JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 9

RAPTORES – 4

Assinalando o nosso 100º post, ao cabo de oito meses e meio de existência, o que, diga-se de passagem, já representa um primeiro marco no nosso caminho, permitindo-nos acalentar a esperança de manter a mesma regularidade até final do 1º ano, apresentamos hoje mais duas páginas de “Raptores”.   

Chega ao fim esta aventura de ambiente marítimo, desenhada por José Ruy em 1949 e publicada na última fase d’O Papagaio, então transformado em suplemento infantil da revista de actualidades Flama. Dada a sua grande raridade, poucos conhecem hoje essas páginas de uma das mais antigas e carismáticas revistas infantis portuguesas, onde um punhado de jovens desenhadores como Sérgio Luiz, Güy Manuel, José Ruy e Vítor Silva, deixou a marca do seu talento.

Para (re)ler os episódios anteriores clicar aqui, aqui  e aqui.

Raptores  - 10 e 11

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 8

«RAPTORES» – Curiosidades tipográficas – por JOSÉ RUY

(O processo que criei para fazer as cores das histórias n’O Papagaio, depois deste ter sido incluído, como suplemento, na Flama).

Papagaio 684Quando O Papagaio era uma revista autónoma em relação à edição, as capas e as páginas centrais eram impressas pelo processo litográfico a quatro cores, na Litografia Sales, e o resto do interior em tipografia, na Renascença Gráfica. Na parte tipográfica, as ilustrações eram reproduzidas em zinco- gravura, portanto com o desenho a traço, sem sobreposição de qualquer cor.

A partir da transformação desta revista infanto-juvenil num suplemento da Flama, a sua impressão passou a ser tipográfica, embora a revista-mãe tivesse as capas em rotogravura, bem como as páginas centrais.

Mas aqui beneficiávamos de uma cor sobreposta nos desenhos a preto. Essa cor podia ser feita com esbatidos, em aguarela, mas obrigava a que a reprodução fosse em fotogravura, mais cara que as zincogravuras, traço e cheios, sem esbatidos. A empresa impunha-nos que fizéssemos as cores só para zincogravura, por uma questão económica.

Para obter os mesmos efeitos, imaginei um processo para conseguir as meias-tintas sem a necessidade de usar a fotogravura.

José Ruy - Trama examploPedi que a oficina fizesse uma gravura de trama (rede) larga, com a dimensão de 14×48 cm (que era a medida que usava nas tiras das histórias em quadradinhos) e imprimisse em papel fino e acetinado que aguentasse a pintura com tinta-da-china e guache.

Coloquei a tira de papel com a trama impressa sobre o original da minha história, desenhado ao dobro, numa mesa de transparências, e apliquei guache branco para eliminar a rede onde era necessário (nas margens e certas zonas do desenho), pintando com tinta preta as manchas que pretendia ficassem em cor cheia.

José Ruy - Veleiro sequência 1 e 2José Ruy - Veleiro sequência 3 e 4

Vinheta de “Raptores”. O desenho da cor é feito a preto e só na máquina de impressão aparece a cor desejada.

Quando o desenho reduzia, a rede ficava mais fina, obtendo o efeito que aparece na reprodução. Tínhamos, assim, uma meia-tinta e uma cor cheia contornando os desenhos, sem ser necessário usar a fotogravura.

 O meu colega e amigo Vítor Silva, que também publicava histórias e ilustrações, gostou do processo e passou a usar essas tiras que a gráfica imprimia em grandes porções. Ainda conservo uma boa quantidade, que sobrou depois do suplemento ter acabado.

Quando idealizei desenhar as «Lendas Japonesas» traduzidas por Wenceslau de Moraes, pensei em conseguir um efeito melhor, e em vez da meia-tinta uniforme, procurei fazer mesmo esbatidos em dégradé, além das manchas de cor cheia. Experimentei usar papel Fabriano de grão muito largo, que sobrepus à mesma nos desenhos a tinta-da-china, sobre a mesa de transparências, e apliquei lápis litográfico, que tem uma grande intensidade de negro. Com mais ou menos pressão sobre o papel obtive o efeito que se pode ver na impressão. Com a redução, o granitado transformou-se em grão fino e a gravura continuou à mesma a ser feita em zincogravura e não fotogravura.

José Ruy (Junho 2013)

pequeno bonzo sequência

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 7

RAPTORES – 3

Aqui têm mais quatro episódios desta trepidante aventura de ambiente marítimo, desenhada por José Ruy nos seus “verdes anos” para a 2ª série d’O Papagaio, quando este semanário infantil, dirigido durante os primeiros tempos por Adolfo Simões Müller, interrompeu bruscamente a sua longa carreira, recheada de êxitos, transformando-se num modesto suplemento da revista de actualidades Flama — embora  continuasse a acolher trabalhos dos seus melhores colaboradores, como José Ruy, Vítor Silva e Carlos Cascais.

Raptores 8 e 9Raptores 10 e 11 (Nota: vejam no próximo post um curioso artigo de José Ruy sobre os processos de impressão desta e de outras histórias d’O Papagaio)

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 6

RAPTORES – 2

Papagaio Flama577Apresentamos hoje mais três páginas de “Raptores”, história iniciada no     nº 67 da revista Flama, quando esta inseria como suplemento O Papagaio, depois deste ter sido um semanário autónomo e de largo prestígio entre    o público infanto-juvenil até ao nº 722. Propriedade da União Gráfica, foi um tanto intempestivamente, apanhando de surpresa os próprios leitores, que O Papagaio se transformou, a partir    de Fevereiro de 1949, num modesto suplemento da Flama, muito embora continuasse a contar com a assídua colaboração de Carlos Cascais, José Ruy e Vítor Silva, que formavam o núcleo principal (literário e artístico) da antiga redacção. E foi neste raro suplemento, como também já várias vezes referimos, que José Ruy teve ensejo de publicar alguns dos melhores trabalhos dessa fase pioneira, evidenciando notáveis progressos a nível técnico e uma grande sensibilidade artística em temas exóticos como os das “Lendas Japonesas”, mas que já dantes tinham frutificado em histórias cheias de movimento e ambientadas em cenários modernos, como “Reportagem Inesperada”,     “A Bravura de Chico” e “Raptores”, que temos vindo a apresentar no nosso blogue.

«Sobre esta aventura — conta-nos o Mestre, com a sua memória sempre viva —, não há episódios de bastidores. O miúdo, o Cartucho, teve por modelo um rapazito chamado Pedro Gomes, que morava perto da casa dos meus pais, onde desenhei estas histórias, e que mais tarde veio a ser jogador do Sporting. Ainda hoje ele se lembra perfeitamente dos dois escudos e cinquenta centavos que eu lhe pagava à hora pelas poses!».

Carlos Cascais retrato«Quanto ao Carlos Cascais — prossegue José Ruy, em resposta a outra pergunta nossa —, ele era chefe de redacção d’O Papagaio, mas quando este foi integrado na Flama tornou-se uma espécie de coordenador. O verdadeiro chefe de redacção era o Padre Diogo Crespo, uma belíssima pessoa, sendo o director o desportista Mário Simas. O Cascais tratava com os colaboradores, escrevia peças e um conto ou outro, e depois de elaborado o número o Diogo Crespo passava tudo a pente fino. O Simas aparecia em representações, como entrevistas a figuras importantes. Não interferia na revista, dava só o nome de proa».

«Junto um retrato que fiz do Carlos Cascais e que apliquei numa ilustração da própria Flama. Foi um desenho realizado logo à pena, sem lápis, como algumas das figuras nas vinhetas de “Raptores”. Eram ensaios que eu experimentava na altura, logo a partir dos modelos, influenciado pelo Mestre espanhol Emilio Freixas, que desenhava desta maneira, sobre vegetal, com um ligeiríssimo esboço a lápis noutro papel que punha à transparência. É que ao cobrir os desenhos a lápis, feitos estes do natural, os meus desenhos perdiam      (e perdem) a frescura do croquis».

Carlos Cascais foi também retratado em “Raptores”, como é patente na penúltima vinheta da terceira página que hoje publicamos. Entretanto, recebemos já de José Ruy um extenso artigo sobre a sua colaboração n’O Papagaio, revista onde teve início uma prolífica carreira artística com mais de 60 anos — artigo esse cheio de curiosos pormenores e de muitas revelações, que começaremos a publicar dentro de pouco tempo.

05 Raptores

06 Raptores

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Nota à parte — O ex-jogador sportinguista Pedro Gomes, que serviu de modelo a José Ruy nesta história, chegou a ser internacional nas décadas de 60 e 70 (em que o Sporting arrecadou muitos triunfos) e vive ainda hoje em Lisboa. Terminada a sua carreira de jogador, como defesa direito, dedicou-se a treinar algumas equipas da 2ª Divisão, com destaque para o Marítimo e o União de Leiria, que fez subir à 1ª Divisão, e em 1984 regressou às hostes do Sporting como treinador-adjunto, ascendendo ao lugar de treinador principal nas últimas jornadas dessa época.