DIAS 22 E 29 DE ABRIL: DUAS PALESTRAS NO CPBD SOBRE “A LEI DA SELVA” DE E.T. COELHO

Na continuidade das iniciativas que tem organizado com frequência na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada anuncia mais duas palestras, a realizar nos próximos dias 22 e 29 de Abril, pelas 17h00, e dedicadas, com o precioso apoio de um dos seus mais ilustres consócios, mestre José Ruy, à obra-prima de Eduardo Teixeira Coelho “A Lei da Selva”, publicada em 1948 na mítica revista O Mosquito e reeditada finalmente em livro, há alguns meses, por Manuel Caldas.

À parte o interesse específico do tema — apresentado de forma inédita, a partir da leitura de um excelente estudo de Domingos Isabelinho —, este evento representa um progresso para o CPBD, que está agora equipado com meios técnicos (PowerPoint) que lhe permitem valorizar enormemente as suas sessões. 

“OS DOZE DE INGLATERRA” – por E.T. Coelho (4)

12654220_902723516493237_4320641162970025297_nComo oportunamente informámos, realizou-se no dia 10 de Fevereiro, no Centro Nacional de Cultura, uma sessão de lançamento do álbum “Os Doze de Inglaterra”, com desenhos de Eduardo Teixeira Coelho, editado pela Gradiva. Ao assinalável evento deram ainda maior brilho as intervenções de três ilustres oradores: Dr. Guilherme Oliveira Martins, Dr. Guilherme Valente (editor da Gradiva) e Mestre José Ruy, que coordenou esta edição.

Recordamos que a história “Os Doze de Inglaterra”, considerada unanimemente como uma obra-prima da BD portuguesa, foi publicada n’O Mosquito, em 1950-51, numa fase da revista que não primava pela excelência gráfica, nem pelo respeito devido às obras dos seus colaboradores artísticos, visto que o abundante texto das legendas “usurpava”, por vezes, o espaço destinado aos desenhos, causando-lhes danos parciais, mas irreparáveis, como aconteceu em muitas páginas desta magnífica criação de Eduardo Teixeira Coelho.

Felizmente, José Ruy (com a intenção de preservar um precioso espólio) guardou as respectivas provas de impressão e foi a partir desse primitivo material, com os desenhos sem cortes, que foi possível restaurar, de forma quase perfeita, a beleza da arte inigualável de um dos maiores ilustradores portugueses de todos os tempos.

12 de I - Mosquito 1294 959Segundo revelações de José Ruy — que assistiu à realização desta obra, por partilhar, na época, um atelier com E.T. Coelho, sito na Calçada do Sacramento, em Lisboa —, a impressão d’O Mosquito era feita nas oficinas da Bertrand & Irmãos, mas estava confiada a aprendizes (talvez por se tratar — a ironia é nossa — de uma revista juvenil!), enfermando inevi- tavelmente de muitas “mazelas”, agravadas pelo tamanho das legendas escritas por Raul Correia, numa prosa de pitoresco recorte literário, mas por vezes demasiado redun- dante, inspirada, como sustenta José Ruy, num opúsculo da autoria de António Campos Júnior (1850-1917), consagrado autor de narrativas históricas, cuja obra mais célebre é “A Ala dos Namorados”, publicada em 1905.

“Continua o enigma sobre o opúsculo que eu vi o ETC manusear, da «autoria» de Campos Júnior; este nome estava impresso na capa branca só com letras. O Coelho desenhava ao meu lado (tínhamos, nessa altura, um ateliê na Calçada do Sacramento, onde também o Mário Costa, aguarelista, tinha o seu no sótão, enquanto que o nosso era numa sala com janela para a rua). Até a autoria desse texto está em dúvida quanto a ser de Campos Júnior. Umas fontes afirmam que sim, outras que não, e o seu biógrafo não incluiu este romance na sua obra, mas que vi essa publicação, não tenho dúvida.

Sempre pensei que Raul Correia teria outro exemplar, pois este nunca deixou de estar em poder do ETC. Mas é certo que o Coelho desenvolveu «buchas» nos episódios picarescos da aventura do Magriço. Certo, certo, é que o Raul Correia escrevia as legendas com base nos desenhos, como fazia com todas as histórias, criando uma bela e «extensa» prosa que subia pelas pernas das personagens, tapando-lhes grandes partes.

O Coelho nunca se insurgiu, aceitava isso como um ‘Karma’, sem nunca se impor. E ia desenhando, sabendo que partes da composição seriam amputadas. E, nessa altura, não se vislumbrava a hipótese de ser reeditada. Procurei nesta edição cortar as redundâncias do texto, poupando assim muito espaço e fazendo coincidir, em cada vinheta, o assunto que aí se desenvolve”.

doze-de-inglaterra-cnc-2E o resultado está à vista, acrescentamos nós — graças à dedicação, ao brio profissional e ao esforço desinteressado de José Ruy, cuja carreira  acompanhou muito de perto a d’O Mosquito, durante a sua época de maior apogeu —, num belo álbum da Gradiva que fará certamente as delícias de todos os admiradores do talento ímpar de E.T. Coelho, e também de uma nova geração que, por lamentável lapso dos nossos editores, nas últimas três décadas, desconhece quase em absoluto a obra e a importância deste autor.

Aqui fica, pois, um breve registo com imagens do encontro realizado há 15 dias no Centro Nacional de Cultura, para apresentação, como já referimos, do álbum “Os Doze de Inglaterra”, uma das maiores obras-primas de E.T. Coelho. As fotos são de José Boldt, a quem agradecemos (assim como a José Ruy) a amável e sempre pronta colaboração.

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EXPOSIÇÃO “OS DOZE DE INGLATERRA” – POR EDUARDO TEIXEIRA COELHO – NA BEDETECA DA AMADORA

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Bedeteca | Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos

18 de FEVEREIRO a 24 de MARÇO – Horário: 3ª feira a sábado,

das 10h00 às 18h00

A Bedeteca da Amadora inaugura no próximo dia 18 de Fevereiro, pelas 21h30, a exposição “Os Doze de Inglaterra”, do autor português de Banda Desenhada Eduardo Teixeira Coelho. Esta mostra é constituída por materiais originais de impressão da obra em causa, impressões do livro e arte original do artista, do acervo da Bedeteca.

Durante a inauguração da exposição, o livro será apresentado pelo artista José Ruy – autor de Banda Desenhada, ilustrador e pintor –, e por Rogério Miguel Puga – professor auxiliar da Universidade Nova de Lisboa.

Mais informações:
Bedeteca | Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, 2º Piso | Av. Conde Castro Guimarães 6, Venteira (2720-119 Amadora)
Telefone: 214 369 054 | Fax: 214 948 777

Nota: Agradecemos a Mestre José Ruy a informação que nos permitiu rectificar a notícia colhida no página de Facebook da Amadora.Liga, que hoje de manhã ainda não tinha sido actualizada.

OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (3)

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A propósito do álbum “Os Doze de Inglaterra”, reedição de uma magnífica narrativa histórica de E.T. Coelho, publicada originalmente n’O Mosquito, em 1950/51, informamos que a editora Gradiva irá lançá-lo dentro de dias no mercado, como confirma o convite que já recebemos e que com todo o prazer divulgamos neste blogue.

os-doze-de-inglaterra-2Mas já houve uma espécie de lançamento prévio durante a tertúlia d’O Mosquito efectuada, como habitualmente, em meados de Janeiro, com um almoço-convívio em que participaram, num ambiente de viva cama- radagem, mais de meia centena de efusivos “mosquiteiros”. O director da Gradiva, dr. Guilherme Valente, aproveitou a ocasião para expor pela primeira vez em público um exemplar do álbum, acabado de sair dos prelos, e algumas páginas impressas em grande formato, para que fosse possível admirar ao pormenor toda a beleza, realismo e perfeição desta extraordinária obra de arte, com mais de 100 páginas, que graças aos bons ofícios de José Ruy, um velho amigo e profundo admirador de E.T. Coelho — de quem foi companheiro de tertúlias e colega de trabalho n’O Mosquito —, pôde ser fielmente restaurada, na sua integral dimen- são estética e tipográfica, expurgando-a dos defeitos com que apareceu na revista, sobretudo os cortes nos desenhos, por causa das legendas com demasiado texto. Houve, por isso, que refazer essas legendas, tarefa também a cargo de José Ruy — que merece indiscutivelmente um grande voto de louvor por todo o empenho com que se dedicou, colaborando graciosamente com a Gradiva, à realização desta obra.

Os nossos leitores podem apreciar neste post uma página da nova versão de “Os Doze de Inglaterra” e uma breve reportagem fotográfica (a cargo de José Boldt) da “ante-estreia” do álbum que o editor Guilherme Valente quis mostrar a todos os admiradores de E.T. Coelho (e muitos eram) presentes no convívio comemorativo dos 80 anos d’O Mosquito.

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“LA LOI DES TERRES SAUVAGES” (por E.T. Coelho) – 2

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ET Coelho no seu atelier 616Eis a conclusão de “La Loi des Terres Sauvages”, história ilustrada por E.T. Coelho e publicada nº 10 da nova série da revista francesa Pif Gadget, que por singular coincidência, como já referimos, saiu em 27/4/2005, cerca de um mês antes da morte do grande desenhador português, radicado em Florença.

Claramente inspirada por uma série com a mesma ambientação, “Ayak le Loup Blanc”, dada também à estampa no Pif Gadget, entre 1979 e 1984, esta nova criação de E.T. Coelho aborda temas caros ao célebre escritor norte-americano Jack London (que conheceu profundamente o Wild North), como os hábitos dos animais selvagens e a sua relação com os seres humanos, o equilíbrio eterno e sagrado que rege a Natureza, as secretas regras da luta pela sobrevivência.

Ayak - le loup blancEm Ayak, a sua última longa série realizada para o Pif Gadget, conta-se a história da estranha e invulgar relação entre um lobo solitário e uma rapa- riguinha recém-chegada com o seu pai ao inóspito território do Yukon, durante a grande corrida ao ouro, no final do século XIX. Dessa relação baseada na amizade e na confiança — que o selvagem instinto de Ayak sobrepunha ao temor e à hostilidade que sentia pelos homens armados com flechas ou com o “pau que troveja”, causadores de sofrimento e de morte — nasceu uma vigorosa odisseia narrada em 56 episódios (todos a cores) pelo traço exuberante e harmonioso de Eduardo Teixeira Coelho e pela prosa sóbria e lapidar, ainda que singular- mente poética, do seu velho compagnon de route Jean Ollivier — notável argumentista, versado em temas históricos e autor de vários livros sobre as viagens e explorações dos Vikings ao Novo Mundo —, falecido poucos meses depois, em 30 de Dezembro de 2005.

Os treze primeiros episódios de Ayak foram publicados no Mundo de Aventuras, por ordem cronológica, mas a preto e branco, como homenagem à obra de E.T. Coelho desconhecida da grande maioria dos leitores portugueses — sobretudo a que foi editada no mercado francófono — e que aquela revista juvenil, nos anos 80, procurou parcialmente divulgar.

“La Loi des Terres Sauvages” é mais uma história onde os lobos têm um papel de relevo, como predadores temidos por outras espécies, mas cuja vida está também ameaçada ao enfrentarem os desafios e os perigos que a Natureza lhes reserva, na luta sem tréguas pela sobrevivência. Por fim, a vitória pertence sempre aos mais fortes, aos mais astutos, aos mais pacientes… como está escrito, desde a aurora dos tempos, na lei do Wild North!

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“LA LOI DES TERRES SAUVAGES” (por E.T. Coelho) – 1

Título da história

ET Coelho no seu atelier 616Falecido em Florença (Itália), com 86 anos, o grande desenhador Eduardo Teixeira Coelho (ETC), a cuja memória o nosso blogue tem prestado a devida e merecida homenagem, deixou algumas histórias inéditas, que provavelmente nunca serão do conhecimento dos seus inúmeros admiradores espalhados por todo o mundo. Felizmente, um desses trabalhos — embora realizado, como tudo indica, já na fase derradeira da sua vida —, acabaria por ser publicado no nº 10 da nova série da revista francesa Pif Gadget, que por singular coincidência saiu em 27 de Abril de 2005, cerca de um mês antes da sua morte.

É a 1ª parte dessa história intitulada “La Loi des Terres Sauvages”, com um tema que recorda “Ayak, le Loup Blanc”, uma das melhores criações de E.T. Coelho, Ayak 2publicada também no Pif Gadget (e em Portugal na 2ª série do Mundo de Aventuras), que apresentamos hoje aos visitantes deste blogue.

Ao longo de 56 episódios, Ayak contava a história da extraordinária relação entre um lobo solitário e uma rapariguinha recém- -chegada com o seu pai ao território do Yukon, durante a grande corrida ao ouro, no final do século XIX — uma relação baseada na amizade e na confiança, que o selvagem instinto de Ayak sobrepunha ao temor e à hostilidade que sentia pelos homens brancos armados com o “pau que troveja”, causador de sofrimento e de morte.

À maneira de Jack London, o célebre escritor norte-americano que dedicou muitas das suas obras ao Alaska e ao chamado Wild North, os episódios de Ayak exploravam grandes temas como a vida e os hábitos dos animais selvagens, o equilíbrio eterno e sagrado que rege a natureza, as secretas regras da luta pela sobrevivência — que se encontram pif-61511igualmente retratados em “La Loi des Terres Sauvages”, numa espécie de testemunho nostálgico do autor de “A Lei da Selva” (célebre história naturalista publicada n’O Mosquito, em 1948, e que o blogue O Voo d’O Mosquito  divulgará em breve, como já foi anunciado).

Uma chamada de atenção para o texto de Jean Ollivier, seu velho compagnon de route, falecido poucos meses depois (30 de Dezembro de 2005), como que a comprovar o aforismo “unidos na vida, unidos na morte”.

M A 400 602O traço menos firme que alguns pormenores da história revelam — efeito, porventura, da idade e das doenças que atingiram o veterano artista nos últimos anos de vida —, não diminui nenhuma das qualidades que sempre caracterizaram o seu trabalho: beleza das linhas e da composição, movimento, harmonia, expressividade da estética narrativa e sobretudo, como neste caso, a perfeição e a elegância das formas anatómicas de todos os animais, que parecem retratados ao vivo, como se o desenhador, em vez da pena e do pincel, usasse com suprema eficácia a câmara de um realizador de documentários sobre a vida selvagem! Tal como em “Ayak, le Loup Blanc”, os lobos são os protagonistas desta história desenrolada nas florestas do Grande Norte, noutra evocação dos cânticos da natureza que perpassam pelas novelas e pelos contos de Jack London.

Aqui têm, pois, a 1ª parte de “La Loi des Terres Sauvages”, história que será concluída, em breve, com as restantes seis páginas ilustradas por E.T. Coelho, já no termo da sua carreira. Desenhar até ao fim foi sempre o seu lema favorito e o seu principal testamento!

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OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (2)

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A propósito do álbum que será lançado em breve pela Gradiva, com a reedição de uma das melhores histórias ilustradas por E.T. Coelho, cuja publicação teve lugar n’O Mosquito, entre Dezembro de 1950 e Dezembro de 1951 — e à qual já nos referimos com destaque num post anterior, que podem (re)ver aqui —, divulgamos seguidamente um texto de José Ruy, outro grande autor português de BD, com vasta obra de reconhecido mérito, que muito nos tem honrado com a sua colaboração e a sua amizade.

É de realçar, fazendo nossas as palavras de José Ruy, não só a qualidade gráfica desse álbum como as características que o distinguem da edição d’O Mosquito (e de outra, nos anos 70, sob a égide do Jornal do Cuto), pois foi realizado com base em provas originais, sem legendas, o que permitiu ultrapassar alguns defeitos dessas publicações, conservando, em todo o seu esplendor, a beleza imaculada da arte de E.T. Coelho.

As duas páginas, com novas legendas, e as capas do álbum foram-nos também enviadas por José Ruy, podendo apreciar-se numa das imagens o contraste, por causa das cores e dos textos (que tiveram de ser refeitos para não cortarem pormenores dos desenhos), entre a mesma página publicada n’O Mosquito e a que consta do álbum.

OS DOZE DE INGLATERRA EM QUADRINHOS

«A grande novidade deste final de ano e início de 2016 é a brilhante iniciativa da editora Gradiva ao publicar uma obra notável, Os Doze de Inglaterra, adaptada em quadrinhos, a partir de um opúsculo atribuído a Campos Júnior, por Eduardo Teixeira Coelho, com o seu traço magistral. A história, com 112 páginas primorosamente desenhadas e inicialmente publicada n’ O Mosquito nos anos de 1950/51, foi agora recuperada numa edição de luxo e insere-se na comemoração dos 80 anos da saída do primeiro número deste mítico jornal, a 14 de Janeiro de 1936.

Aquando da primeira publicação no jornal O Mosquito, devido ao texto excessivo, embora muito bem escrito, de Raul Correia, partes importantes dos desenhos foram lamentavelmente amputadas e a sua composição gráfica alterada devido a esse facto. Apresenta-se-nos agora a ocasião única de podermos, pela primeira vez, observar os desenhos completos do grande ilustrador E. T. Coelho.

O aspecto de cada página, embora muito melhorado pelas novas tecnologias ao nosso alcance, mantém as características da publicação no jornal O Mosquito, com a sua textura peculiar. É uma edição a não perder, por todos os que mantêm a recordação desse tempo e pelos que tomarem agora contacto, pela primeira vez, com a obra de E.T. Coelho, descobrindo a mestria deste exímio e consagrado autor de histórias em quadrinhos, reconhecido não só em toda a Europa como além dela.

Deixo aqui um conselho, se me permitem: façam já a sua reserva de um exemplar na editora (http://www.gradiva.pt), pois a edição será limitada.

O editor da Gradiva, Guilherme Valente, está, por isso, de parabéns por esta preciosa edição. Destaco a dedicação dos técnicos especializados da casa impressora, a Multitipo, e do arranjo da capa sobre um desenho de E.T. Coelho, pelo gráfico Armando Lopes, ele também autor de histórias em quadrinhos.

Compete-nos a todos, admiradores da arte de Teixeira Coelho, acarinhar esta heróica iniciativa, adquirindo exemplares e divulgando-a como merece.

Se um livro é sempre uma boa prenda para alguém que estimamos, este fará, sem dúvida, a felicidade de quem gosta de ler e aprecia as histórias em quadrinhos de qualidade».

José Ruy

OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (1)

Nos finais de 1950, O Mosquito — uma das mais antigas e famosas revistas da “época de ouro” da BD portuguesa — voltou a passar por profundas transformações, mudando de formato e aumentando o número de páginas (de oito para dezasseis), mas sem alteração do módico preço de 10 tostões (1 escudo), que mantinha simbolicamente há vários anos. O objectivo dessa mudança radical era continuar a atrair o interesse da rapaziada, oferecendo-lhe mais páginas e mais histórias pelo mesmo preço, embora o formato tivesse sido reduzido para metade, como na 2ª fase, publicada durante quase meia década — talvez a mais gloriosa da sua história —, entre Janeiro de 1942 e Dezembro de 1945.

A concorrência dos seus maiores rivais, como o Mundo de Aventuras (nascido pouco tempo antes, em Agosto de 1949) e o Diabrete (que já ia no 9º ano de publicação), foi, aliás, uma das razões mais fortes que ditaram essa decisão, largamente anunciada (e aplaudida pela esmagadora maioria dos leitores) nos últimos números do formato precedente, fazendo jus ao lema d’O Mosquito, tantas vezes repetido: Cada vez melhor!

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O principal colaborador artístico da revista continuava a ser Eduardo Teixeira Coelho, que deslumbrara a numerosa hoste dos seus juvenis admiradores com as magníficas adaptações de contos e novelas de Eça de Queirós publicadas pel’O Mosquito sem interrupção, desde o nº 1113: A Torre de D. Ramires (novela longa extraída do romance A Ilustre Casa de Ramires), O Defunto e O Suave Milagre.

12 Inglaterra Mosq 1280 704Histórias escritas por um dos maiores prosadores da língua portuguesa, que se transfiguraram, através do traço destro e harmonioso de outro extraordinário artista, numa obra-prima dos quadradinhos nacionais, digna até de chegar ao conhecimento de um público mais ecléctico e culturalmente mais amadurecido — como era o sonho de Raul Correia, grande promotor dessa fervorosa home- nagem ao insigne romancista que tanto admirava —, o que só viria a acontecer muitos anos depois, com a sua compilação em álbuns pelas editoras Vega e Futura.

No entanto, ao iniciar-se no nº 1201, de 27 de Dezembro de 1950, uma nova etapa, outra surpresa estava reservada aos leitores d’O Mosquito. Mas não foi o Eça que regressou às suas páginas, para mágoa de alguns — já contagiados pelo ritmo e pelo estilo lapidar da sua prosa —, embora E.T. Coelho continuasse presente, com outra excelente criação de ambiente histórico.

Tratava-se de uma narrativa com texto de Raul Correia, cujo enredo era baseado num tema conhecido de muitos jovens, sobretudo daqueles que já frequentavam o curso liceal, onde nas aulas de Português era obrigatória a leitura d’Os Lusíadas, o poema épico de Luís de Camões que descreve, em estâncias imortais, alguns dos maiores feitos da nossa História.

12 Inglaterra Mosq 1288Inspirando-se na romântica e heróica gesta dos Doze de Inglaterra — um grupo de jovens cavaleiros da corte de D. João I, o Rei de Boa Memória, que foram a Inglaterra participar num torneio em defesa de doze damas injuriadas por membros da nobreza, mais rudes no tratamento cortês do que no manejo das armas, como ficou provado durante a liça, para glória dos doze mancebos portugueses, entre os quais se destacou a bravura de Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço —, E.T. Coelho produziu outra obra-prima de perfeita beleza, que infelizmente n’O Mosquito perdeu muitos dos seus atractivos por causa do formato reduzido da revista e, sobretudo, do aspecto gráfico das vinhetas, onde o texto cortava, por vezes, a margem inferior dos desenhos.

Ressalvados, porém, esses defeitos — além da publicação descontínua, devido aos frequentes atrasos de E.T. Coelho, ocupado com outras tarefas —, não há dúvida de que os leitores d’O Mosquito acompanharam sempre com grande entusiasmo o relato das façanhas do Magriço, que decidiu fazer uma longa viagem por terra com o seu escudeiro, pisando somente solo inglês 12 Inglaterra Mosq 1285 705(para se juntar aos outros cavaleiros embarcados, tempos antes, em Lisboa) depois de viver inúmeras e pitorescas aventuras.

Com mais de 100 páginas, impressas a duas cores e cujo lugar de honra foi, durante muitos números, o espaço central da revista, com legendas em rodapé que tinham o cunho fluente e emotivo da prosa de Raul Correia, “Os Doze de Inglaterra” constitui, como já referimos, um magnífico exemplo do deslumbrante estilo de E.T. Coelho, então no cume da sua evolução artística, iniciada cerca de oito anos antes nas páginas de revistas como O Senhor Doutor, o Engenhocas e O Mosquito.

12 Inglaterra Mosq 1287 706Uma obra que obteve grande êxito e ficou na história da BD portuguesa, digna, por todos os motivos, de ser apresentada às gerações actuais, numa nova e cuidada edição, sob os auspícios de outro grande nome das histórias aos quadradinhos, mestre José Ruy — que acompanhou grande parte da carreira de E.T. Coelho em Portugal, como amigo e colega de trabalho, e é um dos mais profundos conhecedores da sua obra — e de uma editora com notável projecção em várias áreas, nomea- damente na da Banda Desenhada: a Gradiva.

Brevemente, divulgaremos uma nota informativa de José Ruy, onde essa sensacional novidade, ou seja, a apresentação em álbum (a partir de provas originais) de “Os Doze de Inglaterra” — coincidindo, a título de expressiva homenagem, com o 80º aniversário d’O Mosquito, que ocorrerá no próximo mês de Janeiro —, é descrita e explicada com mais pormenores.