FERNANDO BENTO – UMA MEMÓRIA SEMPRE VIVA

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Ilustrador, pintor, caricaturista, figurinista, cenógrafo (e muito mais), Fernando Bento foi um autor versátil, polivalente, que deu vida e colorido a algumas das mais belas páginas publicadas em jornais infanto-juvenis, como Diabrete, Pim-Pam-Pum, Cavaleiro Andante, O Pajem, na fase mais criativa e original de uma longa e esplendorosa carreira.

Assinalando o 20º aniversário da sua morte (14 de Setembro de 1996) — como fez, com a oportunidade e o primor habituais, o nosso colega Largo dos Correios, cujos posts diários consideramos de consulta obrigatória —, queremos também recordar uma entrevista do saudoso Mestre, que o semanário de actualidades O Século Ilustrado (então, muito em voga) publicou no nº 961, de 2 de Junho de 1956.

Sob o título “No Banco dos Réus”, esse tipo de entrevista consistia num singelo questionário, que pouco tinha de particular no tocante a aspectos de índole profissional, cingindo-se a temas mais genéricos e banais, a que os entrevistados deveriam responder com ligeireza (temperada de ironia) e bom-humor. Fernando Bento não fugiu à regra, entrando no “jogo” sem reticências, mesmo que uma das suas respostas possa suscitar alguma surpresa. Mas convém não esquecer a época e o seu contexto…

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O CARNAVAL DO “DIABRETE”… HÁ 72 ANOS!

Em 1944, iniciando uma tradição que se manteve até ao último ano da sua existência, o Diabrete festejou o Carnaval “a época do sonho”, em que “os meninos e as meninas se mascaram e se julgam transportados, por graça de misteriosa varinha de condão, a um mundo distante e diferente” — com uma feliz iniciativa que iria espalhar a alegria e o alvoroço entre alguns dos seus leitores mais folgazões, residentes de norte a sul do país.

Como estava escrito em letras gordas no rodapé da primeira página do nº 163, dado à estampa em 12 de Fevereiro de 1944, a oito dias do início da quadra carnavalesca, esse número inseria nada mais nada menos do que “6 fatos de máscara”.

Aqui têm, na mesma imagem, o cabeçalho e o rodapé desse número.

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Claro que não se tratava de máscaras completas, como nas lojas, mas sim de “seis lindíssimos figurinos” criados por um exímio desenhador, cujo nome já era bem conhecido da juventude portuguesa, sobretudo daquela que não dispensava a leitura, todas as semanas, do seu “grande camaradão”. Ora o Diabrete enfrentava, nessa época, a larga audiência e a radiosa fama do seu principal concorrente, O Mosquito, onde fazia também brilhante figura outro notável desenhador português: Eduardo Teixeira Coelho.

Mas o facto de ambas competirem no mesmo terreno com todas as “armas” ao seu alcance, não significava que as hostes estivessem divididas, isto é, muitos leitores d’O Mosquito gostavam também de ler o Diabrete, e vice-versa. E o apreço que nutriam pelo talento de E.T. Coelho, então ainda na fase de ilustrador, com um pujante estilo realista que rivalizava com os dos melhores artistas estrangeiros do seu género, equiparava-se ao que sentiam pelos trabalhos de Fernando Bento, cuja pitoresca arte decorativa dava uma alegre vivacidade e uma sofisticação especial a todos os números do Diabrete.

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A página que acima reproduzimos, com uma sugestiva ilustração de Fernando Bento, abria as “cortinas” de um “palco” onde se exibiam seis maravilhosos e originais trajos de Carnaval (nada fáceis de confeccionar, aliás!), criados pelo traço exuberante e pela pueril fantasia de um desenhador cuja carreira começara precisamente no teatro.

Para tornar a sua “ideia luminosa, espantosa e estonteante” ainda mais irresistível, o Diabrete decidiu promover uma espécie de concurso entre as hábeis mães (ou tias e avós) costureiras, oferecendo aliciantes prémios aos seus leitores mais prendados, isto é, vestidos a preceito e prontos a posar para o fotógrafo. Naquele trágico tempo de guerra, cujos ecos ribombavam ainda além-fronteiras, e de carestia para inúmeras famílias portuguesas, não eram muitos, certamente, os miúdos que podiam dar-se ao luxo de pedir aos pais uma boneca ou uma bola de futebol! Nem sequer de concretizar um sonho ainda mais ambicioso: tomar parte num desfile de máscaras carnavalescas.

Quanto aos vistosos figurinos criados por Fernando Bento (em que os rapazes estavam em supremacia), note-se que foram inspirados nalguns dos personagens que animavam as páginas do Diabrete (menos o Tarzan, que só usava tanga!), com relevo para um dos mais carismáticos: o azougado saloio Zé Quitolas, com o seu trajo típico e o seu “burrico” pela trela, que graças ao versátil traço de Fernando Bento tantas e tão divertidas peripécias proporcionou aos pequenos leitores do “grande camaradão de todos os sábados”.

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O CARNAVAL DO “DIABRETE” – 3

Bento . Carnaval 2015Pelo 3º ano consecutivo, assinalamos a passagem do Carnaval (que já foi mais trepidante e divertido em tempos idos) com outra pitoresca ilustração evocativa de uma das mais célebres revistas infanto-juvenis portuguesas e de um dos seus melhores colaboradores artísticos — em que mais uma vez se destacam a fértil fantasia, a graça esfuziante, o encanto lúdico e o apurado efeito decorativo da arte gráfica de Fernando Bento, que gostava de partilhar com o público infantil, especialmente nesta data, o espírito burlesco que animou tantas das suas criações, retratando um alegre “corso” carnavalesco nalgumas capas do Diabrete eternizadas pela magia do seu traço.

O mote do Entrudo repetiu-se nesta “endiabrada” cena que fez as honras do nº 591, publicado em 26/2/1949. Quantos ilustradores infanto-juvenis seriam capazes de parodiar assim o Carnaval da gente nova? Para os leitores do “grande camaradão” da juventude portuguesa, a face risonha do Rei Momo e os seus folguedos teriam sempre o cunho da arte inimitável de Mestre Fernando Bento.

“OS LUSÍADAS” ILUSTRADOS POR F. BENTO – 2

DITOSA PÁTRIA, MINHA AMADA

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Não se trata de Banda Desenhada — longe disso —, mas de um admirável conjunto de ilustrações de um grande e versátil Artista, cujo nome está indissoluvelmente ligado à evolução das histórias aos quadradinhos no nosso país e à chamada “época de ouro” das revistas infanto-juvenis (anos 30 a 50 do século passado).

Já aqui apresentámos vários exemplos da sua arte inimitável, do seu método veloz e espontâneo, do seu pincel tão destro a esboçar figuras de recorte humorístico como de traço mais realista. Grande mestre da aventura e da fantasia, da síntese criativa e da estilização poética, artista maior entre os maiores da narração gráfica e do simbolismo figurativo que marcou a primeira metade do século XX, Fernando Bento — para surpresa de muitos leitores do Cavaleiro Andante, no seu 2º ano de publicação, entre os nºs 61, de 28/2/1953, e 80, de 11/7/1953 — ilustrou algumas estâncias d’Os Lusíadas, de forma conceptualmente tão perfeita e tão moderna que podemos afirmar, sem cair no exagero, que o poema épico de Luís de Camões passou a ser visto com outros olhos e a ser lido com maior prazer por muitos jovens dessa época.

As páginas que aqui reproduzimos foram publicadas, pela mesma ordem, nos nºs 61, 62, 74, 76 e 78 do Cavaleiro Andante. As restantes ficam reservadas para outro post.

Os Lusíadas Bento - 2Os Lusíadas Bento - 3 Os Lusíadas Bento - 4Os Lusíadas Bento - 5

 

 

 

O CARNAVAL DO “DIABRETE” – 2

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Ilustrador, pintor, caricaturista, figurinista e cenógrafo, Fernando Bento foi um autor versátil, multifacetado, que deu vida e colorido a algumas das mais belas páginas publicadas pelo Diabrete, na fase mais criativa e original da sua longa carreira.

Diabrete  diabinho e máscaras562A arte de figurinista, que aprendeu e desenvolveu em contacto com os palcos do teatro de variedades, ao qual legou memoráveis criações enaltecidas pelos espectadores e pela crítica desse tempo, está patente em mais um tema carnavalesco com que encantou os leitores do Diabrete, convidando-os para um festivo baile de máscaras com os trajes concebidos pela sua fértil fantasia.

Não duvidamos de que algumas mães e avós mais habilidosas na arte do corte e costura tenham, a rogo dos seus petizes, experimentado confeccionar um ou outro desses modelos, seduzidas também pela beleza artística do traço e dos figurinos de Fernando Bento, tal como foram primorosamente estampados na capa do Diabrete nº 793, de 3/2/1951.

Belos tempos em que, ao festejarem o Entrudo, as revistas infanto-juvenis pretendiam, ao mesmo tempo, incutir no seu público um certo gosto estético.

(Ver aqui a ilustração de Fernando Bento dedicada ao Carnaval de 1948).

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FERNANDO BENTO E O CAVALEIRO ANDANTE – 2

OS LUSÍADAS ILUSTRADOS POR FERNANDO BENTO – 1

Fernando Bento e os Lusíadas 1  592Quando em 1954, nos territórios de Goa, Damão e Diu, ainda denominados províncias ultramarinas portuguesas, começaram a surgir graves problemas com a União Indiana e um sentimento nacionalista irrompeu em todo o país — fomentado pela retórica do “patriarca” do regime, António de Oliveira Salazar —, o Cavaleiro Andante, associando-se a essa onda patriótica, publicou no nº 135, de 31/7/1954, uma separata de quatro páginas com versos d’Os Lusíadas e ilustrações de Fernando Bento. Na capa e na contracapa, simbolicamente, imagens do Mosteiro dos Jerónimos, monumento erigido em memória do maior feito da nossa gesta universal — a descoberta do caminho marítimo para a Índia —, realizado por Vasco da Gama e por um punhado de marinheiros, tripulando uma pequena frota que saiu do Restelo em 8 de Julho de 1497.

Era assim que, nos tempos conturbados que prenunciavam o fim do regime colonial,         alguns organismos, com o apoio das revistas infanto-juvenis, faziam a apologia (pela “voz” de Camões) dos ideais supremos do Salazarismo, consubstanciados no amor à Pátria una     e indivisível, na herança do passado e no grande império colonial português.

Mas refira-se, em abono da verdade, que o Cavaleiro Andante, sem aparentes intuitos doutrinários, já tinha apresentado, entre os nºs 61 e 80, outras ilustrações de Fernando Bento inspiradas n’Os Lusíadas, cujo primor estético e figurativo merece ser realçado.

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FERNANDO BENTO E O CAVALEIRO ANDANTE – 1

O DIA DE PORTUGAL… HÁ 57 ANOS

Foi assim, através da arte sempre original, atraente e superlativa de Fernando Bento, que    o Cavaleiro Andante, no seu nº 232, celebrou o 10 de Junho de 1956 — ontem como hoje chamado Dia de Camões, Dia de Portugal. Com a diferença de que, nessa época, se fazia abertamente a apologia daquelas figuras que eram consideradas os grandes heróis, os grandes obreiros da nossa gesta histórica, procurando fixá-las no imaginário de todos os miúdos com idade escolar. Outros tempos e outros rumos ideológicos…

Mas o que queremos é chamar a atenção para o estilo inconfundível e o poder altamente sugestivo do grafismo de Mestre Fernando Bento e para o fascínio que ele exercia sobre os leitores infanto-juvenis, numa época em que História, aventura, religião, raça, nacionalismo e propaganda estavam intimamente associados.

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O GRANDE JOGO BENFICA-SPORTING DO “DIABRETE”

Nos anos 30 e 40 do século passado, o futebol já era (parafraseando o título de um filme de Howard Hawks) o desporto favorito dos portugueses e o campeonato da 1ª Divisão arrastava multidões aos estádios (ainda sem a grandeza dos de hoje).

Num regime dominado pela bota férrea de Salazar e do Estado Novo, depois do golpe militar de 1926, o fervor clubístico ajudava a esquecer as agruras da política e o racionamento imposto pelo deflagrar da 2ª Guerra Mundial.

Embora de norte a sul do país já houvesse muitas equipas de futebol e clubes conceituados, o grande “derby” nacional era, como ainda hoje, o BenficaSporting, cujos adeptos mantinham uma acesa rivalidade, mas dentro dos limites da ética desportiva, sem se manifestarem com tanta violência durante os jogos, como agora infelizmente sucede, dentro e fora dos estádios.

Nesse tempo, uma das modalidades mais apreciadas pelos leitores de revistas infanto-juvenis, que também vibravam com os desafios de futebol, eram as separatas com construções de armar que tanto O Mosquito como o Diabrete, O Senhor Doutor ou O Tic-Tac lhes ofereciam generosamente, semana após semana, num caleidoscópio de imagens e de temas que apelavam ao engenho dos pequenos “arquitectos” de tesoura e cola, alguns dispostos a criar as suas próprias construções e que mais tarde se tornariam também grandes especialistas do género.

O Jogo Benfica Sporting 3  193Vinham ainda longe os tempos em que outras revistas que sucederam ao Mosquito e aos seus contemporâneos começaram a inserir outro tipo de separatas, com vistosas e coloridas fotografias de jogadores e equipas de futebol. Mas, em meados de 1943, já o risonho Diabrete, dirigido por Adolfo Simões Müller, se lhes antecipara, apresentando de forma inovadora, no seu nº 132, o grande desafio de “foot-ball” (era assim que se escrevia nessa época) BenficaSporting, com desenhos humorísticos de Fernando Bento, a toda a largura das páginas centrais. Na página anterior eram dadas instruções aos leitores sobre os procedimentos a adoptar antes do prélio ter início, pois tinham de recortar as figuras dos 22 jogadores e do árbitro, colando-as primeiro numa folha de cartolina, depois colá-las frente com costas e montá-las em pequenas rodelas de madeira, para se manterem de pé, preparar o marcador e as bandeirinhas, arranjar balizas (com redes), um “esférico” leve e uma tábua plana, com as dimensões adequadas, para servir de campo, traçar neste as linhas de jogo e, por fim, dar início à partida, respeitando o mais possível (como rezava o Diabrete) as regras do futebol. Tais tarefas exigiam muita habilidade e esforço aos pequenos construtores, e uma boa dose de eloquência para convencerem o pai, a mãe ou um irmão mais velho a ajudá-los, mas estamos certos de que a maioria não desistiu…

Ainda hoje esse número, que foi um êxito indiscutível, é avidamente procurado pelos coleccionadores, porque nem todos os exemplares estão completos, faltando por vezes a tal página dupla com o “derby” BenficaSporting, que já há 70 anos punha ao rubro os entusiastas do futebol e as “claques” das duas equipas.

Aqui a têm para regalo dos benfiquistas e dos sportinguistas ferrenhos, como os meus queridos amigos José Carlos Francisco (Zeca) e Américo Coelho, a quem dedico com muita satisfação este post.

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O ZORRO DE FERNANDO BENTO

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Embora não me conste ter havido uma edição portuguesa em livro de “O Sinal do Zorro”, a obra mundialmente famosa de Johnston McCulley, lembro a título de curiosidade que o Diabrete, em 1949, ofereceu aos seus leitores, a partir do nº 597, uma  adaptação desse romance, com 43 capítulos recheados de magníficas ilustrações de Fernando Bento, tão fieis à imagem do mítico personagem que se gravaram fortemente na memória dos leitores.

Outra adaptação da mesma novela surgiu (bastante a propósito) na revista Zorro, durante o ano de 1964, desta vez com ilustrações a lavis de outro mestre da BD portuguesa: José Garcês.

O nosso Gato Alfarrabista tem o prazer de apresentar aos seus leitores algumas das magníficas imagens de Fernando Bento publicadas no Diabrete, com um Zorro que se distingue pela elegância e leveza de movimentos, o porte romântico e audacioso, a aura de mistério e de fascínio que o envolve, quando usa o capuz para encobrir a sua identidade — e pelo cunho verídico (no sentido de fidelidade ao ambiente e aos elementos originais) que o saudoso mestre imprimia a todas as suas criações inspiradas em figuras literárias.

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F. BENTO & J. VERNE – UMA DUPLA PERFEITA – 2

Eis mais duas capas do Diabrete, respeitantes aos nºs 311 e 356, de 22/6/1946 e 27/11/1946, respectivamente, com magníficas ilustrações de Fernando Bento sobre obras de Júlio Verne, iniciadas nos números seguintes.

Desta vez, porém, a apresentação era diferente, já que não se tratava de adaptações em banda desenhada, como Bento fez, algum tempo depois, com “A Ilha Misteriosa” e “Matias Sandorf” — histórias que pela sua fidelidade ao original ocuparam muitos números —, mas de texto corrido, dividido em capítulos, com três imagens por página.

As duas que escolhemos como exemplo foram publicadas nos nºs 319 e 373 do “grande camaradão”, outro título com que o popular bissemanário dirigido por Adolfo Simões Müller se apresentava briosamente aos seus leitores.

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