JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

UM ANO DE SAUDADE

Faz hoje um ano que faleceu José Baptista, um dilecto Amigo que ilustrou o meu primeiro conto publicado no Mundo de Aventuras, em 1959, e com quem privei durante várias décadas, como já tive oportunidade de referir algumas vezes, citando também a estreita colaboração que mantivemos nestes últimos anos, por causa da sua rubrica Arte – Memórias da Banda Desenhada, publicada no extinto jornal O Louletano, entre 2004 e 2012, num total de 233 páginas, que continuam oportunamente (e regularmente) a ser divulgadas pelo popular blogue Kuentro-2.

JOBAT - ANO DEPOISIn memoriam deste talentoso e ecléctico profissional — formado na idónea Escola de Artes Decorativas António Arroio, e que, além de ilus- trador e autor de BD, foi coordenador editorial (na APR e na Portugal Press), maquetista, artista cerâmico, professor de desenho, e se dedicava com paixão ao estudo das ciências paranormais —, recordamos um dos seus textos mais inspirados, incluído na referida rubrica 9ª Arte, texto que parece conter uma premonição do destino que em breve o arrebataria aos seus entes queridos e ao mundo das artes e do saber que, como homem de cultura, tanto prezava:

«O tempo, esse imperceptível eterno presente, fugaz e volátil como o fumo que se evola de distraído cigarro entre os dedos, passa rápido, invisível e sorrateiro sobre os nossos sonhos, alegrias e tristezas, inclusive sobre aquilo que profissionalmente produzimos, de tal maneira o ocultando sob a patine do passado que muito do que fizemos quase o ignoramos ou esquecemos».

RETROSPECTIVA – 6

Desde há um ano, como forma de homenagear a sua memória e o seu talento artístico (para que o tempo não “o oculte sob a patine do passado”), temos vindo a apresentar neste espaço alguns dos primeiros trabalhos que José Baptista realizou no âmbito das histórias aos quadradinhos, revelando uma acentuada predilecção pelos géneros histórico e policial, embora só tivesse cultivado este último na fase inicial da sua carreira.

MA 437  584Aliás, foi com um problema policial ilustrado que se apresentou aos leitores do Mundo de Aventuras no nº 437, de 2/1/1958, onde também tiveram lugar de honra outros jovens colaboradores artísticos da Agência Portuguesa de Revistas (APR), tais como José Antunes, Carlos Alberto e José Manuel Soares.

Nesse mesmo número — cuja capa, de concepção original, com todos os heróis da revista a representarem as letras do título, foi obra da criatividade de José Antunes —, estreou-se uma das melhores produções históricas de Jobat, “O Voto de Afonso Domingues”, baseada no célebre conto de Alexandre Herculano “A Abóbada”.

Jobat Afonso Domingues 1Apraz-nos também assinalar a página policial que o Mundo de Aventuras então publicava, sob a orientação de Luís Correia, e a curiosa experiência gráfica a que José Baptista se abalançou ao transformar um enigma policial numa pequena sequência animada pelo seu traço robusto e expressivo, cheio de nuances de claro-escuro, como algumas séries norte-americanas influen- ciadas pela estética expressionista do film noir (o cinema policial de tons mais dramáticos, filmado a preto e branco).

Pena que essa experiência de Jobat — dando continuidade a outros problemas policiais do mesmo género, da autoria de Vítor Péon e Roussado Pinto, apresentados anteriormente no Século Ilustrado e no Mundo de Aventuras — não se tivesse repetido. Embora a sua afeição pelo tema, fomentada decerto pelas leituras e pelos filmes com que entretinha os momentos de ócio, desse origem, tempos depois, a um herói detectivesco do qual também já aqui falámos: Luís Vilar.

Nota: para visionar o primeiro post publicado nesta retrospectiva, com todas as páginas da história “O Voto de Afonso Domingues”, clicar aqui.

MA 437 - 2

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BATMAN – DE GOTHAM CITY PARA O CNBDI

Realiza-se amanhã, dia 27 de Março, pelas 21h00, um novo encontro no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), no âmbito das palestras anuais Às quintas falamos de BD (ciclo Heróis de Papel, cujo tema será, desta vez, os 75 anos de Batman).

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Para falarem deste super-herói norte-americano estarão presentes João Miguel Lameiras — reputado especialista de banda desenhada, que dará a conhecer o nascimento de Batman e desvendará um pouco da sua história —, Luís Salvado — jornalista com vastos conhecimentos sobre a BD e a 7ª Arte, que evocará as várias vidas de Batman e a forma como todas elas reflectiram não só as adaptações da BD ao grande ecrã, mas também todo o cinema popular do respectivo período —, e ainda José de Freitas, ex-editor da Devir, que publicou Batman durante a última década.

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Recordamos a propósito que, no nosso país, o “homem-morcego” se estreou 20 anos depois do Super-Homem, com quem viria a partilhar A Revista dos Super-Heróis, editada nos anos 80 pela APR (Agência Portuguesa de Revistas), primeira publicação portuguesa de BD em que estes dois icónicos personagens tiveram vida autónoma.

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Em 1977, o Jornal do Cuto, na sua última fase, publicou durante vários números uma série de tiras diárias assinadas por Al Plastino, sob o título genérico Batman — Na Pista da Aventura, dedicando-lhes algumas capas da autoria de Carlos Alberto Santos, o primeiro ilustrador profissional português a retratar o “homem-morcego”.

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ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 3

“O SONHO DO COLECCIONADOR”

(por CARLOS ROQUE)

Mais um original de Carlos Roque apresentado no nosso blogue — este absolutamente inédito, pois foi-me oferecido como prenda de aniversário, em 22 de Março de 1994.

O talentoso artista e meu grande amigo, nessa altura de regresso a Bruxelas, onde continuava a colaborar esporadicamente no Spirou e noutras revistas belgas, enviou-mo pelo correio, com uma saborosa dedicatória parodiando a minha paixão de coleccionador. Ele, que se gabava de estar livre felizmente desse “vício”, acabou por ser vítima de outro, que nunca largou até morrer: o do tabaco…

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O HUMOR DE AUGUSTO TRIGO – 2

Image converted using ifftoanyMais conhecido pelos seus inúmeros admiradores como desenhador de estilo “sério”, de um realismo objectivo e quase fotográfico, Augusto Trigo — cuja carreira se iniciou oficialmente em 1980, no Mundo de Aventuras e no suplemento Quadradinhos, do extinto diário A Capital —, tem desde há muito revelado outras facetas do seu ecléctico talento, distinguindo-se também como um notável desenhador humorístico, já com vários trabalhos desse género publicados em jornais, revistas, fanzines, álbuns e até livros didácticos.

Um desses álbuns, a merecer destaque, foi publicado em 2004 pelo Montepio Geral/Associação Mutualista, com uma série de histórias do “herói” Tio Pelicas, criado por Trigo, sob argumento de Paula Guimarães, para uma revista que o Montepio editava periodicamente, destinada em exclusivo aos filhos dos seus sócios.

Trigo - Tio Pelicas capaO Tio Pelicas, como o próprio nome dá a entender, é um simpático pelicano cujos dotes de detective são postos ao serviço da comunidade, sobretudo por causa das patifarias do seu arqui- -inimigo, o maléfico Egoístão, de aspecto sinistro mas bem humano, que como todos os vilões que se prezam também possui um arsenal de armas secretas.

Além do Tio Pelicas e do seu sobrinho Peliquinhas, aparecem mais persona- gens antropomórficas na série, assim como dois animais domésticos, o gato Sapato e o cão Pelicão, dominados pela mesma rivalidade que existe entre os seus donos.

Os temas, muito variados, tinham, por vezes, referências a questões políticas da época, retratando com um traço pitoresco e perfeito locais e figuras que animavam o quotidiano nacional, mas Trigo queixava-se de ter pouco espaço para os desenvolver, pois as histórias não excediam, em regra, duas ou três páginas (embora as que saíram no álbum formem um episódio unitário, dividido em partes mais longas).

Trigo - Tio Pelicas logotipo570Algumas dessas histórias, publicadas entre 2001 e 2003, foram coligidas num número especial da revista do Clube Tio Pelicas (cuja capa reproduzimos), também de distribuição limitada aos sócios, apesar da tiragem de 28.000 exemplares (!), sendo, por isso, tal como as do álbum, uma das obras mais raras e menos conhecidas de Augusto Trigo e, ao mesmo tempo, umas das que melhor atestam as suas reais qualidades de desenhador ambivalente, tão exímio no estilo humorístico como no realista.

Eis dois episódios da série Tio Pelicas Investiga, “A Revolta do Dinheiro” e “A Invasão dos Coelhos Brancos”, respigados da mencionada revista (de formato mais pequeno que o do álbum), e que, curiosamente, até aparentam alguma relação com factos mais actuais — se quisermos também vê-los pelo lado picaresco!

Trigo - Tio Pelicas 1574Pelicano 2Pelicano 3Pelicano 4Pelicano 5Pelicano 6

 

 

     

 

UM NOVO ÁLBUM DE JOSÉ RUY – 2

REPORTAGEM FOTOGRÁFICA DA SESSÃO DE LANÇAMENTO NO MUSEU JOÃO DE DEUS

Museu João de Deus

João de Deus mirandês568Embora não tenhamos podido comparecer, por motivo de força maior, à apresentação do novo álbum de José Ruy, João de Deus – A Magia das Letras (com edição simultânea em mirandês), que teve lugar no Museu João de Deus, em 10 do corrente, é com o maior prazer que apresentamos uma cobertura fotográfica desse evento, feita pelo nosso amigo Dâmaso Afonso, a quem agradecemos uma vez mais toda a colaboração que tem prestado ao nosso blogue, com a sua consumada arte de repórter das imagens.

Na sessão, além de Mestre José Ruy e do editor da Âncora, Dr. Baptista Lopes, intervieram também os ilustres convidados Dr. Guilherme de Oliveira Martins,  presidente do Tribunal de Contas e do Centro Nacional de Cultura, Dr. António de Deus Ramos Ponces de Carvalho, bisneto do biografado e presidente da Direcção da Associação de Jardins-Escolas João de Deus, e Dr. Amadeu José Ferreira, vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e presidente da Associaçon de Lhéngua Mirandesa, que, tal como noutras obras de José Ruy, se encarregou da tradução deste álbum para mirandês.

Ao Museu João de Deus, o autor fez oferta de um original baseado na capa do álbum, com a efígie do venerável poeta e pedagogo, que reproduzimos também neste post

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POSTAIS ILUSTRADOS – 3

A- Morais 1 e 2   564

Eis mais alguns exemplos de uma série que, na modalidade de postais, parece interminável, explorando toda a riqueza e variedade dos trajes típicos portugueses — desta feita, com a assinatura de Alfredo de Moraes (1872-1971), prolífico ilustrador e aguarelista que deixou um acervo incalculável de obras de cariz eminentemente popular (o que não desabona a sua têmpera artística), como as capas de inúmeros fascículos de aventuras (Sherlock Holmes, Raffles, Nick Carter, Patrick Osborne, Texas Jack, Capitão Morgan, etc), incluindo as exuberantes ilustrações com que fez as delícias dos leitores da Colecção Salgari (Romano Torres), nas suas primeiras e míticas séries.

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Temos oito postais da sua lavra com este tema, editados (supomos que nos anos 60) pelo Museu de Ovar. Em breve, para vosso deleite, apresentaremos os restantes.

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A ARTE DE ZÉ MANEL NO CNBDI

Cartaz expo Zé Manel

A sala de exposições temporárias do CNBDI, um novo espaço que abriu portas no dia 26 de Novembro, por ocasião do 24º AmadoraBD, recebe agora esta mostra dedicada à obra humorística de José Manuel Alves Mendes, o virtuoso desenhador que assina Zé Manel.

Esta exposição, que foi produzida por Osvaldo Macedo de Sousa/Humorgrafe e integrou o 18º Salão Internacional MouraBD 2013, descreve um breve percurso pelo trabalho de Zé Manel — que, para além da banda desenhada, a ilustração e a caricatura, pode apreciar-se em áreas tão distintas como os vitrais, o design gráfico, a cenografia para teatro e cinema de animação, ou a ilustração para livros escolares (quem não se lembra de Nicole, Robert e Petit Patapouf, personagens que animaram os livros de francês Je Commence?).

Composta por pranchas, ilustrações, desenhos originais e publicações, esta mostra apresenta-se em três núcleos distintos, o primeiro dedicado à BD (para um público infantil e adulto), o segundo ao humor na imprensa (os diferentes jornais e revistas em que Zé Manel colaborou), e o terceiro ao erotismo, tema que atravessa grande parte da sua obra.

Zé Manel (gueixa)

HOMENAGEM A ARISTIDES DE SOUSA MENDES

JOSÉ RUY EM PARIS – 2

AutógrafosConforme já tivemos ocasião de informar (ver notícia aqui), esteve patente no Consulado Geral de Portugal, em Paris, de 13 de Fevereiro a 6 de Março p.p., a exposição Aristides de Sousa Mendes – Héros de l’Holocauste, organizada pelo Círculo Artístico e Cultural Artur Bual e tendo por tema a obra de José Ruy dedicada ao célebre cônsul português de Bordéus que salvou a vida de milhares de judeus, durante a 2ª Guerra Mundial, ao conceder-lhes vistos de entrada no nosso território, desobedecendo assim às próprias directivas do governo de Salazar — gesto nobre e humanitário que, na sua carreira diplomática e na sua vida privada, acabaria por pagar muito caro.

Essa obra, já traduzida para hebraico, foi agora também editada em França, para ser vendida durante a itinerância da exposição, e brevemente terá também uma versão em inglês, a distribuir no Canadá e noutros países, por iniciativa da Sousa Mendes Foundation, presidida por Louis-Philipe Sousa Mendes, descendente do “herói do Holocausto”. 

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A propósito ainda desta mostra — que já transitou do Consulado português para o Liceu St. Germain e, posteriormente, antes de seguir para Bordéus, como foi anunciado, estará também numa escola do departamento 77, em Paris —, apresentamos mais algumas fotos tiradas no dia da inauguração e gentilmente cedidas por Altina Ribeiro, escritora portuguesa há muito residente em França, a quem expressamos (e a Mestre José Ruy) os nossos melhores agradecimentos.

As legendas são do próprio autor do álbum Aristides de Sousa Mendes – Héros de l’Holocauste, cuja 1ª edição portuguesa remonta a 2004.

Altina Ribeiro e JRuyFoto 7Powerpoint aberturaPowerpoint com esboçoAssinatura de MendesÚltima página

UM NOVO ÁLBUM DE JOSÉ RUY

Com todo o mérito, José Ruy é um dos autores de BD portugueses mais em destaque nas últimas décadas, não só pelo rigor e pela paixão com que sempre se dedicou ao seu labor de artista gráfico, mas também pela extraordinária vitalidade de que continua a dar provas, mesmo depois de ter ultrapassado os 80 anos, num incessante vaivém entre a criação artística (em cujo activo já conta uma vasta quantidade de obras dos mais diversos géneros) e a divulgação didáctica e pedagógica, para a qual reúne também, como todos lhe reconhecem, predicados fora do comum.

O seu novo álbum “João de Deus – A Magia das Letras” (com edição simultânea em mirandês), que será apresentado ao público amanhã, dia 10 de Março, no Museu João de Deus, exprime bem esse compromisso entre a cultura, a arte, o interesse lúdico e o valor pedagógico, através da permanente busca de novos temas — neste caso, mais uma biografia histórica que se lê com curiosidade e proveito, sobre um grande vulto das nossas Letras que prestou inestimáveis serviços ao ensino da Língua Portuguesa. 

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Apresentamos seguidamente duas pranchas deste álbum de José Ruy, a primeira e a última, chamando a atenção para um pormenor curioso: a velhinha que aparece na página final, é a menina que inicia a história e que acompanha todo o percurso narrativo. Através dela e da família, o leitor vai tendo conhecimento da vida e da obra de João de Deus e dos seus descendentes, até aos nossos dias.

João de Deus 1ª e 30ª

O CARNAVAL DO “DIABRETE” – 2

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Ilustrador, pintor, caricaturista, figurinista e cenógrafo, Fernando Bento foi um autor versátil, multifacetado, que deu vida e colorido a algumas das mais belas páginas publicadas pelo Diabrete, na fase mais criativa e original da sua longa carreira.

Diabrete  diabinho e máscaras562A arte de figurinista, que aprendeu e desenvolveu em contacto com os palcos do teatro de variedades, ao qual legou memoráveis criações enaltecidas pelos espectadores e pela crítica desse tempo, está patente em mais um tema carnavalesco com que encantou os leitores do Diabrete, convidando-os para um festivo baile de máscaras com os trajes concebidos pela sua fértil fantasia.

Não duvidamos de que algumas mães e avós mais habilidosas na arte do corte e costura tenham, a rogo dos seus petizes, experimentado confeccionar um ou outro desses modelos, seduzidas também pela beleza artística do traço e dos figurinos de Fernando Bento, tal como foram primorosamente estampados na capa do Diabrete nº 793, de 3/2/1951.

Belos tempos em que, ao festejarem o Entrudo, as revistas infanto-juvenis pretendiam, ao mesmo tempo, incutir no seu público um certo gosto estético.

(Ver aqui a ilustração de Fernando Bento dedicada ao Carnaval de 1948).

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