CLÁSSICOS ILUSTRADOS – 4

“O PRESENTE DE NATAL” por O. Henry

O. Henry (foto)Apresentamos hoje nesta rubrica a adaptação de um conto do famoso jornalista e escritor norte-americano O. Henry (1862-1910), que se notabilizou num género que os anglo-saxónicos designam por short stories, isto é, contos e novelas curtos. Muito popular nos meios literários, graças sobretudo à colaboração em revistas como The Rolling Stone (que ele próprio dirigiu e editou, com avultados prejuizos), The Cosmopolitan e New York World Sunday Magazine (onde escreveu febrilmente um conto por semana, durante dois anos e meio), O. Henry — aliás, William Sidney Porter, seu nome de baptismo —, teve uma vida movimentada, fértil em peripécias aventurosas e em empregos de toda a ordem, casou-se duas vezes e foi parar à prisão, acusado de desfalque, quando era caixa de um banco em Austin (Texas) — depois de fugir para a América Central.

Cabbages and kingsDiz-se que o hábito de escrever sempre com um pseudónimo (que acabaria por se tornar célebre) foi uma forma de esconder do público e dos editores os seus problemas com a justiça. Durante o período de maior actividade literária, produziu centenas de contos, reunidos posteriormente em volumes como Cabbages and Kings (1904), Heart of the West (1907), The Voice of the City (1908), Roads of Destiny (1909), The Four Million (1909), The Trimmed Lamp (1910), Strictly Business (1910), Six and Sevens (1911) e meia dúzia de outros.

O estilo dúctil, apoiado numa eficaz síntese narrativa, a esfuziante imaginação, o dom de observador dos ambientes citadinos — em particular de Nova Iorque, a metrópole onde gostava mais de viver — e, sobretudo, os desconcertantes e irónicos finais com que surpreendia os leitores, granjearam-lhe enorme renome em todo o país… mas pouca segurança económica. Morreu pobre, em Junho de 1910, vítima do álcool com que procurava combater as suas depressões, agravadas pela morte da primeira mulher e pelo divórcio da segunda.

O. Henry Full HouseAlgumas das suas histórias mais famosas foram adaptadas ao cinema, no memorável filme em episódios O. Henry’s Full House (1952), um dos quais interpretado por Charles Laughton e Marilyn Monroe. A Banda Desenhada também não as ignorou, destacando-se, entre todas as versões que conhecemos, o magnífico trabalho do artista norte- -americano Gary Gianni, dado à estampa num volume da colecção Classics Illustrated (1990), editado pela Berkley/First Publishing e em português pela Abril Jovem (Brasil).  O conto “O Presente de Natal” (título original: The Gift of the Magi), publicado nessa mesma antologia, já foi algumas vezes adaptado à BD e tornou-se um clássico intemporal, figurando na generalidade Classic Ilustrated - O Henry 475das críticas literárias como um perfeito paradigma daquilo a que tradicionalmente se chama “o espírito natalício”, a par de outro exemplo não menos célebre: “Um Conto de Natal” (A Christmas Carol), de Charles Dickens.

Mais uma vez, a singularidade e objectividade do seu estilo — como se as palavras que punha no papel se transformassem em lentes de uma Kodak, captando as personagens e o cenário num quadro realista, fiel retrato de uma época desaparecida —, e o desfecho quase patético de uma “intriga” minimalista, mas que desperta interesse e comoção, justificam o título de grande narrador e mestre do conto que ainda hoje consagra mundialmente o nome de O. Henry.

Eis em poucas páginas, sob os traços de Gary Gianni — um artista que estava fadado para altos destinos, pois chegou a assumir a continuidade de Príncipe Valente —, a exemplar versão ilustrada de um dos contos mais populares da literatura de todos os tempos. 

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CLÁSSICOS ILUSTRADOS – 3

“O Escaravelho de Ouro” (Edgar Allan Poe)

Contos fantásticos - Diabrete107Depois de Catherine Labey, é a vez de prestarmos de novo homenagem ao prolífico talento de Fernando Bento, aproveitando a temática relacionada com Edgar Allan Poe, pois o grande mestre da BD portuguesa que nos presenteou com tantas obras-primas no Diabrete, no Cavaleiro Andante, no Pajem e noutras publicações juvenis, também recriou a seu modo um dos contos mais célebres de Poe, em que o novelista usou habilidosamente a escrita criptográfica para revelar aos leitores o segredo contido num velho pergaminho e num escaravelho dourado com aspecto de caveira. Lemos esta história pela primeira vez no Diabrete, numa adaptação subordinada ao título Contos Fantásticos, publicada em folhetins destacáveis entre os nºs 474 e 502 do “grande camaradão”… e nunca mais a esquecemos!

Amargas foram as horas121Como já referimos num post anterior, a obra de Edgar Allan Poe é bem conhecida, não só através dos seus contos, dos seus poemas, das suas narrativas fantásticas, mas também das várias adaptações que surgiram em inúmeros filmes (os melhores realizados por Roger Corman) e noutros áreas, como a ilustração e a BD; e até em livros de autores que, como Poe, se inspiraram na mais pura fantasia, dando-lhe outra personalidade, outro espírito e outra existência, bem ao jeito dos seus extraordinários personagens (Alberto Fortes: Amargas Foram as Horas – As Aventuras do Pirata Edgar Allan Poe, Editorial Teorema, 2001).

Quanto à arte singular e primorosa de Fernando Bento, ela quase que dispensa apresentações, pois espraia-se por um número incontável de jornais, livros e revistas, num conjunto que surpreende e encanta tanto pela variedade como pela inexcedível fantasia de um traço fluido, irrequieto, versátil e sempre atraente, mesmo quando trai a mão veloz de um desenhador que raramente falhava os seus prazos.

Capa cavaleiro Andante  382No último período da sua colaboração para o Cavaleiro Andante, Bento adaptou dois grandes mestres da literatura policial, Conan Doyle e Edgar Poe, dando-nos do primeiro, com um traço denso, em que só usou o pincel, algumas versões das melhores aventuras de Sherlock Holmes (mesmo as apócrifas, como A Sociedade dos 13), e de Poe uma fiel interpretação do labiríntico enigma descrito em O Escaravelho de Ouro, já sem o fulgor (dirão alguns) dos seus melhores trabalhos, mas de traço ainda vigoroso e expressivo, sublinhando, com o seu apurado jogo de sombras, a atmosfera de mistério, suspense e lúgubre poesia que povoa quase todos os relatos do genial escritor norte-americano.

Spektro125Resta-nos imaginar o que a inspirada visão de Fernando Bento e a magia febril do seu traço poderiam ter feito se, em vez de optar por um clássico da literatura juvenil, também de fundo policial, como Emílio e os Detectives, de Erich Kästner, e por outras obras de célebres escritores como Moby Dick, de Herman Melville, e Scaramouche, de Rafael Sabatini, tivesse dado preferência às fantásticas criações de Edgar Allan Poe, como Os Crimes da Rua Morgue, O Gato Preto, O Poço e o PênduloHop-Frog, O Coração Delator ou Aventuras de Arthur Gordon Pym.

Mas talvez os responsáveis do Cavaleiro Andante não achassem as musas dilectas de Poe — simbolizadas por um “estranho” corvo vindo das trevas da noite, onde adejam o mistério, o insólito, o macabro, o tétrico e o sobrenatural — um dos assuntos mais fascinantes e recomendáveis para apresentar aos seus juvenis leitores. Outros tempos, outras mentalidades…

Escaravelho de Ouro - 01 e 1Escaravelho de Ouro - 2 e 3Escaravelho de Ouro - 4 e 5Escaravelho de Ouro - 6 e 7Escaravelho de Ouro - 8 e 9

 

CLÁSSICOS ILUSTRADOS – 2

“A Carta Roubada” (Edgar Allan Poe) – 2

A carta roubada página609Apresentamos hoje a 2ª e última parte desta história com desenhos de Catherine Labey, baseada no conto de Edgar Allan Poe, segundo a versão que surgiu no Diabrete, quando esta popular revista infanto-juvenil publicou, em folhetins destacáveis, os “Contos Fantásticos” do célebre escritor norte-americano, mestre absoluto do “horror gótico” e da poesia lúgubre, mas também considerado um dos grandes percursores da literatura policial e de mistério, com narrativas que ainda hoje figuram entre as melhores do género, como     “O Escaravelho de Ouro”, “O Duplo Crime da Rua Morgue” e     “A Carta Roubada”.

Quadradinhos 1Como, na altura, éramos colaboradores (num dos jornais mais lidos há 30 anos, A Capital) do suplemento Quadradinhos – 2ª série, dirigido por Adolfo Simões Müller, grande apreciador de adaptações literárias, foi nas suas páginas que esta história teve honras de estreia, publicando-se a duas cores e a preto e branco desde o nº 72, de 31/10/1981, até ao nº 86, de 6/2/1982.

Devemos sublinhar que “A Carta Roubada” (The Purloined Letter) é um conto concebido por Poe de forma peculiar, em dois tempos diferentes, sempre narrados em flash-back.     No primeiro tempo, correspondente às páginas 1 a 8 desta adaptação, o narrador é um Prefeito da polícia parisiense que revela ao seu amigo C. Auguste Dupin — uma “mente brilhante” atraída pelos meandros da lógica dedutiva —, as investigações infrutíferas que levara a cabo, com os seus agentes, para encontrar a carta roubada a uma dama da alta aristocracia por um político sem escrúpulos e como esse documento podia comprometer a honra e a segurança familiar da distinta senhora.

No segundo tempo, o narrador é o próprio Chevalier Dupin, que se limita a expor, com a maior naturalidade, os passos que deu em sentido inverso, guiado apenas pela intuição e pelo exercício da lógica, que cultivava com o mesmo fervor de um certo detective privado que iria estabelecer os cânones da literatura policial muitos anos depois.

Quadradinhos 2Estamos, portanto, perante o exemplo paradigmático de um caso aparentemente simples, sem mistérios nem grandes emoções, narrado a três vozes e cuja acção, dividida em duas partes, tem como fulcro acontecimentos ocorridos num tempo anterior. Poe veste a pele do terceiro personagem presente em casa de Dupin — um amigo íntimo cujo nome também desconhecemos e que assume um papel contextual e reflexivo, expondo ao leitor, como uma voz off, os factos concretos e o singular “mecanismo” dedutivo de Dupin, assente na maníaca observação dos rostos e da linguagem corporal e no raciocínio puro, que explora o aspecto “superficial” das coisas como a melhor fonte de informações. Sherlock Holmes e Watson nasceram, sem dúvida, destes modelos.

Claro que, no âmbito das histórias ilustradas, esse discreto comparsa, o (quase) abstracto narrador que podemos subjectivamente comparar ao próprio Edgar Poe, tem de possuir uma identidade física, um aspecto que o torne mais real aos olhos do leitor, embora a sua presença no conto seja um mero artifício literário. Pessoalmente gosto da caracterização que Catherine Labey lhe deu, sem se cingir a nenhum retrato específico.

Resta assinalar que esta adaptação de “A Carta Roubada” (uma das poucas que julgamos existir de um dos primeiros clássicos da literatura policial) foi também publicada no nº 4 dos Cadernos Sobreda BD, em 1991.

Para voltar a ver a 1ª parte, clicar aqui

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CLÁSSICOS ILUSTRADOS – 1

“A Carta Roubada” (Edgar Allan Poe)

Nesta nova categoria do nosso Gato Alfarrabista vamos dar as boas-vindas aos “Clássicos Ilustrados” — título carismático, tão lato quanto redutor, oriundo de uma célebre colecção norte-americana, publicada em várias línguas (e de que proximamente falaremos), título esse que se implantou no vocabulário de um género também conhecido pela designação mais erudita de literatura gráfica (graphic novel).

Iniciamos a nossa fértil safra com um escritor cuja fantástica imaginação contagiou muitos autores de BD, entre os quais merecem ser citados os nomes de dois portugueses: mestre Fernando Bento e Catherine Labey. Por dever de cortesia, começamos pelas senhoras…

Edgard Allan Poe - 1Quem é que não conhece a obra de Edgar Allan Poe (1809-1849), não só através dos seus contos, dos seus poemas, das suas narrativas fantásticas, mas também das várias interpretações que surgiram no cinema (as melhores realizadas por Roger Corman), na ilustração e na BD?

Artistas das mais variadas tendências — desde grandes mestres como Gustave Doré, Arthur Rackham, Edmond Dulac, William Heath Robinson, Alberto Breccia, Reed Crandall, Richard Corben, Bernie Wrightson, Craig Russell, José Ortiz, Carlos Gimenez, Dino Battaglia, Horácio Lalia, até aos novos talentos da era digital como Fabrice Druet, Benjamin Lacombe, Jean-Louis Thouard, Paul Marcel e outros — extrapolaram os sonhos de Poe para os transformarem em visões ainda mais surrealistas e fantásticas.

Edgard Allan Poe - 2Recordo-me de ter lido pela primeira vez, ainda menino e moço, algumas das suas histórias no Diabrete, que publicou em folhetins, entre os nºs 474 e 502, os “Contos Fantásticos”, com ilustrações ao estilo das gravuras do século XIX. Foi essa versão que me despertou o interesse pela obra do mestre do terror, começando pelas suas narrativas de carácter menos mórbido e alucinante, como “O Escaravelho de Ouro”, “Os Crimes da Rua Morgue” e “A Carta Roubada”, precursoras de um género que, nos finais desse século, começaria a ser apelidado de literatura de mistério, dedutiva ou policial.

edgard-allan-poe-3Estimulado tanto por essas latentes memórias como pelo fascínio sempre crescente que outras leituras de Poe (em livro, mas também em banda desenhada) ajudaram a radicar no meu espírito, meti mãos, muitos anos depois, à adaptação de dois contos que elegera entre os meus favoritos: “A Carta Roubada” e “Manuscrito Encontrado numa Garrafa” (este com alguns laivos de fantástico), ambos publicados no Mundo de Aventuras, com desenhos de Catherine Labey.

Caso raro entre as personalidades femininas ligadas ao nosso meio bedéfilo dos últimos 30 anos, pela fluidez, a espontaneidade e a delicada síntese do seu traço — e também pela especialização noutras vertentes, como editora, tradutora, retocadora e legendadora —, Catherine Labey iniciou a sua carreira no Fungagá da Bicharada, ilustrando guiões de Júlio Isidro, Maria Alberta Menéres e outros, em histórias infantis, e estreou-se no género realista adaptando de forma segura alguns contos de Mário-Henrique Leiria, cujo surrealismo latente apelava à sua imaginação.

mundo-de-aventuras-498364A esse passo em frente, numa carreira ainda breve, proporcionado pelo Mundo de Aventuras, correspondeu, algum tempo depois, uma nova experiência gráfica e estética, com desenvoltas composições de página e um estilo já mais maduro e evoluído, acentuado pelos profundos contrastes do preto e branco, que trocaria, mais tarde, pelo uso da cor, suavizando o seu traço.

Refiro-me aos dois citados contos de Poe e a outra célebre história clássica da literatura policial, escrita por Maurice Leblanc: “A Prisão de Arsène Lupin”, cuja adaptação foi também publicada no Mundo de Aventuras, depois da sua estreia, em 1981, no suple- mento Quadradinhos, do diário lisboeta A Capital.

Embora não seja, por isso, uma novidade absoluta para muitos dos que nos lêem (e relembro que apareceu também nos Cadernos Sobreda BD), este trabalho de Catherine Labey pareceu-me digno de uma nova apresentação, como homenagem ao génio de Edgar Allan Poe — cujo espírito visionário e atormentado parece harmonizar-se estranhamente com os tempos esquizofrénicos que vivemos — e ao talento artístico daquela que tem sido, de há muitos anos a esta parte, minha fiel companheira, auxiliar e colaboradora.

Cadernos Sobreda - carta roubada 1 e 2Cadernos Sobreda - carta roubada 3 e 4Cadernos Sobreda - carta roubada 5 e 6cadernos-sobreda-carta-roubada-7 e 8