JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 4

A BRAVURA DE CHICO

 Apresentamos hoje uma nova história de Mestre José Ruy, com três páginas apenas, mas recheada de interesse e emoção (como se dizia e escrevia nos bons velhos tempos), e que respigámos, como as anteriores, d’O Papagaio, suplemento da revista Flama.

Foi a primeira vez que José Ruy escolheu como cenário a lezíria ribatejana, talvez para ter oportunidade de voltar a desenhar equídeos, pois era patente a sua afinidade com o porte dos garbosos animais, mesmo apesar de nunca os ter montado.

Como frequentemente acontece é a imaginação dos artistas que os faz superar os próprios handicaps ou as sensações que nunca experimentaram… e os resultados são surpreendentes! Mas no caso de José Ruy contou muito também a aprendizagem do natural, quando passava dias inteiros na Escola do Exército a esboçar as poses dos cavalos parados e em movimento.

Resta acrescentar que esta história teve início n’O Papagaio anexo à Flama nº 64 e acabou no nº 66 desta revista, em 10/6/1949. Se o cenário fosse ligeiramente transformado e os figurantes aparecessem com outra vestimenta, “A Bravura de Chico” até poderia confundir-se com uma típica aventura de cowboys. Digam lá se não é verdade!

A Bravura do Chico

 

O ZORRO DE FERNANDO BENTO

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Embora não me conste ter havido uma edição portuguesa em livro de “O Sinal do Zorro”, a obra mundialmente famosa de Johnston McCulley, lembro a título de curiosidade que o Diabrete, em 1949, ofereceu aos seus leitores, a partir do nº 597, uma  adaptação desse romance, com 43 capítulos recheados de magníficas ilustrações de Fernando Bento, tão fieis à imagem do mítico personagem que se gravaram fortemente na memória dos leitores.

Outra adaptação da mesma novela surgiu (bastante a propósito) na revista Zorro, durante o ano de 1964, desta vez com ilustrações a lavis de outro mestre da BD portuguesa: José Garcês.

O nosso Gato Alfarrabista tem o prazer de apresentar aos seus leitores algumas das magníficas imagens de Fernando Bento publicadas no Diabrete, com um Zorro que se distingue pela elegância e leveza de movimentos, o porte romântico e audacioso, a aura de mistério e de fascínio que o envolve, quando usa o capuz para encobrir a sua identidade — e pelo cunho verídico (no sentido de fidelidade ao ambiente e aos elementos originais) que o saudoso mestre imprimia a todas as suas criações inspiradas em figuras literárias.

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AS FANTASIAS DE AGONIA SAMPAIO

 Chegou-nos às mãos, enviado pelo seu autor, um álbum de Agonia Sampaio intitulado “Fantasia”. Com um traço barroco e singelo, adequado a uma temática de inspiração nitidamente infantil, lembrando as maravilhosas lendas nórdicas de Selma Lagerlöf, Sampaio oferece-nos três histórias que se lêem com agrado e que espelham o seu amor pela natureza e pelos animais, assim como uma suave fantasia pontuada por diálogos recheados de humor “negro” (como em “A Morte de Nicolas” e “Canibais”) e um bem doseado equilíbrio do preto e branco.

Embora não se trate de produções recentes, nem sequer inéditas, saudamos este regresso de Agonia Sampaio ao contacto com os  leitores (nas edições de papel), esperando que seja o retomar de uma actividade que sempre o entusiasmou, tendo-lhe rendido vários prémios e participações em mostras nacionais e internacionais, e da qual guardamos boa memória através de alguns dos seus trabalhos, publicados nomeadamente nas Selecções BD.

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F. BENTO & J. VERNE – UMA DUPLA PERFEITA – 2

Eis mais duas capas do Diabrete, respeitantes aos nºs 311 e 356, de 22/6/1946 e 27/11/1946, respectivamente, com magníficas ilustrações de Fernando Bento sobre obras de Júlio Verne, iniciadas nos números seguintes.

Desta vez, porém, a apresentação era diferente, já que não se tratava de adaptações em banda desenhada, como Bento fez, algum tempo depois, com “A Ilha Misteriosa” e “Matias Sandorf” — histórias que pela sua fidelidade ao original ocuparam muitos números —, mas de texto corrido, dividido em capítulos, com três imagens por página.

As duas que escolhemos como exemplo foram publicadas nos nºs 319 e 373 do “grande camaradão”, outro título com que o popular bissemanário dirigido por Adolfo Simões Müller se apresentava briosamente aos seus leitores.

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5 semanas em balão 024  20000léguas 027

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 3

REPORTAGEM INESPERADA – 3

Eis as duas últimas páginas desta história, originalmente publicada, em 1949, na última série d’O Papagaio (suplemento da revista Flama) e cujas movimentadas peripécias têm como protagonista o azougado repórter Ventoinha, concebido por José Ruy de forma curiosa, ao retratar o irrequieto temperamento de um seu colega de redacção, o Neves de Sousa… embora, quanto à aparência física, tivesse escolhido outro modelo, como nos revelou no intróito dos seus pitorescos comentários.

A propósito do Neves de Sousa, que lhe serviu de “musa inspiradora” e viria a tornar-se jornalista desportivo, José Ruy contou-nos outra história que não resistimos a transcrever aqui.

UM ACTO HERÓICO

«Pouco tempo depois de o ter conhecido, na redacção da Flama, o Neves de Sousa foi mobilizado para ir para a Índia, quando das surtidas dos satyagrahas. Num recontro com os ditos, houve troca de tiros entre duas barricadas, e o Neves de Sousa levou um balázio de raspão no capacete que o deixou atordoado; e num acto não sei se irreflectido ou descontrolado, saiu do abrigo da trincheira em que o grupo se encontrava, de arma na mão, direito ao inimigo. Sozinho. Os outros, ao verem aquele gesto isolado, devem ter pensado tratar-se de um esquema estratégico e de um sinal para cair sobre eles algum exército escondido, e desataram a fugir a sete pés. Os companheiros do Neves de Sousa ficaram paralisados, primeiro à espera de o ver varado pelas balas, e depois com o desfecho. Claro que ganhou uma medalha por heroísmo.

Ele próprio contava isto, confessando que ficara tresloucado com o embate da bala que lhe amolgara o capacete. Mas não passei essa cena para BD.»

Reportagem inesperada 5 e 6

F. BENTO & J. VERNE – UMA DUPLA PERFEITA

Mais duas capas do Diabrete, publicadas em 1947 e 1948, com o traço magnífico de Fernando Bento, já na plenitude dos seus dotes gráficos. Ao adaptar para BD dois famosos romances de Júlio Verne, “A Ilha Misteriosa” e “Matias Sandorf”, o versátil artista erigiu mais um marco na sua obra incomparável.

Até os cabeçalhos do Diabrete espelham a criatividade e a fantasia de um dos maiores desenhadores da “época de ouro” da BD portuguesa.

Aditamento: a pedido de alguns leitores e amigos, apresentamos também as primeiras páginas destas duas memoráveis versões, publicadas respectivamente nos nºs 417 e 512 do “grande camaradão”, que nessa época tinha periodicidade bissemanal como O Mosquito.

Diabrete 416 A ilha misteriosa 943     Diabrete 511 Matias Sandorf 944

Ilha misteriosa  diabrete971     Matias Sandor  diabrete972