer tirou do bolso uma espécie de disco brilhante, com um botão vermelho no meio. Dois segundos!… A leoa ia pular sobre Palmer, quando Kramer premiu o botão e um feixe de luz jorrou do pequeno objecto, ferindo os olhos do desastrado caçador.

Quando os reabriu, piscando como se estivesse ofuscado pelos raios solares, o vulto da leoa tinha desaparecido e a quietude voltara àquele recanto da selva, como se até os movimentos do leão no seu refúgio tivessem cessado.

Na régie instalada a muitos quilómetros, em pleno coração da reserva de Hwange, a maior do Zimbabwe, soaram aplausos… e risos. Os técnicos que tinham seguido as peripécias da caçada pelos ecrãs dos sofisticados computadores, não estavam a felicitar o caçador. Os aplausos eram para o guia.

— Kramer fez o seu papel! Mais um caçador improvisado que não morreu de ataque cardíaco, graças ao “cronodisco”!

Assim terminou a primeira caçada de Walter Palmer (que ele pagara a peso de ouro), num cenário de realidade virtual, onde os animais eram literalmente teletransportados, sob o olhar atento dos técnicos que controlavam toda a operação… e do guia, que só actuava no último segundo. A experiência parecia tão verdadeira como uma caçada de outros tempos. O que contava era a coragem, a perícia e o sangue-frio…

Já havia tão poucos leões no mundo que fora preciso criar aqueles programas em que nem os caçadores nem as feras corriam sério perigo, porque os controladores podiam deter as balas ou desviá-las, mesmo em milésimos de segundo, fazendo o atirador errar o alvo (embora a trajectória do projéctil lhe valesse pontos). E o “cronodisco” era uma espécie de máquina do tempo, que também operava milagres.

Em vez de proibir as caçadas — o que tivera, no passado, efeitos quase nulos —, mantinham-se os animais em recintos fechados, grandes parques naturais onde nenhum estranho podia entrar, e permitia-se que alguns afortunados clientes abrissem os cordões à bolsa para satisfazer o seu hereditário instinto de caçadores. O prémio era virtual, mas já se tornara famoso desde que passara, também, a figurar no Guiness Book of Records.

No dia seguinte, Walter Palmer regressou a casa, de coração oprimido, sem um cobiçado troféu. Mas prometeu a si próprio, e a Brenda, que voltaria a tentar…

FIM DA 1ª PARTE

CONTO: “O PREDADOR” – Introdução

Cabeçalho Caçada em África

Todo o mundo vibrou de indignação com a notícia, ainda recente, daquele caçador norte- -americano, dentista afortunado que pagou 50.000 dólares por uma caçada (S. Pedro vai certamente exigir muito mais para lhe abrir as portas do Céu!), matando um leão do parque natural de Hwange, no Zimbabwe, depois de o atrair traiçoeiramente a uma emboscada.

Essa notícia, devidamente confirmada pelas agências informativas e por organizações acima de qualquer suspeita, como a Avaaz, deu-me a ideia de reescrever um conto, que já em tempos idos tinha planeado transformar num guião de banda desenhada.

Caçada em África 2O projecto não se concretizou, na altura, mas a ideia renasceu quando o caso de Cecil, o leão do Zimbabwe, se tornou conhecido. Já o comentámos neste blogue, recordando uma extraordinária história de E.T. Coelho publicada n’O Mosquito, em 1948, “A Lei da Selva”, onde os leões eram as figuras prin- cipais, tão importantes como os heróis das outras histórias aos quadradinhos.

Devo esclarecer que, ao pegar neste tema e na personagem de Walter Palmer — o tristemente célebre caçador que matou Cecil, um dos mais populares habitantes da reserva de Hwange, procurado e admirado pelos turistas —, não tenho intenção de exaltar o nome do primeiro, nem os seus “feitos venatórios”, mas sim de mostrar, na minha humilde óptica de novelista, o que poderia acontecer ao seu sósia se vivesse noutra época — num futuro distópico onde fosse proibido matar animais selvagens — e continuasse a nutrir uma doentia paixão pela caça.

Este conto, que intitulei “O Predador”, será publicado em três partes consecutivas no nosso blogue. Espero que gostem da ideia… Mas antes de “passarmos à acção”, quero recordar aqui algumas peripécias de um intrépido caçador que, na sua primeira viagem a África, também se viu a contas com um leão. Só que as coisas acabaram de forma muito diferente para o rei da selva… que se sentiu apenas beliscado na sua dignidade (e no seu apêndice caudal) por um adversário que infundia ainda mais respeito! Quanto a esse caçador, dispensa apresentações…

TINTIN NO CONGO E O LEÃO