O MÍTICO NÚMERO 100 – 1

O “CENTENÁRIO” DO TIC-TAC

O pato TictacRecheado de simbolismo e de inexplicável atracção, o número 100 é, por natureza, um número mágico, quase cabalístico, que parece representar, no imaginário colectivo, um marco difícil de atingir, uma barreira que só é ultrapassada por aqueles que se esforçam em obter a vitória, ou seja, os mais lutadores, os mais persistentes e melhor preparados no exercício do seu mister, qualquer que ele seja.

Tictac numero 100 capaNa própria existência humana há uma meta que a todos atrai, mas que poucos conseguem alcançar: os 100 anos de idade, um século de vida! Claro que, por vezes, a importância que se dá ao número 100 é exagerada, mas na vida de uma revista periódica, mormente as do género infanto-juvenil — que são as mais precárias, pois dependem exclusivamente do frágil poder de compra de um público que ainda não trabalha nem tem rendimentos, a não ser os que provêm da gene- rosidade e das posses dos seus familiares —, ele tem um valor mais do que simbólico, pois coroa uma lenta caminhada de semanas, meses (ou até anos), ao serviço de uma causa que só interessa, geral- mente, aos seus promotores e aos seus jovens beneficiários.

Quase todas as publicações portuguesas de maior longevidade, destinadas a esse público juvenil, festejaram condignamente o seu número 100, não deixando de sublinhar as etapas percorridas e os êxitos averbados durante o percurso — sinal de vida mais longa e próspera, nem sempre confirmada pelos acontecimentos posteriores.

Iniciando esta rubrica, aqui vos apresentamos a capa centenária da revista Tic-Tac (2ª série), que deu especial destaque ao mítico número 100, dedicando-lhe uma sugestiva ilustração, realizada por um dos seus mais talentosos e experientes colaboradores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), que tempos depois (Janeiro de 1936) viria a tornar-se co-fundador e director artístico do novel semanário O Mosquito.

Na terceira página desse número, datado de 11 de Novembro de 1934, um extenso editorial assinalava a centenária proeza, que o Tic-Tac (cujo nome era o de um pato!) voltaria a repetir, anos volvidos, pois chegou a atingir o nº 263.

Tictac numero 100 pag 2 e 3

Entre outras matérias de interesse, o nº 100 publicava histórias aos quadradinhos cómicas e realistas, como Diabruras do Zeca e Toi (com texto de Tio Luiz e desenhos de José Félix), Kid, a Águia Humana e Pelo Mundo Fora (célebre série inglesa magistralmente ilustrada por Walter Booth), uma novela policial de empolgante enredo, da autoria de Raul Correia, com o título A Vida Aventurosa de António de Lencastre, um concurso cinematográfico, uma secção charadística sugestivamente intitulada Para Moer o Juízo, versos de Aníbal Nazaré e, para rematar este sumário bem recheado, a rubrica  Histórias dos Portugueses, assinada por dois nomes ilustres: o escritor Eduardo de Noronha e o ilustrador Rocha Vieira. Quase tudo “prata da casa”, como era norma na maioria das publicações infanto-juvenis dessa época.

Tictac numero 100 pag 5 e 7

Tictac numero 100 pag 8 e 9

Fazia também parte desse número uma separata com a “caraça” de um famoso actor cómico, o Estica (Oliver Hardy), Os pequenos leitores eram convidados a apresentar-se com ela, como se brincassem ao Carnaval, durante a emissão do programa infantil da Rádio- -Graça, o que lhes valeria uma recompensa.

Apesar da sua idade “centenária”, o patinho Tic-Tac (sempre acompanhado pelo coelhinho Rabanete) apresentava-se em excelente forma… prometendo continuar, por mais alguns anos, a ser um dos amigos predilectos da juventude portuguesa.

Tictac numero 100 pag 6 e 12

QUIM & MANECAS VÃO À GUERRA

Expo Quim e Manecas

No caso de Stuart Carvalhais, falamos de um autor contemporâneo da Primeira Guerra Mundial. A partir de 1915, Stuart Carvalhais iniciou a sua obra de referência: As Aventuras de Quim e Manecas, inicialmente publicada n’O Século Cómico, passando, a partir de meados de 1916, para a Ilustração Portuguesa. Um dos episódios desta longa série infantil tem como cenário a participação portuguesa na Grande Guerra. Em “Quim e Manecas vão à Guerra”Stuart centrou a acção na personagem do Manecas, enquadrando-o no esforço militar aliado como espião ou herói inventor das mais incríveis soluções ‘tecnológicas’ para derrotar os ‘boches’. As suas aventuras irão fazê-lo prisioneiro, primeiro dos Aliados, depois dos alemães. Mas foi a ele, Manecas, que coube a tarefa de elaborar ‘as propostas de paz’ para o conflito, naturalmente recusadas, para logo em seguida ter antecipado “com certeira lucidez o ‘sonho alemão’ que surgirá com Hitler”. No que se pode considerar o último episódio, de que Stuart não foi autor, mas sim Rocha Vieira, esclarece-se que Manecas “foi a Berlim exigir a abdicação do Kaiser, porque a ele se deve o definitivo triunfo”.

Segundo José Marques, citando João Paulo de Paiva Boléo, o seu alinhamento incondicional com o esforço de guerra aliado, nunca limitou, porém, Stuart/Manecas na bicada certeira às decisões mais controversas do governo português da altura, ou às opiniões mais descabeladas sobre o conflito por parte dos cronistas da época. Sempre conseguiu ‘o engenho e a arte’ para criar, nas suas pranchas, um saudável contraponto sarcástico aos terríveis relatos que chegavam da frente de batalha.

 

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 2

Natal Mosquito nº 101   294

Com esta capa, O Mosquito celebrou o seu segundo número natalício, em 16/12/1937. A imagem do Pai Natal e dos seus minúsculos companheiros era baseada numa ilustração do humorista espanhol Arturo Moreno, publicada na revista infantil Pocholo (Natal de 1936).

2013-12-05 22.29.48O arranjo gráfico devia-se a António Cardoso Lopes Jr., o célebre Tiotónio, director artístico d’O Mosquito e criador das impagáveis figuras do Zé Pacóvio e Grilinho, dois “saloios” na tradição dos tipos populares de Rafael Bordalo Pinheiro. Na capa, vêem-se outros heróis da revista, como o Cão Top, de Cabrero Arnal, outro magnífico desenhador espanhol, D. Triquetraque, caçador de feras,  de A. Moreno, e o Capitão Bill, junto da sua equipagem, personagens de origem inglesa criados pelo mestre Roy Wilson (e aqui retocados pelo traço de Tiotónio).

Recorde-se que o segundo director e fundador d’O Mosquito era Raul Correia, prolífico autor de novelas de aventuras (e tradutor de todas as legendas das histórias aos quadradinhos), que assinava também, com o pseudónimo de Avôzinho, uma poética coluna, em prosa e em verso, que lhe granjeou o afecto e a admiração de milhares de leitores assíduos (muitos dos quais nunca descobriram a identidade desse bondoso avô imaginário).

Natal Mosquito + poema avozinho

No presente número de Natal, o seu estro poético brilhava com especial fulgor em dois trabalhos alusivos à quadra, como impunha a tradição, nesses tempos em que o texto ainda tinha primazia sobre a imagem: o belo poema “Noite de Natal” e o conto “A Oração das Lágrimas”, que deve ter deixado muitos garotos — pelo menos aqueles que já sabiam ler — com os olhos repassados (de lágrimas) de emoção.

Na contracapa desse número, bem recheado de histórias inglesas, como Pelo Mundo Fora (de Walter Booth) e O Capitão Bill, o Grumete Bell e o Cozinheiro Ball (de Roy Wilson), O Mosquito anunciava o seu “presente” de Natal: um álbum a cores com a história completa, desenhada por Arturo Moreno, “Ponto Negro, Cavaleiro Andante” (Punto Negro en el País del Juego), também oriunda do Pocholo — obra-prima do surrealismo poético em quadradinhos, plena de inventiva, humor e fantasia, que tinha como protagonista um borrão de tinta transformado em destemido herói de papel. A sua figura surgia também na capa d’O Mosquito, em jeito de reclamo (outra boa ideia do Tiotónio).

Foi uma das muitas personagens — tanto na BD como no cinema animado — que consagraram Arturo Moreno Salvador (1909-1993) como um dos mais criativos e prolíficos autores humorísticos espanhóis da sua geração.

Natal Mosquito nº 101 contracapa295Outro presente que encantou todos os leitores, sobretudo os mais entusiastas das construções de armar — que nessa época, à falta de outros entretenimentos, eram o regalo da miudagem, sempre ávida de novidades e passatempos, mesmo os de papel —, foi a separata inserida neste número, com as três partes (ou planos) de um pitoresco Presépio desenhado por Rocha Vieira, colaborador eventual d’O Mosquito, mas copioso ilustrador no Tic-Tac e noutras revistas infanto-juvenis, onde deixou obra de vulto.

Aqui têm também essa bela separata colorida, graças aos bons préstimos do nosso amigo Carlos Gonçalves, a quem agradecemos, mais uma vez, a sua preciosa colaboração.

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