FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 1

A DESCOBERTA DA ILHA DA PÁSCOA

(por YVES DUVAL e RENÉ FOLLET)

Há muito que tínhamos vontade de incluir no Gato Alfarrabista uma rubrica deste género, sob a forma de histórias curtas de BD, em que os temas abordados, de cunho histórico, didáctico e biográfico, têm a assinatura de alguns dos melhores colaboradores artísticos e literários de duas emblemáticas revistas europeias: o Tintin e o Spirou — como, por exemplo, Jean-Michel Charlier, Octave Joly e Yves Duval (argumentistas), Victor Hubinon, Eddy Paape, Jean Graton, Albert Weinberg, Fred Funcken, Édouard Aidans, François Crahenhals, Fernand Cheneval e René Follet, entre outros.

René FolletEste último, um dos mais jovens e brilhantes elementos dessas selectas equipas — que ainda hoje, aos 83 anos, se mantém em actividade, com o mesmo traço desenvolto e elegante e um extraordinário domínio do preto e branco e da cor —, ilustrou o episódio que seguidamente apresentamos, com textos de Yves Duval, relatando a descoberta da famosa Ilha da Páscoa, na Polinésia, cujas misteriosas estátuas de pedra ainda hoje intrigam historiadores, antropólogos e arqueólogos, incapazes de encontrar respostas satisfatórias para a primeira questão que acudiu ao espírito dos navegantes, quando chegaram a terra: como teriam surgido numa ilha tão solitária, quase despovoada na altura do seu desco- brimento, aqueles insólitos e monumentais vestígios de um culto desconhecido?

Estátuas Ilha da Páscoa - 2A ilha, no dialecto dos indígenas, chamava-se Rapa Nui (Ilha Grande) e foi descoberta acidentalmente, em 5 de Abril de 1722, domingo de Páscoa, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen, cujo nome hoje poucos recordam. É claro que o seu achado não mudou a história do mundo, mas contribuiu para alterar a noção que muitos europeus, no século XVIII, ainda dele tinham, cobrindo com mais um enigmático véu a origem de algumas culturas do hemisfério sul, engolidas pela voragem do tempo e pelas calamidades provocadas pelo homem. Embora as teorias mais comuns sejam a de que os primitivos habitantes de Rapa Nui eram oriundos da Nova Guiné, como os seus antepassados que viviam nas ilhas Fiji, Samoa e Tonga, e de que a colonização da ilha teve inicio entre 600 e 800 d.C.

Estátuas Moais (Ilha da Páscoa)Hoje, com cerca de 4.000 residentes, cuja vida árdua pouco mudou com os benefícios do turismo e da civilização, a mítica e inóspita ilha de solo vulcânico, exposta às tempestades e aos ventos agrestes do Pacífico sul, pertence à República do Chile, distante dela 3.500 km.

 Património mundial da Unesco, graças às suas estranhas estátuas chamadas Moais, a fantástica Ilha da Páscoa continua a desafiar a curiosidade dos que sonham com mistérios e civilizações desaparecidas.

Praia de Anakena (Ilha da Páscoa)

Resta acrescentar que este breve episódio desenhado por René Follet — e que faz parte, como já referimos, da série de histoires vraies que, em dada altura (anos 50), começaram a aparecer no Tintin e no Spirou, com propósitos nitidamente didácticos, para combater uma corrente de opinião e uma censura cada vez mais hostis contra os alegados “defeitos” (leia-se “má influência”) da banda desenhada —, foi publicado no Tintin nº 14 (10º ano), de 6/4/1955, e surgiu também em Portugal, a primeira vez no Álbum do Cavaleiro Andante nº 15 (Agosto de 1955), e a segunda nas Selecções BD nº 22 (Agosto de 2000).

Cabeçalho francês

Se bem repararem, na versão original, cuja primeira tira reproduzimos acima, a vinheta de abertura foi suprimida, para encaixar o título e os nomes dos autores; mas ela está presente nas duas publicações portuguesas, o que obviamente só as valoriza.

Ilha de Páscoa - 1 e 2

Ilha de Páscoa - 3  e 4

RECORDAÇÕES DE FÉRIAS

Embora alguns felizardos (e felizardas) continuem de férias em Setembro, a grande maioria tem de regressar ao trabalho e a outras ocupações (como os políticos e o seu séquito de comentadores) quando os cálidos dias de Agosto chegam ao fim.

Para mitigar as saudades desse tempo que passou tão depressa, aqui têm, caros amigos do Gato Alfarrabista, outra capa do Tintin belga dedicada às “belles vacances”, com a assinatura de um jovem talento que dava os primeiros passos a caminho da fama. Serão capazes de descobrir o seu nome?

Tintin 28-1951 capa

E, para os que sabem francês, reproduzimos também a nota de abertura, com uma “ode” poética às férias grandes, e um belo conto de Jacques Lillois, com ilustrações de René Follet, publicados no mesmo nº 28 (6º ano), do Tintin belga.

Tintin 28-1951nota de aberturaNão só as férias, nesse tempo, eram maiores, como os jovens preferiam geralmente a leitura a outras distracções. Lembro-me bem de levar sempre um livro e algumas revistas — como O Mosquito e o Mundo de Aventuras — quando ia para a praia de Santo Amaro de Oeiras, a minha preferida. E a família chegou mesmo, em anos seguidos, a passar lá um mês inteiro, numa casa alugada. Então, ia abastecer-me regularmente a um quiosque onde não faltavam as revistas de BD que saíam todas as semanas… incluindo o Diabrete, que em Agosto de 1951 ainda se publicava, mas não tardaria a chegar ao fim da sua carreira, para dar lugar ao Cavaleiro Andante, outra revista que eu não dispensava nas férias grandes (e no resto do ano).

Se os dias de lazer eram passados na praia,    as noites eram dedicadas ao convívio com os amigos, pois juntara-se um grupo de jovens veraneantes, em Oeiras, que à noite se encontravam, sempre no mesmo sítio, para fumar e conversar (a praia, o futebol e o ciclismo eram os principais temas de verão… o liceu ficava esquecido), e atirar piropos às garotas que passeavam pelo parque. Belos tempos!

Tintin 28- conto 1 e 2

Foi também na praia de Santo Amaro de Oeiras, mas noutro ardente verão, que me deliciei a ler os primeiros episódios de uma nova aventura de Cuto, “A Ilha dos Homens Mortos”, e de “O Defunto”, um conto de Eça de Queirós, magistralmente ilustrado por E. T. Coelho, que O Mosquito começou a publicar em 26/7/1950. Lembro-me tão bem desse dia como se fosse hoje!… E, para rematar este saudosista apontamento estival, aqui ficam, dedicadas especialmente aos admiradores de E. T. Coelho e de Jesús Blasco (que ainda são muitos), a primeira página de “O Defunto” e duas páginas de Cuto, extraídas dos nsº 1157 e 1158     d’O Mosquito. Qualquer dia O Gato Alfarrabista tem de recuperar estas histórias.

O Defunto900

Cuto Vermelho

Cuto Azul