FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 8

DUNLOP, O INVENTOR DA RODA PNEUMÁTICA

A garden hose provided John Dunlop with a smooth bicycle rideUm campeão chamado J. Agostinho 2

Nesta pré-época do futebol, em que todos os grandes clubes com aspirações a copiosas vitórias (e receitas) em futuros torneios tendem a contratar novos jogadores e a renovar as suas equipas técnicas, com vultuosas transferências de milhões de euros (como no mediático caso de Jorge Jesus), há outro desporto, de uma modalidade muito mais modesta (e mais antiga), que durante os longos e cálidos dias de Julho e Agosto chama também a atenção dos media e desperta o entusiasmo dos espectadores.

Claro que estamos a referir-nos ao ciclismo, cujas provas principais, como a Volta à França, a Volta à Itália, a Volta à Espanha e a nossa menos carismática Volta doméstica, já iniciaram o seu calendário, enchendo as estradas com o clássico e colorido espectáculo das longas filas de corredores, agrupados em pelotões compactos e em equipas que mal se distinguem umas das outras, numa homogénea mole humana que serpenteia pelas monótonas pistas de asfalto, plácida ou velozmente, com a natureza campestre e os cenários urbanos em pano de fundo. Lembrando-nos (sempre) um grande campeão português, Joaquim Agostinho, que mestre Fernando Bento, outro gigante, mas da arte e das histórias aos quadradinhos, retratou com o seu traço genial.

Bicicletas primitivas 2Mas já pensaram nas voltas que deu o pequeno e veloz velocípede até se tornar o símbolo de um dos desportos mais populares do nosso tempo, embora nascido na agitada era da revolução industrial? Ao princípio, as bicicletas eram de madeira, pesadas e incómodas porque a sua tracção se fazia ainda sem pedais. Imaginem os desajeitados velocipedistas, de pés assentes no solo, impelindo-as com pequenos saltos! Só muito mais tarde, cerca de 1885, o novo veículo, depois de passar por profundas transformações, ganhou velocidade e ligeireza com um sistema de duas rodas do mesmo tamanho, substituindo os modelos anteriores com uma grande roda traseira (ou ainda mais bizarros, como o da imagem anexa), que permitiam ao seu ocupante equilibrar-se melhor no selim e passear orgulhosamente nas avenidas citadinas, entre cabriolés puxados por cavalos.

John Dunlop filhoMas os acidentes não estavam afastados, porque as rodas ainda eram pesadas (já não de madeira, mas metálicas, como o resto da estrutura), e qualquer pequeno obstáculo podia provocar quedas dolorosas. Por causa da trepidação e dos numerosos acidentes, as bicicletas — utilizadas cada vez mais pela classe média e pelo operariado, ao ponto de se tornarem um símbolo da sua ascensão social — ganharam mesmo um epíteto pejorativo: “boneshakers” — isto é, em sentido figurado, “quebra-ossos”.

Dunlop na sua bicicletaFoi então (1887) que surgiu, pela mão de um médico veterinário de espírito sagaz, nascido na Escócia e chamado John Boyd Dunlop (1840-1921), um invento que trans- formou por completo a bicicleta, tornando-a um veículo mais ligeiro, mais cómodo, mais robusto e mais seguro. Graças a uma ideia de génio — pneumáticos com ar comprimido revestindo as duas rodas —, Dunlop conseguiu ultrapassar uma das barreiras que impediam a humanidade de desenvolver novos e mais eficientes meios de transporte. Foi, como tantos outros sábios e inventores, alguns por mero acaso, um elo fundamental da meritória cadeia que põe em movimento as rodas do progresso e projecta a inteligência humana até aos patamares do futuro.

Leiam seguidamente a história do médico John Dunlop e do seu precioso invento, que o nosso bem conhecido Jean Graton, um dos maiores especialistas desportivos da Banda Desenhada europeia, narrou com o seu habitual estilo prático e bem documentado, em sequências dinâmicas e realistas, dadas à estampa no Tintin belga nº 22 (12º ano), de 29 de Maio de 1957, e n’O Falcão (1ª série) nº 67, de 24 de Março de 1960.

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FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 7

Portrai

Adventures inside the Atom - 0Em 1948, a General Electric, uma das mais importantes companhias norte-americanas na área da indústria, produziu, por intermédio da sua filiada General Comics, um pequeno comic book de 16 páginas, intitulado Adventures Inside the Atom, onde se narrava a história da energia atómica (“o maior segredo da Natureza” descoberto pelo homem), no decurso das várias fases da sua pesquisa científica. O nascimento do “Projecto Manhattan” também era referido, como mostra uma das páginas que a seguir apresentamos. Infelizmente, não conseguimos descobrir o nome dos autores da história.

Em estilo ameno, sem desligar o conhecimento teórico da informação prática, visto que se des- tinava a um público jovem cuja leitura preferida eram as aventuras dos super-heróis, este comic book relatava a visita de um adolescente e do seu companheiro adulto, que lhe servia de cicerone, a uma grande exposição de Ciência repleta de curiosidades sobre a energia atómica e a Física Nuclear, cujas radiosas promessas de progresso pareciam concretizáveis num futuro próximo.

Johnny, o deslumbrado herói juvenil desta “aventura”, ficava assim a conhecer, graças à erudição do seu interlocutor, todos os passos dados pelo homem para descobrir os mistérios do átomo, desde que essa ideia germinara pela primeira vez, como uma centelha luminosa e mágica, no cérebro de alguns cientistas e filósofos da Antiguidade.

Adventures inside the Atom - 1 e 3Adventures inside the Atom - 4 e 5

Cartaz anti-JapãoÉ claro que um dos propósitos deste comic book, integrado numa aliciante série didáctica que a General Comics intitulou Adventure Series, era o de convencer a opinião pública americana, em cuja memória ainda estavam latentes o horror e a violência do último conflito mundial — embora o seu território, com excepção de Pearl Harbour, não tivesse sido directamente atingido —, de que o fabrico de uma arma de destruição maciça como a bomba atómica fora uma consequência da guerra, não um fim em si mesmo.

Além disso, sem o “Projecto Manhattan” (coordenado por Robert Oppenheimer, desde 1942, na base secreta de Oak Ridge), os Estados Unidos não teriam quebrado a resistência do Império do Japão, a não ser à custa de mais sacrifícios, nem teriam podido desenvolver os seus programas nucleares com objectivos mais pacíficos. O que, no fundo, era verdade…

Adventures inside the Atom - 6 e 7Adventures inside the Atom - 10 e 11

Bomba atómica NagasakiMas os milhares de vítimas de Hiroshima e Nagasaki, na sua maioria pertencentes à indefesa população civil, continuarão para sempre a recordar à Humanidade um dos actos mais terríficos (talvez até inútil, se outras opções menos agressivas tivessem sido escolhidas) da Segunda Guerra Mundial, perpetrado no limiar da era atómica.

Pelo menos, o segundo bombardeamento, sobre Nagasaki, poderia ter sido evitado, poupando a cidade e os seus 240 mil habitantes, pois mili- tarmente os japoneses já estavam muito enfra- quecidos. Isso mesmo afirmaram Oppenheimer e outros cientistas do “Projecto Manhattan”, indignados com a decisão, ao Secretário de Estado da Defesa Henry Stimson. Mas já era demasiado tarde…

Três anos depois, a mensagem redentora de confiança no futuro da energia atómica e nos benefícios da sua utilização pacífica — como os que  retrata, de forma às vezes fantasista, este comic book — começava a desanuviar os temores da população mundial, projectan- do-se sobre os escombros da guerra e os novos pactos estabelecidos entre as nações. Quando a sombra da “Cortina de Ferro” ainda não era uma ameaça…

Adventures inside the Atom - 12 e 13Adventures inside the Atom - 14 e 15

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 6

PortraiHiroshima após o bombardeamentoEm 6 de Agosto de 1945 deflagrou a primeira bomba atómica em território japonês, devastando por completo a cidade de Hiroshima, com cerca de 250.000 habitantes. Metade da população não sobreviveu. Três dias depois, caiu outra bomba em Nagasaki e os trágicos efeitos destes ataques, com um engenho desconhecido e terrivelmente mortífero, forçaram o governo japonês a aceitar a rendição incondicional imposta pelos Aliados.

Assim terminou o último e catastrófico capítulo da Segunda Guerra Mundial, que na Europa já tivera o seu epílogo em Maio desse ano, depois da queda de Berlim e da morte de Hitler. A terrível hecatombe que, entre 1939-45, ceifou 60 milhões de vidas e deixou um rasto de destruição em muitos países europeus e asiáticos, culminou num acontecimento sem precedentes, cujo impacto decisivo no desfecho da guerra ainda não fazia prever todas as suas fatídicas consequências para o futuro da humanidade… se esta continuar na mesma senda.

Robert Oppenheimer 2O ambiente entre os responsáveis do “Projecto Manhattan” — criado em 1942 pelo Presidente Franklin D. Roosevelt, para intensificar as pesquisas nucleares dos Estados Unidos — foi até de euforia, após o êxito da primeira experiência com a bomba atómica, realizada no deserto de Alamogordo (Novo México), em 16 de Julho de 1945. O protótipo, chamado simplesmente Gadget, tinha 4,25 metros de comprimento, 1,5 metros de diâmetro e pesava quatro toneladas e meia, mas o seu “coração” de plutónio representava apenas 0,5 por cento do peso total.

A bomba de urânio que arrasou Hiroshima não chegou a ser testada, tal era a confiança que os cientistas depositavam no seu trabalho e no êxito da operação, chefiada pelo coronel Paul Tibbets, piloto do bombardeiro B-29, com o nome de Enola Gay, onde a bomba foi transportada, desde a base de Tinian, nas ilhas Marianas.

Einstein e OppenheimerSomente dois homens, dois cientistas de renome, Albert Einstein — que, anos antes, alertara o Presidente Roosevelt para o perigo de serem os nazis os primeiros a dispor de uma bomba atómica —, e J. Robert Oppenheimer, que dirigia o “Projecto Manhattan”, encararam com alguma apreensão o destino dessa nova arma nas mãos dos políticos e dos militares. Einstein chegou a declarar, mais tarde, que se soubesse que os alemães não seriam capazes de produzir a bomba atómica, “não teria levantado um dedo”.

Albert Einstein quote

Oppenheimer (Now, I am become Death, the destroyer of worlds)Ficaram também para a História as palavras de Oppenheimer, citando uma passagem do poema épico indiano Bhagavad-Gita, quando quis expressar a emoção que sentira ao assistir à explosão de Alamogordo: “Se o fulgor de mil sóis iluminasse o firmamento, veríamos algo semelhante à imagem esplendorosa do Omnipotente”.

E mencionou ainda outro versículo do mesmo livro (o preferido de Gandhi) ao referir-se polemicamente aos perigos da era atómica que ele próprio ajudara a nascer: “Agora, transformei-me na morte… a destruidora de mundos”. A sua gradual e firme oposição, no pós-guerra, ao emprego de armas nucleares acarretou-lhe vários dissabores, entre eles o de ter sido obrigado a comparecer numa comissão de inquérito, em plena era McCarthy, e de ficar na “lista negra” do FBI, que o considerava um “perigoso” membro da esquerda comunista.Corriere dei Ragazzi 8 (1976)

Foi a história do “Projecto Manhattan” — desde a sua criação até ao lançamento da primeira bomba atómica sobre Hiroshima — que dois notáveis autores italianos, então ainda em início de carreira, Milo Manara e Mino Milani, reviveram num episódio da série La Parolla alla Giuria (à qual já nos referimos, a propósito do General Custer e da derrota do 7º de Cavalaria na batalha de Little Big Horn), episódio esse publicado na revista Corriere dei Ragazzi nº 8 (22-2-1976) e reproduzido parcialmente no Mundo de Aventuras nº 423, 2ª série (19-11-1981).

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FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 5

ATENTADO EM SARAJEVO

Atentado de Sarajevo - 3

Há 100 anos, em 28 de Junho de 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, durante uma visita oficial a Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, foi o prelúdio de um tremendo conflito que envolveu várias potências europeias, cujos interesses imperialistas estavam em jogo: a Alemanha, a Áustria, a França, a Rússia, a Turquia e a Grã-Bretanha.

Guerra das trincheiras 1917Depois da declaração de guerra da Áustria-Hungria à Sérvia, em 28 de Julho, a Europa, transformada num barril de pólvora, viu deflagrar aquela que ficou conhecida como Primeira Grande Guerra, com o ataque à Sérvia e a posterior ofensiva alemã, quebrando a neutralidade belga, até às linhas francesas.

Contrariando as previsões dos mais pacifistas, que acreditavam que este novo conflito europeu se resolveria rapidamente, o dia do armistício só chegou muito tempo depois, em 11 de Novembro de 1918, com a vitória das forças aliadas, em que estavam incluídos pequenos países como a Grécia, a Roménia, a Bélgica e Portugal. Mas o saldo foi terrível, com milhões de mortos provocados pela devastadora guerra das trincheiras, que submeteu os soldados ao fogo de morteiros e metralhadoras, ataques de tanques, bombardeamentos aéreos, e ao efeito de gases tóxicos usados, sem parcimónia, como arma de extermínio, numa estratégia agressiva que aumentou o horror e as vítimas do dramático conflito.

Guerra das trincheiras - granadasO Tratado de Versalhes, assinado em 28 de Junho de 1919 pelos beli- gerantes, pôs termo oficialmente à Grande Guerra, redesenhando não só o mapa da Alemanha, a principal vencida, como o de toda a Europa balcânica e acabando para sempre com as ambições dos impérios Austro- -Húngaro e Otomano, que desapa- receram na hecatombe.

O efeito mais positivo do tratado não foi, porém, a extinção desses impérios nem o enfraquecimento do poderio militar germânico, que não tardaria a renascer com o advento alarmante do nazismo, mas a criação da Liga das Nações, o primeiro organismo internacional destinado a promover a igualdade e a paz entre os povos por vias políticas e diplomáticas, que entrou em vigor em 1920, dando origem, depois da Segunda Guerra Mundial, à ONU (Organização das Nações Unidas).

Associando-nos à evocação do trágico acontecimento que ateou o rastilho da Primeira Guerra Mundial, apresentamos mais um trabalho artístico, bem documentado, da dupla Liliane & Fred Funcken, com texto de Yves Duval, oriundo do Tintin nº 31, de 4/8/1964: Les origines de la première guerre mondiale … ou como tudo começou.

Grande Guerra 1 e 2Grande Guerra 3 e 4

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 4

OPERAÇÃO “OVERLORD”

O dia mais longo

A manhã seguinte ao Dia DCom este nome de código, foi desencadeada, no dia 6 de Junho de 1944 (Dia D), uma grande operação aero-naval que conduziu ao desem- barque nas praias da Normandia de uma poderosa força militar constituída por mais de 200.000 homens, sob as bandeiras de vários países aliados na guerra contra o III Reich: Estados Unidos, Grã-Bretanha, França (Exército Livre liderado pelo General De Gaulle) e Canadá.

The longest day (poster)A tenaz resistência das tropas nazis, entrincheiradas nos “bunkers” que dominavam todo o litoral, provocou milhares de mortos — mais de 2.000 só nas primeiras horas de combate —, dificultando o avanço dos invasores, que apenas no dia seguinte conseguiram “limpar” as praias e ocupar todos os postos avançados, como estava traçado nos planos do General Dwight Eisenhower, o principal “cérebro” da Operação “Overlord”, que apanhou os alemães desprevenidos, mas não fez vacilar a sua resistência. A batalha da Normandia tinha apenas começado…

Le jour le plus longEste sangrento e heróico episódio da 2ª Guerra Mundial, em que os Aliados, à custa de imensos sacrifícios, começaram a colher os frutos da vitória na frente europeia ocidental — que conduziu à libertação da França, da Bélgica e da Holanda do jugo nazi e, um ano depois, à rendição da Alemanha —, foi retratado várias vezes, tanto no cinema como nas histórias aos quadradinhos, nomeadamente em filmes de grande êxito como O Dia Mais Longo e O Resgate do Soldado Ryan, e na BD em séries documentais como As Grandes Batalhas, publicada em Portugal pela Livraria Bertrand, responsável também pela edição por- tuguesa do semanário belga Tintin.

A história curta que a seguir apresentamos, com texto de Yves Duval e desenhos de Eddy Paape, foi reproduzida do nº 23 (4º ano) dessa revista, publicado em 30/10/1971, e originariamente saiu no Tintin nº 22 (24º ano), de 3/6/1969.

Operação Overlord - 1 e 2Operação Overlord - 3 e 4Operação Overlord - 5 e 6Operação Overlord - 7 e 8

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 3

QUANDO CHARLOT ERA CRIANÇA

A Dog's Life (Charlot)Charles Chaplin (1889-1977), um dos maiores cineastas de todos os tempos e o comediante de carisma mais universal, que logrou com as suas pantominas divertir e encantar públicos de todas as idades, através de sucessivas gerações, pode não ter mudado os destinos políticos do país para onde emigrou, os Estados Unidos da América — que, aliás, até o perseguiu por causa das suas ideias es- querdistas —, mas foi seguramente uma das per- sonalidades mais influentes do século XX, cuja mensagem humanista contra as injustiças sociais chegou ao coração de muitos povos, ensinando-os, através da figura carismática de Charlot, o desa- jeitado vagabundo do eterno e malicioso sorriso, a ver o próximo de maneira diferente e a respeitá-lo com todas as suas qualidades e defeitos.

Self-made man nascido num dos bairros mais pobres de Londres, Chaplin teve uma infância infeliz, mas rica em peripécias, digna de um romance de Charles Dickens.

Para os nossos leitores que não conhecem a sua biografia, aqui fica uma curta história publicada no Mundo de Aventuras nº 428, de 24/12/1981 — com texto de Yves Duval e oriunda do Tintin nº 44 (33º ano), de 31/10/1978 —, que pelo traço de um notável desenhador belga, Franz Drappier (infelizmente também já desaparecido), retrata alguns episódios da infância de Charles Chaplin, o filho da pobreza e da desunião familiar (seus pais, uma cantora e um actor de music-hall alcoólico, viveram quase sempre separados), cujo génio brotou como uma flor no meio de uma estrumeira.

Charlot Criança 1 e 2Charlot Criança 3 e 4

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 2

DOIS PAPAS SANTOS (1)

Dois Papas Santos

As recentes cerimónias de canonização, no Vaticano, de dois Papas que foram as figuras mais marcantes da Igreja Católica, durante o século XX — João XXIII e João Paulo II, um de nacionalidade italiana, o outro polaca —, trouxeram-me à memória dois relatos biográficos, sob a forma de narrativa em banda desenhada, publicados em duas conhecidas revistas juvenis, ambos com o traço de grandes mestres já desaparecidos.

Brasão pontifício de João XXIIIO primeiro, dedicado a João XXIII — o Papa que era, para os fiéis, a bondade personificada, autor das encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris —, surgiu no Tintin belga nº 29 (18º ano), de 16/7/1963, com o título “Jean XXIII, curé du monde”, inserindo-se no género de histórias curtas, documentais e biográficas, de que Fred Funcken (1921-2013), com os seus profundos conhecimentos históricos sobre todas as épocas, foi um dos mais prolíficos e exímios criadores, auxiliado por sua mulher e colaboradora de longa data, Liliane.

Desenhador perfeccionista, mas extremamente rápido, a quem eram confiados os trabalhos mais urgentes pela redacção do Tintin (segundo revelou sua filha Claudine), Funcken, com o precioso apoio de Liliane, que se encarregava eficazmente das artes-finais e da cor, teve o condão de realizar centenas de “histoires authentiques”, que eram, no Tintin e no Spirou, a parte mais didáctica, destinada a promover um certo conceito de seriedade e de apreço pela cultura, junto dos leitores e sobretudo dos críticos mais acérrimos das histórias aos quadradinhos.

fred funcken e lilianeMas a verdade é que os jovens gostavam de saciar nessa lúdica fonte a sua sede de conhecimentos e Funcken tornou-se, por isso, embora de forma discreta, a condizer com a sua modéstia, um dos mais lidos e apreciados colaboradores do prestigioso semanário belga, durante quase duas décadas. Nesta questão, falo por mim e por alguns dos meus antigos colegas de liceu, um grupo de fiéis e militantes leitores do Cavaleiro Andante, onde muitas histórias curtas e duas das mais célebres personagens da dupla Liliane & F. Funcken foram apresentadas a partir do 3º ano (1954).

Continuei sempre a acompanhar os seus trabalhos noutras publicações portuguesas — com destaque para O Falcão, Zorro, Pisca-Pisca, Nau Catrineta —, e mais tarde, quando assumi a coordenação do Mundo de Aventuras, Funcken foi um dos desenhadores predilectos da minha infância que procurei também trazer para as suas páginas.

Aqui têm, como referido no início deste post, uma curta mas completa biografia do Santo Papa João XXIII, com desenhos de Liliane & Fred Funcken e textos de Step, na versão publicada pelo Mundo de Aventuras nº 453 (2ª série), de 17/6/1982.

João XXIII - 1 e 2João XXIII - 3 660

 

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 1

A DESCOBERTA DA ILHA DA PÁSCOA

(por YVES DUVAL e RENÉ FOLLET)

Há muito que tínhamos vontade de incluir no Gato Alfarrabista uma rubrica deste género, sob a forma de histórias curtas de BD, em que os temas abordados, de cunho histórico, didáctico e biográfico, têm a assinatura de alguns dos melhores colaboradores artísticos e literários de duas emblemáticas revistas europeias: o Tintin e o Spirou — como, por exemplo, Jean-Michel Charlier, Octave Joly e Yves Duval (argumentistas), Victor Hubinon, Eddy Paape, Jean Graton, Albert Weinberg, Fred Funcken, Édouard Aidans, François Crahenhals, Fernand Cheneval e René Follet, entre outros.

René FolletEste último, um dos mais jovens e brilhantes elementos dessas selectas equipas — que ainda hoje, aos 83 anos, se mantém em actividade, com o mesmo traço desenvolto e elegante e um extraordinário domínio do preto e branco e da cor —, ilustrou o episódio que seguidamente apresentamos, com textos de Yves Duval, relatando a descoberta da famosa Ilha da Páscoa, na Polinésia, cujas misteriosas estátuas de pedra ainda hoje intrigam historiadores, antropólogos e arqueólogos, incapazes de encontrar respostas satisfatórias para a primeira questão que acudiu ao espírito dos navegantes, quando chegaram a terra: como teriam surgido numa ilha tão solitária, quase despovoada na altura do seu desco- brimento, aqueles insólitos e monumentais vestígios de um culto desconhecido?

Estátuas Ilha da Páscoa - 2A ilha, no dialecto dos indígenas, chamava-se Rapa Nui (Ilha Grande) e foi descoberta acidentalmente, em 5 de Abril de 1722, domingo de Páscoa, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen, cujo nome hoje poucos recordam. É claro que o seu achado não mudou a história do mundo, mas contribuiu para alterar a noção que muitos europeus, no século XVIII, ainda dele tinham, cobrindo com mais um enigmático véu a origem de algumas culturas do hemisfério sul, engolidas pela voragem do tempo e pelas calamidades provocadas pelo homem. Embora as teorias mais comuns sejam a de que os primitivos habitantes de Rapa Nui eram oriundos da Nova Guiné, como os seus antepassados que viviam nas ilhas Fiji, Samoa e Tonga, e de que a colonização da ilha teve inicio entre 600 e 800 d.C.

Estátuas Moais (Ilha da Páscoa)Hoje, com cerca de 4.000 residentes, cuja vida árdua pouco mudou com os benefícios do turismo e da civilização, a mítica e inóspita ilha de solo vulcânico, exposta às tempestades e aos ventos agrestes do Pacífico sul, pertence à República do Chile, distante dela 3.500 km.

 Património mundial da Unesco, graças às suas estranhas estátuas chamadas Moais, a fantástica Ilha da Páscoa continua a desafiar a curiosidade dos que sonham com mistérios e civilizações desaparecidas.

Praia de Anakena (Ilha da Páscoa)

Resta acrescentar que este breve episódio desenhado por René Follet — e que faz parte, como já referimos, da série de histoires vraies que, em dada altura (anos 50), começaram a aparecer no Tintin e no Spirou, com propósitos nitidamente didácticos, para combater uma corrente de opinião e uma censura cada vez mais hostis contra os alegados “defeitos” (leia-se “má influência”) da banda desenhada —, foi publicado no Tintin nº 14 (10º ano), de 6/4/1955, e surgiu também em Portugal, a primeira vez no Álbum do Cavaleiro Andante nº 15 (Agosto de 1955), e a segunda nas Selecções BD nº 22 (Agosto de 2000).

Cabeçalho francês

Se bem repararem, na versão original, cuja primeira tira reproduzimos acima, a vinheta de abertura foi suprimida, para encaixar o título e os nomes dos autores; mas ela está presente nas duas publicações portuguesas, o que obviamente só as valoriza.

Ilha de Páscoa - 1 e 2

Ilha de Páscoa - 3  e 4