RELENDO “A BALADA DO MAR SALGADO” COMO INTRÓITO ÀS NOVAS AVENTURAS DE CORTO MALTESE

Texto de Jorge Magalhães, publicado em Selecções BD (2ª série) nº 6, Abril 1999. Refira-se a este propósito a excelente reedição de “A Balada do Mar Salgado”, com o selo da Arte de Autor, que surgiu nos escaparates em Junho deste ano, recuperando o prefácio da edição de 1991, assinado por Umberto Eco. Uma boa leitura de férias!   

“Sou o Oceano Pacífico e sou o Maior. É assim que me chamam há já muito tempo, embora não seja verdade que eu seja sempre pacífico”. É com esta frase que começa “A Balada do Mar Salgado”, a história em que surge pela primeira vez Corto Maltese, personagem considerada por muitos a maior criação de Hugo Pratt e que nasceu na revista italiana Sgt. Kirk, a 10 de Julho de 1967, comemorando, portanto, 50 anos em 2017.

Para os nostálgicos de Corto Maltese e para os (raros) leitores que ainda não se aventuraram no seu fascinante universo, recomendamos também outro álbum da Arte de Autor com as novas aventuras do “marinheiro das sete partidas”, recriadas magistral- mente por dois autores espanhóis: Rubén Pellejero e Juan Díaz Canales.

Resumo: Acabado de chegar ao Panamá, acompanhado por Rasputine, Corto Maltese está novamente de partida! O destino é São Francisco e a sua Exposição Internacional, onde espera encontrar um amigo de longa data, o escritor Jack London. Em troca de lhe fazer chegar uma carta, London promete a Corto uma nova aventura… e um misterioso tesouro! Corto Maltese inicia assim um longo périplo pelas vastas extensões geladas do Grande Norte, numa viagem pautada por inúmeros perigos e ameaças. Porque, sob o sol da meia-noite, há outros predadores que rondam para além dos lobos e dos ursos…

Criada graficamente por Rubén Pellejero, com um traço muito semelhante ao de Hugo Pratt, e com argumento de Juan Díaz Canales, esta obra, cuja acção decorre no Alaska em 1915, é a primeira história de Corto Maltese escrita sem a participação do mestre veneziano e foi inicialmente publicada em França, em Setembro de 2015.

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CITAÇÃO DO MÊS – 29

EDUARDO TEIXEIRA COELHO

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«Geralmente eu aparecia com as páginas prontas e umas notas a lápis debaixo de cada boneco, e a partir dali ele [Raul Correia] escrevia. Sempre foi assim em todas as histórias. E era simples. Naturalmente, às vezes dizia-lhe o que pensava fazer».

 (Excerto de uma entrevista publicada em Selecções BD nº 1, 2ª série, Novembro de 1998, a primeira que E. T. Coelho concedeu a uma revista portuguesa).

A PRIMEIRA AVENTURA DO MAJOR ALVEGA

Como já foi largamente noticiado, a mini-série de banda desenhada clássica dos anos 60 e 70 inserida na revista Visão iniciou-se com uma aventura do popularíssimo Major Alvega (aliás, Battler Britton), publicada no semanário juvenil O Falcão nº 577, em 17/8/1971, e reeditada anos depois no nº 1247 da mesma revista.

Esta dinâmica série inglesa, nascida em 7/1/1956 na revista Sun, com desenhos de Geoff Campion e guiões de Mike Butterworth (a que se seguiriam muitos outros criadores, de várias nacionalidades), fez também dezenas de aparições em episódios mais longos publicados em revistas de formato de bolso que granjearam, na época, grande sucesso: War Picture Library, Thriller Picture Library e Air Ace Picture Library, todas com o selo da Amalgamated Press/Fleetway/IPC, editora de antigas tradições localizada em Londres.

Falcão 371 - Major Alvega 175O formato e o número de páginas d’O Falcão (2ª série) eram idênticos aos dessas revistas de bolso, embora não constituíssem uma novidade no nosso mercado, pois algumas publicações da Agência Portuguesa de Revistas (APR) já o tinham adoptado muito antes. Mas O Falcão soube rechear as páginas da sua nova série com o melhor material e os mais célebres heróis oriundos das Picture Libraries, dividindo essas histórias em várias séries que abarcavam tanto o western, o policial, a ficção científica e o género histórico, como as aventuras de guerra e espionagem. 

Nestas foi o Major Alvega (assim baptizado pelo editor da revista, Mário do Rosário, num momento de feliz inspiração) que se destacou como grande favorito, permanecendo em contacto com os leitores até ao penúltimo número (1285) de um título que durou cerca de 30 anos, fazendo durante esse período acesa concorrência ao veterano Mundo de Aventuras.

Viusão - Falcão 577 170Tamanha foi a celebridade que o “ás” da RAF alcançou no nosso país que até deu origem, como é sabido, a uma série da RTP (1998-1999) interpretada por actores portugueses e de formato bastante original, pois misturava imagens reais com cenas de animação computorizada. O resultado foi mais do que satisfa- tório e o êxito da série chegou mesmo a transpor as fronteiras da RTP, que a vendeu para vários países.

Em 1989, o Major Alvega fez uma breve reaparição nas páginas da revista mensal Selecções BD (2ª série), que publicou dois dos primeiros episódios desenhados por Geoff Campion, num exímio estilo realista que dava grande dinamismo à acção bélica da série. A título de curiosidade, reproduzimos um deles (que é precisamente o primeiro de um longo rosário de aventuras) e o artigo de apresentação, da autoria de Carlos Pessoa, ambos publicados no nº 2 (Dezembro de 1998) de Selecções BD (coordenada, então, por mim).

Registe-se também a espectacular “ressurreição” de Battler Britton numa graphic novel editada em 2006 pela DC Comics, com argumento de Garth Ennis e desenhos de Colin Wilson, que chegou a ser publicada em Portugal.  

Selecção BD Major Alvega artigo

Num próximo post dedicado ao Major Alvega, divulgaremos uma lista dos seus episódios publicados n’O Falcão, em que se destacam desenhadores da craveira de Colin Merret, Solano Lopez, José Ortiz, Luis Bermejo e Hugo Pratt, entre muitos outros. A propósito, o episódio agora incluído na mini-série da Visão (que o reeditou em fac-simile, mas num formato maior que o das versões originais e num papel de má qualidade, demasiado transparente) foi desenhado pelo artista britânico George Stokes, criador de uma excelente série western largamente difundida no Mundo de Aventuras e noutras publicações de há 40/50 anos: Wes  Slade. Muitos leitores desse tempo talvez ainda se lembrem dela.

E aqui têm o 1º episódio das aventuras do famoso Major Alvega (aliás, Battler Briton).

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OS REIS DO RISO – 6

ESTROMPA – O HUMOR À FLOR DA PELE

ESTROMPA photo 920Este mês ficou assinalado pelo brusco desaparecimento de outra notável figura da BD portuguesa, um dos mais singulares humoristas da sua geração, mas de carreira tão discreta como a sua própria personalidade, que — apesar da formação que obteve na Escola António Arroio — procurou seguir novos rumos, fazendo a ponte entre um certo classicismo (de inspiração tradicional) e um conceito mais vanguardista, fortemente marcado pelo estilo underground que caracterizou indelevelmente o seu traço.

Tive o prazer de trabalhar com Estrompa, em perfeita sintonia, nalguns projectos de que guardo boa memória, como O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura (1984-86) — onde ele animou a rubrica Clássicos & Desintegrados —, as Selecções BD (2ª série), da Meribérica/Liber (1998-2001), e o livro de homenagem a Vasco Granja, “Uma Vida… 1000 Imagens”, editado pela Asa em 2003. Durante uma relação de amizade encetada muitos anos antes, sempre admirei o seu profissionalismo, o seu sentido de humor, a sua franqueza, a sua honestidade, o seu respeito pelo próximo, a sua inata simplicidade.

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Esta foi também a faceta mais marcante do seu carácter, distinguindo-o de outros autores do seu tempo que tiveram carreira pública mais notória, não porque o excedessem em mérito e brio profissional, mas porque quiseram estar na primeira linha, enquanto que ele sempre se remeteu a um obscuro e modesto recolhimento, embora atravessado por Shock fanzine 28 (Estrompa)alguns flashes de brilhante inspiração, como denota o seu trabalho gráfico nalguns fanzines (Shock, Banda, CafénoPark), e sobretudo a mais emblemática das suas criações: uma série policial recheada de humor negro, com as confidências, bem apimentadas de sexo, anarquia e violência, de um satírico (e sátiro) anti-herói conhecido pela alcunha de Tornado.

Nas Selecções BD, onde esta série fez uma breve reaparição (nº 9, Julho 1999), enquadrada por um exce- lente estudo de Geraldes Lino, Estrompa realizou também alguns trabalhos dignos de nota (mas a cores, registo pouco comum no seu currículo), cujo mote obedecia a uma regra simples: a apresentação do sumário em jeito de cartoon, numa dupla tira, com tema livre. Tarefa em que ele se sentiu como peixe na água, rivalizando com outros autores que também se encarregaram desse espaço criativo e de síntese gráfica, muito apreciado pelos leitores da revista.

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Como preito à sua memória e ao seu talento artístico, num género em que se cotou como um dos melhores humoristas da sua geração, tanto pelo estilo inconfundível como pela prosa vernácula, sem “meias tintas” — que nascia espontaneamente do seu espírito anti-conformista, despido de preconceitos moralistas, do seu olhar singelo e, ao mesmo tempo, límpido e maduro, capaz de transformar a realidade urbana numa crónica brejeira de costumes, matizada de comédia policial —, aqui ficam também dois sumários a cores que a Selecções BD apresentou nos nºs 28 e 29 (2001), e o episódio de Tornado 1989 (título completo da série) publicado no nº 9 da mesma revista.

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FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 1

A DESCOBERTA DA ILHA DA PÁSCOA

(por YVES DUVAL e RENÉ FOLLET)

Há muito que tínhamos vontade de incluir no Gato Alfarrabista uma rubrica deste género, sob a forma de histórias curtas de BD, em que os temas abordados, de cunho histórico, didáctico e biográfico, têm a assinatura de alguns dos melhores colaboradores artísticos e literários de duas emblemáticas revistas europeias: o Tintin e o Spirou — como, por exemplo, Jean-Michel Charlier, Octave Joly e Yves Duval (argumentistas), Victor Hubinon, Eddy Paape, Jean Graton, Albert Weinberg, Fred Funcken, Édouard Aidans, François Crahenhals, Fernand Cheneval e René Follet, entre outros.

René FolletEste último, um dos mais jovens e brilhantes elementos dessas selectas equipas — que ainda hoje, aos 83 anos, se mantém em actividade, com o mesmo traço desenvolto e elegante e um extraordinário domínio do preto e branco e da cor —, ilustrou o episódio que seguidamente apresentamos, com textos de Yves Duval, relatando a descoberta da famosa Ilha da Páscoa, na Polinésia, cujas misteriosas estátuas de pedra ainda hoje intrigam historiadores, antropólogos e arqueólogos, incapazes de encontrar respostas satisfatórias para a primeira questão que acudiu ao espírito dos navegantes, quando chegaram a terra: como teriam surgido numa ilha tão solitária, quase despovoada na altura do seu desco- brimento, aqueles insólitos e monumentais vestígios de um culto desconhecido?

Estátuas Ilha da Páscoa - 2A ilha, no dialecto dos indígenas, chamava-se Rapa Nui (Ilha Grande) e foi descoberta acidentalmente, em 5 de Abril de 1722, domingo de Páscoa, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen, cujo nome hoje poucos recordam. É claro que o seu achado não mudou a história do mundo, mas contribuiu para alterar a noção que muitos europeus, no século XVIII, ainda dele tinham, cobrindo com mais um enigmático véu a origem de algumas culturas do hemisfério sul, engolidas pela voragem do tempo e pelas calamidades provocadas pelo homem. Embora as teorias mais comuns sejam a de que os primitivos habitantes de Rapa Nui eram oriundos da Nova Guiné, como os seus antepassados que viviam nas ilhas Fiji, Samoa e Tonga, e de que a colonização da ilha teve inicio entre 600 e 800 d.C.

Estátuas Moais (Ilha da Páscoa)Hoje, com cerca de 4.000 residentes, cuja vida árdua pouco mudou com os benefícios do turismo e da civilização, a mítica e inóspita ilha de solo vulcânico, exposta às tempestades e aos ventos agrestes do Pacífico sul, pertence à República do Chile, distante dela 3.500 km.

 Património mundial da Unesco, graças às suas estranhas estátuas chamadas Moais, a fantástica Ilha da Páscoa continua a desafiar a curiosidade dos que sonham com mistérios e civilizações desaparecidas.

Praia de Anakena (Ilha da Páscoa)

Resta acrescentar que este breve episódio desenhado por René Follet — e que faz parte, como já referimos, da série de histoires vraies que, em dada altura (anos 50), começaram a aparecer no Tintin e no Spirou, com propósitos nitidamente didácticos, para combater uma corrente de opinião e uma censura cada vez mais hostis contra os alegados “defeitos” (leia-se “má influência”) da banda desenhada —, foi publicado no Tintin nº 14 (10º ano), de 6/4/1955, e surgiu também em Portugal, a primeira vez no Álbum do Cavaleiro Andante nº 15 (Agosto de 1955), e a segunda nas Selecções BD nº 22 (Agosto de 2000).

Cabeçalho francês

Se bem repararem, na versão original, cuja primeira tira reproduzimos acima, a vinheta de abertura foi suprimida, para encaixar o título e os nomes dos autores; mas ela está presente nas duas publicações portuguesas, o que obviamente só as valoriza.

Ilha de Páscoa - 1 e 2

Ilha de Páscoa - 3  e 4

UM ANO DEPOIS…

1º ANIVERSÁRIO DO GATO ALFARRABISTA

Para celebrar o nosso 1º aniversário na blogosfera — corolário de 12 meses de regular actividade, que se saldou por um total de 152 posts (número ainda modesto, mas acima das previsões iniciais de um estreante nestas lides), com picos em Agosto e Dezembro, e mais de 20 000 visionamentos —, escolhemos um cartoon de Irene Trigo, jovem desenhadora de inegáveis méritos, embora com poucas obras publicadas, que herdou o talento artístico do seu ilustre progenitor Augusto Trigo.

Este cartoon foi reproduzido do nº 13 (Novembro de 1999) da revista Selecções BD (2ª série), onde serviu para apresentar o sumário, com legendas que nós agora modificámos, a pretexto desta efeméride. (Para ler o texto, basta clicar na imagem).

Anos Gato Alfarrabista

Na nova etapa que se abre à nossa frente, esperamos continuar a progredir no sentido de fazer deste blogue um dos que mais espaço e atenção dedicam ao valioso património literário e artístico com que muitos autores da época pioneira da BD portuguesa contribuíram para o prestígio e para a evolução da imprensa infanto-juvenil, das histórias aos quadradinhos, das artes gráficas e da cultura em geral.