CAÇADA EM ÁFRICA – 1

Cabeçalho O PREDADOR

NO ÚLTIMO SEGUNDO

Walter Palmer crispou a mão direita na coronha da carabina, enquanto suores húmidos lhe perlavam a testa e os seus olhos tentavam perscrutar o mato denso, à sua frente, onde a fera se acoitara. Era um leão corpulento, um velho macho de juba negra e espessa, que rugia surdamente, oculto nas profundezas de uma moita de espinhos, onde um homem não podia penetrar. Como obrigá-lo a sair dali?

A luz crua do sol inundava a savana e o tórrido céu africano enchia-se de nuvens fugazes, que não chegavam para ocultar os perfis dos morros e das colinas distantes, onde tinham ficado o Land-Rover e os outros membros do safari, entre os quais estava a tímida esposa de Walter Palmer. Este sabia que todos seguiam a caçada com os binóculos.

O guia, em voz baixa, voltou a aconselhar-lhe prudência:

— Cuidado! Não se aproxime demais… O leão já nos pressentiu e pode atacar de repente!

— Mas estamos a lidar com um animal ferido… Eu já o atingi de raspão numa espádua… Deve estar mais assustado do que enfurecido!

— Todo o cuidado é pouco, Mr. Palmer! Os leões não são gatos inofensivos!

De repente, deixaram de ouvir o rosnar do leão. Um estranho silêncio caiu sobre a selva, naquele fim de tarde do Zimbabwe, banhado por uma luz purpurina coada pelas franjas coloridas das nuvens. Palmer sentiu os músculos crisparem-se de novo, num espasmo de incontido nervosismo, embora procurasse disfarçá-lo. Com o dedo no gatilho, avançou mais um passo, olhando de soslaio para o guia, que não se mexera.

— Daqui a pouco começa a escurecer… Temos meia-hora para o fazer sair da toca… Estou disposto a arriscar, Kramer. Se o vir entre aqueles arbustos, dou-lhe logo um tiro! A esta distância, não posso falhar!

— Não faça isso — disse Kramer. — Podemos voltar amanhã… Garanto-lhe que o velho Cecil não se irá embora!

Cecil era o nome do leão. Palmer abanou a cabeça, num gesto de impaciência.

— Investi muito dinheiro neste safari e não quero sair daqui sem um troféu… como prometi à Brenda. Não posso desiludi-la!

De súbito, o leão acossado voltou a rugir. Palmer ergueu o cano da arma e o seu olhar fixou-se no sítio onde o eco do rugido se misturara com um leve restolhar. Depois, deu mais um passo em frente.

— Atenção! — exclamou o guia, engatilhando a sua carabina. — Eu protejo-o, Palmer… mas veja lá se sabe o que está a fazer!

Nesse mesmo instante, ouviu-se um tropel a curta distância e Palmer, voltando-se de chofre, viu uma leoa contornar outro maciço de arbustos e correr para ele, em grandes saltos, leves e elásticos, tão velozmente que as suas patas mal pareciam tocar no solo. Devia estar a duzentos metros, talvez menos…

A testa e a cara de Walter Palmer voltaram a orlar-se de gotas de suor e as suas pulsações aumentaram, enquanto levava febrilmente a arma à cara, apontando ao vulto cada vez mais próximo do felino. Estava ligeiramente rígido, mas ao mesmo tempo empolgado pela excitação do perigo, sentindo a adrenalina destilar no seu próprio cérebro. Era a primeira vez que experimentava as verdadeiras emoções de uma caçada em África!

— Dispare, Palmer, dispare! A leoa está quase em cima de si! Tem dez segundos…

Palmer engoliu em seco, ao ouvir a voz do guia, como se esta soasse em uníssono com o tropel abafado da leoa, marcando a contagem do tempo.

— Dez segundos… nove… oito…

Premiu com força o gatilho, mas o estampido do tiro não se ouviu. A arma tinha-se encravado! Nada poderia deter, agora, o ímpeto da leoa. A menos que…

— Falhou, Palmer! — disse o guia, cuja voz o outro continuava a ouvir em surdina, repercutindo-se estranhamente no zumbido que lhe invadira o cérebro.

— Falhou, com mil diabos! Tenho de accionar o dispositivo…

Num gesto rápido, Kramer tirou do bolso uma espécie de disco brilhante, com um botão vermelho no meio. Dois segundos!… A leoa ia pular sobre Palmer, quando Kramer premiu o botão e um feixe de luz jorrou do pequeno objecto, ferindo os olhos do desastrado caçador.

Quando os reabriu, piscando como se estivesse ofuscado pelos raios solares, o vulto da leoa tinha desaparecido e a quietude voltara àquele recanto da selva, como se até os movimentos do leão no seu refúgio tivessem cessado.

Na régie instalada a muitos quilómetros, em pleno coração da reserva de Hwange, a maior do Zimbabwe, soaram aplausos… e risos. Os técnicos que tinham seguido as peripécias da caçada pelos ecrãs dos sofisticados computadores, não estavam a felicitar o caçador. Os aplausos eram para o guia.

— Kramer fez o seu papel! Mais um caçador improvisado que não morreu de ataque cardíaco, graças ao “cronodisco”!

Assim terminou a primeira caçada de Walter Palmer (que ele pagara a peso de ouro), num cenário de realidade virtual, onde os animais eram literalmente teletransportados, sob o olhar atento dos técnicos que controlavam toda a operação… e do guia, que só actuava no último segundo. A experiência parecia tão verdadeira como uma caçada de outros tempos. O que contava era a coragem, a perícia e o sangue-frio…

Já havia tão poucos leões no mundo que fora preciso criar aqueles programas em que nem os caçadores nem as feras corriam sério perigo, porque os controladores podiam deter as balas ou desviá-las, mesmo em milésimos de segundo, fazendo o atirador errar o alvo (embora a trajectória do projéctil lhe valesse pontos). E o “cronodisco” era uma espécie de máquina do tempo, que também operava milagres.

Em vez de proibir as caçadas — o que tivera, no passado, efeitos quase nulos —, mantinham-se os animais em recintos fechados, grandes parques naturais onde nenhum estranho podia entrar, e permitia-se que alguns afortunados clientes abrissem os cordões à bolsa para satisfazer o seu hereditário instinto de caçadores. O prémio era virtual, mas já se tornara famoso desde que passara, também, a figurar no Guiness Book of Records.

No dia seguinte, Walter Palmer regressou a casa, de coração oprimido, sem um cobiçado troféu. Mas prometeu a si próprio, e a Brenda, que voltaria a tentar…

FIM DA 1ª PARTE

CONTO: “O PREDADOR” – Introdução

Cabeçalho Caçada em África

Todo o mundo vibrou de indignação com a notícia, ainda recente, daquele caçador norte- -americano, dentista afortunado que pagou 50.000 dólares por uma caçada (S. Pedro vai certamente exigir muito mais para lhe abrir as portas do Céu!), matando um leão do parque natural de Hwange, no Zimbabwe, depois de o atrair traiçoeiramente a uma emboscada.

Essa notícia, devidamente confirmada pelas agências informativas e por organizações acima de qualquer suspeita, como a Avaaz, deu-me a ideia de reescrever um conto, que já em tempos idos tinha planeado transformar num guião de banda desenhada.

Caçada em África 2O projecto não se concretizou, na altura, mas a ideia renasceu quando o caso de Cecil, o leão do Zimbabwe, se tornou conhecido. Já o comentámos neste blogue, recordando uma extraordinária história de E.T. Coelho publicada n’O Mosquito, em 1948, “A Lei da Selva”, onde os leões eram as figuras prin- cipais, tão importantes como os heróis das outras histórias aos quadradinhos.

Devo esclarecer que, ao pegar neste tema e na personagem de Walter Palmer — o tristemente célebre caçador que matou Cecil, um dos mais populares habitantes da reserva de Hwange, procurado e admirado pelos turistas —, não tenho intenção de exaltar o nome do primeiro, nem os seus “feitos venatórios”, mas sim de mostrar, na minha humilde óptica de novelista, o que poderia acontecer ao seu sósia se vivesse noutra época — num futuro distópico onde fosse proibido matar animais selvagens — e continuasse a nutrir uma doentia paixão pela caça.

Este conto, que intitulei “O Predador”, será publicado em três partes consecutivas no nosso blogue. Espero que gostem da ideia… Mas antes de “passarmos à acção”, quero recordar aqui algumas peripécias de um intrépido caçador que, na sua primeira viagem a África, também se viu a contas com um leão. Só que as coisas acabaram de forma muito diferente para o rei da selva… que se sentiu apenas beliscado na sua dignidade (e no seu apêndice caudal) por um adversário que infundia ainda mais respeito! Quanto a esse caçador, dispensa apresentações…

TINTIN NO CONGO E O LEÃO

  

LEI DA SELVA OU LEI DA SELVAJARIA HUMANA?

Cecil the lion - 2

A notícia correu mundo, através da imprensa, da rádio, da televisão e das redes sociais, provocando a indignação dos defensores da natureza e dos direitos dos animais (mas não só). Também a Avaaz reagiu abertamente, alertando mais uma vez a opinião pública e a consciência dos líderes políticos mundiais para os perigos que ameaçam várias espécies à beira da extinção, por causa da caça furtiva e do comércio ilegal que grassam nalguns países africanos e asiáticos, cecil_640onde a corrupção e a falta de leis (e de meios) para protecção da natureza permitem que os caçadores e os traficantes continuem a exercer impunemente a sua nefanda actividade.

Mas o caso agora tão falado é ainda mais chocante: um dentista americano, pelos vistos bem sucedido na sua actividade profissional, pagou milhares de dólares para ter o “prazer” de matar um leão, que era um ex-libris e a principal atracção de um parque natural do Zimbabwe, visitado por turistas, fotógrafos e naturalistas de todo o mundo.

Exposição de troféus de caçaChamava-se Cecil esse leão, tinha coleira de identidade e era alvo das atenções do público e das equipas de vigilância da reserva de Hwange, que o consideravam dócil, quase inofensivo. Mas isso não o impediu de ser caçado e abatido, sem piedade, como rezam as notícias, pelo tal dentista milionário (já habituado a essas proezas), que merecia estar, agora, atrás das grades no Zimbabwe, à espera de julgamento pela sua acção “frívola e cruel” — como a baptizou Miguel Esteves Cardoso no Público —, mas já regressou aos Estados Unidos e à sua confortável vidinha de “respeitável” cidadão.

Este triste e ignóbil episódio, que nos faz ter vergonha dos nossos semelhantes (e são muitos) que não respeitam o direito à vida das outras espécies que povoam este planeta, fez-nos recordar uma excelente história aos quadradinhos publicada há muitas décadas no saudoso jornal O Mosquito, com ilustrações de um dos maiores artistas que já se distinguiram nessa modalidade: Eduardo Teixeira Coelho.

A Lei da Selva 1

Curiosamente, a história em causa, intitulada “A Lei da Selva”, tinha como protagonistas os animais selvagens da fauna africana, em especial os mais majestosos, feros e temidos de todos os felinos, que pelo seu porte imponente e pelos seus hábitos quase “aristocráticos” merecem estar no topo da realeza, à escala zoológica.

Lei da Selva 2       385Nesta grande aventura, que E.T. Coelho ilustrou de forma magnífica, demonstrando ser um mestre da arte figurativa e um profundo conhecedor da anatomia animal, são os leões que têm a primazia, nomeadamente uma jovem cria que escapou de morte certa, depois dos seus pais terem sido abatidos a tiro por um caçador. Sobrevivente, quase por milagre, de uma incrível odisseia — em que tem de arrostar inúmeros combates com os seus inimigos (que não são apenas as outras feras, mas também os Lei da Selva 3       386supersticiosos caçadores indígenas que não lhe dão tréguas) e contra as forças da natureza, ainda mais implacáveis e destruidoras, na sua fúria cega e sem limites —, esse leão acaba por ser um símbolo da coragem, da resistência e da vontade de viver, triunfando de todos os perigos e armadilhas, graças a uma lei ainda mais forte do que a lei da selva: a lei do instinto, da sobrevivência e do amor… ao acasalar pela primeira vez e ser pai de uma vigorosa ninhada que garantirá a preservação da sua indomável raça. Uma aventura cheia de peripécias dramáticas, de lutas sem fim, mas com um final feliz!

Jornal do Cuto 9         387Reeditada em 1971/72 no Jornal do Cuto, outra memorável publicação juvenil, dirigida por Roussado Pinto, esta história (em que merece também destaque o vigor literário das legendas de Raul Correia) será, em breve, apresentada no nosso blogue irmão O Voo d’O Mosquito, em homenagem aos seus dois carismáticos autores, a um tema que não perdeu actualidade e a uma das fases mais assinaláveis da incontornável carreira de E.T. Coelho n’O Mosquito.

Aguardem, pois, pelos primeiros episódios de “A Lei da Selva”, uma obra-prima que desenhadores como Emilio Freixas, Jesús Blasco, Jayme Cortez e José Ruy consi- deraram um caso excepcional de talento e inspiração, pela mestria gráfica patente em todas as suas páginas. Uma história que, no dizer de Roussado Pinto, era a preferida do próprio E.T. Coelho e que merecia já ter sido também reeditada em álbum, como outros grandes clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa.