JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 2

“MISSÃO DO SUPER-HOMEM PARA O PRESIDENTE KENNEDY”

Almanaque Superman 1965 (capa)Do nosso amigo Leonardo De Sá um “poço de sabedoria” nas mais diversas matérias, reputado ensaísta e investigador na área da BD, com obra extensa e de vulto, sobretudo monografias, publicada nos dois últimos decénios, em Portugal e no estrangeiro, recebemos esta magnífica imagem com a capa do Almanaque de Superman 1965, dado à estampa pela Ebal (Editora Brasil-América, Lda), companhia criada por Adolfo Aizen em 1945 e que se tornou uma das principais promotoras das histórias em quadrinhos no vasto território brasileiro e noutros países da América do Sul.

Aizen lançou muitas séries americanas de autores consagrados, como Alex Raymond, Hal Foster, Lyman YoungWilliam Ritt & Clarence Gray, Burne Hogarth, e converteu os super-heróis, com destaque para Superman, Superboy  e Batman, nos personagens favoritos, durante várias décadas, do público brasileiro.

Nesta capa, da autoria do mestre Monteiro Filho — referência incontornável das histórias em quadrinhos nacionais, na época pioneira da sua expansão nas páginas do Suplemento Juvenil, criado também por Adolfo Aizen —, é distinguida, de forma original, a histórica “Missão do Super-Homem para o Presidente Kennedy”, à qual fizemos avultada referência nos posts anteriores dedicados a JFK e a Al Plastino, o malogrado artista que desenhou esse célebre episódio para a revista da DC Superman # 170 (Julho, 1964), e que faleceu, por doença, há apenas quatro dias, na tarde de 25 de Novembro, notícia que só começou a circular no dia seguinte, depois do nosso post já ter sido editado.

Superman #170 (capa 2)Uma singular coincidência, que aproveitámos para fazer mais uma merecida e sentida homenagem a Al Plastino, complementada agora por esta bela amostra da arte de Monteiro Filho, que muitos fãs portugueses e brasileiros do Super-Homem nunca tiveram certamente diante dos seus olhos. Acresce que ela é uma peça de singular importância, única variante mundial, ao que tudo indica, da vulgar edição da DC, cuja capa, seguindo uma linha tradicionalista, versava outra aventura do Homem de Aço publicada no mesmo número, com o título “If Luthor Were Superman’s Father”.

Para evitar controvérsias com os leitores, nas ondas de choque provocadas pela trágica morte de Kennedy, o editor Mort Weisinger preferiu “jogar pelo seguro”, escolhendo uma capa puramente comercial, sem qualquer relação com a história mais emblemática desse número, ou seja, a que Al Plastino ilustrou, tendo por tema a grande campanha nacional de aptidão física que o malogrado Presidente queria promover entre a juventude americana. 

Os nossos agradecimentos a Leonardo De Sá por nos ter brindado com outro exemplo (e talvez dos mais raros) da passagem de JFK pela banda desenhada. A seguir apresentamos algumas páginas dessa edição brasileira de finais de 1964, infelizmente a preto e branco e com uma qualidade gráfica que deixava muito a desejar.

Missão do Superman para JFK (Alm)+2Missão do Superman para JFK - 3 e 4Missão do Superman para JFK - 5 e 7

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IN MEMORIAM: AL PLASTINO

AL PLASTINO JÁ NÃO ESTÁ ENTRE NÓS

Al Plastino com página de Supermam 170Acabamos de ter conhecimento, por intermédio do nosso bom amigo Alberto Soares, que o legendário artista Al Plastino — um dos autores referidos com maior destaque no post que dedicámos ao aniversário da morte do Presidente John F. Kennedy e à sua aparição em vários comic books da DC e da Marvel — faleceu anteontem à tarde, por doença, já depois desse post estar pronto para ser editado e sem que a notícia fosse ainda do domínio público. Uma singular coincidência, que assinalamos com pesar.

Superman's Mission by KennedyParafraseando Alberto Soares,    o nosso post acabou por ser também uma das primeiras homenagens póstumas a Al Plastino, cuja carreira de notável longevidade proporcionou à DC Comics, durante a Golden e a Silver Ages, alguns dos seus maiores êxitos, entre os quais o memorável episódio “Superman’s Mission for President Kennedy”, publicado em Superman #170 (Julho 1964), cujas pranchas, supostamente doadas à JFK Memorial Library, Plastino tentava reaver, depois de aparecerem recentemente à venda numa galeria particular.

Al Plastino a desenhar o Super-Homem (1949)Considerada ainda hoje uma das histórias mais emblemáticas do Homem de Aço, o seu destino ficou também ligado, de maneira indelével, ao desaparecimento de Al Plastino, que se debatia há longos meses com uma grave doença.

Que descanse em paz! Os fãs de Superman, Supergirl e outros míticos heróis dos comics a que o seu fértil talento deu mais realce gráfico, não o esquecerão tão cedo!

 

JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 1

JFK E OS SUPER-HERÓIS DA MARVEL E DA DC

John F. Kennedy - tira (Fantastic Four)A figura do 35º Presidente dos Estados Unidos da América, assassinado há 50 anos, em 22 de Novembro de 1963, fez várias aparições, meses antes da sua morte, em revistas da Marvel Comics, como Tales of Suspense #41, com o Homem de Ferro e a estreia do Dr. Strange (arte de Jack Kirby e Dick Ayers), Fantastic Four #17, em que o tenebroso Dr. Doom ameaça mais uma vez a América (arte de Jack Kirby e Dick Ayers), Journey into Mystery #96, com Thor e Mad Merlin (arte de Joe Sinnott), que estavam, então, no top de vendas. Journey into Mystery 96 (Joe Sinnott)Mas foram aparições meramente pontuais (os chamados cameos), em que o Presidente era visto apenas na Casa Branca, junto dos seus assessores ou da família. A nota mais relevante vai para o comic de guerra Captain Savage #14 (Maio 1969, arte de Don Heck e Syd Shores), onde Kennedy, ainda jovem, intervém como tripulante da lancha-torpedeiro PT-109, que efectivamente comandou durante a 2ª Guerra Mundial.

Tales of Suspense& Fantastic four

PosteriormentOSVALD+ KENNEDYe, surgiram outros comic books, com várias versões alternativas da sua morte, como Avengers West Coast # 60 (Julho, 1990), onde Lee Oswald é abatido por um agente antes de disparar os tiros fatais contra Kennedy, dando corpo, assim, à “teoria da conspiração” de que foram outros atiradores ocultos a assassinar o Presidente. E os exemplos da presença de JFK nos comics da Marvel não ficam por aqui, podendo ainda ser citadas as suas intervenções, mas sem grande relevo, em The Deadly Hands of Kung Fu #16 (Setembro, 1975) e Wolverine #66 (Fevereiro, 1993), com mais destaque para Adam: Legend of the Blue Marvel #1 (Janeiro, 2009), em que os Avengers, perante a ameaça de outro poderoso inimigo, têm de recorrer a um dos seus antigos membros, que não colhe as simpatias do Presidente.

Mais tarde, em Julho de 2009 e Fevereiro de 2012, JFK foi também “ressuscitado” nas novas aventuras do Capitão América, com arte de Marcos Martin e Francesco Francavilla: Captain America #50, vol. 5  e Captain América & Bucky #625.

Captain America 2009-2012

Superman's Mission by KennedyMas foi na revista da DC Comics Superman #170, publicada pouco depois da morte de Kennedy (Julho, 1964), que surgiu um dos maiores tributos que a BD prestou à sua memória: “Superman’s Mission for Presidente Kennedy”, episódio inicialmente previsto para a edição anterior e em que Superman ajudava o Presidente a promover junto da juventude americana a sua campanha (real) de educação física. Mas o projecto foi cancelado devido ao brutal assassinato de Dallas que chocou toda a nação, surgindo nesse número outra aventura de Superman.

Artigo do New York TimesNa tradicio- nal página do correio inse- rida em Superman #168, o editor Mort Weisinger transcreveu um artigo do New York Times, de 30/8/1963, ilustrado com uma vinheta da história que nunca sairia dos prelos, anunciando que os seus originais, com textos de Bill Finger e desenhos de Curt Swan (arte final de George Klein), seriam oferecidos a Jacqueline Kennedy.

O facto da DC ter mudado de planos, por vontade expressa do novo Presidente Lyndon B. Johnson e da família Kennedy, encarregando Al Plastino de desenhar uma nova versão (embora ainda hoje não se saiba se as pranchas de Curt Swan ficaram mesmo na posse de Jacqueline), atesta o interesse mítico desta aventura do Homem de Aço, cujo disfarce Kennedy foi o único presidente americano a conhecer.

Superman meets JFK - p.1 e 2

Na última legenda de “Superman’s Mission for Presidente Kennedy”, a DC fazia a promessa de oferecer os originais desta história à John F. Kennedy Memorial Library, na Universidade de Harvard, onde o ex-Presidente fora aluno.

Superman 170 (Kennedy)Há pouco tempo, surgiu uma polémica quando Al Plastino (já com a bonita idade de 91 anos) soube que os referidos originais tinham sido postos à venda num leilão particular; mas a John F. Kennedy Memorial Library negou qualquer responsabilidade, afirmando que essas pranchas não faziam parte dos seus acervos. Será difícil descobrir como chegaram à posse de um coleccionador particular, que defende acerrimamente o seu direito de propriedade, e se Weisinger cumpriu a sua promessa — tal como permanece uma incógnita o destino das pranchas (supostamente) oferecidas a Jacqueline Kennedy. Um autêntico tesouro para quem um dia as encontrar!   

Superman's meets JFK (última pág.)

OS REIS DO RISO – 2

HÄGAR E ASTÉRIX NA ESCÓCIA

Na mais recente aventura de Astérix e Obélix editada pela ASA, os dois irredutíveis gauleses (agora, com Uderzo já na reforma, confiados a uma nova e talentosa dupla de criadores), foram de abalada até à Escócia (aliás, Caledónia), misterioso e longínquo país nórdico onde viviam os Pictos, um dos povos mais belicosos desse tempo — e com costumes tão estranhos que deixaram atónitos os nossos heróis.

Hagar Conquista a Europa capaPois também noutra famosa série humorística, Hägar the Horrible (ou Hägar, o Abominável, como foi traduzida algumas vezes, entre nós), da autoria de Dick Browne, um mestre do género, vencedor do prémio Reuben (que fisicamente até se parecia com o seu personagem), a Escócia surge, às vezes, como cenário. Eis um exemplo, quando o truculento chefe dos Vikings, sempre pronto para a guerra e para a farra — sem contar com outras actividades que lhe permitem passar longas temporadas fora de casa, onde quem manda é a sua esposa Helga, uma espécie de Valquíria —, encontra, ao invadir novamente a Escócia, uma “pavorosa” criatura que logo lhe desperta a fúria guerreira. E o resultado está à vista… nesta página de 13/1/1974.

Hagar, o abominável247

Astérix e Obélix, ao ouvir tão estridentes acordes, portaram-se de maneira mais civilizada (salvo alguns tabefes de Obélix, numa primeira reacção, bastante moderada para o seu feitio!), ou não fossem os Gauleses, como todos sabem, um povo superior aos “horríveis” Vikings… apesar de não terem muito respeito pelo seu bardo Assurancetourix!

Astérix entre os pictos - 1248

ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 2

DOIS TRABALHOS INÉDITOS DE AUGUSTO TRIGO

 Desta feita, a título de curiosidade (e também de novidade), temos originais, mas não temos reproduções… porque os desenhos que apresentamos mais abaixo, com a assinatura de Augusto Trigo, destinavam-se a servir de capas aos dois primeiros números de uma revista quinzenal que nunca viu a luz do dia.

Foi um projecto meu e da Catherine Labey, à qual se devem duas maquetes da capa do primeiro número dessa revista — com o título provisório Aventuras & Viagens.

Aventuras e Viagens 1 & 2

Como podem ver, os originais de Augusto Trigo, excelentes como sempre, apesar das suas pequenas dimensões, próximas do formato da revista — 19,5 x 27 cms e 20,5 x 30 cms, respectivamente —, foram feitos com inteira liberdade criativa, ilustrando cenas das histórias escolhidas para esses números de estreia: O Rei da Polícia Montada, de Zane Grey e Allen Dean, e Mandrake, de Lee Falk e Phil Davies, duas séries clássicas cuja popularidade prometia um bom arranque da revista, num mercado potencial de cinco a dez mil leitores que ainda não “arrefecera”, após o desaparecimento, pouco tempo antes, do Mundo de Aventuras e de todas as publicações da Agência Portuguesa de Revistas.

Mas o projecto, como tantos outros com que sonhámos um dia, não passou da fase de planeamento, por falta dos apoios de que precisávamos para lançar uma revista com essa tiragem (e ainda por cima quinzenal), restando dele apenas as maquetes e os dois garridos originais de Augusto Trigo, inéditos até hoje.

Trigo - original patra a Polícia Montada244Trigo - original para Mandrake245

CARLOS GONÇALVES – Troféu de Honra do Amadora BD 2013: uma merecida homenagem

Amadora BD cartazEncerrou no passado domingo, dia 10, o Festival da Amadora, que nesta 24ª edição,  entre  outros prémios e homenagens, já largamente noticiados — com destaque para o vencedor do prémio nacional de BD, nas categorias de melhor álbum e melhor argumento de autores portugueses: “O Baile”, com desenhos de Joana Afonso e texto de Nuno Duarte —, distinguiu também com o Troféu de Honra (o mais prestigioso galardão do Festival e da BD portuguesa) uma figura sobejamente conhecida dos mais veteranos, em áreas como o coleccionismo, a pesquisa histórica e a divulgação jornalística, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) ou as tertúlias realizadas em todo o país, integrando adeptos do policiário e da BD.

Carlos Gonçalves - Troféu de Honra Amadora BD

História nº 102  239Trata-se de Carlos Gonçalves, colaborador durante largos anos de jornais e revistas, como o Correio da Manhã, o Diário Popular e o mensário História, para os quais redigiu inúmeros artigos sobre a 9ª Arte, coordenador de quase uma centena de números do Boletim do CPBD, editor de fanzines que criaram um padrão de qualidade, como O Aventureiro, organizador de vários eventos ligados à BD, desde a fundação em 1976 do CPBD, no qual participou activamente, tendo mesmo, como seu representante, marcado presença nos Salões de Lucca e Angoulême.

História nº 160 240Amigo também e colaborador, desde a primeira hora, do nosso blogue, que muitos favores já lhe deve, Carlos Gonçalves junta-se agora, finalmente, à numerosa lista de personalidades distinguidas com o Troféu de Honra do Festival da Amadora. Homenagem inteiramente merecida, ainda que peque por tardia, a um grande entusiasta e especialista das histórias aos quadradinhos, que muito se tem batido pelo conhecimento e pela dignificação institucional deste importante (e, por vezes, subestimado) nicho das artes figurativas portuguesas.

Mas mais eloquentes do que as nossas palavras acerca de Carlos Gonçalves são as do eminente professor António Martinó Coutinho, num recente post do seu blogue Largo dos Correios — também vocacionado, entre vários outros temas, para a banda desenhada —, cuja consulta vivamente aconselhamos. Aqui fica o registo e uma foto extraída desse post, com a devida vénia ao seu autor: http://largodoscorreios.wordpress.com/category/historias-aos-quadradinhos/

Carlos Gonçalves - Tertúlia de Lisboa (Março 2004)

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 1

JOSÉ ANTUNES, CAPISTA DO PISCA-PISCA

Pisca pisca nº3Nesta rubrica em estreia do Gato Alfarrabista, vamos apresentar, uma vez por outra, algumas ilustrações que ainda hoje nos enchem o olho, escolhidas ao acaso entre as capas dos milhares de livros e revistas que atafulham todos os cantos desta casa. Até o nosso gato já tem pouco espaço para meter o nariz onde lhe apetece, porque certos caminhos lhe estão vedados e há portas (que guardam preciosos segredos, isto é, objectos muito sensíveis ao tacto e às unhas dos felinos) sempre fechadas.

Entre essas “relíquias” de papel, a nossa primeira escolha recaiu sobre algumas capas do Pisca-Pisca, revista de periodicidade mensal, nascida em Janeiro de 1968, sob a direcção de Álvaro Parreira e Olga Alves, na qual, entre outros motivos de interesse, surgiram pela primeira vez, em tradução portuguesa, as tragicómicas aventuras do ignóbil Grão-Vizir Iznogoud e do  inefável Califa de Bagdad, criadas por outra dupla de respeito: Goscinny (argumento) e Tabary (desenhos).

Com um excelente elenco de colaboradores e um lote bem escolhido de histórias aos quadradinhos, oriundas sobretudo de revistas franco-belgas, o Pisca-Pisca abriu também as suas páginas a alguns desenhadores portugueses de primeira linha, como José Garcês, José Ruy, Carlos Alberto, Eugénio Silva, Zé Manel, Fernandes Silva, Artur Correia e José Antunes — este último autor das capas que hoje vos apresentamos.

Pisca pisca nº2Com um fértil percurso artístico que o projectou desde as primeiras histórias aos quadradinhos no Mundo de Aventuras e no Camarada (2ª série) até aos píncaros da ilustração no Jornal do Exército e em inúmeras publicações de diversas editoras, José Antunes foi orientador gráfico do Pisca-Pisca, onde não fez banda desenhada, mas deixou alguns dos seus melhores trabalhos como ilustrador, nomeadamente as capas dos primeiros números, com destaque para as do nº 3 (Março 1968), assinalando a estreia da série “O Califa e o Grão-Vizir” (que se tornaram os heróis mais emblemáticos da revista), e do nº 2 (Fevereiro 1968), baseada numa curta história de William Vance, famoso desenhador belga, cujas principais criações, como Bruno Brazil, Ramiro, Howard Flynn, Bob Morane e XIII, figuram entre as mais memoráveis da moderna escola franco-belga emergente nos anos charneira de 60 e 70.

Ao encetar a sua carreira, Vance especializou-se no domínio dos récits complets de cunho histórico e didáctico, muito em voga no Tintin e no Spirou, produzindo dezenas de episódios como o que deu origem à magnífica capa de José Antunes (certamente mais completa no original, pois parece ter sofrido um corte na margem direita), sobre a famosa companhia de diligências Wells Fargo, que transportava o correio nos tempos heróicos e turbulentos do Oeste americano, como o cinema tantas vezes nos mostrou.

Pisca pisca nº4 e 5

De “encher o olho” são também as capas dos nºs 4 (Abril 1968) e 5 (Maio 1968), dedicadas a outras histórias curtas, com especial relevo no sumário desses números: a lenda medieval de “Amadis, o Donzel do Mar” e a curiosa história da girafa oferecida, em 1826, ao rei de França, ilustradas respectivamente por José Garcês, no seu estilo harmonioso e poético, e por Fred Funcken, outro versátil especialista belga deste género de episódios verídicos, criador, com sua mulher Liliane, de séries muito populares como Chevalier Blanc, Harald le Viking, Jack Diamond, Doc Silver e Capitan.

Pisca pisca nº 7 e 24 Pisca pisca nº11 escola de detectives

Chamam também a atenção as capas dos nºs 7 (Julho 1968) e 24 (Fevereiro 1970), em que Iznogoud e o ingénuo Califa continuam a ser os “reis da comédia”, sob a exímia batuta de Goscinny e Tabary; e a do nº 11 (Janeiro 1969), pondo em foco a Escola de Detectives, secção policial orientada pelo célebre Inspector Varatojo (que se estreou com uma rubrica do mesmo nome no Diabrete) e profusamente ilustrada por José Antunes.

Pisca pisca nº14+ 21

As capas dos nºs 14 (Abril 1969) e 21 (Novembro 1969), de aspecto bélico, ilustram as proezas de destemidos heróis portugueses dos séculos XVI e XVII, que andaram pelo Oriente, assunto abordado com fluência narrativa e rigor histórico por Olga Alves, Ortiz da Fonseca e outros colaboradores literários do Pisca-Pisca, onde estes temas (como noutras revistas juvenis da época) tinham grande destaque.

Pisca pisca nº 12 + 18

Outro feito memorável da nossa História, a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, levada a cabo por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, nos tempos pioneiros da aviação, serviu de tema à capa do nº 12 (Fevereiro 1969), enquanto que, na do nº 18 (Agosto 1969), o ignóbil Iznogoud desempenha novo papel, como figura de um filme de desenhos animados, cuja técnica é explicada aos leitores no interior da revista.

Realmente especial é a capa do nº 19 (Setembro 1969), que evoca um dos acontecimentos mais notáveis do século XX, tema de uma grande reportagem fotográfica inserida nesse número: a chegada à Lua, mês e meio antes, do foguetão Apolo XII, tripulado por três astronautas americanos, tendo dois deles, Armstrong e Collins, pisado, pela primeira vez na história da Humanidade, a superfície lunar.

Reparem num pormenor curioso desta capa: a presença de Iznogoud ao lado dos célebres astronautas. A razão é porque, na sua aventura desse número espe(a)cial, o malfadado Grão-Vizir entrou também em órbita!

Pisca pisca nº19 e iznogood

Pisca pisca nº23José Antunes foi responsável gráfico do Pisca-Pisca até ao derradeiro nº 33, saído em Dezembro de 1970, e continuou, por isso, a ilustrar textos e capas da revista, coadjuvado por outros desenhadores, como documentam as três ultimas que apresentamos, correspondentes aos nºs 23 (Janeiro 1970), 27 (Maio 1970) e 28 (Junho 1970), todas bons exemplos da sua maturidade gráfica, do seu sentido da composição e da mestria revelada no tratamento da cor. Lamentamos apenas que, por falta de motivação ou de tempo, não tivesse brindado também os leitores, a exemplo dos seus colegas José Garcês, Carlos Alberto e Eugénio Silva, com uma história em quadrinhos (designação que o Pisca-Pisca usava correntemente).

Na galeria de grandes ilustradores/capistas portugueses das últimas décadas, em áreas tão concorridas como a literatura e a imprensa infanto-juvenis, José Antunes (1937-2010) é seguramente, pelo seu multifacetado talento e por toda a vasta obra que realizou, um dos nomes a reter na nossa memória.

Pisca pisca nº27+28

REVISTAS DE TERROR – 1

CALAFRIOS! & CALAFRIO – A EMOÇÃO ESTÉTICA DOS MESTRES DO TERROR

Calafrios001_Set2013-1A PROPÓSITO DE HISTÓRIAS DE TERROR E DE VAMPIROS, ZOMBIES, LOBISOMENS… e outros mostrengos que animam a noite do Halloween, mas já não metem medo a ninguém nos tempos ameaçadores e esquizofrénicos que vivemos… o nosso Gato associa-se à onda de entusiasmo com que foi recebida pelos internautas uma nova revista online dedicada a esta temática e com o sugestivo título de Calafrios! — cuja bizarra e tétrica capa, estilo Frankenstein, nos apraz também registar.

No sumário do 1º número desta revista online criada por Filipe Azeredo, do grupo A Filactera, incluem-se três histórias extraídas de antigos horror comics, que se destacam pelo seu arrepiante cenário e sobretudo pelo nome dos seus autores, Alex Toth, Reed Crandall e Basil Wolverton, cuja celebridade foi forjada no “tenebroso” cadinho dos EC Comics, tão anatemizados e perseguidos pela censura estadunidense, a famigerada Comics Code Authority, como as bruxas na Idade Média.

Calafrios001_Set2013-3Mas a verdade, à laia de paradoxo ou de pura ironia, é que foram os artistas dessa editora americana quase marginal que transformaram em arte moderna a estética bizarra e quase sempre grotesca dos horror comics, sem defraudar o gosto dos leitores por sangue e adrenalina, mas refinando-o, como fez Roger Corman com os seus filmes, num processo que se tornou catalizador. 

Leiam esta revista, em formato flip-book, porque vale a pena e agradeçam aos nossos amigos do blogue A Filactera (onde ela está disponível para ser descarregada em PDF ou CBR) a sua “terrífica” iniciativa, que nos irá provocar mais alguns calafrios durante os meses invernais que se aproximam.

Calafrios001_Set2013- 11 e19

NOTA (à margem): Este título lembra-nos o de uma publicação brasileira que já desapareceu do mercado, preenchida exclusivamente com relatos de terror desenhados pelos melhores artistas da “casa”, como Rodolfo Zala, Rubens Cordeiro, Eugénio Colonese, Aloísio de Castro, Flávio Colin, Mozart Couto e Júlio Shimamoto. As capas também tinham uma conotação especial com as edições americanas, mas conservando, ao mesmo tempo, a identidade afro-brasileira que presidia aos temas e ao estilo de grande percentagem das histórias publicadas na revista, como demonstram alguns exemplos que iremos seleccionando para vosso desfrute.

Calafrio nº 26 e 36

Uma chamada de atenção para a capa do nº 26, onde, entre outros títulos, figura “O Retrato de Jeny”, criação do mestre luso-brasileiro Jayme Cortez — de quem muitos leitores d’O Mosquito ainda se lembram —, trabalho esse digno do renome que alcançou internacionalmente… e que, por isso, incluímos também nesta antologia.

Retrato de Jeny - 1 e 2Retrato de Jeny - 3 e 4