UMA HISTÓRIA VERDADEIRA DE NATAL

“Napoleão foi grande”, escreveu Tolstoi em Guerra e Paz, “porque se colocou acima da revolução, esmagou os abusos e conservou tudo o que ela tinha de bom, a emancipação dos preconceitos, a igualdade dos cidadãos, a liberdade da imprensa e da palavra”.

conde-de-lavaletteMas Napoleão foi grande, também, porque os seus amigos nunca o abandonaram. Homens como o conde Antoine-Marie Chamans de Lavalette (1769-1830), seu ajudante de campo, de quem ele diria mais tarde: “é a honra, a probidade e a rectidão em pessoa”, foram-lhe sempre dedicados, do princípio ao fim da grande epopeia napoleónica.

Depois da derrota, na batalha de Waterloo, esses fiéis amigos do imperador pagaram com a vida o seu juramento de lealdade. Lavalette, condenado à guilhotina, conseguiu evadir-se, durante o Natal de 1815. Essa rocambolesca evasão já a contámos aos leitores do Mundo de Aventuras, no número especial de Natal de 1975, de onde o artigo seguinte, com ilustrações de Baptista Mendes, foi reproduzido.

Lavalette era de origem humilde. Mas, na época do Império, qualquer pessoa podia ascender às posições mais honrosas, mesmo alguém que fora um simples soldado da Guarda Nacional, quando a revolução contra a monarquia mergulhou a França num mar de sangue. Vinte anos depois, em recompensa dos valiosos serviços prestados à pátria (e a Napoleão), já era par de França. O obscuro guarda-nacional, o humilde filho de operários, galgou em tão pouco tempo os mais altos degraus da hierarquia social. 

napoleao-a-cavaloMas a “águia” napoleónica estava prestes a ensaiar o seu último voo… Waterloo, o fim de todos os sonhos de grandeza. Napoleão tinha um encontro marcado com a fatalidade numa pequena ilha do Atlântico: Santa Helena. Nenhum dos seus partidários, porém, traiu a palavra dada. Labédoyère e Ney, que se lhe juntaram durante a marcha triunfal para Paris, foram fuzilados, e Lavalette, que fora o principal artífice da sua evasão do primeiro exílio, na ilha de Elba, viu suspender-se sobre ele o sangrento cutelo da guilhotina.

Preso numa cela da Conciergerie, sabia que também tinha os dias contados. Debalde sua mulher implorou o perdão do rei. Todos os ouvidos se fecharam às súplicas da nobre dama. Depois, foi a fuga de Lavalette, em circunstâncias extraordinárias, ajudado por alguns homens de origens e crenças políticas diferentes, que o milagre da fraternidade (ou seria de Natal?) uniu no esquecimento dos seus ódios e rivalidades.  

Os Homens e a Histórias - cabeçalhoTexto de Jorge Magalhães ◊ Ilustrações de Baptista Mendes

Advertisements

OS HOMENS E A HISTÓRIA – 3

A SAGA DE LEIF ERIKSON

Leif Erikson descobre a América (quadro de Christian Krohg)

Apresentamos hoje mais um artigo que foi publicado, há algumas décadas, no desaparecido vespertino A Capital — com texto meu e uma ilustração de Augusto Trigo —, subordinado ao título Histórias da História, comum a essa série de artigos que dediquei a figuras e a factos heróicos do passado que estimularam a minha imaginação — como os relatos da aventurosa viagem de um destemido navegador Viking, Leif Erikson em retratode seu nome Leif Erikson, que pela primeira vez pisou solo americano e desbravou a orla de um continente desconhecido onde outros navegadores europeus, chefiados por Cristóvão Colombo (um nome bem mais célebre), só chegariam 500 anos depois.

Nem sempre a História faz justiça aos mais audazes pioneiros, àqueles que enfrentaram, em épocas remotas, os perigos dos oceanos e das longas travessias, sem bússolas, sem astrolábios e sem outros instrumentos de navegação, guiados apenas pela sua coragem e pelo seu ardente desejo de chegar cada vez mais longe, de sulcar mares desconhecidos, de avistar novas terras e descobrir imensas riquezas… mas cujos feitos, no caso de Leif Erikson (ou Leif-o-Feliz), ficaram obscuramente registados em sagas e canções nórdicas, escritas numa linguagem muito menos universal do que a de Homero.

Os Homens e a Histórias - cabeçalho

LEIF ERIKSON E O CONTINENTE MISTERIOSO

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Leif Erikson (drakkar)Quatrocentos e noventa e dois anos antes de Cristovão Colombo, já a América do Norte era conhecida por um povo guerreiro da Europa Setentrional: os Vikings. Sabe-se hoje que foi Leif Erikson o primeiro navegador que explorou essas paragens, dando-lhes o nome de Vineland, isto é, “Terra dos Vinhedos”.

Leif era filho do norueguês Erik Rauda, por alcunha Erik-o-Ruivo (ou Erik-o-Vermelho), que com toda a sua família emigrou para a Islândia em meados do século X. Certo dia, Erik, que segundo rezam as crónicas era de índole violenta, matou alguns homens numa disputa com os vizinhos. O Althing, Supremo Tribunal Viking, condenou-o ao exílio perpétuo, expulsando-o da ilha. Num pequeno barco, Erik e os seus velejaram para Oeste, durante muitos dias. A audaciosa viagem terminou junto das costas da Gronelândia, onde Erik desembarcou e estabeleceu uma nova colónia, chamando a esse continente, onde os invernos eram tão rigorosos como na Islândia, “Terra Verde”, não se sabe por que motivo, talvez saudoso dos verdes fiordes do seu país natal.

Brattahlid, a nova colónia, prosperou, no entanto, graças às frequentes trocas comerciais com a Islândia. Aí, Leif cresceu, vigoroso e feliz, tornando-se um campeão em todas as provas de destreza e um hábil caçador. O pai ensinou-lhe a ciência de navegar e aos dezoito anos Leif manifestou o desejo de conhecer a Noruega, pátria dos audaciosos Vikings cujo sangue lhe corria nas veias. A travessia do Oceano não teve obstáculos para ele. Num mês apenas repetiu a proeza de Erik e apresentou-se em Trondheim, onde o velho rei Olaf tinha a sua corte, com um barco carregado de peles e de presentes.

Leif Erikson em bronzeO rei recebeu-o com satisfação e deu todo o seu apoio ao projecto de colonizar a Gronelândia, que segundo Leif garantia a pés juntos era “uma terra verde, imensa, com boas pastagens”. Muitos  súbditos de Olaf, seduzidos por essas promessas, prontificaram-se a segui-lo, levando com eles uma nova religião: o cristianismo. E uma grande frota de drakkars (barcos a remos compridos e de proas altas, com uma única vela) acompanhou a embarcação de Leif até à sua nova pátria. Entre eles, seguia também o do nobre Bjarni, comerciante e navegador, que se juntou a Leif ao largo da Islândia. Mas uma tempestade separou os navios, fazendo Bjarni perder a rota e navegar para sudoeste.

Quando chegaram ao porto de Erik-o-Ruivo, Leif, desolado, deu ao pai a notícia de que um dos membros da frota se perdera. Mas, algumas semanas depois, a vela de um drakkar surgiu no horizonte. Eram Bjarni e os seus valentes companheiros. Arrastados pelas correntes e pelos ventos contrários, impelidos pelas formidáveis barreiras de gelo, tinham navegado para muito longe, para terras desconhecidas. Bjarni não se atrevera a desembarcar, mas tais maravilhas disse dessas terras que bordejara de perto, que Leif, entusiasmado, pensou logo em explorá-las. Claro que um Viking como Erik-o-Ruivo tinha de aprovar o projecto do filho, embora na sua idade já não pudesse acompanhá-lo. E Leif partiu com trinta e cinco homens decididos, em busca do continente misterioso.

Leif Erikson - Trigo 597

Durante muitas semanas navegaram entre icebergs de esmagadora imponência. O barco foi assolado por violentas tempestades. Os homens passaram tormentos de toda a espécie. Por fim, avistaram terra. Mas esta era pedregosa, desolada, sem vegetação. Chamaram-lhe Helluland, a “Terra das Pedras Chatas”, e corajosamente prosseguiram a viagem. Já não tinham forças nem provisões para regressar. Se fracassassem, ficariam para sempre perdidos no oceano, até que os deuses fúnebres viessem cobrar o seu tributo. Por fim, um belo dia, avistaram dois extensos promontórios verdes, uma baía larga e bem abrigada.

Estátua de Leif Erikson em St. Paul, Minnesota (EUA)Havia ali mais árvores do que em toda a Gronelândia. Desembarcaram e Leif mandou cortar madeira para construírem casas. O inverno aproximava-se e Brattahlid estava muito longe. Como a caça era abundante e os rios fervilhavam de peixes, sobretudo salmões, resolveram ficar ali até à Primavera. Leif, sempre audaz e previdente, organizou quatro grupos com a missão de explorarem o interior.

Todos os Vikings regressaram na lua nova, com excepção de Tyrker, um marinheiro natural do país dos Francos, que tinha fama de imprudente e costumava separar-se dos seus companheiros. Mas Tyrker apareceu pouco depois, dando pulos de alegria, como se estivesse embriagado. Encontrara uvas, grandes extensões de vinhas rubras como os cabelos de Erik! E mostrava as mãos cheias de cachos, perante o olhar atónito dos que já o julgavam morto…

Esse dia em que os Vikings provaram o sabor de um novo fruto pertence à História e à Lenda. As Sagas dos rudes homens do Norte falam-nos dele. As Sagas cantadas pelos bardos (scalds) nas longas noites de inverno, quando o vento e a neve varriam as grandes florestas da Escânia e os telhados de Eastbygd, a capital do reino de Erik. A Saga Eyrbiggia, a Saga de Thorwald, de Karlsefni e das novas terras, nos distantes mares do sul.

Em memória da descoberta de Tyrker, Leif Erikson pôs àquela região o nome de Vineland. E na primavera seguinte, já refeito das provações da viagem, regressou à Gronelândia. Entusiasmado com o que ouviu, Thorwald, outro dos filhos de Erik, organizou uma nova frota e partiu na esteira do irmão. Thorwald, em cujas veias corria também sangue aventureiro, esperava navegar ainda mais longe e descobrir outras terras. Mas esta segunda expedição foi menos feliz. Num primeiro recontro com os “peles-vermelhas” (a quem os Vikings puseram o nome de Skraellings), Thorwald foi mortalmente ferido. Os seus homens sepultaram-no em Vineland e, temendo novos ataques dos selvagens e aguerridos Skraellings, apressaram-se a regressar à Gronelândia.

Leif Erikson - selos de S.Tomé e Príncipe e EUANão seria essa a última expedição Viking ao “País dos Vinhedos”. Mas nenhuma tentativa dos guerreiros do Norte para se fixarem naquela terra verdejante e de clima hospitaleiro foi bem sucedida, por causa da animosidade dos Skraellings e das disputas entre os seus próprios chefes, que não possuíam a fibra nem a capacidade organizadora de Leif Erikson.

Há provas, hoje, de que as Sagas Vikings, as Sagas que falam de Erik e dos seus filhos, de Bjarni e dos seus companheiros, são verdadeiras. Em Agosto de 1898, em Salém (EUA), um lavrador de origem sueca, Olaf Ohman, ao abater uma velha árvore, descobriu sob as suas raízes uma pedra onde estavam gravados estranhos sinais semelhantes à escrita rúnica. Um professor da Universidade de Minnesota conseguiu decifrá-los. Soube-se, assim, que no ano 1000 tinha passado por ali um grupo de Vikings em jornada de descoberta para o interior. Esses homens estavam a catorze dias de marcha dos seus barcos.

Estátua de Leif Erikson em Newport (EUA)Hoje, a “Pedra de Kensington”, como se tornou conhecida, constitui uma das mais preciosas relíquias do Museu Nacional de Washington. E não é o único vestígio arqueológico que confir- ma o que narram as Sagas. Desde 1964 (por decisão do presidente Lyndon B. Johnson), celebra-se nos Estados Unidos, a 9 de Outubro, o Leif Erikson’s Day, assinalando a chegada do primeiro europeu à América do Norte. Leif tornou-se um herói nacional, com estátuas por toda a parte!…

Desde tempos remotos que os caminhos marítimos foram desbravados por homens atraídos pelo desconhecido, em pequenas e frágeis embarcações dos mais diversos tipos. E as mais temerárias dessas viagens perdem-se na noite dos séculos, embelezadas quase sempre pelo mistério e pela lenda. Antes de Leif-o-Feliz, talvez os Fenícios de Hannon, os primeiros que ultrapassaram as Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), tenham descoberto o caminho das Américas. Antes dos Fenícios, quem sabe se os Atlantes, esse misterioso povo desaparecido, antepassado de muitas civilizações do continente americano.

Cristóvão Colombo, o Genovês, somente cinco séculos mais tarde repetiu o feito de um punhado de Vikings que, além de rudes navegadores, eram também poetas e tinham nos olhos e no coração o amor da aventura, dos mares revoltos e das terras desconhecidas que se erguiam além do horizonte!

OS HOMENS E A HISTÓRIA – 2

A BATALHA DE IWO JIMA (1)

Uma nota prévia: é obrigatório agradecer a António Martinó Coutinho a citação que fez desta célebre batalha, com o brilhantismo a que já nos habituou, no seu blogue Largo dos Correios, pois despertou-me algumas recordações mais íntimas e saudosistas, dando-me a ideia de escrever este artigo (em duas partes), em que também evoco uma sala de cinema que já não existe.

Iwo Jima antes da invasão (Fev. 1945)Entre a madrugada de 19 de Fevereiro e a tarde de 25 de Março de 1945, travou-se numa pequena ilha do Pacífico, ainda em poder dos Japoneses (imagem à esquerda), uma das mais violentas batalhas da 2ª Guerra Mundial, que escreveu “com sangue, suor e lágrimas” um dos capítulos finais desse sangrento conflito entre as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e os Aliados (com a grande coligação formada pelos exércitos da Grã-Bretanha, da França livre, do Canadá e dos Estados Unidos da América, além de outros países do hemisfério ocidental, e da Austrália, que também enviaram tropas para o campo de batalha).

batalha de Iwo Jima - 1_Iwo_JimaNo dia 23 de Fevereiro, após uma lenta e difícil progressão no terreno, com inúmeras baixas causadas pela poderosa artilharia inimiga, os invasores conseguiram finalmente vencer a tenaz resistência dos soldados nipónicos entrincheirados no monte Suribachi, onde a bandeira dos Estados Unidos foi hasteada por um grupo de marines, num momento histórico (e mítico) registado para a posteridade pelo repórter fotográfico Joe Rosenthal, da Associated Press… embora se diga que essa cena foi uma repetição — para fotógrafo ver — do verdadeiro climax da primeira vitória, ocorrido momentos antes e com outros protagonistas, que não passaram à História.

Bandeira dos Marines no Monte SuribachiA batalha, porém, não acabou ali, pois a ilha era uma formidável fortaleza, recheada de bunkers e de túneis subterrâneos, autênticos labirintos, quase impenetráveis, com mais de 18 kms de comprimento, de onde foi muito difícil desalojar os últimos defensores da guarnição, comandada pelo general Kuribayashi e decidida a com- bater até à morte, sacrificando-se pela pátria em perigo.

Esta formidável e sangrenta epopeia teve reflexos quase imediatos na máquina de propaganda de Hollywood — uma das mais eficazes ao serviço da mística patriótica e triunfante da Casa Branca, onde o vigoroso Harry Truman sucedera ao carismático, Sands of Iwo Jima - postermas aleijado, Franklin D. Roosevelt — e não tardou muito (quatro anos somente, após o fim da guerra) que corresse nas telas uma espectacular produção, com o título Sands of Iwo Jima (em português, Inferno de Iwo Jima), realizada pelo veterano Allan Dwan e com outro grande nome do cinema americano à cabeça do elenco: John Wayne, cuja interpretação foi nomeada para o Óscar de melhor actor. Nesse filme, participaram também, em pequenos papéis, alguns sobreviventes da épica batalha. A própria bandeira utilizada nas filmagens foi a que os marines hastearam triunfalmente no Monte Suribachi e que ainda hoje é uma preciosa relíquia, guardada no Museu Nacional dos Fuzileiros em Quântico (Estado da Virgínia).

 

 SAUDADES DO ROYAL CINE

Cinema Royal (1977)

Royal Cine (vista interior)Ainda me lembro do entusiasmo com que assisti à projecção deste filme, alguns anos depois, num cinema de reprise do bairro da Graça, o Royal Cine, onde passei muitos momentos felizes da minha juventude, vivendo intensamente o esplendor do cinema, não só na tela como no próprio ambiente dessa magnífica sala de espectáculos — com uma fachada imponente, obra do arquitecto Norte Júnior, a lembrar um templo egípcio —, que chegou a ser considerada “o mais elegante cinema de Lisboa”, com 900 lugares, e foi, aliás, a primeira em todo o país a dispor de equipamento para projecção de filmes sonoros (na foto supra, sob o título, aspecto da frontaria do Royal Cine em 1977, já muito degradada, e na seguinte vista geral do balcão e da plateia; em baixo, plantas da vasta sala e anúncio da histórica inauguração do cinema sonoro em Portugal, com o filme “Sombras Brancas nos Mares do Sul”).

Cine Royal - balcão+plateiaRoyal CineSombras nos Mares do Sulo cinem sonoro em Portugal

Fachada do Royal CineActualmente, este autêntico e venerável templo da 7ª Arte, inaugurado em 26-12-1929, está reduzido à triste condição de super-mercado da cadeia Pingo Doce (passe a publicidade), pois como tantos outros não resistiu à passagem do tempo e à implantação de novas “modas”, gostos e mentalidades, que tornaram obsoleto o ritual (fascinante) de ir ao cinema com a família, a namorada ou os amigos. No “meu” tempo, isto é, há 50 e tal anos, ainda se podia saborear o prazer de passear nos largos salões, de cavaquear, durante os intervalos (que não tinham menos de 15 minutos), bebericando um café e fumando sem pressas um cigarro, de ver descerrar-se, com um suave rangido, as enormes cortinas antes do ecrã se iluminar com imagens oníricas, atraindo-nos para uma faixa brilhante que, tal como um tapete mágico das “Mil e Uma Noites”, nos arrastava para outra dimensão, durante um curto intermezzo de duas horas, sem que, na realidade, déssemos conta disso…

Royal Cine (2010)

Monte Suribachi - 23-2-1945E agora, como nas sessões duplas que antigamente nos atraíam a estes velhos, mas sofisticados cinemas de bairro, cai o pano para mais um intervalo. Voltaremos a “abrir a cortina”, dentro em breve, para falar também de banda desenhada, a propósito do mesmo tema — a batalha de Iwo Jima. Até para ficarmos mais sintonizados com a duração real dos combates, que só terminaram na pequena e desolada ilha, coberta de areia misturada com cinzas vulcânicas, 35 dias após o início da invasão, com a tomada dos aeroportos, vitais para os “corredores” aéreos por onde os bombardeiros norte-americanos iriam desencadear a última grande ofensiva contra o Império do Sol Nascente, transportando no seu bojo o mais mortífero dos inventos bélicos: a bomba atómica.

Embora, importa sublinhar, a imagem que ficou na memória colectiva, como um sinal (prematuro) de vitória, fosse a registada por Joe Rosenthal, com os seis marines a levantarem bem alto a bandeira americana no cume do Monte Suribachi. O autor de um memorial existente nos arredores de Washington cinzelou, na robusta beleza do bronze, o esforço e a euforia desses homens (metade dos quais não regressaria a casa), cujo gesto ficou para a História… ao contrário dos outros, dos “soldados desconhecidos” que, como reza a “lenda”, foram os primeiros a realizar o simbólico acto, depois de uma luta titânica nas infernais areias de Iwo Jima (nome que significa ilha do enxofre).

US_Marine_Corps_War_Memorial_(Iwo_Jima_Monument)_near_Washington_DC

OS HOMENS E A HISTÓRIA – 1

A CONQUISTA DE GIBRALTAR

Com um título algo diferente, “Histórias da História”, mas com o mesmo significado, publiquei há cerca de 32 anos, no vespertino A Capital, que deixou há muito de aparecer nas bancas, uma série de artigos sobre personagens e efemérides que, embora sendo do domínio público, acabaram por ficar esquecidas nos bastidores desse grande teatro que é a história dos povos, das guerras, das descobertas, das conquistas, das catástrofes e, por inerência, da civilização que faz o homem avançar no tempo, nas artes, na ciência e na cultura, continuando sempre a desbravar novos horizontes.

CapitalTodos esses artigos tiveram magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista cujo talento começava, então, a ser reconhecido e apreciado entre os leitores do Mundo de Aventuras e de outras revistas de banda desenhada, pois chegara a Portugal apenas dois anos antes. Com ele, criei os meus primeiros personagens para séries de temática aventurosa que foram publicadas em álbum pela Edinter    e pela Méribérica/Liber: Wakantanka, Ranger e Excalibur.

Anos depois, mais concretamente em 2004, alguns desses artigos sobre temas históricos reapareceram noutro jornal que já deixou também de se publicar:   o 24 Horas. Como foi necessário prolongar a série, escrevi mais alguns textos, que o Trigo se encarregou de ilustrar, mas, à última hora, a redacção mudou de ideias e cancelou a rubrica, que se intitulava pomposamente (a ideia foi deles) “Grandes Histórias”. Resultado: os novos artigos e os respectivas desenhos ficaram na “gaveta”, isto é, no computador, que é um termo mais correcto para a imagem dos tempos que correm, em que já pouco utilizamos os papéis.

E, entretanto, já passaram mais alguns anos desde essa nova experiência, infelizmente interrompida… o que me deu a ideia de aproveitar os meus textos e as ilustrações do     Trigo, para os dar a conhecer aos nossos amigos que se interessem por temas históricos. Aliás, n’A Capital subscrevi-os com um pseudónimo, para baralhar os curiosos. E resultou em cheio! Nem o Geraldes Lino adivinhou quem era o J. Arnaut!…

Posto isto, aqui têm o primeiro artigo desta série, dedicado a um assunto que tem estado muito em foco ultimamente: a guerra diplomática, de palavras e de ameaças — algumas para levar a sério —, entre a Espanha e a Inglaterra por causa de Gibraltar, minúscula parcela de território em solo espanhol de que uma frota naval inglesa, sob o comando do Almirante Sir George Rooke, se apoderou em Agosto de 1704 e que, desde então, nunca mais voltou à posse dos seus naturais — até porque actualmente uma boa parte da população prefere a soberania inglesa.

Creio que entre os nossos leitores haverá, por certo, quem ignore a verdadeira história deste conflito, desencadeado numa época em que Ingleses e Espanhóis eram ferrenhos inimigos, degladiando-se em vários campos de batalha. Hoje, até parece que essas velhas rivalidades não se extinguiram completamente!…

Os Homens e a Histórias - cabeçalho848

A CONQUISTA DE GIBRALTAR

 Texto: Jorge Magalhães  –  Ilustração: Augusto Trigo

Gibraltar – que voltou a ser tema de polémica, reacendendo despiques antigos entre a Espanha e a Inglaterra – tornou-se possessão inglesa devido a um desses episódios meramente acidentais que modificam, por vezes, o curso das guerras e o destino das grandes potências.

Em 1700, a rivalidade entre a França e a Inglaterra atingiu o seu ponto crítico quando o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, se tornou herdeiro presuntivo da coroa de Espanha. Senhora das vastas possessões espanholas de além-mar, a França tornar-se-ia incontestavelmente a maior potência europeia, capaz de disputar à sua velha inimiga a hegemonia territorial e marítima, tanto no velho como no novo mundo.

Numa hábil manobra política, a Inglaterra aliou-se à Áustria e aos Países-Baixos, recentemente libertos do domínio espanhol, e enviou uma poderosa esquadra ao Mediterrâneo, sob o comando do almirante George Rooke. O principal objectivo dessa esquadra era impedir a junção das flotilhas francesas de Toulon e Brest, mas Rooke não foi feliz na sua missão. Na rota para o sul, os ingleses tentaram ainda inutilmente apoderar-se de Cádis e Barcelona.

Temendo o desagrado da Rainha Ann e do poderoso Duque de Marlborough, capitão-general do exército aliado, Rooke lembrou-se de atacar Gibraltar, apesar da fama de inexpugnável do lendário rochedo com 430 metros de altura, do alto do qual se avista um horizonte de 200 quilómetros. Foi por aí que começou a invasão árabe sob o comando de Tarik, no ano 710 d.C., e por aí, também, os árabes se retiraram da Península Ibérica, depois da queda de Granada em 1492 – o mesmo ano em que Cristóvão Colombo descobriu a América e se iniciou a expansão espanhola no novo mundo.

A conquista de Gibraltar

De vila árabe, Gibraltar transformara-se em tranquila aldeia de pescadores, sem perder a sua importância estratégica. Mas a guarnição militar dispunha apenas de 150 homens e de algumas peças de artilharia antiquadas. Rooke sabia que as posições consideradas inexpugnáveis são quase sempre as pior defendidas.

O desembarque começou na baía de Algeciras, durante a noite de 3 de Agosto de 1704, aproveitando a falta de luar, com 1800 soldados sob as ordens do general austríaco Príncipe de Hesse-Darmstadt. De madrugada, Rooke abriu fogo com todos os seus canhões. O pânico rebentou na pequena vila de pescadores devastada pela metralha.

Os espanhóis trataram de convocar todos os homens válidos para a defesa, enquanto as mulheres e as crianças corriam a refugiar-se numa ermida chamada Nossa Senhora dos Rochedos, em Punta de Europa, onde existia uma imagem da Virgem que era, há longos anos, objecto de peregrinação.

Almirante George RookeAs preces elevaram-se no ar, mas não bastavam preces para salvar os sitiados. Com efeito, tudo parecia estar contra eles. Não tinham munições suficientes para resistir a um longo cerco e viam-se em apuros para disparar os arcaicos canhões da guarnição. De resto, o alcance das velhas bombardas era tão curto que os sitiantes não corriam sequer o risco de serem salpicados pelas colunas de água levantadas pelas balas.

Era um duelo desigual, de milhares de ingleses e holandeses contra 500 espanhóis, incluindo os civis que tinham pegado em armas. Mas as muralhas de Gibraltar resistiam a tudo. Durante três horas, choveram sobre o formidável bastião perto de 15 mil obuses, que não fizeram quaisquer vítimas entre os defensores. E Rooke compreendeu que, apesar da esmagadora superioridade  das suas forças, o assédio era inútil.

Ainda essa manhã de 4 de Agosto não tinha findado, quando o almirante inglês decidiu dar ordens às tropas de desembarque para voltarem a bordo. Mas, entretanto, um oficial que se aventurara em incursão pelo território inimigo, apresentou-se ao Príncipe de Hesse com uma boa nova: acabava de descobrir um atalho de cabras que conduzia ao alto do rochedo, em pleno coração do reduto espanhol.

O general austríaco não perdeu tempo. Reunindo os seus homens, internou-se pela passagem e não tardou a surpreender as mulheres e as crianças refugiadas no santuário de Nossa Senhora. De posse desses preciosos reféns, foi-lhe fácil assenhorear-se da vila e dominar a resistência dos homens da guarnição.

800px-A_British_Man_of_War_before_the_Rock_of_Gibraltar_by_Thomas_WhitcombeQuando a bandeira branca que punha termo ao combate ondeou na cidadela, uma salva entusiástica partiu dos navios, onde os canhões há muito se tinham calado. O Príncipe de Hesse foi o primeiro a penetrar no reduto e, depois de negociada a capitulação com os defensores, fez imediatamente içar a bandeira austríaca, gesto que ofendeu o brio patriótico dos seus aliados. Sir George Rooke não tardou a mandar hastear também o seu pavilhão e, embora Hesse reivindicasse para si as honras da vitória, foi a bandeira inglesa que ficou a tremular mais alto e mais orgulhosamente no mastro.

A conquista de Gibraltar e a guerra da Sucessão espanhola, desastrosa para a França, foram os primeiros alicerces do poderoso império colonial britânico. Consciente da importância estratégica de Gibraltar, a Inglaterra nunca mais a devolveu aos espanhóis, que durante o século XVIII tentaram por duas vezes reconquistá-la. E ainda hoje, como se tem visto, os dois países, parceiros na União Europeia e aliados na Nato, disputam no campo diplomático (e em actos quase de beligerância) a soberania do célebre rochedo, símbolo de um pequeno território cuja população – composta por ingleses, espanhóis, italianos, malteses e até portugueses – ronda actualmente os 30 mil habitantes.