EXPOSIÇÃO “100 ANOS DO CROMO EM PORTUGAL”

Colóquio inaugural da exposição “100 Anos do Cromo em Portugal”, no dia 1 de Fevereiro de 2017, às 17h45. Apresentação de Carlos Gonçalves, do Clube Português de Banda Desenhada, e intervenção de João Manuel Mimoso, historiando a origem e a evolução das colecções de cromos dos rebuçados e caramelos em Portugal e de alguns dos seus fabricantes, desde a década de 1920 até à de 1960.

Um colóquio posterior, a realizar em 2 de Março, abordará os “cromos-surpresa” lançados pela Agência Portuguesa de Revistas, em 1952, e prestará homenagem ao grande artista e ilustrador, recentemente falecido, Carlos Alberto Santos.

A exposição será inaugurada às 19h00, após o encerramento do colóquio, e ficará patente ao público até ao dia 29 de Abril de 2017.

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A HISTÓRIA DOS CROMOS DA BOLA  (2)

por Carlos Gonçalves

Caramelos de Futebol

Com o nascimento da Fábrica Universal, de António Evaristo de Brito, estavam criadas as condições para que os “cromos da bola” passassem a ser um autêntico sucesso no nosso país, pois tinham-se enraizado no quotidiano da mocidade da altura (ver aqui o post anterior). Havia mais fábricas de doces e rebuçados, que também publicavam, em paralelo, caramelos com cromos. A concorrência era muito forte…

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Além da Fábrica Universal, havia a Holandesa (excelente qualidade e beleza nos seus cromos, com monumentos nacionais e outros); a Fábrica Águia, que lançou uma inovação na colocação dos cromos, passando estes a ser decalcomanias (metiam-se os cromos em água e colocavam-se de face para baixo sobre a caderneta e com a unha fazia-se uma leve pressão a todo o comprimento da estampa, até que esta acabasse por ficar agarrada ao papel. Era preciso cuidado, pois, caso contrário, a estampa podia ficar com falhas).

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A estas juntavam-se a Globo, do Porto, com pastilhas elásticas e cromos do “Mickey”, em cartolina; a Fábrica Futuro; os Chocolates Regina, com cromos de futebol; A Francesa, com a História dos Automóveis e novos cromos de futebol; A Oriental, com uma grande novidade, a publicação de uma história em quadradinhos de Vítor Péon, adaptada aos cromos: Aventuras de Fred Bill; a Bloom Inglesa; a M. C. Brito, com animais, etc.

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A ÉPOCA DE OURO DOS CROMOS DA BOLA

No capítulo anterior, verificámos que António de Brito era já um industrial de sucesso, pelo que no início de Outubro de 1945 vamos encontrá-lo a fixar residência em Madrid, por dois ou três anos. O êxito seria relativamente curto. A concorrência também era assustadora.

Surgem, então, em Espanha e em Portugal, os “Caramelos Bandeiras” em cadernetas idênticas, só com a diferença das línguas maternas. Como curiosidade, lembramos também que em Espanha já existiam álbuns de cromos desde 1900, e alguns de notável beleza.

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Entretanto, foram publicadas novas cadernetas: “Azes do Futebol” e “Caramelos Desportivos de Portugal”. De volta à pátria, António de Brito fez novos lançamentos de cadernetas de cromos: “Caramelos Emblemas Desportivos, “Caramelos de Campeonatos”, “Caramelos Campeões de Futebol”, “Caramelos Azes das Multidões”, “Caramelos Azes do Pedal” e “Caramelos Artistas de Cinema”. Mas não ficou por aí…

Digitalizar0003Emblemas desportivos (cromos)

Com o grande sucesso dos cromos, a sua Fábrica desenvolveu-se e foi dividida em dois pavilhões: o de fabrico de bolachas, bolos, rebuçados, caramelos e “drops”; e noutro, os caramelos com cromos. Este era ocupado por um grupo de empregadas que enrolavam as estampas nos caramelos, enquanto outras colavam os rótulos coloridos alusivos às colecções, nas latas e meias latas. Depois de cheias, as latas eram distribuídas por todo o país em furgonetas da firma, que ostentavam, na carroçaria, a nau de velas enfunadas que servia de emblema à Fábrica Universal.

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A fábrica tinha, nos anos 50, cerca de setenta empregados, vinte dos quais eram vendedores. Foi a melhor época dos caramelos com “cromos da bola”. Em 1951/52, António de Brito resolveu partir para o Brasil, para ali tentar novos sucessos. Criou, então, nesse país, fábricas do ramo alimentar e um Banco em sociedade, do qual foi director. Todos os anos, passava alguns períodos em Portugal.

 

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Carlos Gonçalves (foto)No prosseguimento desta rubrica, começamos hoje a publicar uma série de artigos dedicados principalmente a colecções de cromos antigas e de teor futebolístico, da autoria do nosso amigo Carlos Gonçalves, grande coleccionador e estudioso da Banda Desenhada e de outros tipos de publicações, entre elas construções de armar e colecções de cromos (consta que, destas últimas, existem no seu acervo umas largas centenas!).

A Carlos Gonçalves — que foi merecidamente homenageado no recente Festival da Amadora, com a atribuição do Troféu de Honra — expressamos, mais uma vez, o nosso reconhecimento por toda a colaboração que amavelmente nos tem dispensado, desde a primeira hora.

Aproveitamos esta ocasião para prestar também uma sentida homenagem a uma grande figura do nosso desporto-rei, repentinamente desaparecida: Eusébio da Silva Ferreira, benfiquista de alma e coração, símbolo da força, da beleza e do poder do futebol português na sua época mais gloriosa, o “craque” que empolgou multidões nos estádios, o maravilhoso goleador que respeitava os seus adversários e era por eles admirado, o homem simples, de origem humilde, que se distinguiu pela simpatia, pelo desportivismo e pelo exemplo que deu às gerações futuras.

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A HISTÓRIA DOS CROMOS DA BOLA – 1

por Carlos Gonçalves

(Esta pequena resenha sobre os cromos da bola, só foi possível graças, em parte, aos estudos sobre este assunto que João Manuel Mimoso incluiu no seu site da Internet).

Um dos mentores e o mais célebre criador de cadernetas de cromos de caramelos da bola, chamava-se António Evaristo de Brito e nasceu em 1912, em Tomar. Aos 12 anos foi viver para Setúbal e trabalhou na mercearia que um seu irmão explorava naquela cidade. Foi lá que iniciou a sua actividade profissional.

Digitalizar0001Já nos anos 20, havia a Fábrica de Rebuçados Vitória (em Setúbal), que seria uma das primeiras fábricas a lançar no mercado os cromos de futebolistas. A Fábrica Águia era igualmente pioneira neste campo, tendo inclusive publicado uma caderneta de “Rebuçados Bandeiras”. A mesma fábrica, mais tarde, teve igualmente edições luxuosas e cativantes, com futebolistas e uniformes militares. Os cromos, muito vistosos, eram impressos a cores e em cartolina. As cadernetas tinham formato italiano.

Mais tarde, também apareceu uma Fábrica Victória no Porto, que lançou igualmente no mercado caramelos de cromos. Um dos factos engraçados é que essas cadernetas de pequeno formato, pouco mais eram do que um caderno escolar, de pequenas dimensões e com algumas folhas, nas quais se encontravam alguns rectângulos numerados, de 1 a 100 e de 1 a 200, onde eram colados os cromos. Estas cadernetas eram dedicadas aos temas zoológicos e históricos. Os cromos eram impressos a uma cor, mas demasiado grandes (para poderem embrulhar os caramelos), para o espaço (muito pequeno nas cadernetas), pelo que tinha de se cortar o cromo, de tal modo que este ficava reduzido a um diminuto quadradinho de papel.

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Em 1930, António E. Brito constitui com seu irmão a Sociedade Lusitana de Confeitarias, com sede no Montijo, lançando no mercado a colecção de cromos “Rebuçados Internacionais”, que oferecia já aos coleccionadores uma bola de “cautchu”, outra de borracha, um canivete, uma caneta e mais outros pequenos brindes.

Entretanto, a Sociedade Lusitana muda de nome, devido à fusão com outras fábricas concorrentes. Aparecem, então, sob o nome da Fábrica Montijense, várias cadernetas, inclusive a “Coleção Caramelos Desportivos Emblemas Nacionais”, que também oferecia uma bola de borracha a quem apresentasse a caderneta completa.

Como curiosidade, lembramos que António E. Brito era de tal modo um sportinguista ferrenho, que nos 100 emblemas desportivos dessa colecção não constava o do Benfica!

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Ainda na década de 30, António E. Brito e seu irmão fundaram outra sociedade, a Industrial de Confeitarias, já com sede em Lisboa, que publicou novas cadernetas.

Uma desavença entre os sócios fez com que António E. Brito acabasse por criar a Fábrica Confeitaria Universo, igualmente com sede em Lisboa. As cadernetas foram melhorando no seu aspecto gráfico e na qualidade do papel. São dessa data os “Futebolistas de Portugal” e as “Caricaturas Desportivas”, esta com desenhos de José Pargana (1928-1988).

Digitalizar0014Caricaturas Pargana (Sporting) e BenficaDigitalizar0015

No início dos anos 40 nasceu a Fábrica Universal, na continuidade do nome usado até ali pelo mesmo empresário. Em 1944, António E. Brito era já um industrial com algum sucesso. A sua Fábrica empregava cerca de 60 pessoas e preparava-se para lançar novas cadernetas, desta vez em Espanha.

 

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História de portugal cabeçalho

História de portugal capa 1ª edição171Como já assinalámos, esteve patente na Biblioteca Nacional, encerrando hoje, uma mostra comemorativa do lançamento, há 60 anos, de uma das mais apreciadas colecções de cromos que circularam no nosso país — obra de um ilustrador e pintor de reais méritos, Carlos Alberto Santos, então ainda no limiar da juventude e de uma fértil carreira artística. 

Trata-se da História de Portugal, a primeira colecção temática deste género, editada pela Agência Portuguesa de Revistas (APR) em Outubro de 1953, depois de outros êxitos que abriram caminho a uma nova espécie de cromos, que se vendiam separadamente em “envelopes-surpresa”, por 40 centavos, e não, como dantes, nas mercearias e confeitarias, a embrulhar caramelos e rebuçados.

Carlos Alberto foi um dos principais artistas portugueses a distinguir-se nesta popular modalidade, com um apurado sentido gráfico e estético na realização das pequenas estampas, primeiro a preto e branco — como na História de Portugal, cuja colorização era dada nas provas em “azul” — e mais tarde em cores directas, com guache, num estilo mais próximo dos seus trabalhos pictóricos.

Apesar de ter feito banda desenhada para algumas revistas da APR, como o Mundo de Aventuras, foi nas colecções de cromos, destinadas a um público mais heterogéneo, que averbou os seus maiores êxitos. Trajos Típicos de Todo o Mundo, História de Lisboa, Camões, Pedro Álvares Cabral, Romeu e Julieta, são exemplos paradigmáticos de trabalhos primorosos no campo didáctico e artístico.

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Colecção formada inicialmente por 203 cromos, com textos de António Feio, a História de Portugal obteve um êxito retumbante, que se saldou por contínuas reedições até à 17ª, em 1973, já depois de Carlos Alberto ter abandonado a APR. Um êxito comercial e artístico absoluto que, em termos lucrativos, pouco rendeu, porém, ao seu criador gráfico.

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História de portugal pequena 1Posteriormente, à figura do general Craveiro Lopes, no cromo nº 203, vieram juntar-se as do almirante Américo Tomás, novo presidente da República, e do professor Marcelo Caetano, presidente do Conselho, sendo este, portanto, o cromo que encerrou a caderneta.

Para a 10ª edição, de 1964, com um formato diferente, quase quadrangular (22 x 21,5 cms), Carlos Alberto realizou uma nova capa, cuja imagem se popularizou também entre os coleccionadores, mantendo-se esse formato até à última edição. Devido ao novo modelo, que inaugurou com pompa a “Colecção Ecléctica”, cada página tinha lugar apenas para quatro estampas.

História de portugal último cromo edição pequena186O fim da colecção coincidiu com o fim do regime, derrubado pela “revolução dos cravos”, e com uma nova era, em que o planeamento editorial da APR sofreu profundas alterações, perdendo definitivamente o seu cariz tradicionalista, familiar e pedagógico, de que a História de Portugal e outras colecções de cromos eram um dos símbolos mais radiosos.

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História de portugal anúncio1Ainda hoje, porém, esta magnífica colecção possui uma aura de mítica beleza e de fascínio para várias gerações, que foram atraídas pelo apelo da História e pela arte insuperável das imagens de Carlos Alberto, largamente publicitadas no Mundo de Aventuras e noutras publicações da APR (mas sem uma referência explícita ao seu autor).

História de portugal anúncio 2Como afirmou João Manuel Mimoso, um dos organizadores da mostra da Biblioteca Nacional (o outro foi Leonardo De Sá), “a História de Portugal tornou-se a colecção de maior sucesso no país, estabelecendo um padrão de qualidade raramente igualado no campo do cromo comercial. (…) É instrutivo verificar como a subtileza dos tons e a riqueza de pormenores se perdem nas impressões baratas e como, apesar disso, a paixão pela qualidade, que no artista é um reflexo da sua natureza, o levou a continuar a desenhar e pintar com um detalhe que os cromos, tal como eram finalmente publicados, não justificavam” [in catálogo da exposição de homenagem a C. Alberto, realizada na Casa Roque Gameiro – Amadora BD 2005].

No site da nossa maior instituição cultural, guardiã de um valioso património literário, científico e artístico com séculos de história, está disponível um catálogo dessa excelente mostra, em formato ebook, que pode ser descarregado mediante o pagamento de uma  importância simbólica.

Ver informações em http://livrariaonline.bnportugal.pt/Issue.aspx?i=2188

COLECÇÕES DE CROMOS – 4

OS FILHOS DOS TRÊS MOSQUETEIROSlf

Com as colecções da Agência Portuguesa de Revistas (APR), os cromos tornaram-se um passatempo familiar, desfrutado por todos e não apenas pela garotada, a “arraia miúda” com uma avidez especial pelas pequenas estampas coloridas, que já não precisava de sacar dinheiro aos pais para poder comprá-las, pois eles próprios tomavam a iniciativa.

No primeiro trimestre de 1953, saiu outra colecção da APR com o mesmo tema de “Os Três Mosqueteiros”, intitulada      “Os Filhos dos Três Mosqueteiros” e baseada numa sequela do filme anterior, desta vez produzida pela RKO (com o título At Sword’s Point), numa adaptação mais livre e com outros protagonistas: Cornel Wilde, Maureen O’Hara, Robert Douglas, Dan O’Herlihy e Alan Hale Jr.

RCartaz alemão com legendaecebida também com entusiasmo por um público mais vasto que o dos anos 30 e 40 e cada vez mais receptivo às realizações da APR, a maior editora popular do seu tempo, esta colecção (com 154 estampas coloridas) foi a quarta de uma longa e memorável série que varreu a lembrança das estampas que serviam de invólucro aos caramelos (ou das guloseimas que eram um mero pretexto para vender cromos e outros artigos), ateando nos jovens em idade escolar a pequena e lúdica chama do interesse didáctico, recreativo ou desportivo… que iria crescer e inflamar gerações!

les fils des mousquetairesDe salientar que esta caderneta era ilustrada, na parte central de todas as páginas, com vinhetas de Vítor Péon. Além de uma nota, à laia de prefácio, sobre o fundo histórico em que se desenrolava a acção do filme, incluía uma página dedicada a outras publicações da APR bafejadas pelo sucesso, numa miscelânea de vários títulos, entre os quais dois álbuns de cromos: “Os Três Mosqueteiros” e “Famosas Estrelas de Cinema”. A rematar o conteúdo da caderneta, era dado destaque ao próximo lançamento de uma nova colecção, baseada na História de Portugal... e que se tornaria um dos maiores êxitos de sempre da APR no âmbito deste tipo de edições, com desenhos de um artista de mérito, já no limiar da fama:  Carlos Alberto Santos.

Juntamente, e pela primeira vez, foi distribuída uma pequena brochura com quatro páginas (e capa e contracapa iguais às da caderneta), que oferecia duas estampas como brinde, dando ainda a possibilidade de adquirir directamente ao editor os últimos 30 cromos, mediante uma lista apresentada na terceira página.

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS CAPA BRINDE600Como afirma João Manuel Mimoso, no seu pioneiro estudo sobre a vida editorial da APR, “Os Filhos dos Três Mosqueteiros” foi a primeira colecção de cromos inteiramente realizada por esta empresa, tendo as imagens do filme sido coloridas por um dos melhores artistas da casa: José Manuel Soares.

Decidida a impor-se cada vez mais no mercado e a comercializar os seus próprios produtos, em áreas onde podia competir com a Bruguera e outras editoras estrangeiras, a APR caprichou nesta colecção, tentando repetir o êxito de “Os Três Mosqueteiros”, mas parece que só houve uma tiragem.

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OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS PAG Rosto e 1

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS PAG 2 e 3

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS Anúncio e Hist. de Portugal

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OS TRÊS MOSQUETEIROS (ESPADACHINS E CARAMELOS)

 Digitalizar0017A título de curiosidade — e aproveitando uma preciosa informação de Carlos Gonçalves, que deve ser um dos maiores coleccionadores portugueses de cromos e tem, portanto, vastos conhecimentos sobre o assunto —, importa referir outra colecção baseada também no romance de Alexandre Dumas, que surgiu no nosso mercado antes da novidade em “envelopes surpresa” lançada em 1952 pela Agência Portuguesa de Revistas (APR).

Segundo Carlos Gonçalves, esses cromos, editados pela Confeitaria S. Mamede, devem datar de um período próximo da estreia do filme da Metro-Goldwin-Mayer (MGM), em 1948, pois a capa da caderneta ostenta uma fotografia com os seus dois principais intérpretes, Lana Turner e Gene Kelly. Uma capa, aliás, bastante atraente, superior até, no nosso entender, à da APR, e que foi nitidamente escolhida por motivos publicitários. Outra particularidade curiosa é esses cromos serem oriundos de uma colecção francesa ilustrada por artista desconhecido (colecção que nada tem a ver com o filme da MGM). Obviamente que não se trata de uma história aos quadradinhos, no sentido tradicional do termo, mas como documentam as imagens juntas (que se devem, mais uma vez, à grande amabilidade de Carlos Gonçalves) a narrativa é composta por quadros com uma ligação sequencial e os desenhos têm uma qualidade artística bastante apreciável. Como devem calcular, esta colecção é extremamente rara.

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COLECÇÕES DE CROMOS – 2

OS TRÊS MOSQUETEIROS

Os 3 Mosqueteiros 386Em princípio dos anos 50, como referimos no artigo anterior, surgiu uma novidade, no sentido mais literal do termo, que iria revolucionar por completo o comércio das pequenas estampas coloridas e os gostos dos coleccionadores, alargando consideravelmente o âmbito desse fascinante universo. Novidade que o Mundo de Aventuras, revista que      já ia no seu 3º ano de publicação, fazendo acérrima concorrência ao Mosquito e ao Diabrete, se encarregou de divulgar com grande destaque nas suas páginas, a partir          do nº 111, de 27/9/1951.

Tratava-se de uma colecção de 144 estampas, baseada            no espectacular filme “Os Três Mosqueteiros” (realizado por George Sidney para a MGM e estreado três anos antes), com    a particularidade de apresentar fotogramas coloridos que se vendiam em “envelopes surpresa”, podendo a respectiva caderneta, com uma garrida capa extraída também do filme, ser adquirida à parte, por intermédio de qualquer fornecedor ou da própria editora, a Agência Portuguesa de Revistas (APR). Esta, aliás, oferecia aos compradores a possibilidade de completarem mais rapidamente a sua colecção, encomendando as últimas 30 estampas em falta (desde que os restantes cromos já estivessem colados na caderneta).

A ideia era prática e engenhosa, embora não se pudesse classificar como original, pois fora importada da vizinha Espanha, onde as colecções de cromos, através de editoras especializadas como a Bruguera, tinham atingido uma época de grande apogeu e diversidade. Em Portugal, porém, nada podia garantir à priori que essa iniciativa, em moldes tão diferentes dos tradicionais, fosse também coroada de êxito. Por isso, não só a primeira escolha deve ter sido maduramente ponderada, como a própria campanha publicitária no Mundo de Aventuras e noutras revistas da APR, concebida por quem percebia do assunto — e não duvido de que Roussado Pinto, à data chefe de redacção do MA, tenha sido um dos seus responsáveis —, merece encómios pela dimensão e pelo impacto que registou, contribuindo de forma positiva para aguçar a curiosidade e o interesse dos potenciais compradores.

Os 3 Mosqueteiros 2 387O certo é que essa colecção de estampas dedicada aos heróis do célebre romance de Alexandre Dumas (que são quatro e não três, como toda a gente sabe), com imagens a 7 cores (!) da soberba versão cinematográfica de ­1948, interpretada por Gene Kelly, Lana Turner, Van Heflin, June Allyson e Vincent Price, foi um êxito estrondoso — embora só tivesse sido lançada um ano depois —, esgotando-se mais rapidamente do que todos esperavam, a tal ponto que foi preciso imprimir três edições para satisfazer a intensa procura.

Estava aberto o caminho para outras colecções de cromos da APR, uma empresa em crescimento, quase todas com a mesma origem — a fecunda Editorial Bruguera, de Barcelona —, que arreigaram o gosto, entre miúdos e graúdos, por esse tipo de coleccionismo cultural e recreativo, fomentando, ao mesmo tempo, a moda dos “envelopes surpresa” com três cromos, pelo módico preço de 40 centavos (e sem lambuzar os dedos).

 Nota: Todas as imagens que ilustram este artigo foram extraídas do Mundo de Aventuras e da caderneta com os cromos de “Os Três Mosqueteiros”, pertencentes à minha colecção. Posso acrescentar, com legítimo orgulho, que qualquer destes exemplares está em muito bom estado.  

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AS GULOSEIMAS QUE DELEITAVAM TAMBÉM O ESPÍRITO

img071Não sou um especialista nesta matéria, apenas um coleccionador curioso que se interessa por vários temas culturais e didácticos dentro do género (e há inúmeras colecções de grande qualidade e beleza que os ilustram às mil maravilhas), em particular relacionados com o cinema, o desporto (por exemplo, a tauromaquia), a literatura, a História e os quadradinhos. É provável que tenha deixado alguns de fora, mas como já disse não sou um especialista com vastos conhecimentos sobre o assunto, bem pelo contrário. Portanto, como diria Pacheco Pereira, só posso falar do que sei, do que vi, do que possuo ou do que me emprestarem.

Comecei a coleccionar cromos há muito tempo, ainda menino da primária, quando as pequenas e artísticas estampas, na maioria de tema desportivo, com as efígies de jogadores de futebol que toda a rapaziada idolatrava (tanto ou mais do que hoje!), se vendiam até nas mercearias, pois vinham nas embalagens de chocolates e pastilhas elásticas ou a embrulhar caramelos — método utilizado para promover os produtos de firmas como “A Oriental”, a “Universal”,   “A Holandesa” e Digitalizar0003“A Francesa”. Eram  fábricas de doçarias (ou confeitarias) que escolhiam os cromos como uma forma popular, lúdica e acessível de comercializar os seus produtos. E a prova é que a miudagem aderiu com entusiasmo, mais por gostar de futebol do que por gulodice, juntando todos os tostões que podia para comprar as pequenas e coloridas estampas.

Após saborear com delícia (e sem excessos) o seu conteúdo e de aumentar a colecção, era preciso descobrir o “boneco” mais difícil e mais pretendido, aquele que dava direito à caderneta onde as respectivas estampas deviam ser coladas, habilitando assim o seu feliz possuidor a aliciantes prémios (entre os quais, claro, bolas de futebol). Lembro-me de que, no afã de conseguir o maior número de cromos sem gastar dinheiro (pois as mesadas, nesses tempos, eram curtas), até se formavam equipas entre amigos e colegas da escola, que os disputavam em renhidas competições de berlindes!

Essa fórmula inteligentemente comercial, com brindes e guloseimas à mistura, durou muitos anos e esteve na origem de algumas das mais antigas e preciosas colecções de cromos que invadiram o nosso mercado. Mas, em princípio dos anos 50, surgiu uma novidade, no sentido mais literal do termo, acolhida com surpresa e curiosidade (e também com algum desconsolo, por parte dos mais gulosos!).

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Nota: as imagens das cadernetas que ilustram este primeiro artigo foram-nos amavelmente enviadas pelo nosso amigo Carlos Gonçalves, a quem agradecemos, mais uma vez, toda a colaboração que nos tem prestado.