O BOLETIM DO CPBD CONTINUA EM PUBLICAÇÃO

O Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) acaba de editar o nº 143 do seu Boletim, com data de Fevereiro de 2017, um dos fanzines mais antigos em publicação, não só em Portugal como em toda a Europa, e que pela sua qualidade e longevidade merece ombrear com os melhores (como, aliás, tem sido realçado por vários especialistas).

Neste número, dedicado ao Titã — uma revista de BD dos anos 1950, editada pela Fomento de Publicações em moldes inovadores, mas que não teve o sucesso esperado, devido à forte concorrência do Cavaleiro Andante e do Mundo de Aventuras —, destaca-se um excelente artigo sobre este tema, da autoria de Ricardo Leite Pinto, sobrinho do saudoso Roussado Pinto, incontornável pioneiro da “época de ouro” da BD portuguesa, que no Titã exerceu as funções de novelista/argumentista, redactor principal e, a breve trecho, director, depois de ter saído do Mundo de Aventuras e da Agência Portuguesa de Revistas.

No Titã colaboraram também alguns desenhadores portugueses, já nessa época com largo e invejável currículo, como Vítor Péon, José Garcês e José Ruy, devendo-se a Péon e ao seu traço dinâmico a capa do 1º número e a história “Circos em Luta”, cujo herói, criado por Edgar (Roussado Pinto) Caygill, se chamava nem mais nem menos… Titã!

Completa este número um artigo de Carlos Gonçalves sobre a magnífica arte de E.T. Coelho, com uma galeria de trabalhos deste grande desenhador para O Mosquito, que estiveram patentes, até há pouco tempo, numa exposição realizada pelo CPBD na sua nova sede.

As imagens reproduzidas neste post foram extraídas, com a devida vénia, do blogue Sítio dos Fanzines de Banda Desenhada, orientado por Geraldes Lino, cuja consulta recomendamos a todos os interessados por este aliciante tema que o mestre Lino conhece e aborda como poucos. Ou melhor dizendo, como ninguém!

Nota: nos nossos blogues A Montra dos Livros e O Voo d’O Mosquito podem ver também este post com mais imagens.

FANZINES DE JOSÉ PIRES (FEVEREIRO 2017)

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Por cortesia de José Pires, nosso amigo de longa data, companheiro de muitas tertúlias desde os tempos heróicos em que lançámos o Fandaventuras e o Fandwestern, dois fanzines que ainda estão em publicação, graças ao incansável labor deste apaixonado pela BD clássica, que os edita mensalmente, com infalível pontualidade (mas agora a solo), apresentamos as edições distribuídas em Fevereiro, com novos episódios de duas séries carismáticas (Matt Marriott Terry e os Piratas) e a reedição da primeira história desenhada pelo saudoso artista português Vítor Péon para a mítica revista O Mosquito, na sua estreia, em 1943, como autor de banda desenhada.

Neste número, figura também uma história curta de Péon, com o título “Traidor em Fuga”, realizada em 1946 para O Pluto, revista dirigida e editada por Roussado Pinto, em que Péon foi o principal colaborador artístico, ilustrando-a de uma ponta à outra, num alarde de talento, versatilidade e energia criativa.

Estes fanzines já se encontram à venda na Loja de José Manuel Vilela, Calçada do Duque, 19-A, 1200-155, Lisboa, mas podem também ser encomendados ao editor, por quem não mora na capital, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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Recorde-se que Terry e os Piratas foi apresentada na fase final d’O Mosquito (1952-53) e posteriormente no Mundo de Aventuras, quando era desenhada por George Wunder, sucessor de Milton Caniff. Quanto a Matt Marriott é uma série inglesa, também em tiras diárias, desenhada por Tony Weare e escrita por James Edgar, que aborda com extraordinário realismo a colonização do Oeste americano em finais do século XIX, distanciando-se dos westerns da série B, nomeadamente os de feição mais juvenil.

Muitos dos seus episódios foram publicados no Mundo de Aventuras (formato pequeno) e na Colecção Tigre, como o que deu o título a este número do Fandwestern.

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O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 2

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia publicada na página online do jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016 (2 de 2):

Domingo, 6 de Agosto de 1972 (12h30)

As primeiras notícias da corrida são pouco animadoras e já há apostadores desiludidos, pois registou-se um acidente, perto da Nazaré, que quase ia vitimando Mário do Rosário, o concorrente que, fazendo jus ao seu favoritismo, levava quase meia hora de avanço sobre o mais próximo perseguidor, José Baptista.

Um cão que apareceu, de repente, na estrada, diante do carro lançado a alta velocidade, fez Mário do Rosário perder o controle da viatura e embater num poste de iluminação, depois de ter rodopiado algumas dezenas de metros, sem capotar. O Volkswagen ficou muito danificado e o seu condutor, gravemente ferido, teve de ser levado para o hospital. Aguarda-se ainda o primeiro boletim médico. Mas a corrida prossegue, agora com mais hipóteses de vitória para José Baptista e a sua equipa feminina.

Outro boletim noticioso, que fez manchete na última página do jornal desse mesmo dia:

Última hora — O “Rally dos Quatro Magníficos”, como foi baptizada esta singular corrida organizada pelo Automóvel Clube de Portugal e patrocinada pelo nosso vespertino, em que os participantes são todos especialistas de banda desenhada, teve mais uma baixa. José Baptista, que substituíra o acidentado ás da velocidade Mário do Rosário no comando da prova, sofreu também um percalço, apesar de conduzir com mais segurança. Perto do quilómetro 350, a sua viatura despistou-se bruscamente, por razões desconhecidas, numa curva pouco apertada, e saiu da estrada, indo enfaixar-se numa grande meda de feno que alguns trabalhadores agrícolas removiam para dois tractores. Felizmente, nenhum deles foi colhido pelo espampanante “bólide” sem direcção.

Segundo estas testemunhas, o Buick onde seguiam José Baptista e as suas assistentes ficou totalmente coberto de feno. Só se ouviam gemidos… mas pareciam de prazer!

Ao que apurámos, estes concorrentes sofreram um choque emocional — assim como o carro, cujo motor se foi abaixo — e resolveram desistir da corrida, que termina hoje, em Bragança, já depois do fecho desta edição.

Segunda-feira, 7 de Agosto de 1972

Terminou em Bragança, como estava anunciado, o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova por etapas organizada pelo ACP, com o patrocínio do nosso jornal, que já ontem à tarde tinha ficado reduzida a dois concorrentes, Vasco Granja e Roussado Pinto, depois dos acidentes sofridos por Mário do Rosário (que continua internado, mas livre de perigo) e José Baptista, acompanhado pelas suas assistentes.

Vasco Granja, que parecia ter todas as condições para ganhar tranquilamente a corrida, pois já levava um grande avanço sobre o seu adversário — que não é adepto de grandes velocidades, como nos declarou, mantendo sempre uma média de 50 kms à hora —, foi obrigado a desistir por causa de três furos simultâneos! Um azar dos diabos (passe a expressão), provocado, segundo os juízes da corrida, por excesso de peso.

Como já referimos na nossa reportagem, este concorrente, que também é coleccionador de banda desenhada, nunca se separa dos seus álbuns favoritos, edições raras e preciosas avaliadas em muitas centenas de escudos, e transportava mais de 30 quilos de bagagem. Por esse motivo é que não pode viajar de avião! 

Desclassificado por “grave falha técnica” (parece que os juízes não gostaram do excesso de peso), viu chegar a Bragança, já de noite, o concorrente em quem ninguém apostou, dado o seu manifesto desinteresse pela corrida (mas não pela comida, pois levou consigo uma magnífica merenda, digna de Pantagruel, como se fosse para um piquenique). 

Foi, pois, Roussado Pinto o vencedor do “Rally dos Quatro Magníficos”, cometendo uma proeza que ficará para a história do automobilismo, com o recorde da mais baixa velocidade em corridas do género. O troféu ser-lhe-á entregue em Lisboa, numa cerimónia em que estarão presentes altas individualidades do desporto e do Automóvel Clube de Portugal. Segundo uma fonte do ACP, o Citroën 2CV que se cobriu de glória na corrida, sem sofrer o menor dano, será também exposto ao público, no próximo Salão Automóvel.

Quarta-feira, 9 de Agosto de 1972

Para remate da reportagem com que acompanhámos o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova que acabou com a inesperada vitória de Roussado Pinto — um concorrente que tinha afirmado, antes da partida, não ter pressa em chegar à meta —, fomos ontem de manhã ao Hospital de S. José, em Lisboa, onde está internado Mário do Rosário, devido ao grave acidente que sofreu logo no primeiro dia da corrida, quando já levava vantagem sobre os seus três adversários.

Uma perna e um braço partidos e outras contusões mais ligeiras vão obrigá-lo a permanecer no hospital durante algumas semanas, o que não parece incomodá-lo, pois mantém o seu ar descontraído, espalhando bom humor à sua volta, como se estivesse num hotel, rodeado de amigos. As enfermeiras que o digam…

Nessa mesma manhã, tinha recebido a visita dos seus ex-adversários e o encontro deixou-o visivelmente satisfeito.

Quando entrámos no quarto, onde era, de momento, o único enfermo, saudou-nos efusivamente, apesar dos membros engessados não lhe permitirem muitos movimentos, e logo nos pôs a par dos seus últimos planos:

— Os meus amigos… isto é, os meus rivais… estão fartos de gozar comigo por eu ter a mania das velocidades. Mas se não fosse aquele estúpido animal, tinha ganho a corrida… e com grande avanço! Já ninguém me apanhava!

Pelos vistos, não perdera a prosápia nem a auto-confiança, como confirmaram as palavras seguintes, em tom peremptório:

Já lhes disse que se preparem para a desforra! Estou aqui para as curvas! Sou campeão de vendas com o Falcão! E hei-de vencer a próxima corrida!

Registámos esta declaração triunfal no nosso bloco-notas e fizemos questão de observar:

— Falta aqui um dos seus amigos… o Major Alvega…

Mário do Rosário percebeu a nossa ironia, mas retorquiu imediatamente, com um sorriso melífluo estampado no rosto:

— Não falta, não senhor… Esse está sempre ao meu lado!

E mostrou-nos uma mão-cheia de exemplares d’O Falcão, com histórias do Major Alvega, que tinha em cima da mesa dos medicamentos, ao pé da cama.

— Apesar do meu acidente, o Major Alvega continuará a voar, para deleite dos seus milhares de admiradores! Comigo, o trabalho está sempre adiantado…

Não temos pejo em confessar, amigo leitor, que esta foi uma das reportagens mais singulares que já realizámos em toda a nossa carreira jornalística. E admitimos também que nunca encontraremos, com toda a certeza, outra personalidade tão pitoresca como Mário do Rosário, que faz gala em afirmar que aprendeu com o Major Alvega a ser destemido como os pilotos da RAF, heróis da Segunda Guerra Mundial!

Um homem que, fiel a um dos seus nomes de baptismo (Durão), professa altivamente o lema “Dos fracos não reza a História”!

Nota final — Alguns leitores manifestaram a sua curiosidade sobre o nome desta corrida, criado também pelo Automóvel Clube de Portugal. Pois fiquem sabendo que os “quatro magníficos” não eram os concorrentes — embora bastante apreciados na sua área profissional —, mas as míticas viaturas que tiveram o prazer de conduzir… infelizmente com resultados desastrosos para alguns deles!

FIM da reportagem (e do conto) 

Repórter anónimo: Jorge Magalhães

 

O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 1

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia vinda a público no jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016:

«Vítima de doença incurável, faleceu ontem, com 89 anos, o antigo editor, publicista e técnico de meteorologia Mário Durão Ferreira do Rosário, cuja actividade editorial, entre 1960 e 1986, ficou indelevelmente ligada ao Grupo de Publicações Periódicas e a uma pequena revista de banda desenhada bastante popular durante esse período e que ainda hoje muitos leitores recordam: O Falcão.

Mário do Rosário retrato copyMário do Rosário, que foi o principal responsável da 2ª série, introduziu na revista inúmeros heróis de origem inglesa, entre os quais o famoso Battler Britton, “ás” da RAF e combatente da Segunda Guerra Mundial, a quem deu o nome de Major Alvega, que se tornou ainda mais célebre no nosso país —  uma espécie de instituição nacional, consagrada pela própria Força Aérea, que o adoptou como sua “mascote” na guerra colonial.

Mário do Rosário — que nunca viu esta medida com bons olhos, decidindo, por isso, em retaliação, “liquidar” o seu herói, cuja última aventura se intitulou simbolicamente “Os heróis também morrem” — foi, durante largos anos, funcionário do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, onde teve como companheiro de trabalho outro grande nome da BD portuguesa, o consagrado autor de narrativas históricas José Garcês.

Amigos e camaradas de profissão, assim como colaboradores de várias revistas de banda desenhada, como o Pim-Pam-Pum (suplemento do jornal O Século), o Jacto e O Falcão, eram quase da mesma idade e tinham amigos comuns, como o Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, então residente e a leccionar em Portalegre.

Viusão - Falcão 577 170Foi José Garcês quem nos informou do falecimento de Mário do Rosário, tendo ao mesmo tempo a amabilidade de nos recordar uma reportagem que publicámos neste jornal há 44 anos, a propósito de uma corrida que ficou célebre nos anais do automobilismo português, intitulada o “Rally dos Quatro Magníficos”, em que participaram Mário do Rosário e os seus “rivais” Vasco Granja, Roussado Pinto e José Baptista, representantes das principais revistas juvenis que então se publicavam em Portugal, além de O Falcão: o Tintin, o Jornal do Cuto e o Mundo de Aventuras (todas já extintas).

Como o tema não perdeu interesse, pois José Garcês contou-nos que Mário do Rosário, trabalhador super-activo, era também um ferrenho adepto do desporto automóvel — e partiu dele a ideia de desafiar os seus colegas para uma corrida de carros antigos, com mais de 20 anos de fabrico, cujos modelos e marcas seriam escolhidos pelos concorrentes —, fomos respigar essa reportagem aos nossos vastos arquivos, já totalmente digitalizados. E encontrámo-la sem dificuldade.

O anónimo repórter encarregado de cobrir o evento, que causou sensação pelo seu ineditismo entre os automobilistas portugueses e o público em geral, desempenhou-se bem da missão, como os nossos leitores poderão constatar através do curioso relato que transcrevemos na nossa página online».

Sábado, 5 de Agosto de 1972 – Dia da partida

Esta corrida, organizada pelo Automóvel Clube de Portugal (ACP), tem apenas quatro participantes, quatro “rivais” de natureza especial, que resolveram medir forças no terreno, aceitando o desafio de um deles, o director de uma revista juvenil chamada O Falcão. Os outros também são profissionais de banda desenhada, dirigindo revistas da concorrência: o Tintin, o Jornal do Cuto e o Mundo de Aventuras.

Que levou, afinal, estes quatro homens, com os nomes de Mário do Rosário, Vasco Granja, Roussado Pinto e José Baptista, representando cada uma daquelas revistas, a degladiarem-se num “rally” que percorrerá durante dois dias o centro e o norte do país, partindo da pitoresca localidade de Sintra, nos arrabaldes de Cascais?

Apenas o desejo de demonstrarem as suas habilidades desportivas, como condutores de automóveis — neste caso, autênticas relíquias do passado, pertencentes ao ACP, que as pôs ao dispor dos concorrentes —, ou algo mais? Embora nenhum deles quisesse satisfazer a nossa curiosidade e a do público que segue com grande interesse a corrida, desde os seus preparativos encetados há uma semana, parece-nos que o verdadeiro móbil desta curiosa competição é a rivalidade jornalística que mantêm há longos anos.               

Fomos entrevistá-los momentos antes do início da corrida. Nenhum quis ser fotografado, para evitar, segundo afirmaram, banhos de multidão, pois sabem que o nosso jornal tem uma grande tiragem, chegando a todos os distritos do país.

Eis o que nos disse Mário do Rosário, transbordante de entusiasmo e de confiança, passando a mão, numa carícia, pela carroçaria do seu Volkswagen Beetle de 1950 (uma versão primitiva do célebre “Carocha”, que ainda circula nas nossas estradas):

Tenho esperanças de ganhar e vou dar tudo por tudo, como o famoso Major Alvega, um às da velocidade criado por mim no Falcão.

— Mas esse é piloto da RAF…

— E eu sou um ás em terra… Já ganhei muitas gincanas, sempre ao volante de um Volkswagen!

A seguir interpelámos Roussado Pinto, que conduz um Citroën 2CV. Reparámos que levava no carro um cesto com um farnel bem aviado. As suas declarações deixaram-nos surpresos:

— Estou aqui porque gosto de viajar. Por isso, escolhi um 2CV… Que melhor oportunidade para gozar dois dias de férias?

— Então, não se importa de ficar em último lugar?

— Qualquer me serve… Eu só quero chegar ao fim da corrida e apreciar tranquilamente a paisagem! A vida são dois dias, meu amigo… Para quê ter pressa?

Vasco Granja foi o entrevistado seguinte. Sempre aprumado e bem vestido, com as suas espampanantes gravatas, recebeu-nos junto de um típico Fiat 500 Topolino. A parte traseira estava cheia de livros.

Não leva peso a mais? — perguntámos. Granja sorriu com jovialidade:

— São álbuns de BD, edições raras e preciosas, autografadas pelos seus autores… Hergé, Franquin, Jacobs… Acha que eu ia deixá-los em casa? E se a assaltassem na minha ausência?

— Então, leva sempre esses álbuns consigo?

— Para todo o lado, camarada… para todo o lado!

— Mas podem roubá-los noutro sítio… Na rua, no hotel…

— Só se me matarem!

Pelos vistos, Vasco Granja, o mais mediático dos concorrentes, por já ter sido preso pela PIDE, não nutre também ambições de vitória, pois pareceu-nos mais preocupado com a bagagem do que com a corrida.

Faltava-nos ouvir José Baptista, também conhecido pelo acrónimo de Jobat, que não desmentia o seu ar de galã, visto estar de braço dado com duas beldades de se lhes tirar o chapéu. O carro, um Buick Roadmaster descapotável, de 1950, cheio de cromados, é tão vistoso e de formas tão atraentes como elas. 

— Sempre em boa companhia, José Baptista! Estas meninas vieram dar-lhe apoio?

— São o meu co-piloto e o meu mecânico… É mais fácil ganhar em equipa!

— Mas assim está em vantagem sobre os outros concorrentes… que conduzem sozinhos.

— Isso é lá com eles! O regulamento do ACP não me proíbe de ter ajudantes…

Com um carro como o Buick e um duo de assistentes tão “competente”, é óbvio que José Baptista também apostou forte no triunfo, sendo o concorrente que Mário do Rosário verá mais vezes pelo seu retrovisor.

Daí a pouco, foi dado o sinal de partida e as quatro gloriosas relíquias automóveis rolaram nas verdejantes estradas de Sintra, entre vetustas mansões de aspecto senhorial, até se perderem na distância como sombras do passado.

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JOSÉ BATISTA: RETROSPECTIVA – 10

A HISTÓRIA DO “TRINCA-FORTES”

JOBAT - ANO DEPOISNum tempo em que se pensa pouco e em que se pretende (exactamente sem pensar) alterar tudo ou quase tudo, cada vez mais os valores do passado e as bases sobre as quais construímos a nossa formação se tornam indispensáveis para compreendermos o presente sem o desligarmos desses valores morais, culturais, sociais e espirituais que, às vezes, tendem actualmente a ser tão menosprezados.

Felizmente, a banda desenhada e outros passatempos lúdicos continuam a ser um suporte do passado, quando nos embrenhamos, por exemplo, na leitura dos clássicos, por onde flui a corrente do tempo, recheada de memórias, citações, alegorias e ensinamentos, conjugados com os valores artísticos de épocas e escolas que nunca deixarão de ser referências para os leitores de ontem, de hoje e de amanhã.

A obra de José Batista, talvez mais conhecido entre os bedéfilos pelo acrónimo de Jobat, é uma dessas referências, embora mais breve do que a de outros artistas que marcaram também o percurso da BD portuguesa — sem deixar, apesar disso, de se destacar pela qualidade do traço, da pesquisa, da expressão de valores históricos e culturais que, em grande medida, definem também a personalidade intelectual e artística de um homem ávido de saber, aliada ao seu culto da modéstia e ao seu fervor criativo, mesmo limitado pelo recolhimento a que, nos últimos anos, se votou na sua terra natal, Loulé.

jobat Cuto camões088Continuando a homenagear a memória de um Amigo com quem partilhámos muitos momentos inesquecíveis — depois de termos apresentado nesta retrospectiva os primeiros trabalhos que fez para o Mundo de Aventuras, nos finais dos anos 50, e para outras publicações da Agência Portuguesa de Revistas (da qual foi colaborador durante cerca de 20 anos) —, recordamos hoje, dia 10 de Junho, uma curta biografia de Camões (um dos seus temas favoritos) que concebeu para o Jornal do Cuto, quando ainda não era chefe de redacção desta revista, dirigida por Roussado Pinto. Pouco tempo depois, haveria de surpreender todos os seus fãs com uma obra de fôlego, quer em termos estéticos quer narrativos, que foi indiscutivelmente a sua coroa de glória, exaltando com eloquência a figura do nosso maior vate, símbolo épico da Pátria, como poucos o tinham feito, até então, no campo da banda desenhada.

A história de seis páginas que se segue — espécie de preâmbulo da obra majestosa que já germinava no seu espírito — foi publicada em 1972 no nº 49 do Jornal do Cuto, cuja capa (também da sua autoria) reproduzimos mais acima. E esse novo trabalho de José Batista, dedicado ao 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, parece ter gerado uma polémica que motivou o seu afastamento da APR (em conflito com a administração), empresa à qual dedicara o melhor do seu talento e da sua juventude. Mas isso é outra história…

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RECORDANDO O “MUNDO DE AVENTURAS”

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Mundo de Aventuras nº 5Celebra-se hoje uma das datas mais importantes da BD portuguesa, o nascimento há 66 anos do Mundo de Aventuras — “a primeira e única revista juvenil portuguesa em moldes essencialmente americanos, com as mais modernas e trepidantes aventuras, de palpitante interesse e dinamismo, escritas e desenhadas pelos nomes mais famosos da literatura [sic] do género, no novo continente” (como se pode ler na capa do seu nº 5, datado de 15 de Setembro de 1949). Curiosamente, o termo literatura era, nessa época, aplicado também às histórias aos quadradinhos.

O Mundo de Aventuras foi (e ainda é) uma das mais famosas publicações da nossa imprensa juvenil, que competiu ma-437-584com dois rivais de peso, o Diabrete e O Mosquito, na altura do seu lançamento e, mais tarde, com o Cavaleiro Andante, acabando por dominar o mercado, nos anos 60, graças à pujança editorial da empresa a que estava ligado, a Agência Portuguesa de Revistas. No início da década seguinte, pouco antes do 25 de Abril, passou por novas transformações, voltando ao nº 1 para encetar uma 2ª série (erradamente designada, à partida, como 5ª série), que durou até ao declínio desse grande império editorial, em finais dos anos 80.

MA especial 16Sorteou valiosos brin- des, publicou separatas com ídolos do desporto e da canção (e até Presidentes da República), e pelos seus diversos figurinos (incluindo uma edição especial, com 31 números, dois almanaques e um número extra dedicado à figura épica de Camões) desfilaram, semanalmente, os mais célebres heróis de linhagem norte-americana, oriun- dos das tiras diárias publicadas nos jornais — que se moldaram ao formato revista e se enraizaram também no imaginário dos jovens lusitanos, destronando os seus mais directos concorrentes europeus (como Cuto Tintin, que eram as mais-valias d’O Mosquito e do Diabrete).

Seguidamente, para fazer face à concorrência do Cavaleiro Andante, surgiram muitas outras personagens, criadas por autores de várias procedências, italianos, franceses, ingleses, holandeses, espanhóis, mas sobretudo franco-belgas, na última série (talvez a mais ecléctica). E o próprio Cuto ressurgiu em novos episódios, a partir de 1953.

MA 454Mas o maior património do Mundo de Aventuras são alguns dos nomes mais ilustres da BD portuguesa, como José de Oliveira Cosme, Roussado Pinto, Vítor Péon, Carlos Alberto, José Antunes, José Manuel Soares, José Baptista, Vítor Mesquita, Baptista Mendes, Orlando Marques, Raul Correia, Lúcio Cardador, José Garcês, José Ruy, E.T. Coelho, Fernando Bento, Artur Correia, Catherine Labey, Augusto Trigo e outros. Na 2ª série, o MA abriu também as suas páginas, com a rubrica “Novos da BD Portuguesa”, a muitos autores jovens, alguns dos quais viriam a ter notoriedade artística, como Luís Louro, Tozé Simões, Fernando Jorge Costa e Luís Nunes.

Depois de passar a sair quinzenalmente, na última e atribulada etapa da sua existência — de que fui testemunha “privilegiada”, no pior sentido do termo, como coordenador —, o fim chegou em 15 de Janeiro de 1987,MA nº 589 com o nº 589 (aliás, 1841, no somatório das duas séries), preenchido por uma história policial de origem inglesa, em vários episódios, ilustrada por Vítor Péon — um dos mais carismáticos colaboradores do MA na sua 1ª série, criador (juntamente com Roussado Pinto) do famoso cowboy com um nome índio, Tomahawk Tom —, o que parece um final quase simbólico!

28 anos depois, o título e a assombrosa carreira do Mundo de Aventuras (quase quatro décadas de publicação inin- terrupta!) merecem ainda ser recordados pela sua imensa legião de leitores e pelos bedéfilos das novas gerações.

 

LEI DA SELVA OU LEI DA SELVAJARIA HUMANA?

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A notícia correu mundo, através da imprensa, da rádio, da televisão e das redes sociais, provocando a indignação dos defensores da natureza e dos direitos dos animais (mas não só). Também a Avaaz reagiu abertamente, alertando mais uma vez a opinião pública e a consciência dos líderes políticos mundiais para os perigos que ameaçam várias espécies à beira da extinção, por causa da caça furtiva e do comércio ilegal que grassam nalguns países africanos e asiáticos, cecil_640onde a corrupção e a falta de leis (e de meios) para protecção da natureza permitem que os caçadores e os traficantes continuem a exercer impunemente a sua nefanda actividade.

Mas o caso agora tão falado é ainda mais chocante: um dentista americano, pelos vistos bem sucedido na sua actividade profissional, pagou milhares de dólares para ter o “prazer” de matar um leão, que era um ex-libris e a principal atracção de um parque natural do Zimbabwe, visitado por turistas, fotógrafos e naturalistas de todo o mundo.

Exposição de troféus de caçaChamava-se Cecil esse leão, tinha coleira de identidade e era alvo das atenções do público e das equipas de vigilância da reserva de Hwange, que o consideravam dócil, quase inofensivo. Mas isso não o impediu de ser caçado e abatido, sem piedade, como rezam as notícias, pelo tal dentista milionário (já habituado a essas proezas), que merecia estar, agora, atrás das grades no Zimbabwe, à espera de julgamento pela sua acção “frívola e cruel” — como a baptizou Miguel Esteves Cardoso no Público —, mas já regressou aos Estados Unidos e à sua confortável vidinha de “respeitável” cidadão.

Este triste e ignóbil episódio, que nos faz ter vergonha dos nossos semelhantes (e são muitos) que não respeitam o direito à vida das outras espécies que povoam este planeta, fez-nos recordar uma excelente história aos quadradinhos publicada há muitas décadas no saudoso jornal O Mosquito, com ilustrações de um dos maiores artistas que já se distinguiram nessa modalidade: Eduardo Teixeira Coelho.

A Lei da Selva 1

Curiosamente, a história em causa, intitulada “A Lei da Selva”, tinha como protagonistas os animais selvagens da fauna africana, em especial os mais majestosos, feros e temidos de todos os felinos, que pelo seu porte imponente e pelos seus hábitos quase “aristocráticos” merecem estar no topo da realeza, à escala zoológica.

Lei da Selva 2       385Nesta grande aventura, que E.T. Coelho ilustrou de forma magnífica, demonstrando ser um mestre da arte figurativa e um profundo conhecedor da anatomia animal, são os leões que têm a primazia, nomeadamente uma jovem cria que escapou de morte certa, depois dos seus pais terem sido abatidos a tiro por um caçador. Sobrevivente, quase por milagre, de uma incrível odisseia — em que tem de arrostar inúmeros combates com os seus inimigos (que não são apenas as outras feras, mas também os Lei da Selva 3       386supersticiosos caçadores indígenas que não lhe dão tréguas) e contra as forças da natureza, ainda mais implacáveis e destruidoras, na sua fúria cega e sem limites —, esse leão acaba por ser um símbolo da coragem, da resistência e da vontade de viver, triunfando de todos os perigos e armadilhas, graças a uma lei ainda mais forte do que a lei da selva: a lei do instinto, da sobrevivência e do amor… ao acasalar pela primeira vez e ser pai de uma vigorosa ninhada que garantirá a preservação da sua indomável raça. Uma aventura cheia de peripécias dramáticas, de lutas sem fim, mas com um final feliz!

Jornal do Cuto 9         387Reeditada em 1971/72 no Jornal do Cuto, outra memorável publicação juvenil, dirigida por Roussado Pinto, esta história (em que merece também destaque o vigor literário das legendas de Raul Correia) será, em breve, apresentada no nosso blogue irmão O Voo d’O Mosquito, em homenagem aos seus dois carismáticos autores, a um tema que não perdeu actualidade e a uma das fases mais assinaláveis da incontornável carreira de E.T. Coelho n’O Mosquito.

Aguardem, pois, pelos primeiros episódios de “A Lei da Selva”, uma obra-prima que desenhadores como Emilio Freixas, Jesús Blasco, Jayme Cortez e José Ruy consi- deraram um caso excepcional de talento e inspiração, pela mestria gráfica patente em todas as suas páginas. Uma história que, no dizer de Roussado Pinto, era a preferida do próprio E.T. Coelho e que merecia já ter sido também reeditada em álbum, como outros grandes clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa.

 

 

NO ANIVERSÁRIO DE ROUSSADO PINTO (14/7/1926)

Ross Pinto - eu, ross pynn

Nota: A capa com que abrimos este post é de um livro quase biográfico que Frank Gold, pseudónimo de Luís Campos (outro escritor policial português), dedicou a Roussado Pinto, metendo-se na pele de um dos seus célebres heterónimos, para o encarnar como “autor, personagem e mito”, e fingindo ser o herói da sua própria história.

Kansas nº 9 (Ibis)Roussado Pinto nasceu em 14 de Julho de 1926. Se fosse ainda vivo, estaria hoje a celebrar o seu 89º aniversário. Os homens passam e as obras ficam. Por isso, cabe-nos a nós, seus leitores, admiradores e amigos, evocar essa efeméride, honrando a sua memória e o seu nome, através de uma das realidades mais marcantes da sua existência: a obra incomensurável que nos legou, como escritor, jornalista e editor (dando primazia, nesta função, às revistas para os mais jovens e à banda desenhada).

Honrar o seu nome significa inevitavelmente recordar alguns dos pseudónimos que o celebrizaram, como os de Edgar Caygill e Ross Pynn. Usou-os em muitas obras, de maior ou menor importância e simbolismo na sua carreira, não porque quisesse passar, à força, por um escritor estrangeiro, mas porque sabia, com a sua profunda intuição literária, que esses nomes possuíam uma carga onírica que não se desvaneceria com o tempo, dando-lhe assim uma espécie de passaporte para a imortalidade.Ross Pynn - 1, 2, 3

Geralmente, na literatura policial (mas não só), os pseudónimos cristalizam-se como nomes reais, definitivos, fazendo esquecer os de baptismo. É assim também no cinema e noutras artes onde florescem a imaginação, o espírito, o onirismo e a fantasia. Actores e artistas perduram e mitificam-se na pele das personagens que criaram e dos nomes que adoptaram… às vezes, como no cinema, por imposição alheia.

Quanto a Roussado Pinto, sabemos que esse fenómeno de transfiguração não “matou” a identidade do criador — antes pelo contrário, tornou-a indissociável dos seus outros nomes, fundindo-os num mesmo corpus literário, que nenhum dos seus leitores desconhece. A fama e a forte personalidade do autor operaram automaticamente (e voluntariamente) essa simbiose. Mas nem todos os seus heterónimos tiveram vida longa.

Homenageamos hoje, na data do seu aniversário (como já fizemos noutras ocasiões), a memória deste lendário e infatigável novelista popular — autêntico trabalhador da “oficina do imaginário”, que dispersou humildemente a sua veia literária por uma enorme variedade de Ross Pinto - Vasco duro 345géneros —, dando a conhecer um artigo biográfico de Raul Ribeiro, extraído de uma publicação quase esquecida: o XYZ Magazine, edição do saudoso Sete de Espadas, outro grande nome da literatura (ou melhor) da problemística policiária portuguesa.

Apresentamos também algumas capas das inúmeras obras que Roussado Pinto escreveu com os seus dois pseudónimos mais famosos e com o seu próprio nome… por vezes, num registo neo-realista, bem diferente daquele a que nos habituou, como autor de romances e antologias policiais ou de novelas de aventuras. Sem esquecer que foi também argumentista de histórias aos quadradinhos e que criou e dirigiu alguns dos títulos mais emblemáticos da BD portuguesa, como O Pluto, Titã, Flecha, ValenteZakarellaGrilo e Jornal do Cuto.

No jornalismo, a sua coroa de glória foi, sem dúvida, o Jornal do Incrível, cujos destinos dirigiu com mão de mestre até ao dia em que o coração, mais uma vez, lhe falhou. E sem esperança de retorno… apesar de ter apenas 58 anos. Partiu o homem, mas ficou a lenda que há muito começara a tomar forma. E que ainda hoje povoa o imaginário dos que leram as obras de um tal Ross Pynn — personagem que, na realidade, nunca existiu!

Ross Pinto - Artigo 1 e 2Ross Pinto - artigo 3344

ALMOÇO DE ANIVERSÁRIO DO CPBD

logotipo CPBDConforme antecipadamente informámos, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) festejou mais um aniversário, com um almoço tradicional realizado no passado sábado, dia 4 de Julho, em que estiveram presentes mais de trinta sócios e simpatizantes, reunidos em ambiente de franca camaradagem numa sala privativa do acolhedor Restaurante Moisés, sito na Avenida Duque d’Ávila nº 123, em Lisboa.

Este ano registou-se também a participação de algumas “caras novas”, entre as quais a de um sobrinho de Roussado Pinto (nome mítico da BD portuguesa, que nunca foi sócio do CPBD, mas sempre o apoiou, desde a primeira hora) e de um dos filhos de José Manuel Sobral, sócio fundador e ex-membro directivo do Clube, recentemente falecido no Brasil, onde residia há muitos anos. Também nos apraz assinalar a presença do Professor António Martinó, ligado ao CPBD desde longa data, mas afastado fisicamente nos últimos anos, por motivos pessoais e profissionais — que dirige, como todos sabem, o excelente blogue Largo dos Correios —, e de Hernâni Portovedo, membro do jovem Clube Tex Portugal (criado há menos de dois anos), que veio, pela primeira vez, juntar-se à comunidade do CPBD.

Prestes a iniciar mais uma etapa da sua longa existência — para o ano celebrar-se-á, com a devida “pompa”, o 40º aniversário, já em novas e mais funcionais instalações —, o Clube Português de Banda Desenhada conta já com um número apreciável de novos sócios, que acreditam no seu futuro e se dispõem a apoiá-lo em todas as iniciativas que os seus dirigentes se propuserem levar a cabo.

Sem esquecer a publicação de um renovado Boletim, o fanzine mais antigo que existe em Portugal (e seguramente um dos mais antigos de toda a Europa), cujo mais recente número acaba de ser distribuído, com a terceira e penúl- tima parte de um exaustivo e brilhante estudo do consócio Américo Coelho sobre a figura do famoso detective inglês Sexton Blake, émulo e rival de Sherlock Holmes, cuja popularidade em Portugal atingiu o auge nos anos 50 e 60 do século passado, graças ao Cavaleiro Andante e a outras revistas de banda desenhada.

A reportagem fotográfica que seguidamente apresentamos deve-se, como é habitual, ao experiente “repórter de serviço” Dâmaso Afonso, a quem agradecemos mais esta prova de amizade e de gentil colaboração com o nosso blogue.

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NO ANIVERSÁRIO DO JORNAL DO CUTO (1971-78)

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Cumpre-se hoje mais um aniversário do Jornal do Cuto, lançado em 7 de Julho de 1971 pela Portugal Press, editora fundada por Roussado Pinto (1926-1985), cuja actividade profissional na área Roussado Pinto foto Ada Banda desenhada já vinha de longe, desde títulos como O Pluto, Titã, Flecha e Valente, criados nos anos 40 e 50.

A essas efémeras tentativas de fazer concorrência a outras revistas juvenis solidamente implantadas no nosso meio editorial, como O Mosquito, o Diabrete, o Cavaleiro Andante e o Mundo de Aventuras, seguiu-se, duas décadas depois, a sua primeira empresa apoiada em bases financeiras mais firmes e o primeiro dos seus títulos que iria alcançar um satisfatório êxito comercial, aliado a uma longevidade que só foi abruptamente interrompida por motivos de saúde do seu director.

Jornal do Cuto 2 300 - 7Roussado Pinto não interrompeu aí a sua carreira, continuando a dirigir os destinos da Portugal Press durante um novo período, que ficou assinalado por um dos maiores êxitos da imprensa portuguesa dessa época: o Jornal do Incrível.

Mas a sua grande paixão, como ele próprio tantas vezes confessou, era a Banda Desenhada, à qual deu o melhor de si próprio como propagandista e pioneiro de uma nova forma de arte popular que conhecia como poucos. Aliás, apesar de todas as contingências e adversidades do destino, nunca quis interromper a sua luta, sonhando ainda, pouco tempo antes de sofrer outro enfarte, em Março de 1985, reunir condições para ressuscitar o Jornal do Cuto. Infelizmente, já era tarde…

Nos primeiros números desta excelente revista, que durou até ao nº 174, publicado em 1/2/1978, destaca-se o equilíbrio entre autores clássicos oriundos d’O Mosquito — como Eduardo Teixeira Coelho (A Morte do Lidador, A Lei da Selva), Raul Correia (Cantinho de um Velho, O Navio Negro), Percy Cocking (Serafim e Malacueco) e Jesús Blasco, criador do mítico herói que Roussado Pinto escolheu para nome do seu novo jornal — e outros, sendo de referir entre estes a presença de Bud Sagendorf (Popeye), Mac Raboy (Flash Gordon), Alberto Salinas (Moira, a Escrava de Roma) e Russ Manning (Tarzan), além de José Batista e Carlos Alberto (este último ilustrador, com o pseudónimo de M. Gustavo, da rubrica Quadros da História de Portugal, publicada em separata).

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Outros vieram depois, também coroados por justa fama — como Alex Raymond, Mel Graff, Roy Crane, Hal Foster, Lee Falk, Phil Davis, José Luís Salinas, Walter Booth, Reg Perrott, Roy Wilson, Franco Caprioli, Emilio Freixas, Frank Bellamy, Sergio Toppi, Vítor Péon, Orlando Marques — e as homenagens ao Mosquito continuaram a ser uma das tónicas dominantes do projecto mais acalentado por Roussado Pinto, que se desdobrava em múltiplas tarefas, escrevendo, coordenando, traduzindo e até maquetizando a revista.

Jornal do Cuto 3 300 - 7Lembro-me de só ter visto o Jornal do Cuto, pela primeira vez, seis meses depois do seu lançamento, porque nessa altura vivia em Angola, aonde as revistas de BD (e outras) só chegavam por via marítima. Não porque as viagens através do Atlântico demorassem tanto tempo, como é lógico, mas porque era assim que funcionavam os circuitos comerciais e as leis da distribuição entre Angola e a metrópole. Por incrível que pareça!…

Seja como for, ainda recordo com nitidez esse primeiro encontro e a extraordinária emoção que senti ao ver numa loja do Lobito, cidade do sul de Angola onde estava de passagem, uma revista cuja capa me despertou imediatamente as memórias de Cuto, o maior herói d’O Mosquito, um dos gloriosos ídolos da minha geração.

Jornal do Cuto 4 - 300 7 2A partir desse dia, não fui capaz de esperar tanto tempo para ler o Jornal do Cuto e tornei-me assinante da revista por via aérea, tal como já era do Tintin e do Diário de Notícias (que publicava aos sábados um interessante suplemento intitulado Nau Catrineta, onde podíamos matar as saudades do Zorro e do Cavaleiro Andante).

Quanto ao Mundo de Aventuras, confesso que nessa época não estava no topo das minhas preferências (por causa do seu aspecto modesto, num formato muito reduzido), embora continuasse a acompa- nhar as aventuras de heróis como Mandrake, Rip Kirby, Garra de Aço, Matt Dillon, Matt Marriott e outros, sem imaginar, nem em sonhos, que viria a tornar-me seu colaborador (e depois coordenador), por ironia do destino, quando regressei à metrópole, poucos meses antes do 25 de Abril de 1974. E foi então que tive o privilégio de conhecer pessoalmente Roussado Pinto, com quem já trocava correspondência desde os primeiros números do Jornal do Cuto.

Jornal do Cuto 5 300 7À sua afabilidade e simpatia, à sua generosa amizade, ao seu caloroso e contagiante entusiasmo, ao seu epicurista gosto pela vida, que nada parecia afectar — nem mesmo os avisos dos médicos, que o admoestavam por trabalhar e comer demais —, à sua sabedoria sempre pronta a dar uma ajuda aos mais novos e inexperientes, devo muitos momentos de inesquecível convívio e camaradagem, e alguns dos mais preciosos conselhos que obtive na minha actividade profissional ligada à BD.

Por isso, ao recordar esta efeméride do Jornal do Cuto, quero também prestar, mais uma vez, homenagem ao seu criador, um ícone da Banda Desenhada portuguesa (e não só), cuja vasta obra permanece viva na memória nostálgica de várias gerações, com quem partilhou muitos êxitos e desaires, assim como muitos episódios de trinta anos de laboriosa carreira, ao serviço de uma causa que nunca renegou.

Nem mesmo quando o seu maior projecto (e triunfo) jornalístico, o Jornal do Incrível, que o absorveu por completo, durante os últimos anos de vida, se interpôs entre o amor pela BD e a dedicação a uma editora que estivera à beira da falência… mas que ele deixou, ao partir de súbito para outra grande aventura, com um saldo largamente positivo.

Obrigado por tudo, Roussado Pinto!