ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 5

UM XERIFE FAÇANHUDO

Tibet - Dog Bull475

Nalguns posts recentes dedicados a Ric Hochet, tivemos oportunidade de referir outra inolvidável criação, cuja carreira foi iniciada muito antes da do famoso repórter detective, quando Tibet, o talentoso e versátil artista que lhes deu vida, ainda era um desenhador particularmente afeiçoado ao estilo humorístico.

Tibet - La fureur de rireFoi graças a esse estilo que Chick Bill e os seus companheiros de aventuras — Dog Bull, o façanhudo xerife sempre em bolandas por causa do seu ajudante trapalhão Kid Ordinn, e o jovem índio Petit Caniche — se tornaram titulares de uma das séries mais divertidas da BD franco-belga, fazendo companhia a outros carismá- ticos heróis que também parodiaram o Oeste americano, como Lucky Luke, Humpá-pá e os Túnicas Azuis.

É, pois, em honra de um consagrado humorista, cujo inato talento se ramificou ao cartoon e à caricatura, com resultados que contribuíram ainda mais para o êxito da sua extraordinária carreira artística, que temos o prazer de apresentar este original inédito, oferecido a Catherine Labey durante a estadia de Tibet na Sobreda, onde participou, como convidado de honra, num dos seus animados Salões de BD, sob a égide do Grupo Bedéfilo Sobredense, coordenado por Luiz Beira.

Um Salão memorável, com a presença de um versátil e espirituoso autor que se identificava, como poucos, com as suas criações e com um métier em que se sentia verdadeiramente como “peixe na água”: Tibet (aliás, Gilbert Gascard).

O REGRESSO DE RIC HOCHET – 4

Ric Hochet - Relevez le gant! 467

1959 foi o ano em que o jovem repórter do La Rafale deu mais um passo importante (e decisivo) na sua carreira — até aí limitada, como já referimos, a curtos e esporádicos episódios completos —, tornando-se titular, no Tintin belga, de uma sensacional novidade: uma rubrica com o título Relevez le gant!, constituída por uma série de problemas policiais cuja decifração desafiava, na melhor tradição de Agatha Christie e Hercule Poirot, a argúcia e as faculdades dedutivas dos leitores.

Alguns desses casos, em que Ric Hochet estava sempre acompanhado pelo inspector Bourdon, foram também publicados no semanário O Falcão (1ª série), que chegou mesmo a instituir um concurso, com regulamento, destinado aos jovens sherlocks portugueses. E foi também n’O Falcão (nº 60, de 4/2/1960) que apareceu um dos primeiros episódios de Ric Hochet, com o título Ric Hochet e a “Sombra” (Ric Hochet contre l’Ombre).

Ric Hochet - Aceite o desafio + O Sombra

Pormenor curioso: enquanto que no Cavaleiro Andante e no Zorro o jovem repórter criminologista foi baptizado com nomes portugueses (embora vivesse na Cidade-Luz, trabalhando para um jornal parisiense), n’O Falcão, manteve o seu próprio nome, o que prova que a censura nada teve a ver com essa mudança de identidade.

Em 1962, Ric Hochet foi ainda protagonista de uma longa novela de mistério com o título Monsieur X frappe à minuit, cujo texto tinha também a assinatura de André-Paul Duchâteau, o argumentista que se tornou o parceiro ideal de Tibet quando a sua nova criação começou finalmente a aparecer em histórias de “longa metragem”, conquistando, em pouco tempo, o estatuto de grande vedeta do jornal Tintin.

A título de curiosidade mostramos duas páginas dessa novela, ilustrada por Tibet, tal como foi publicada no Zorro, a partir do nº 33 (25/5/1963), com um título semelhante: O sr. X ataca à meia-noite. Tempo depois, o destemido e arguto “Mário João” transitou para as histórias aos quadradinhos, vivendo três novas aventuras que o tornaram ainda mais popular entre os leitores da revista, muitos dos quais desconheciam o seu verdadeiro nome.

Ric Hochet - Sr. X

Na época anterior à consagração de Ric Hochet (que só chegou tardiamente, depois de um longo caminho, como já vimos), Tibet estava ainda “colado” à imagem de Chick Bill, o seu personagem de maior êxito, ao ponto de aparecer vestido de cowboy numa curiosa “pantomina” em que vários colaboradores do Tintin assumiam a aparência dos heróis que lhes tinham dado justa fama, “disfarçados” com a sua habitual indumentária.

Essa página, que a seguir apresentamos, foi publicada no nº 12 (14º ano), de 25/3/1959, e nela podemos reconhecer as veras efígies de alguns dos mais populares autores da BD franco-belga, fazendo honrosa companhia a Tibet.

Ric Hochet - Tintin 12

Recordamos novamente que o jornal Público, em parceria com as Edições Asa, brindou os apreciadores desta série (entre os quais nos incluímos) com algumas aventuras inéditas do dinâmico repórter detective, inseridas na colecção “Os Piores Inimigos de Ric Hochet” (12 álbuns). Os leitores interessados encontram um amplo noticiário sobre essa colecção no blogue A Montra dos Livros.

O REGRESSO DE RIC HOCHET – 3

Ric Hochet 10 - Les Cinq Revenants

Tintin 18 - 1959Como já tivemos ocasião de referir, Ric Hochet estreou-se num curto episódio publicado em 30 de Março de 1955, no Tintin belga nº 13 (10º ano), episódio esse que entre nós foi dado à estampa no Cavaleiro Andante nº 183, de 2 de Julho de 1955. O pequeno ardina que apregoava a plenos pulmões o diário La Rafale (em português, A Rajada) estava prestes a descobrir a pista de um misterioso espião, revelando assim dotes de argúcia e de coragem que iriam guindá-lo a um lugar com que nunca sonhara: o de repórter do grande periódico onde trabalhavam alguns dos melhores jornalistas franceses, às ordens do chefe de redacção Bob Drumont.

Tintin 34 - 1959Ric Hochet viria também a tornar-se amigo e auxiliar (precioso, diga-se de passagem) do comissário de polícia Bourdon — cuja gentil sobrinha Nadine seria candidata a um lugar especial no seu coração — e a enfrentar formidáveis adversários, bandidos da pior espécie, com nomes sinistros como Le Bourreau (“O Carrasco”), e ligações, nalguns casos, a redes criminosas internacionais. Mas tudo isso só se tornaria realidade um pouco mais tarde, porque entretanto o jovem repórter passou fugazmente nas páginas do Tintin, onde viveu apenas algumas curtas peripécias, espaçadas no tempo (de 1955 a 1959) — como Enquete chez les “timbrés” e Ric Hochet contre l’Ombre, já com argumentos de André-Paul Duchâteau —, rodeado de campeões da popularidade como Tintin e Michel Vaillant, Blake e Mortimer, Pom e Teddy, Dan Cooper e Chick Bill.

Tintin 18 - 1954Esta última série era, aliás, a “coqueluche” de Tibet, o futuro criador de Ric Hochet, e uma das mais requisitadas pelos leitores da revista, que punham também no topo das suas preferências os heróis e os desenhadores de traços mais humorísticos. Tibet era já uma das vedetas do Tintin, embora ainda longe dos índices de popularidade que registaria com Ric Hochet. Poucos meses antes de dar vida ao jovem aspirante a repórter detective criou outra curta série, inti- tulada La Famille Petitoux, que o Cavaleiro Andante reproduziu nos nºs 132 e 149 (1954), com um nome menos estranho para os jovens lusitanos: A Família Castanheira.

Nessa época, meados dos anos 50, uma das décadas mais gloriosas no historial do popular semanário belga, Tibet tinha a cabeça cheia de projectos, mas o seu estilo de linhas quase caricaturais identificava-se sobretudo com a série que lhe abrira as portas do êxito, aquela em que figuravam o alegre cowboy Chick Bill e os seus patuscos companheiros Kid Ordinn, Dog Bull e Petit Caniche. Sintomaticamente, Tibet não quis que os traços fisionómicos da sua nova criação destoassem muito dos de Chick Bill, devido à similaridade de estilos, que só se alteraria quando Ric Hochet começou também a viver aventuras de longa duração, num registo mais realista e de acção mais trepidante, passando primeiro por uma curiosa fase de amadu- recimento, em moldes diferentes da BD. Veremos, muito em breve, como isso aconteceu…

Recordamos novamente que o jornal Público, em parceria com as Edições Asa, está a publicar uma colecção dedicada a Ric Hochet, que inclui vários álbuns inéditos em Portugal. Podem ler todas as notícias sobre essa colecção no blogue A Montra dos Livros.

O REGRESSO DE RIC HOCHET – 2

Ric Hochet - La Rafale 226

Na imagem que escolhemos para encabeçar esta página, extraída da história Mystère à Porquerolles, outra empolgante aventura de Ric Hochet, um jovem jornalista de investigação (como agora se diz), atraído pela solução dos casos mais bizarros e intrincados, vê-se uma panorâmica da redacção do jornal onde trabalha, o diário de grande tiragem La Rafale (em português, A Rajada, título que, aliás, figura no primeiro episódio desta série publicado em Portugal, uma curta história em que Ric Hochet não passa ainda de um pequeno vendedor de jornais com aspirações a detective).

Ric Hochet Tintin 21 - 1962 225Esse episódio, como já referimos num post anterior, foi dado à estampa pelo Cavaleiro Andante, pouco tempo depois da sua publicação original no Tintin belga, em 30 de Março de 1955. Mas, nessa altura, Tibet, o criador gráfico da série, estava ocupado com outras personagens e mal imaginava o destino que a evolução da figura de Ric Hochet e a empatia gerada com os leitores reservavam à sua nova e ainda incipiente criação.

Só anos depois, quando se aliou ao argumentista André-Paul Duchâteau, mestre em intrigas policiais do género das de Agatha Christie e de outros autores anglo-saxónicos, a série ganhou “asas”, abalançando-se a mais altos voos com histórias longas como Signé Caméleón, em que Ric Hochet enfrenta, pela primeira vez, um dos seus piores inimigos, o astucioso e tenaz Camaleão, empenhado numa implacável vendetta contra o comissário de polícia Bourdon, cuja Ric Hochet contra o Carrasco Bertrand 1sobrinha Nadine desempenha, desde os primeiros episódios, o papel de “noiva eterna” do intrépido jornalista.

Neste post apresentamos, como curiosidade, uma capa do Tintin belga alusiva à aventura já citada, Mystère à Porquerolles (3º episódio na cronologia de Ric Hochet), que em Portugal foi reproduzida na revista Zorro, com o título “O Caso dos Quadros Roubados”.

A popularidade crescente de Ric Hochet, aliada ao êxito da literatura policial no nosso país, foi um factor determinante na sua publicação em álbum, iniciada pela Livraria Bertrand em 1973, com o episódio “Ric Hochet contra o Carrasco”, que agora está de novo nas bancas, integrado na colecção que o jornal Público e as Edições Asa em boa hora dedicaram a esta carismática personagem, recordando algumas das suas melhores aventuras, em grande parte inéditas em Portugal, e apresentando também o mais recente episódio da série, realizado por uma nova e talentosa dupla: o desenhador Zidrou e o argumentista Simon Van Leimt (ver post de 11/6/2015, sobre este álbum, no blogue A Montra dos Livros).

Ric Hochet - público 3

O REGRESSO DE RIC HOCHET – 1

Tibet, Duchateau e Ric Hochet

Ric Hochet (50 ans)Depois da Colecção Novela Gráfica, de tão boa (e ainda recente) memória, a BD regressa hoje ao jornal Público com uma nova série temática, em que figuram 12 aventuras de um dos mais carismáticos heróis da BD franco-belga, criado há 60 anos na revista Tintin por André-Paul Duchâteau e Tibet (aliás, Gilbert Gascard (1931-2010), nome de baptismo que não passou à história, pelo menos entre os fãs de Ric Hochet).      

Largamente divulgada também em Portugal, embora sem regularidade e numa proporção muito inferior à dos episódios  publicados na versãoRic Hochet (álbuns) francófona, que deram origem a mais de 80 álbuns (de publicação anual ininterrupta até 2010!), a série estreou-se entre nós no Cavaleiro Andante nº 183, de 2 de Julho de 1955, com um episódio completo de quatro páginas em que Ric Hochet se metamorfoseou num adolescente português chamado João Nuno, por força de um hábito que se generalizara na maioria das nossas revistas de BD, apostadas em nacionalizar o nome dos seus principais personagens. A censura, é claro, também contribuiu para isso…Ric Hochet CA 183 204

Registe-se, como efe- méride, que a primei- ra entrada em cena deste juvenil herói — na figura de um ardina bem vestido (ao contrário dos que se viam, nessa época, pelas ruas de Lisboa), e ainda com os traços caricaturais que eram típicos do estilo de Tibet, nos primeiros anos da sua carreira — teve lugar em 30 de Março de 1955, no nº 13 (10º ano) do Tintin belga, precisamente com o curto episódio que o Cavaleiro Andante não tardaria a reproduzir, embora com outro título na ilustração de capa.

Só meses depois, no nº 5 (11º ano), de 1 de Fevereiro de 1956, Ric Hochet reapareceu noutra história curta, já com um aspecto diferente, mais velho e promovido a repórter do periódico La Rafale, onde continuou a somar proezas detectivescas aos casos jornalísticos.

Tintin 13 e 5

Mas, nessa altura, tanto Tibet como Duchâteau estavam ainda muito longe de planear um futuro radioso e cheio de aventuras para o seu juvenil herói, de espírito arguto e destemido como o dos mais célebres detectives… Ric Hochet album ca 103embora já tivessem consciência, certamente, do seu grande potencial. Esse futuro acabaria por guindar os três ao topo da fama nas páginas do Tintin, onde Ric Hochet — depois do seu primeiro caso policial de “longa metragem”, com o título “Signé Caméléon” (1961), estreado entre nós num Álbum do Cavaleiro Andante — foi, durante muitos anos, um imbatível campeão de popularidade, classificando-se sempre em primeiro lugar nos inquéritos realizados às preferências dos leitores.

A propósito do título da presente colecção: “Os Ric Hochet Zorro 156Piores Inimigos de Ric Hochet”, deve- mos recordar que o Camaleão teve a primazia, desafiando o repórter detective (e o seu amigo Inspector Bourdon) no citado episódio de estreia e voltando ao ataque em L’Ombre de Caméléon (1964), aventura que os leitores portugueses puderam apreciar no Zorro, sucessor do Cavaleiro Andante.

Reproduzimos seguidamente o texto de apresentação inserido no Público de 29 de Maio p.p., referente ao álbum com que se inicia esta colectânea, uma aventura inédita de Ric Hochet (onde o Camaleão reaparece em grande estilo!), assinada pela dupla que assegurou a continuidade da herança artística de Tibet e Duchâteau, cinco anos depois do desaparecimento do primeiro e da publicação do penúltimo álbum da série.

Ric Hochet público - 1