O ANIVERSÁRIO DOS ESTRUMPFES

Artigo publicado no Notícias Magazine, suplemento dominical do Diário de Notícias (edição de 22 de Outubro p.p.), de onde o reproduzimos, com  a devida vénia.

POSTAIS ILUSTRADOS – 17

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Aqui estão, a fechar o ano de 2016 — em que este blogue conseguiu cumprir mais uma etapa do seu programa, a caminho do 4º aniversário, apesar de ter visto crescer a Loja de Papel a que pertence —, os últimos postais desta série, ilustrados por dois grandes nomes da BD portuguesa, cada um dentro do seu género. Se Júlio Gil adoptou um estilo de figuração narrativa, próximo da BD e da ilustração, Carlos Roque, desenhador humorístico por excelência, preferiu o cartoon, condensando as ideias do mote — isto é, as qualidades de rapazes e raparigas, segundo os meses de nascimento — numa única imagem (ou “boneco”, como espirituosamente chamava aos seus desenhos).

O resultado, em qualquer dos casos, é excelente e estas colecções de postais que a Pórtico editou nos anos 1960 primam pela originalidade, pela fantasia, pelo colorido e pelo traço de dois ilustradores que se distinguiram nas páginas de uma publicação da Mocidade Portuguesa, o Camarada, seguindo depois outros caminhos, marcados por ideais políticos diferentes. Pois, se Júlio Gil foi sempre um artista do regime, fiel às orientações do Estado Novo (o que não invalida nenhum dos seus méritos profissionais), Carlos Roque optou pela emigração e fixou residência em Bruxelas, trabalhando para revistas como o Tintin e o Spirou, em ambiente mais democrático…

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CARLOS ROQUE: DEZ ANOS DE MÁGOA E DE SAUDADE

Carlos Roque retrato copy

Artigo de Carlos Pessoa publicado no jornal Público, de 1/8/2006. Carlos Santos Roque nasceu em Lisboa, em 12/4/1936, e faleceu na Bélgica, em 27/7/2006.

Páginas de Carlos Roque publicadas originalmente no Tintin e no Spirou (cortesia do BDBD, blogue orientado por Carlos Rico e Luiz Beira).

HOMENAGEM EM MOURA A JOSEPH GILLAIN (JIJÉ)

Autoretrato de Jijé    803Em 19 de Junho de 1980, com 66 anos, morreu Joseph Gillain (mais conhecido por Jijé), um dos maiores expoentes da BD europeia, mestre de mestres como Gir, Hermann, Derib, Franz, Mezières, Chaland e muitos outros. A influência de Jijé foi imensa e imensos foram também os seus talentos: além de desenhar, pintava magnificamente, esculpia quase por instinto, fazia obras de cerâmica e joalharia, e tinha uma bizarra e ilimitada capacidade inventiva.

O seu método, que repetia invaria- velmente aos que o procuravam para aprender, era baseado numa ideia mestra: “desenhem sem olhar para o papel”. Para não cair na rotina, incitava também os seus discípulos a desenhar com a mão esquerda, desafiando-os assim a testarem as suas próprias capacidades, numa busca constante de novos efeitos e novas técnicas.

Cavaleiro Andante 254Alma e inspirador da equipa que, no pós-guerra, operou o renascimento do jornal Spirou, criando a famosa “escola de Marcinelle”, um dos pilares da BD franco- -belga, foi devido ao seu papel de pioneiro, amigo, conselheiro e guia que os sobre- viventes dessa velha guarda (Franquin, Will, Peyo, Roba, Delporte) se reuniram na redacção da revista, no próprio dia da sua morte, juntamente com Carlos Roque, Degotte, Arnaud e Alain, para lhe prestarem uma última e sentida homenagem.

Outra homenagem igualmente significativa irá decorrer na cidade de Moura, entre os dias 24 de Junho e 21 de Julho, celebrando o primeiro centenário do seu nascimento e a variedade e riqueza da sua vasta obra, conhecida em Portugal desde meados dos anos 50, graças a consagradas revistas juvenis como Cavaleiro Andante, Foguetão, Zorro, Mundo de Aventuras, Tintin e Spirou — sem contar com os álbuns e suplementos de jornais (vd. Nau Catrineta), que difundiram também algumas das suas magistrais criações.

Cartaz JijéConvite Jijé

Com o patrocínio da Câmara Municipal daquela bela cidade alentejana e de outras entidades, entre as quais o Gicav – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, será inaugurada amanhã, no Espaço Inovinter, uma exposição constituída por 16 painéis, recheados de personagens e séries memoráveis como Jerry Spring, Blondin e Cirage, Spirou e Fantasio, Tanguy e Laverdure, Jean Valhardi, Baden Powell ou Barbe Rouge (que podem ser vistas neste vídeo promocional, realizado pelos organizadores do evento:

Após o seu encerramento, esta mostra, comissariada por Luiz Beira, assumido e entusiástico admirador da obra e do talento de Jijé (tal como Carlos Rico, um dos principais elementos da organização), transitará para Viseu, onde estará patente ao público em data e local a anunciar oportunamente pelo Gicav.

Jijé - Le Spirou de 1944

OS REIS DO RISO – 5

OS PIGMEUS E O PAPAGAIO… OU UM NÁUFRAGO SOLITÁRIO QUE PERDEU AS CHAVES AO REGRESSAR A CASA

Max (Spirou)Uma das séries mais divertidas e originais da BD europeia é, sem dúvida, Max, o Explorador (Max l’Explorateur), criada por Guy Bara, em meados dos anos 50, nas páginas dos jornais France-Soir e Le Soir, e que posteriormente apareceu em revistas de BD como o Tintin e o Spirou. Durante alguns anos, Bara explorou com êxito a fórmula dos gags numa única página, a exemplo de outras séries mediáticas, mas trilhando sempre caminhos inovadores e de fecunda inspiração. Para o Spirou chegou a realizar, em 1964 e 1965, duas histórias à suivre, que saíram em álbum com os títulos Max et le Triangle Noir e L’Orteil de Vichnou.

Publicada também no Tintin português, a série não passou despercebida aos apreciadores do humor com uma pitada de non-sense e uns grãos de surrealismo, na melhor tradição da escola inglesa, de que Bara foi um discípulo directo e um incondicional admirador.

Max (Tintin)No meu caso, sempre tive especial predilecção por esta série, pelo estilo linear e eficaz de Bara, pelo seu burlesco sentido de humor, pelo exemplar domínio da farsa (quase) sem palavras, em que usava magistralmente balões icónicos e onomatopeias, e sobretudo pelo seu pitoresco personagem, que lembra, sob vários prismas, a figura de um “rei” da pantomina, na época dourada do cinema mudo: Buster Keaton, o inimitável Pamplinas, como era conhecido em Portugal e noutras partes do mundo.

As páginas que hoje apresentamos, extraídas de vários números do “nosso” Tintin, são um bom exemplo da linguagem mímica (e minimalista) de Bara, um autor completo que soube criar um herói diferente, numa escola humorística tão rica e singular como a franco-belga, compondo uma original comédia de aventuras recheada de bizarras peripécias, em lugares exóticos onde Max põe à prova o seu espírito de explorador, sem nunca perder a típica fleuma.

Max 1Max 2Max 3

 

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 1

A DESCOBERTA DA ILHA DA PÁSCOA

(por YVES DUVAL e RENÉ FOLLET)

Há muito que tínhamos vontade de incluir no Gato Alfarrabista uma rubrica deste género, sob a forma de histórias curtas de BD, em que os temas abordados, de cunho histórico, didáctico e biográfico, têm a assinatura de alguns dos melhores colaboradores artísticos e literários de duas emblemáticas revistas europeias: o Tintin e o Spirou — como, por exemplo, Jean-Michel Charlier, Octave Joly e Yves Duval (argumentistas), Victor Hubinon, Eddy Paape, Jean Graton, Albert Weinberg, Fred Funcken, Édouard Aidans, François Crahenhals, Fernand Cheneval e René Follet, entre outros.

René FolletEste último, um dos mais jovens e brilhantes elementos dessas selectas equipas — que ainda hoje, aos 83 anos, se mantém em actividade, com o mesmo traço desenvolto e elegante e um extraordinário domínio do preto e branco e da cor —, ilustrou o episódio que seguidamente apresentamos, com textos de Yves Duval, relatando a descoberta da famosa Ilha da Páscoa, na Polinésia, cujas misteriosas estátuas de pedra ainda hoje intrigam historiadores, antropólogos e arqueólogos, incapazes de encontrar respostas satisfatórias para a primeira questão que acudiu ao espírito dos navegantes, quando chegaram a terra: como teriam surgido numa ilha tão solitária, quase despovoada na altura do seu desco- brimento, aqueles insólitos e monumentais vestígios de um culto desconhecido?

Estátuas Ilha da Páscoa - 2A ilha, no dialecto dos indígenas, chamava-se Rapa Nui (Ilha Grande) e foi descoberta acidentalmente, em 5 de Abril de 1722, domingo de Páscoa, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen, cujo nome hoje poucos recordam. É claro que o seu achado não mudou a história do mundo, mas contribuiu para alterar a noção que muitos europeus, no século XVIII, ainda dele tinham, cobrindo com mais um enigmático véu a origem de algumas culturas do hemisfério sul, engolidas pela voragem do tempo e pelas calamidades provocadas pelo homem. Embora as teorias mais comuns sejam a de que os primitivos habitantes de Rapa Nui eram oriundos da Nova Guiné, como os seus antepassados que viviam nas ilhas Fiji, Samoa e Tonga, e de que a colonização da ilha teve inicio entre 600 e 800 d.C.

Estátuas Moais (Ilha da Páscoa)Hoje, com cerca de 4.000 residentes, cuja vida árdua pouco mudou com os benefícios do turismo e da civilização, a mítica e inóspita ilha de solo vulcânico, exposta às tempestades e aos ventos agrestes do Pacífico sul, pertence à República do Chile, distante dela 3.500 km.

 Património mundial da Unesco, graças às suas estranhas estátuas chamadas Moais, a fantástica Ilha da Páscoa continua a desafiar a curiosidade dos que sonham com mistérios e civilizações desaparecidas.

Praia de Anakena (Ilha da Páscoa)

Resta acrescentar que este breve episódio desenhado por René Follet — e que faz parte, como já referimos, da série de histoires vraies que, em dada altura (anos 50), começaram a aparecer no Tintin e no Spirou, com propósitos nitidamente didácticos, para combater uma corrente de opinião e uma censura cada vez mais hostis contra os alegados “defeitos” (leia-se “má influência”) da banda desenhada —, foi publicado no Tintin nº 14 (10º ano), de 6/4/1955, e surgiu também em Portugal, a primeira vez no Álbum do Cavaleiro Andante nº 15 (Agosto de 1955), e a segunda nas Selecções BD nº 22 (Agosto de 2000).

Cabeçalho francês

Se bem repararem, na versão original, cuja primeira tira reproduzimos acima, a vinheta de abertura foi suprimida, para encaixar o título e os nomes dos autores; mas ela está presente nas duas publicações portuguesas, o que obviamente só as valoriza.

Ilha de Páscoa - 1 e 2

Ilha de Páscoa - 3  e 4

AS QUATRO ESTAÇÕES – 3

PÁSCOA FELIZ

Tintin 14 Páscoa

Tintin nº 14, de 6 de Abril de 1955

Como já estamos na semana da Páscoa, aqui têm outra capa do Tintin belga com o traço inconfundível de Raymond Macherot e os seus bucólicos cenários campestres, onde à natureza festiva se associam as pequenas criaturas que mais nenhum desenhador europeu soube retratar com tanta beleza e graciosidade.

Trânsfuga do Tintin, que lhe negou melhores condições de trabalho, Macherot foi prosseguir a sua carreira no Spirou, onde pôde com mais desafogo dar livre curso à sua veia lírica e ao seu amor pelos pequenos habitantes da natureza, cujas amáveis (ou sinistras) “caricaturas” deliciaram milhares de leitores.

ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 3

“O SONHO DO COLECCIONADOR”

(por CARLOS ROQUE)

Mais um original de Carlos Roque apresentado no nosso blogue — este absolutamente inédito, pois foi-me oferecido como prenda de aniversário, em 22 de Março de 1994.

O talentoso artista e meu grande amigo, nessa altura de regresso a Bruxelas, onde continuava a colaborar esporadicamente no Spirou e noutras revistas belgas, enviou-mo pelo correio, com uma saborosa dedicatória parodiando a minha paixão de coleccionador. Ele, que se gabava de estar livre felizmente desse “vício”, acabou por ser vítima de outro, que nunca largou até morrer: o do tabaco…

Roque vs Magalhães575

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 4

FÁTIMA, TERRA ELEITA DE NOSSA SENHORA

Fátima - Notre-Dame de FatimaUm dos temas religiosos mais em foco na nossa história contemporânea e no seio da igreja católica — as aparições e os milagres de Fátima —, foi também objecto de muitas abordagens em álbuns e revistas de BD, de diversas procedências, merecendo especial relevo, pelo trabalho documental e artístico, a que foi dada à estampa, com texto de Agnès Richomme e desenhos do veterano Robert Rigot (1908-1998), na colecção das Editions Fleurus, Belles Histoires et Belles Vies, uma das mais célebres de temática religiosa em língua francesa.

Não é possível classificá-la, em rigor, como uma história aos quadradinhos, pois nessa colecção o texto tinha primazia sobre as imagens, que eram apenas quatro por página. No entanto, merece destaque a minúcia histórica do relato, com 164 vinhetas, e o apuro, a harmonia, a exactidão factual (até no retrato dos três pastorinhos) que caracterizam os desenhos de Robert Rigot, realçados pelos suaves tons em lavis. Segundo conseguimos apurar, a primeira edição deste álbum data de 1961.

Fátima - Notre-DAme de Fátima 1 e 2Fátima - Notre-Dame de Fatima - 3 e 4

Queremos também assinalar, pela sua novidade e raridade, algumas publicações de origem mexicana, entre as quais uma de produção mais recente (Abril de 2001), que ostenta o nº 66 da colecção Hombres y Héroes, da editorial Novedades, com capa de Francisco Samaniego e guião de Victor Manuel Yañez, realizado por um desenhador sem grandes credenciais, pelo menos por estas bandas, de seu nome Gregório Grande (note-se que o formato da revista até é bastante pequeno: 13 x 14,5 cms).

Notre-Dame de Fátima quadro

Fátima - Quien fuéNo México, país católico, o culto mariano também é seguido com devoção por milhões de fiéis, não sendo, pois, de admirar que tenhamos encontrado mais revistas, de várias editoras, com a história de Fátima, duas delas impressas a sépia, com argumento de Francisco Gurza e desenhos do mesmo artista, por sinal de bom nível, António Gutierrez, mas em colecções distintas: Biografias Selectas nº 127 (Abril de 1961), da Editorial Argumentos (Edar), e Quien Fue…? nºs 15 e 16 (Fevereiro de 1981), da Editorial Vid; a terceira, de aspecto mais modesto, com o selo da Editorial Pin-Pon, pertence à colecção Vidas Ejemplares y Milagros (nº 33, Maio de 1984) e tem guião de J. Santoyos e desenhos de Pedro Morales, cujos trabalhos também nunca chegaram ao continente europeu.

Fátima - Biografias Selectes capa e 1Fátima - Biografias Selectes 2 e 3Fátima - Vidas ejemplares - capa e 1

Noutro país, o Brasil, onde o catolicismo é a religião dominante, temos notícia de mais uma versão dos milagres de Fátima, publicada na revista Série Sagrada nº 2 (Outubro de 1953), da Ebal (Editora Brasil-América), com uma capa muito semelhante à da revista mexicana Quien Fue…?, mas não podemos fornecer mais pormenores sobre esta edição, porque nem o nosso gato conseguiu ainda encontrá-la cá em casa. A Ebal apresentou também a história dos pastorinhos, com uma capa diferente, na Série Sagrada Especial nº 1. Aqui ficam essas capas, retiradas do site guiaebal: http://guiaebal.com/index.htmlque recomendamos vivamente a todos os interessados pelas publicações desta antiga editora.

Série Sagrada nº 2 e especial (Ebal)jpg Segundo Leonardo De Sá, a quem agradecemos a “dica” e as imagens (fornecidas há mais de três anos!), a desaparecida Editorial Campo Verde, com gráfica própria na Venda Nova, publicou em 1978 um pequeno álbum sobre esta temática, intitulado “O Milagre de Fátima”, com desenhos do prometedor estreante Duarte Gravato. Milagre de Fátima capa e page

Fátima Pisca-PiscaMas as versões que mais despertaram o meu interesse, apesar do seu reduzido número de páginas — à parte, bem entendido, a de E.T. Coelho, cujo texto me coube escrever, publicada em1985 pela Editorial Futura e reeditada em 2001 pela Meribérica —, foram as que surgiram nas páginas de duas das mais importantes revistas europeias, o Tintin e o Spirou, com a assinatura de dois grandes mestres da BD belga: Eddy Paape (1920-2012) e Fernand Cheneval (1918-1991). Enquanto que a primeira, “Le Soleil Danse à Fatima”, é ainda inédita entre nós, a segunda, “Fátima, Terre Élue de Notre-Dame”, com o sóbrio e esmerado traço de Cheneval — outro artista que se especializou no domínio das histórias curtas com temas documentais e didácticos —, foi publicada duas vezes em português, por intermédio do Pisca-Pisca nº 15 (Maio de 1969) e do Mundo de Aventuras nº 448, de 13-5-1982 (neste a preto e branco, com uma capa alegórica de Augusto Trigo).

Aqui têm ambas, nas respectivas versões integrais em francês, oriundas do Spirou nº 1252 (12-4-1962) e do Tintin nº 43, 18º ano (22-10-1963). Os argumentos, pela mesma ordem, são de Octave Joly e Yves Duval, nomes tão ilustres no meio bedéfilo franco-belga como os dos seus colaboradores artísticos. Resta ao nosso gato desejar a todos boa leitura!

Nota: um artigo muito interessante, com informações complementares sobre este tema, pode (e deve) ser lido no blogue BDBD:  http://bloguedebd.blogspot.pt

Fátima - Paape - 1 e 2Fátima - Paape - 3 e 4Fátima - Cheneval - 1 e 2Fátima - Cheneval - 3