A PRIMEIRA AVENTURA DO MAJOR ALVEGA

Como já foi largamente noticiado, a mini-série de banda desenhada clássica dos anos 60 e 70 inserida na revista Visão iniciou-se com uma aventura do popularíssimo Major Alvega (aliás, Battler Britton), publicada no semanário juvenil O Falcão nº 577, em 17/8/1971, e reeditada anos depois no nº 1247 da mesma revista.

Esta dinâmica série inglesa, nascida em 7/1/1956 na revista Sun, com desenhos de Geoff Campion e guiões de Mike Butterworth (a que se seguiriam muitos outros criadores, de várias nacionalidades), fez também dezenas de aparições em episódios mais longos publicados em revistas de formato de bolso que granjearam, na época, grande sucesso: War Picture Library, Thriller Picture Library e Air Ace Picture Library, todas com o selo da Amalgamated Press/Fleetway/IPC, editora de antigas tradições localizada em Londres.

Falcão 371 - Major Alvega 175O formato e o número de páginas d’O Falcão (2ª série) eram idênticos aos dessas revistas de bolso, embora não constituíssem uma novidade no nosso mercado, pois algumas publicações da Agência Portuguesa de Revistas (APR) já o tinham adoptado muito antes. Mas O Falcão soube rechear as páginas da sua nova série com o melhor material e os mais célebres heróis oriundos das Picture Libraries, dividindo essas histórias em várias séries que abarcavam tanto o western, o policial, a ficção científica e o género histórico, como as aventuras de guerra e espionagem. 

Nestas foi o Major Alvega (assim baptizado pelo editor da revista, Mário do Rosário, num momento de feliz inspiração) que se destacou como grande favorito, permanecendo em contacto com os leitores até ao penúltimo número (1285) de um título que durou cerca de 30 anos, fazendo durante esse período acesa concorrência ao veterano Mundo de Aventuras.

Viusão - Falcão 577 170Tamanha foi a celebridade que o “ás” da RAF alcançou no nosso país que até deu origem, como é sabido, a uma série da RTP (1998-1999) interpretada por actores portugueses e de formato bastante original, pois misturava imagens reais com cenas de animação computorizada. O resultado foi mais do que satisfa- tório e o êxito da série chegou mesmo a transpor as fronteiras da RTP, que a vendeu para vários países.

Em 1989, o Major Alvega fez uma breve reaparição nas páginas da revista mensal Selecções BD (2ª série), que publicou dois dos primeiros episódios desenhados por Geoff Campion, num exímio estilo realista que dava grande dinamismo à acção bélica da série. A título de curiosidade, reproduzimos um deles (que é precisamente o primeiro de um longo rosário de aventuras) e o artigo de apresentação, da autoria de Carlos Pessoa, ambos publicados no nº 2 (Dezembro de 1998) de Selecções BD (coordenada, então, por mim).

Registe-se também a espectacular “ressurreição” de Battler Britton numa graphic novel editada em 2006 pela DC Comics, com argumento de Garth Ennis e desenhos de Colin Wilson, que chegou a ser publicada em Portugal.  

Selecção BD Major Alvega artigo

Num próximo post dedicado ao Major Alvega, divulgaremos uma lista dos seus episódios publicados n’O Falcão, em que se destacam desenhadores da craveira de Colin Merret, Solano Lopez, José Ortiz, Luis Bermejo e Hugo Pratt, entre muitos outros. A propósito, o episódio agora incluído na mini-série da Visão (que o reeditou em fac-simile, mas num formato maior que o das versões originais e num papel de má qualidade, demasiado transparente) foi desenhado pelo artista britânico George Stokes, criador de uma excelente série western largamente difundida no Mundo de Aventuras e noutras publicações de há 40/50 anos: Wes  Slade. Muitos leitores desse tempo talvez ainda se lembrem dela.

E aqui têm o 1º episódio das aventuras do famoso Major Alvega (aliás, Battler Briton).

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COLECÇÃO BANDA DESENHADA (OS VELHOS E BONS HERÓIS DA BD CLÁSSICA) – FASCÍCULOS 1 E 2

Visão - Heróis da BD

A propósito desta colecção, de que já saíram dois fascículos com a revista Visão, concordamos por inteiro com as críticas que Pedro Cleto lhe fez no seu blogue As Leituras do Pedro (ver em http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/2016/03/coleccao-banda-desenhada-com-visao.html), nomeadamente quanto à selecção dos títulos, que deixa muito a desejar por falta de critério, misturando revistas importantes com outras que não fizeram história. O mais grave, quanto a nós, é terem incluído também O Mosquito, através da sua série menos representativa, com um único número publicado em 1975. Até podia ser um número com um conteúdo interessante, como é o d’O Falcão, por exemplo, mas bem pelo contrário… pois trata-se de uma medíocre historieta inglesa. Mais valia terem optado por um número da 2ª série, dirigida e editada por José Ruy, no início dos anos 60 (período que se enquadra no desta colecção). Ou mesmo da 3ª, com quatro números apenas, mas que reeditou algumas célebres criações de grandes autores ingleses.

A ideia de aumentar o formato d’O Falcão #577, com uma aventura do popular “ás” da aviação Major Alvega (de que falaremos noutro post), não foi má de todo, mas a qualidade do papel, demasiado transparente, estragou as boas intenções. Nem mesmo as revistas desse tempo (como o Mundo de Aventuras ou o Jornal do Cuto) usavam papel tão amarelado (para não lhe chamar “ordinário”). Dá a impressão de que os autores desta colectânea quiseram dar-lhe um aspecto tão “retro” que escolheram esse tipo de papel por ser o mais adequado aos seus intentos. Mas falharam redondamente, porque mesmo revistas mal conservadas não “envelheceram” tanto (salvo em casos extremos) como aparentam os exemplares já publicados pela Visão. Tenho no meu acervo revistas bem mais antigas, algumas com 80 anos ou mais, num estado de conservação tal que parecem ter saído da gráfica há poucos meses… descontando, claro, as diferenças de impressão, pois os processos tipográficos desse tempo eram rudimentares comparados com os actuais.

A questão do formato também não nos satisfaz, pois foi preciso reduzir o de algumas revistas (caso do Mundo de Aventuras, do Jornal do Cuto e do Cavaleiro Andante) e aumentar outros (como o d’O Falcão e d’O Mosquito). Portanto, não lhes podemos chamar fac-similes, porque as revistas originais têm dimensões bastante diferentes. Preferíamos que se tivesse optado por revistas de pequeno formato, como o d’O Falcão (2ª série), já que a ideia era criar um padrão uniforme. As revistas de formato maior destoam nitidamente do conjunto, apesar da sua leitura não ser muito prejudicada. Verdade se diga, vendo a questão por outro prisma, que o formato padronizado tem vantagens para os leitores que quiserem encadernar os seis fascículos. Mas alguém lhes dará valor daqui a alguns anos?

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Quanto ao impacto desta colecção junto do público em geral, não queremos, por ora, fazer prognósticos. Trata-se, como é óbvio, de uma amálgama de títulos destinada aos leigos e não aos coleccionadores. Alguns destes, entre os mais nostálgicos, apreciarão certamente a iniciativa, os mais novos desinteressar-se-ão, em absoluto, ou poderão adquirir um ou outro título, por mera curiosidade. De qualquer forma, deve haver também um nicho de mercado para este tipo de edições, mas apresentadas de forma mais cuidada e com as devidas anotações teóricas e críticas (mesmo feitas à parte). A história da BD em Portugal também inclui, em larga percentagem, as revistas de índole mais juvenil, que ajudaram a fomentar o gosto de muitas gerações pela leitura e pelos quadradinhos. E a Visão, semanário de grande tiragem e projecção nacional, poderia ser um bom veículo para as dar a conhecer ao público de hoje. Mas faltou o “golpe de asa” a este projecto…

O 2º fascículo inserido na edição da semana passada, com uma reprodução do Mundo de Aventuras #32 (2ª série), contendo três histórias completas, entre elas uma aventura de Mandrake e Lotário, tem para mim um significado especial, pois foi no número seguinte que comecei ‘off the record’ a coordenar esta revista. Por razões que não interessa agora explicar, só bastantes números depois, quando esta série do MA chegou ao nº 100 (já com outro formato), é que o meu nome apareceu como coordenador na ficha técnica, lá se mantendo até ao último número (589), saído em Janeiro de 1987.

O fim de uma era de saudosa memória, pela qual passaram alguns dos maiores nomes da BD portuguesa, como E.T. Coelho, Vítor Péon, Fernando Bento, Simões Müller, Cardoso Lopes, Raul Correia, Roussado Pinto, Jayme Cortez, José Ruy, José Garcês, Carlos Alberto, José Antunes, José Baptista, Artur Correia, Carlos Roque, Eugénio Silva, Júlio Gil, Vítor Mesquita, Pedro Massano, Augusto Trigo, Fernando Relvas e muitos mais!…

Voltando ao MA #32, o episódio de Mandrake, desenhado por Fred Fredericks, não é dos melhores desta fase, mas nele reaparece um dos mais carismáticos inimigos do mestre da magia: o “Bando dos Oito”, o que lhe confere algum interesse. E gostei também de rever duas histórias que traduzi para este número, com o Devil Doone, um detective de origem australiana que se safava sempre do perigo, e Roland Garros, célebre herói da aviação francesa, na 1ª Guerra Mundial. Bons tempos em que uma certa ingenuidade e um saudável pendor ecléctico caracterizavam ainda a BD de cariz mais popular!

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OPERAÇÃO BD NOSTALGIA NA REVISTA “VISÃO”…

… OU O REGRESSO DOS VELHOS HERÓIS!

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Numa iniciativa que muitos bedéfilos saudarão certamente com regozijo, a revista Visão resolveu celebrar o seu 23º aniversário de uma forma especial, oferecendo aos seus leitores, durante seis semanas, uma deliciosa [sic] colecção de Banda Desenhada antiga publicada em Portugal, que começa com o saudoso Major Alveja e engloba também outros heróis de mítica fama como Mandrake, Fantasma ou Flash Gordon.

Numa altura em que alguns jornais, com inegável destaque para o Público, têm dedicado à BD uma atenção especial, apresentando colecções baseadas nos grandes clássicos da escola franco-belga e nos maiores super-heróis norte-americanos (sem esquecer o precioso filão das graphic novels), registamos naturalmente com agrado — ainda que com algumas reservas em relação ao critério selectivo, sobretudo dos dois últimos títulos — este  “brinde” aos amantes das histórias aos quadradinhos de outra época e de outro género de heróis, quando as bancas se enchiam de revistas de cariz popular, com títulos emblemáticos que ainda hoje ecoam no imaginário de várias gerações e povoadas por trepidantes aventuras, cujos arquetípicos personagens — alguns já quase com um século de existência — parecem ter o condão de viver para sempre!

Fazemos votos de que outros heróis “adormecidos” no tempo, mas não na memória dos que com eles cresceram, sonharam e viveram muitos momentos de exuberante fantasia, possam em breve voltar à acção, em iniciativas semelhantes à que a revista Visão decidiu levar a cabo para assinalar, de forma diferente, um aniversário que decerto ficará também na memória dos seus inúmeros e fiéis leitores.  

ABRIL E A “VISÃO” NA CASA DA BD

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Este ano, o CNBDI assinala os 40 Anos da Revolução de Abril com um (re)encontro dos artistas que colaboraram na Visão, a mítica revista nascida em 1975 e que encetaria um novo capítulo na história da BD nacional.

Estão já confirmadas as presenças dos artistas António Pilar, Carlos Barradas, Carlos Zíngaro, Pedro Massano e Victor Mesquita.

Este serão conta também com a participação musical de Francisco Fanhais, conhecida voz de Abril, ex-sacerdote católico, condecorado com a Ordem da Liberdade, em 1995.

Na próxima terça-feira, 29 de Abril, às 21h00, o CNBDI espera por todos os que quiserem associar-se a este encontro com tão notáveis artistas, e que será certamente uma excelente forma de comemorar a Revolução dos Cravos na casa da Banda Desenhada.

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