ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 5

UM XERIFE FAÇANHUDO

Tibet - Dog Bull475

Nalguns posts recentes dedicados a Ric Hochet, tivemos oportunidade de referir outra inolvidável criação, cuja carreira foi iniciada muito antes da do famoso repórter detective, quando Tibet, o talentoso e versátil artista que lhes deu vida, ainda era um desenhador particularmente afeiçoado ao estilo humorístico.

Tibet - La fureur de rireFoi graças a esse estilo que Chick Bill e os seus companheiros de aventuras — Dog Bull, o façanhudo xerife sempre em bolandas por causa do seu ajudante trapalhão Kid Ordinn, e o jovem índio Petit Caniche — se tornaram titulares de uma das séries mais divertidas da BD franco-belga, fazendo companhia a outros carismá- ticos heróis que também parodiaram o Oeste americano, como Lucky Luke, Humpá-pá e os Túnicas Azuis.

É, pois, em honra de um consagrado humorista, cujo inato talento se ramificou ao cartoon e à caricatura, com resultados que contribuíram ainda mais para o êxito da sua extraordinária carreira artística, que temos o prazer de apresentar este original inédito, oferecido a Catherine Labey durante a estadia de Tibet na Sobreda, onde participou, como convidado de honra, num dos seus animados Salões de BD, sob a égide do Grupo Bedéfilo Sobredense, coordenado por Luiz Beira.

Um Salão memorável, com a presença de um versátil e espirituoso autor que se identificava, como poucos, com as suas criações e com um métier em que se sentia verdadeiramente como “peixe na água”: Tibet (aliás, Gilbert Gascard).

ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 4

“O TERRÍVEL TIGRE DE BENGALA…”

Péon - Tigre de Bengala

Este magnífico tigre, o rei das selvas indianas, e o seu “primo” da Sibéria — ambos, actualmente, em sério risco de extinção — foram obra de Vítor Péon, um dos nossos melhores desenhadores e um mestre no género animalista, ao mesmo nível, sem exagero, de um E.T. Coelho, de um José Garcês, de um José Ruy ou de um José Luís Salinas.

Yataca 25Quando realizou este trabalho, que fazia parte de um projecto destinado à imprensa, Péon estava ainda a residir em Paris com a família. Datam, aliás, desse período outros trabalhos pouco conhecidos do grande artista, que, na sua modéstia, quase os esqueceu quando regressou a Portugal, pouco se tendo referido a eles quando era entrevistado.

Para os seus fiéis admiradores, entre os quais me incluo, desde que li as suas primeiras histórias n’O Mosquito (para dizer a verdade, não foram bem as primeiras, que surgiram em 1943/44… e nessa altura eu ainda não sabia ler), a sua melhor criação em revistas francesas foi o Yataca, uma espécie de “rei da selva” dos tempos modernos, muito mais Yataca 47civilizado do que Tarzan, cujas aventuras foram dadas a conhecer aos leitores portugueses por Roussado Pinto, que as reeditou parcialmente numa colecção de pequeno formato, com o selo da sua editora Portugal Press. Mas a verdade é que Péon, apesar de nessa época (início dos anos 70) se ter virado para a pintura, alimentando uma velha paixão que não lhe trouxe grandes benefícios profissionais nem o reconhecimento artístico que já granjeara como autor de BD, fez outros trabalhos para os chamados petits formats, revistas de bolso muito disseminadas em França até meados dos anos 80, onde a BD mais comercial e popular e os seus criadores encontraram um seguro “porto de abrigo”.

Especializando-se como autor de capas para essas publicações, nomeadamente as da editora Mon Journal (Aventures & Voyages), Péon começou ao mesmo tempo a trabalhar para a imprensa, onde se lhe deparava um nicho de oportunidades muito mais aliciante do que nas pequenas editoras de BD, e para o cinema, realizando cartazes e cenários de filmes, alguns produzidos por cineastas seus amigos. Tudo isso enquanto continuava fervorosamente a pintar… sonhando com o grande triunfo da sua vida.

Péon - Mosquito 1165A reprodução que hoje apresentamos é de um trabalho inédito, pertencente a uma série dedicada a variadas espécies zoológicas, tema que Péon sempre acalentou com grande entusiasmo, como provam algumas das suas melhores histórias — por exemplo, “Na Pista da Aventura”, soberba série publicada n’O Mosquito, em 1950, e que ficou incompleta por Péon ter seguido, entretanto, outra pista, rumo a outra aventura… — ou uma curiosa colecção de “selos” publicada também pel’O Mosquito, mas numa época anterior, inserida nas margens das suas separatas com construções de armar, e que foi totalmente realizada por Péon.

É com imenso prazer que o nosso Gato Alfarrabista e a sua Loja de Papel homenageiam a memória de um grande Artista e de um saudoso Amigo, oferecendo a todos os seus visitantes uma “peça” inédita de um dos nossos mais prolíficos e versáteis desenhadores.

ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 3

“O SONHO DO COLECCIONADOR”

(por CARLOS ROQUE)

Mais um original de Carlos Roque apresentado no nosso blogue — este absolutamente inédito, pois foi-me oferecido como prenda de aniversário, em 22 de Março de 1994.

O talentoso artista e meu grande amigo, nessa altura de regresso a Bruxelas, onde continuava a colaborar esporadicamente no Spirou e noutras revistas belgas, enviou-mo pelo correio, com uma saborosa dedicatória parodiando a minha paixão de coleccionador. Ele, que se gabava de estar livre felizmente desse “vício”, acabou por ser vítima de outro, que nunca largou até morrer: o do tabaco…

Roque vs Magalhães575

ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 2

DOIS TRABALHOS INÉDITOS DE AUGUSTO TRIGO

 Desta feita, a título de curiosidade (e também de novidade), temos originais, mas não temos reproduções… porque os desenhos que apresentamos mais abaixo, com a assinatura de Augusto Trigo, destinavam-se a servir de capas aos dois primeiros números de uma revista quinzenal que nunca viu a luz do dia.

Foi um projecto meu e da Catherine Labey, à qual se devem duas maquetes da capa do primeiro número dessa revista — com o título provisório Aventuras & Viagens.

Aventuras e Viagens 1 & 2

Como podem ver, os originais de Augusto Trigo, excelentes como sempre, apesar das suas pequenas dimensões, próximas do formato da revista — 19,5 x 27 cms e 20,5 x 30 cms, respectivamente —, foram feitos com inteira liberdade criativa, ilustrando cenas das histórias escolhidas para esses números de estreia: O Rei da Polícia Montada, de Zane Grey e Allen Dean, e Mandrake, de Lee Falk e Phil Davies, duas séries clássicas cuja popularidade prometia um bom arranque da revista, num mercado potencial de cinco a dez mil leitores que ainda não “arrefecera”, após o desaparecimento, pouco tempo antes, do Mundo de Aventuras e de todas as publicações da Agência Portuguesa de Revistas.

Mas o projecto, como tantos outros com que sonhámos um dia, não passou da fase de planeamento, por falta dos apoios de que precisávamos para lançar uma revista com essa tiragem (e ainda por cima quinzenal), restando dele apenas as maquetes e os dois garridos originais de Augusto Trigo, inéditos até hoje.

Trigo - original patra a Polícia Montada244Trigo - original para Mandrake245

ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 1

A PRIMEIRA CAPA DE CARLOS ROQUE

Trajan_s_columnHá objectos de arte que são únicos e possuem um valor inestimável, quase mítico, porque não podem ser reproduzidos, imitados ou copiados. Um quadro, uma escultura, uma tapeçaria, uma peça de porcelana ou de ourivesaria (como a Custódia de Belém), um monumento arquitectónico, um artefacto raro, simbolizam momentos supremos da criatividade humana e têm um valor real e estimativo que aumenta na razão directa da sua importância e longevidade — mas, ao contrário dos livros, dos filmes, das composições musicais e de outras manifestações do espírito humano, são destinados à contemplação e não à difusão, e perdem todo o seu valor (excepto o cultural) quando são copiados ou reproduzidos por outros meios, como a fotografia, a gravura, a serigrafia, o documentário, etc.

tapisserie de bayeux fragment (1)

A Banda Desenhada (BD), que também faz parte, muito justamente, do currículo das Artes e tem remotos antecedentes como a Coluna de Trajano e a Tapeçaria de Bayeux, é talvez o único meio de expressão em que se fundem harmoniosamente essas duas vertentes não complementares, difusão (ou dispersão) e contemplação — daí lhe chamarem também arte industrial —, pois pode ser multiplicada a partir da sua matriz, as pranchas originais, que se identificam, na essência, com os objectos raros, as obras de arte expostas em museus.

Carlos Roque - no MosquitoClaro que a BD, típico produto da cultura popular e da evolução da imprensa, expandida em álbuns, livros, revistas, fanzines e jornais — e agora também nas redes informáticas —, não se destinava a figurar nos museus e os seus originais não eram considerados como mais-valias artísticas, ideia que só se alterou quando a sua cotação comercial começou a atingir, nalguns casos emblemáticos (e o de Hergé serve de referência), cifras cada vez mais elevadas.

A própria qualidade efémera das pranchas, raramente conservadas em boas mãos (desde logo, nas dos seus próprios autores) e em condições de preservação idênticas às de outras obras artísticas, confere-lhes um estatuto diferente do de muitos ícones de valor cultural que pertencem à herança comum da humanidade, mesmo estando na posse de instituições e de coleccionadores particulares.

Mas todo este “arrazoado” veio a propósito de uma nova rubrica do Gato Alfarrabista, onde iremos apresentar alguns originais do nosso acervo ou que foram postos à nossa disposição pelos seus autores ou por outros felizes proprietários.

Carlos Roque - MA 282Para começar, aqui têm uma capa do Mundo de Aventuras (nº 282, 1ª série, de 6/1/1955) desenhada por Carlos Roque em moldes realistas, retratando um dos personagens apresentados nesse número da revista, o heróico Cavaleiro de Lagardère, que ganhou nova vida graças ao traço do exímio artista francês Jean Cézard, saltando das novelas de capa e espada de Paul Féval para as histórias aos quadradinhos, concretamente nas páginas do semanário Vaillant.

Este foi o primeiro trabalho profissional que Carlos Roque viu publicado — depois de breve passagem pelo “Cantinho dos Leitores” d’O Mosquito, onde Raul Correia lhe rendeu efusivos elogios —, tendo até servido de modelo para outras capas do Mundo de Aventuras, infelizmente nenhuma delas realizada pelo jovem desenhador, então com 18 anos.

Carlos Roque - LagardèreO estilo realista definiu curiosamente as primeiras orientações artísticas de Carlos Roque, que só anos mais tarde, ao operar uma grande reviravolta na sua carreira, se afirmou, em revistas portuguesas e franco-belgas, como um desenhador de notáveis recursos no género humorístico, autor de famosas e divertidas séries como Tropelias do Malaquias, O Cruzeiro do Caranguejo, Angélique e Wladymir.

Outro pormenor curioso a assinalar neste original, pertencente a Monique Roque (a quem agradecemos o seu empréstimo) e com as dimensões 36 x 47,5 cms, é o nº 278 não corresponder ao do Mundo de Aventuras onde foi reproduzido — o que nos leva a deduzir que a ilustração de Carlos Roque não terá sido encomendada para esse número… ou, então, ficou na “bicha” durante quatro semanas, por caprichos da programação.

carlos-roque-original