NOVIDADES DO “FANDAVENTURAS”

“Mantendo a cabeça e os ombros bem acima dos históricos e ficcionais salteadores de estrada que o cinema, os livros, a literatura de cordel, os folhetins de terror e as histórias aos quadradinhos popularizaram, surge a figura de Dick Turpin. Ele foi o único salteador de estrada que se tornou um verdadeiro herói popular inglês. Um novelista pegou um dia na tradição oral deste destemido salteador-cavaleiro e introduziu-o numa novela que tornou famoso o nome de Dick Turpin por todo o mundo ocidental. O nome desse novelista era William Harrison Ainsworth e a novela chamava-se “Rookwood”.

O próximo número do Fandaventuras — um fanzine criado em Julho de 1990, portanto já quase com 27 anos de existência, e que José Pires relançou recentemente, com novas reedições de grandes autores clássicos ingleses — oferece-nos uma magnífica adaptação da obra de William Harrison Ainsworth, com desenhos do incomparável Tony Weare (já depois de ter abandonado a série Matt Marriott), publicada na revista Look and Learn, em 1980. Um clássico da literatura popular inglesa do século XVIII,  em que certamente Walter Booth se terá inspirado para criar o seu Captain Moonlight. Uma peça de colecionador!

E a propósito de Walter Booth convém lembrar que sai também este mês outro número do Fandaventuras (mas em formato especial, à italiana), com a reedição integral da série “Os Companheiros de Londres”, aventura que obteve grande êxito n’O Mosquito, em 1943, e que confirma em absoluto os excepcionais dotes de ilustrador deste célebre pioneiro da época áurea da BD inglesa.

Outra reedição de um clássico dos anos ’30, reproduzido directamente das páginas do semanário inglês Puck (onde Walter Booth publicou a maioria das suas obras), portanto com uma qualidade fora de série… como, aliás, tem sido timbre do Fandaventuras!

A título de curiosidade, recordamos que José Pires já reeditou, em vários volumes de formato à italiana, todas as grandes criações de Walter Booth, desde Rob the Rover (Pelo Mundo Fora) e Orphans of the Sea (O Gavião dos Mares) até Captain Moonlight (O Capitão Meia-Noite), que fizeram também as delícias dos leitores d’O Mosquito. Faltava apenas, nesse formato, apresentar “Os Companheiros de Londres (Chums of London Town), que fica agora, num só volume, ao dispor de todos os coleccionadores do Fandaventuras.

Estes fanzines estarão brevemente à venda na Loja de José Manuel Vilela, Calçada do Duque, 19-A, 1200-155, Lisboa, mas podem também ser encomendados ao editor, por quem não morar na capital, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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O MÍTICO NÚMERO 100 – 1

O “CENTENÁRIO” DO TIC-TAC

O pato TictacRecheado de simbolismo e de inexplicável atracção, o número 100 é, por natureza, um número mágico, quase cabalístico, que parece representar, no imaginário colectivo, um marco difícil de atingir, uma barreira que só é ultrapassada por aqueles que se esforçam em obter a vitória, ou seja, os mais lutadores, os mais persistentes e melhor preparados no exercício do seu mister, qualquer que ele seja.

Tictac numero 100 capaNa própria existência humana há uma meta que a todos atrai, mas que poucos conseguem alcançar: os 100 anos de idade, um século de vida! Claro que, por vezes, a importância que se dá ao número 100 é exagerada, mas na vida de uma revista periódica, mormente as do género infanto-juvenil — que são as mais precárias, pois dependem exclusivamente do frágil poder de compra de um público que ainda não trabalha nem tem rendimentos, a não ser os que provêm da gene- rosidade e das posses dos seus familiares —, ele tem um valor mais do que simbólico, pois coroa uma lenta caminhada de semanas, meses (ou até anos), ao serviço de uma causa que só interessa, geral- mente, aos seus promotores e aos seus jovens beneficiários.

Quase todas as publicações portuguesas de maior longevidade, destinadas a esse público juvenil, festejaram condignamente o seu número 100, não deixando de sublinhar as etapas percorridas e os êxitos averbados durante o percurso — sinal de vida mais longa e próspera, nem sempre confirmada pelos acontecimentos posteriores.

Iniciando esta rubrica, aqui vos apresentamos a capa centenária da revista Tic-Tac (2ª série), que deu especial destaque ao mítico número 100, dedicando-lhe uma sugestiva ilustração, realizada por um dos seus mais talentosos e experientes colaboradores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), que tempos depois (Janeiro de 1936) viria a tornar-se co-fundador e director artístico do novel semanário O Mosquito.

Na terceira página desse número, datado de 11 de Novembro de 1934, um extenso editorial assinalava a centenária proeza, que o Tic-Tac (cujo nome era o de um pato!) voltaria a repetir, anos volvidos, pois chegou a atingir o nº 263.

Tictac numero 100 pag 2 e 3

Entre outras matérias de interesse, o nº 100 publicava histórias aos quadradinhos cómicas e realistas, como Diabruras do Zeca e Toi (com texto de Tio Luiz e desenhos de José Félix), Kid, a Águia Humana e Pelo Mundo Fora (célebre série inglesa magistralmente ilustrada por Walter Booth), uma novela policial de empolgante enredo, da autoria de Raul Correia, com o título A Vida Aventurosa de António de Lencastre, um concurso cinematográfico, uma secção charadística sugestivamente intitulada Para Moer o Juízo, versos de Aníbal Nazaré e, para rematar este sumário bem recheado, a rubrica  Histórias dos Portugueses, assinada por dois nomes ilustres: o escritor Eduardo de Noronha e o ilustrador Rocha Vieira. Quase tudo “prata da casa”, como era norma na maioria das publicações infanto-juvenis dessa época.

Tictac numero 100 pag 5 e 7

Tictac numero 100 pag 8 e 9

Fazia também parte desse número uma separata com a “caraça” de um famoso actor cómico, o Estica (Oliver Hardy), Os pequenos leitores eram convidados a apresentar-se com ela, como se brincassem ao Carnaval, durante a emissão do programa infantil da Rádio- -Graça, o que lhes valeria uma recompensa.

Apesar da sua idade “centenária”, o patinho Tic-Tac (sempre acompanhado pelo coelhinho Rabanete) apresentava-se em excelente forma… prometendo continuar, por mais alguns anos, a ser um dos amigos predilectos da juventude portuguesa.

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GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 8

MAIS EPISÓDIOS DE UMA FAMOSA SÉRIE

INGLESA NO “FANDAVENTURAS” ESPECIAL

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Imparável na sua actividade de faneditor — apesar de alguns problemas de saúde, de que já está felizmente recuperado —, José Pires acaba de nos brindar com mais dois volumes da saga “O Gavião dos Mares”, uma série clássica inglesa dos anos 30 magistralmente ilustrada por Walter Booth, pioneiro da BD de aventuras em estilo realista, que em 1920, muito antes de qualquer outro artista do seu género, criou a primeira longa série de aventuras com um herói titular: Rob the Rover.

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Estes novos volumes da epopeia marítima “O Gavião dos Mares” (outra das suas obras- -primas) reproduzem, curiosamente, um episódio passado em terra, com o título original For the King (“Pelo Rei!”), cuja acção se desenrola na época da guerra civil inglesa entre os “Realistas”, partidários do ocupante do trono, Carlos I, e os “Puritanos”, seguidores de Oliver Cromwell, também conhecidos pelo nome de “Cabeças Redondas”.

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Publicada em 1935-36 no célebre semanário inglês Puck, onde se estrearam também outras famosas séries de Walter Booth, como Rob the Rover e Captain Moonlight, esta segunda e extensa parte de “O Gavião dos Mares” (Orphans of the Sea) tem outra particularidade curiosa, no que se refere à sua publicação em Portugal, pois quase duas dezenas de páginas não apareceram n’O Mosquito, entre 1941 e 1942, devido às contingências da guerra que assolava, então, grande parte do continente europeu.

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Essas páginas inéditas que os leitores d’O Mosquito foram privados de ler — embora sem se aperceberem, graças à habilidade narrativa com que Raul Correia traduzia e adaptava as legendas, compondo à sua maneira a acção das sequências incompletas —, estão presentes nos dois volumes do Fandaventuras Especial postos agora à venda, e que poderão ser directamente encomendados ao seu editor pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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Cada fascículo desta magnífica obra, impressa em bom papel, com cerca de 70 páginas — que foram objecto de um meticuloso trabalho de restauro, a partir de exemplares do Puck e de cópias obtidas na British Library —, custa apenas 10 €. Muito em breve, segundo nos informa José Pires, será também distribuído o 6º volume, com a última parte de “O Gavião dos Mares”, intitulada “O Cruzeiro do Sea Hawk” (The Cruiser of the Sea Hawk).

Uma série de grande qualidade a não perder, com o primoroso traço de Walter Booth, numa espectacular edição que José Pires levou a cabo em tempo recorde, concretizando, assim, um dos seus maiores sonhos como leitor da “época de ouro” d’O Mosquito.

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GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 7

ROB THE ROVER (de Walter Booth)

editado em inglês por José Pires.

O Fandaventuras começa a voar mais alto!

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Em Janeiro tínhamos prometido dar-vos, a breve prazo, mais novidades sobre os próximos lançamentos desta fantástica série que José Pires está a reeditar, com impressionante regularidade e grande sucesso, no Fandaventuras Especial. Ora acontece que no final do mês de Março (re)apareceu o primeiro tomo, numa versão em inglês destinada aos países nórdicos, onde a criação de Walter Booth se tornou imensamente popular, tal como aconteceu entre nós, nas décadas de 30 e 40 do século passado, graças ao Tic-Tac e ao Mosquito, que a baptizaram com o apelativo título de “Pelo Mundo Fora”.
1941-28Tendo entrado em contacto, por via de um blogue português muito conhecido (o Bandas Desenhadas), com dois bedéfilos escandinavos, fervorosos admiradores de Rob the Rover — que nos seus países se chamou Willy paa Eventyr —, José Pires, perante o entusiasmo desses correspondentes, que logo espalharam a nova da edição portuguesa pela blogosfera, conquis- tando um largo número de aderentes na Noruega, Suécia e Dinamarca, resolveu, como íamos dizendo, aproveitar esta oportunidade para concretizar um projecto ainda mais ambicioso: o de fazer também uma edição com textos em inglês, de modo a tornar a leitura do Fandaventuras mais acessível aos assi- nantes de outros países europeus, des- conhecedores do nosso idioma.
Com a sua habitual e inesgotável capacidade de trabalho (rapidez e perfeição é o seu lema), o nosso velho amigo não perdeu tempo a passar das intenções aos actos e, como anunciámos, o primeiro volume da saga do Flying Fish (nome que n’O Mosquito foi traduzido para Submarplano) já está disponível, no mesmo formato, ao mesmo preço (10 euros) e com a mesma qualidade dos anteriores.

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Mas agora numa tiragem especial com todos os textos em inglês (mais fiel, portanto, à versão do Puck), destinada a um público muito mais heterogéneo, que decerto a acolherá com o mesmo esfuziante entusiasmo já manifestado pelos leitores portugueses. E não duvidamos de que, mesmo entre estes, haverá também alguns “puristas” interessados em seguir as aventuras de Rob the Rover na sua matriz original.

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Sunbeam747[2]Estreada em 15 de Maio de 1920 nas páginas do Puck, esta longa e fascinante série de aventuras foi a primeira em estilo realista dada à estampa em todo o mundo, mas o seu lugar pioneiro na história da BD está longe de ser reconhecido por todos os especialistas, quer por ignorância quer por subserviência aos modelos e aos autores norte-americanos. A falta de papel que, durante a guerra, afectou drasticamente a actividade da imprensa britânica, foi a principal responsável pelo cancelamento do Puck e do seu congénere Sunbeam, onde as aventuras de Rob the Rover viram abruptamente interrompido um novo capítulo, dei- xando inconsoláveis milhares de admiradores do juvenil herói, que assim terminou, na obscuridade, uma longa e movimentada carreira. Excepto nos países escandinavos, onde com o nome de Willy, como já referimos, prosseguiu, pela mão de outros desenhadores — que lhe deram um cunho gráfico diferente do de Walter Booth —, as suas peripécias de globetrotter, num mundo em que muitas transformações vinham já a caminho.

contra-capa

Por amabilidade de José Pires, a quem agradecemos todas as informações e documentos que nos tem fornecido sobre a sua actividade de faneditor, aqui ficam mais duas capas desta edição verdadeiramente “Special” do seu cada vez mais apreciado Fandaventuras — que agora irá transpor, num largo voo como o do maravilhoso Submarplano, a fronteira do país onde chegou pela primeira vez às mãos do público.

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GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 6

Depois da “Saga do Submarplano”, novos episódios de ROB THE ROVER (por Walter Booth)

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Pois o Rob the Rover está a ir na maior. Estou a encaixar tudo de maneira que a série, embora com as partes saindo separadamente, seja numerada por ordem cronológica. Um pouco como a Guerra das Estrelas, cujo primeiro episódio a aparecer foi o terceiro!

Com o arranjar das imagens (são “apenas” umas dez mil e trezentas!), fui descobrindo coisas muito interessantes que corroboram a opinião que eu já formara. O Booth não devia desenhar a história à página, mas em tiras de três vinhetas. E não devia trabalhar “em cima da hora”, com a rotativa à espera que ele mandasse os originais, mas com bastante antecedência, pois detectei que o Puck chegou a publicar algumas páginas fora de ordem, com páginas posteriores a serem publicadas antes, o que causou algum embaraço, pois, à maneira do Raul Correia, também nos textos se procura “emendar” o disparate. Não creio que mais ninguém tivesse dado pelo engano, mas um tipo que é também autor facilmente detecta enganos deste género. Enfim… A nossa versão até nisso é inovadora: escreve direito por linhas tortas!”

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Isto dizia-nos José Pires, num e-mail que nos enviou há cerca de um mês, completando as informações sobre as novas séries, que já tem em fase adiantada de preparação, da monumental saga Rob The Rover, a obra-prima de Walter Booth e um marco da BD de aventuras em estilo realista, estreada na revista inglesa Puck em 15/5/1920. Graças ao enorme êxito que obteve, a sua publicação prolongou-se por 20 anos, até as restrições impostas pela 2ª Guerra Mundial ditarem o cancelamento do Puck e o inglório fim da série, que apenas sobreviveu durante mais duas semanas nas páginas do Sunbeam.

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Para aguçar o “apetite” dos apreciadores desta magnífica saga, publicada em vários continentes e que os leitores daquele tempo jamais esqueceram — particularmente os jovens portugueses que a descobriram nas páginas d’O Carlitos, do Tic-Tac e d’O Mosquito —, mostramos (em ante-estreia) uma selecção de capas da 1ª parte, intitulada “As Origens” (3 volumes), e da última: “Pelo Mundo Fora” (11 volumes).

Mais um magnífico exemplo da arte de Walter Booth, harmoniosa e perfeita em todos os pormenores, realçada nestas imagens pelas cores que José Pires lhes aplicou com a ajuda do Photoshop… tarefa em que, aliás, já se revelou um verdadeiro mestre!

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NÚMEROS “PRIMUS”, NÚMEROS RAROS – 1

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Hoje, 14 de Janeiro de 2014, celebra-se mais um aniversário (o 78º) da mítica revista infanto-juvenil O Mosquito, que ainda continua a ter muitos admiradores em várias faixas etárias que atravessam gerações, conferindo-lhe um estatuto raro, entre as suas congéneres, de caso emblemático de longevidade, na memória colectiva, e fenómeno sócio-cultural na sua época.

Como habitualmente, a data será festejada num almoço-convívio marcado para o próximo sábado, dia 18, num restaurante lisboeta. Nesse mesmo dia, pelas 17 horas, terá lugar na Livraria Barata (Avenida de Roma, 11) uma palestra de José Ruy, em que este ilustre autor de BD evocará o percurso d’O Mosquito, nos seus 17 anos de publicação ininterrupta, e explicará alguns dos processos tipográficos utilizados na sua confecção.

Raoul Correia e Cardoso LopesRecordamos que o primeiro número d’O Mosquito — hoje como ontem, uma raridade vendida quase a “peso de ouro”, apesar de ter sido reeditado em fac-simile, nos anos 70, pelo Jornal do Cuto — apareceu nas bancas com oito páginas, quatro delas a uma cor, ao preço de 50 centavos (cinco tostões), começando logo a distinguir-se entre o público infanto-juvenil como um caso sério de popularidade e tiragem, graças ao saber e competência dos seus dois fundadores, António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Raul Correia, cada um figura incontornável na vertente respectiva: a gráfica e a literária.

Mosquito nº 1 página 2  476Além de uma novela de aventuras, “O Enigma de Nelson Street”, escrita por Raul Correia, esse 1º número contava ainda com uma poética rubrica assinada pelo Avozinho (pseudónimo do seu director literário, ciosamente mantido em segredo, durante muitos anos), que se tornaria a figura mais tutelar e estimada da revista. Nas páginas seguintes incluíam-se três magníficas histórias ilustradas por notáveis artistas: “Pelo Mundo Fora”, série inglesa já famosa, com desenhos de Walter Booth, oriunda do Tic-Tac, revista fundada também por Cardoso Lopes, mas que este deixou para trás ao lançar-se numa empresa de maior envergadura, com a aposta nO Mosquito; “Pedro e Paulo, Marinheiros, e o Almirante Calheiros”, outra série inglesa, com o traço hilariante de Roy Wilson; e “Formidáveis Aventuras do Grumete Mick, do Velho Mock e do Cão Muck”, movimentada série, cheia de exóticas peripécias, criada pelo humorista espanhol Arturo Moreno, que foi, nessa primeira fase, um dos maiores êxitos do “semanário da rapaziada”. E havia ainda uma rubrica especial, o Correio da Tia Irene, dedicada às meninas, anunciando-se para o número seguinte uma página de engenhocas do Tiotónio, a cujo peculiar grafismo se deviam a cara alegre do petiz e a imagem do “mosquito” estampadas na capa.

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Por uns modestos cinco tostões, ao alcance de muitas bolsas paternas (embora a pobreza ainda alastrasse por todo o país), e com um sumário bem doseado, onde o texto não prevalecia sobre as imagens (como noutros jornais pouco ilustrados), não admira que a rapaziada desse tempo tenha embandeirado em arco, sentindo uma empatia irresistível com o simpático “insecto” que tão atraente e prazenteiro se apresentava, no seu cómodo formato. E, ao longo dos meses seguintes, a tiragem d’O Mosquito — que era, então, impresso em litografia numa pequena máquina sujeita a frequentes avarias —, não parou de aumentar, apesar de todos os percalços, consolidando o seu êxito entre os miúdos de boina e calção (alguns de pé descalço) que frequentavam, na sua maioria, as escolas primárias, e inaugurando uma nova etapa no progresso da imprensa infanto-juvenil portuguesa — que ficou conhecida como “época de ouro” e se perpetuou, de forma simbólica, na memória nostálgica de várias gerações.

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GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 5

Depois da Saga do Submarplano, atenção às Viagens & Aventuras de ROB THE ROVER (por Walter Booth)

Em primeiro lugar, uma boa notícia: já está disponível o 2º volume da série do Submarplano (cuja capa voltamos a reproduzir), numa edição de José Pires, que os interessados poderão obter contactando-o pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt

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Posto isto, vamos a outras (excelentes) novidades… Nas mensagens que temos trocado com José Pires — nosso amigo de longa data e companheiro de muitas tertúlias, trabalhos e peripécias memoráveis —, ele deu-nos nota dos seus próximos e ambiciosos projectos editoriais, relativamente à continuação da magnífica série Rob the Rover, realizada pelo mestre Walter Booth nos tempos heróicos da BD inglesa, de que foi um dos maiores (e mais injustamente ignorados) pioneiros.

Transcrevemos com prazer os comentários de José Pires — nessa informal troca de opiniões por e-mail — e apresentamos algumas das curiosidades que ele já nos enviou, referentes aos novos fascículos que tem em preparação e que, juntamente com a longa e magistral Saga do Submarplano — para muitos leitores bem informados, o ponto mais alto desta fabulosa série —, irão constituir um extenso conjunto de 26 volumes, formando a mais completa, extraordinária e condigna reedição que se produziu até hoje, em todo o mundo, de um dos maiores marcos da BD de aventuras em estilo realista.

Aos leitores interessados nestas novas séries lembramos que, tal como os anteriores volumes das três maiores criações de Walter Booth A Saga do Submarplano, O Capitão Meia-Noite e O Gavião dos Mares —, estes terão tiragens limitadas, prevendo-se, por isso, que se esgotem também rapidamente.

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1)  JP Estou a digitalizar o princípio do Rob the Rover, que como sabes começou a ser feito noutros moldes muito diferentes da forma como depois a série se desenvolveu e prolongou.
Nesta fase, as histórias eram muito moralistas, cândidas, previsíveis e incipientes, com episódios que começavam e acabavam na mesma página semanal, muito bom para tenras criancinhas que havia que educar, mas, coisa que temo, vá aborrecer e desinteressar os actuais entusiastas, porque isto nunca fez parte do seu imaginário.

Que me dizes de atacarmos já o período das viagens e aventuras “around the world”, com os trepidantes episódios “à suivre”, deixando estes “tempos heróicos” para uma terceira parte sobre as origens da saga?  Não se perde nada com isto e só ajuda a encontrar a fidelização indispensável nestas coisas, não te parece? Isto é uma visão de puro marketing, que nada tem a ver com “razões lógicas”, mas comerciais, bem entendido.

Se já pouca malta se lembra d’O Mosquito — e nós, então, nem assistimos à 1ª série… eu só vi O Mosquito pessoalmente em fins de 1940, quando o meu tio Henrique veio de Elvas para junto de nós e mo mostrou —, d’O Carlitos, onde a 1ª página, de 15/5/1920, foi publicada [imagens seguintes], então não deve haver ninguém vivo ou capaz de se recordar disto, julgo eu.

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2)  JP Imagina que no lançamento do Rob, em meados de 1920, já havia mãozinhas estranhas a “mexer” na série. Nessa altura, o Booth ainda não devia ter um plano a longo prazo para a série, pois vê-se que a linha de guiões é muito titubeante, cheia de hesitações. E aquela tua dica de que teria sido esta a primeira HQ realizada em moldes realistas, faz todo o sentido, porque no rodapé da página do Puck aparece uma linha que diz: “Please tell to your friends about this fine cinema serial” (mais evidente é difícil!). E o pior é que este estilo narrativo (episódios semanais de página única) se prolonga — segundo o material que me forneceu o Américo Coelho — por mais de dois anos! Quase seis álbuns dos nossos, o que é excessivo, acho eu.

Esta fase só deveria aparecer quando os coleccionadores tivessem o Submarplano e as viagens e aventuras (Pelo Mundo Fora) completas. Então, sim, o pessoal já estaria preparado e “apto” para adquirir também “as origens” da série.

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O Booth tinha uma tendência natural para começar as suas narrativas com crianças a flutuar em jangadas, porque já “Os Órfãos do Mar”, também começam assim! Mas estes ainda estavam em pleno mar das Caraíbas, no Spanish Main dos fins do séc. XVI! Agora o Rob, perto da costa inglesa e a falar inglês, devia ser oriundo de um navio naufragado nas imediações. Seria facílimo descobrir a identidade dele, porque do “Titanic” não poderia ter vindo, pois o seu afundamento verificou-se oito anos antes.

Agora percebo melhor a razão porque no Uruguai a história se chamava “O Filho Adoptivo”, como me relatou um colega meu, daquela nacionalidade, lá na Publicis, nos anos 90.

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3)  JPAqui te envio mais um cabeçalho que eu não sabia que existia. É mesmo muito bonito, não achas? Marca precisamente a página onde o Booth, de repente, muda de páginas de doze vinhetas para apenas nove, maiores e mais altas. Isto obrigou-me a modificações de paginação inesperadas e radicais, a meio do percurso!

Enfim, paciência, não há remédio senão aceitar as coisas como elas são. Tive de adoptar o esquema que utilizei n’O Gavião dos Mares, onde a paginação era semelhante. Só que aqui, como o cabeçalho é consideravelmente mais alto, tive de bolar um novo esquema, incluindo também o rodapé.Pag-3- PT

Mais te informo que o Rob the Rover teve cinco cabeçalhos ilustrados (além de outros onde há só letras e “headlines”) e dois rodapés diferentes — giro para mostrares lá no teu blogue, não é verdade? Pois! Já estou a digitalizar o ano de 1931, imagina, e o Booth muda outra vez de cabeçalho e rodapé!

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4)  JP Cada vez me rendo mais ao virtuosismo do Homem, caramba! Era um génio, digo-te eu! Graças às maravilhas do Photoshop, posso remediar todos os estragos que me surgem nas vinhetas (bastantes, infelizmente), porque no Puck estão mal impressas ou lhes faltam pedaços, como nas próprias fotocópias, onde as vinhetas surgem por vezes distorcidas ou onduladas, e também lhes faltam pedaços! Uma neura, digo-te eu! Mas com a minha experiência, mais as habilidades quase inesgotáveis da máquina, consigo ultrapassar obstáculos que os rapazes dos anos 50/60 nem sequer se atreveriam a enfrentar!

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5)  JP Estou quase a acabar a digitalização do Rob the Rover e hoje trouxe do Coelho os últimos dois anos do Puck, até ao começo do Submarplano. Agora tenho de organizar a colecção, que será dividida em três partes: “As origens” (3 volumes), “Viagens e Aventuras” (6 volumes) e “Pelo Mundo Fora” (11 volumes). Com os seis do Submarplano, a colecção do Rob the Rover terá 26 volumes na totalidade. Mais ninguém no mundo deu tanta importância ao Walter Booth!

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Em breve vos daremos mais novidades sobre estas nostálgicas (e colossais) edições que José Pires tenciona levar a cabo num futuro próximo, com grande entusiasmo e a impressionante regularidade a que já nos habituou.

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 2

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Com esta capa, O Mosquito celebrou o seu segundo número natalício, em 16/12/1937. A imagem do Pai Natal e dos seus minúsculos companheiros era baseada numa ilustração do humorista espanhol Arturo Moreno, publicada na revista infantil Pocholo (Natal de 1936).

2013-12-05 22.29.48O arranjo gráfico devia-se a António Cardoso Lopes Jr., o célebre Tiotónio, director artístico d’O Mosquito e criador das impagáveis figuras do Zé Pacóvio e Grilinho, dois “saloios” na tradição dos tipos populares de Rafael Bordalo Pinheiro. Na capa, vêem-se outros heróis da revista, como o Cão Top, de Cabrero Arnal, outro magnífico desenhador espanhol, D. Triquetraque, caçador de feras,  de A. Moreno, e o Capitão Bill, junto da sua equipagem, personagens de origem inglesa criados pelo mestre Roy Wilson (e aqui retocados pelo traço de Tiotónio).

Recorde-se que o segundo director e fundador d’O Mosquito era Raul Correia, prolífico autor de novelas de aventuras (e tradutor de todas as legendas das histórias aos quadradinhos), que assinava também, com o pseudónimo de Avôzinho, uma poética coluna, em prosa e em verso, que lhe granjeou o afecto e a admiração de milhares de leitores assíduos (muitos dos quais nunca descobriram a identidade desse bondoso avô imaginário).

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No presente número de Natal, o seu estro poético brilhava com especial fulgor em dois trabalhos alusivos à quadra, como impunha a tradição, nesses tempos em que o texto ainda tinha primazia sobre a imagem: o belo poema “Noite de Natal” e o conto “A Oração das Lágrimas”, que deve ter deixado muitos garotos — pelo menos aqueles que já sabiam ler — com os olhos repassados (de lágrimas) de emoção.

Na contracapa desse número, bem recheado de histórias inglesas, como Pelo Mundo Fora (de Walter Booth) e O Capitão Bill, o Grumete Bell e o Cozinheiro Ball (de Roy Wilson), O Mosquito anunciava o seu “presente” de Natal: um álbum a cores com a história completa, desenhada por Arturo Moreno, “Ponto Negro, Cavaleiro Andante” (Punto Negro en el País del Juego), também oriunda do Pocholo — obra-prima do surrealismo poético em quadradinhos, plena de inventiva, humor e fantasia, que tinha como protagonista um borrão de tinta transformado em destemido herói de papel. A sua figura surgia também na capa d’O Mosquito, em jeito de reclamo (outra boa ideia do Tiotónio).

Foi uma das muitas personagens — tanto na BD como no cinema animado — que consagraram Arturo Moreno Salvador (1909-1993) como um dos mais criativos e prolíficos autores humorísticos espanhóis da sua geração.

Natal Mosquito nº 101 contracapa295Outro presente que encantou todos os leitores, sobretudo os mais entusiastas das construções de armar — que nessa época, à falta de outros entretenimentos, eram o regalo da miudagem, sempre ávida de novidades e passatempos, mesmo os de papel —, foi a separata inserida neste número, com as três partes (ou planos) de um pitoresco Presépio desenhado por Rocha Vieira, colaborador eventual d’O Mosquito, mas copioso ilustrador no Tic-Tac e noutras revistas infanto-juvenis, onde deixou obra de vulto.

Aqui têm também essa bela separata colorida, graças aos bons préstimos do nosso amigo Carlos Gonçalves, a quem agradecemos, mais uma vez, a sua preciosa colaboração.

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CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 1

O Natal foi sempre, em todas as épocas, motivo festivo e tema obrigatório para os ilustradores dos jornais infanto-juvenis, que nessa quadra evocativa e poética deram largas à sua inspiração, como demonstra esta breve antologia de capas alegóricas, englobando algumas das principais revistas portuguesas de BD do século XX e um punhado dos seus mais prestigiosos colaboradores nacionais, que irão até ao Natal desfilar no nosso blogue.

Um pequeno tesouro que se desfruta com renovado (e demorado) prazer, tal é a beleza iconográfica, a fantasia artística, o sentido recreativo e espiritual, a harmonia do conjunto, contidos em imagens cujo colorido o tempo ainda não logrou esbater.

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Capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas do século passado, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade, mormente em publicações infanto-juvenis, e que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

O Tic-Tac era dirigido, nessa fase, por João Vicente Sampaio e tinha como editor outro célebre artista da Amadora, António Cardoso Lopes (Tiotónio), que no início de 1936 se abalançou a projecto ainda de maior vulto, criando uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Natal -O testamento do perú

Nesse número do Tic-Tac, com 16 páginas, em que os temas natalícios tinham a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luís Ferreira (Tio Luís) e ilustrada por Tiotónio, que também fez as honras da contracapa, com novas peripécias do seu conhecido personagem Zé Pacóvio… por causa de um peru recheado que o fez ver a lua e as estrelas!

Natal -O perú velho

Em suma, um número de Natal também bem “recheado” de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais um novo episódio da mais empolgante série de aventuras desse tempo, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa: Walter Booth.

GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 4

ROB THE ROVER – A Saga do Submarplano (por Walter Booth)

Pelo Mundo Fora127Finda a publicação das trepidantes aventuras do Capitão Meia-Noite (obra completa em quatro volumes), José Pires, incansável na sua actividade de faneditor, tem já em preparação a famosa saga do Submarplano (também oriunda do Puck), um longo ciclo de aventuras de Rob the Rover, o mais carismático herói d’O Mosquito e da BD inglesa no segundo quartel do século passado, com o cunho inédito de se tratar de uma história com alguns ingredientes de espionagem, em que Rob, o Dr. Seymour (inventor do maravilhoso Submarplano, o primeiro avião submersível da História) e os seus dois inseparáveis companheiros, Mabel e o velho Dan, enfrentam a tenaz perseguição de um bando de implacáveis espiões, dotados de poderosos recursos tecnológicos, que tentam apoderar-se do Submarplano a todo o custo. Mais uma vez, Walter Booth faz gala do seu espírito criativo, como um émulo de Júlio Verne, antecipando-se aos progressos da aviação e dos meios bélicos (em vésperas da 2ª Guerra Mundial), e até ao mais mediático invento do século XX: a televisão.

Outra magnífica obra do genial mestre inglês, precursor mundial da BD de aventuras em estilo realista, que nenhum dos seus admiradores portugueses deve deixar de (re)ler — até porque também ficou incompleta n’O Mosquito —, e cuja extensão muito acima da média obrigou José Pires a dividi-la em seis volumes do Fandaventuras Especial.

poster-fandaventuras

Eis, em “ante-estreia”, as respectivas capas, com cenas panorâmicas de grande impacto visual e gráfico, que espelham todo o talento de Walter Booth, o seu sentido da composição, da perspectiva, das proporções, o seu apuro documental, a variedade geográfica e o dinamismo que introduzia em cada vinheta e em cada página.

Façam desde já as vossas reservas, porque a tiragem será limitada. O 1º tomo tem lançamento previsto durante o Amadora BD 2013, que se inicia este fim-de-semana, decorrendo até ao próximo dia 10 de Novembro.

Cap. M-N Capa-IPag.-03Pag.-12Pág.-14Pag.-29