OLHA AS LINDAS MARCHAS!

Pelo traço de Mestre José Ruy, em Quadradinhos nº 54, 2ª série, de 20/6/1981 (suplemento do extinto vespertino A Capital, dirigido por Adolfo Simões Müller), chega-nos um pitoresco desfile das marchas populares desse festivo mês de Junho, enquadradas por famosos heróis de papel, de arquinho e balão em punho, que ainda hoje fazem as delícias dos seus inúmeros admiradores, num renovado preito de homenagem aos magistrais artistas que os criaram há muitas décadas.

E até Tom Sawyer e Ivanhoe se aliaram à festa… como convidados especiais do Quadradinhos, um suplemento que, fiel ao lema do seu director, procurava não só divertir como instruir, fomentando também entre os mais jovens o convívio com os heróis dos clássicos literários, através da fusão entre o texto e a imagem.   

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CLÁSSICOS ILUSTRADOS – 2

“A Carta Roubada” (Edgar Allan Poe) – 2

A carta roubada página609Apresentamos hoje a 2ª e última parte desta história com desenhos de Catherine Labey, baseada no conto de Edgar Allan Poe, segundo a versão que surgiu no Diabrete, quando esta popular revista infanto-juvenil publicou, em folhetins destacáveis, os “Contos Fantásticos” do célebre escritor norte-americano, mestre absoluto do “horror gótico” e da poesia lúgubre, mas também considerado um dos grandes percursores da literatura policial e de mistério, com narrativas que ainda hoje figuram entre as melhores do género, como     “O Escaravelho de Ouro”, “O Duplo Crime da Rua Morgue” e     “A Carta Roubada”.

Quadradinhos 1Como, na altura, éramos colaboradores (num dos jornais mais lidos há 30 anos, A Capital) do suplemento Quadradinhos – 2ª série, dirigido por Adolfo Simões Müller, grande apreciador de adaptações literárias, foi nas suas páginas que esta história teve honras de estreia, publicando-se a duas cores e a preto e branco desde o nº 72, de 31/10/1981, até ao nº 86, de 6/2/1982.

Devemos sublinhar que “A Carta Roubada” (The Purloined Letter) é um conto concebido por Poe de forma peculiar, em dois tempos diferentes, sempre narrados em flash-back.     No primeiro tempo, correspondente às páginas 1 a 8 desta adaptação, o narrador é um Prefeito da polícia parisiense que revela ao seu amigo C. Auguste Dupin — uma “mente brilhante” atraída pelos meandros da lógica dedutiva —, as investigações infrutíferas que levara a cabo, com os seus agentes, para encontrar a carta roubada a uma dama da alta aristocracia por um político sem escrúpulos e como esse documento podia comprometer a honra e a segurança familiar da distinta senhora.

No segundo tempo, o narrador é o próprio Chevalier Dupin, que se limita a expor, com a maior naturalidade, os passos que deu em sentido inverso, guiado apenas pela intuição e pelo exercício da lógica, que cultivava com o mesmo fervor de um certo detective privado que iria estabelecer os cânones da literatura policial muitos anos depois.

Quadradinhos 2Estamos, portanto, perante o exemplo paradigmático de um caso aparentemente simples, sem mistérios nem grandes emoções, narrado a três vozes e cuja acção, dividida em duas partes, tem como fulcro acontecimentos ocorridos num tempo anterior. Poe veste a pele do terceiro personagem presente em casa de Dupin — um amigo íntimo cujo nome também desconhecemos e que assume um papel contextual e reflexivo, expondo ao leitor, como uma voz off, os factos concretos e o singular “mecanismo” dedutivo de Dupin, assente na maníaca observação dos rostos e da linguagem corporal e no raciocínio puro, que explora o aspecto “superficial” das coisas como a melhor fonte de informações. Sherlock Holmes e Watson nasceram, sem dúvida, destes modelos.

Claro que, no âmbito das histórias ilustradas, esse discreto comparsa, o (quase) abstracto narrador que podemos subjectivamente comparar ao próprio Edgar Poe, tem de possuir uma identidade física, um aspecto que o torne mais real aos olhos do leitor, embora a sua presença no conto seja um mero artifício literário. Pessoalmente gosto da caracterização que Catherine Labey lhe deu, sem se cingir a nenhum retrato específico.

Resta assinalar que esta adaptação de “A Carta Roubada” (uma das poucas que julgamos existir de um dos primeiros clássicos da literatura policial) foi também publicada no nº 4 dos Cadernos Sobreda BD, em 1991.

Para voltar a ver a 1ª parte, clicar aqui

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CLÁSSICOS ILUSTRADOS – 1

“A Carta Roubada” (Edgar Allan Poe)

Nesta nova categoria do nosso Gato Alfarrabista vamos dar as boas-vindas aos “Clássicos Ilustrados” — título carismático, tão lato quanto redutor, oriundo de uma célebre colecção norte-americana, publicada em várias línguas (e de que proximamente falaremos), título esse que se implantou no vocabulário de um género também conhecido pela designação mais erudita de literatura gráfica (graphic novel).

Iniciamos a nossa fértil safra com um escritor cuja fantástica imaginação contagiou muitos autores de BD, entre os quais merecem ser citados os nomes de dois portugueses: mestre Fernando Bento e Catherine Labey. Por dever de cortesia, começamos pelas senhoras…

Edgard Allan Poe - 1Quem é que não conhece a obra de Edgar Allan Poe (1809-1849), não só através dos seus contos, dos seus poemas, das suas narrativas fantásticas, mas também das várias interpretações que surgiram no cinema (as melhores realizadas por Roger Corman), na ilustração e na BD?

Artistas das mais variadas tendências — desde grandes mestres como Gustave Doré, Arthur Rackham, Edmond Dulac, William Heath Robinson, Alberto Breccia, Reed Crandall, Richard Corben, Bernie Wrightson, Craig Russell, José Ortiz, Carlos Gimenez, Dino Battaglia, Horácio Lalia, até aos novos talentos da era digital como Fabrice Druet, Benjamin Lacombe, Jean-Louis Thouard, Paul Marcel e outros — extrapolaram os sonhos de Poe para os transformarem em visões ainda mais surrealistas e fantásticas.

Edgard Allan Poe - 2Recordo-me de ter lido pela primeira vez, ainda menino e moço, algumas das suas histórias no Diabrete, que publicou em folhetins, entre os nºs 474 e 502, os “Contos Fantásticos”, com ilustrações ao estilo das gravuras do século XIX. Foi essa versão que me despertou o interesse pela obra do mestre do terror, começando pelas suas narrativas de carácter menos mórbido e alucinante, como “O Escaravelho de Ouro”, “Os Crimes da Rua Morgue” e “A Carta Roubada”, precursoras de um género que, nos finais desse século, começaria a ser apelidado de literatura de mistério, dedutiva ou policial.

edgard-allan-poe-3Estimulado tanto por essas latentes memórias como pelo fascínio sempre crescente que outras leituras de Poe (em livro, mas também em banda desenhada) ajudaram a radicar no meu espírito, meti mãos, muitos anos depois, à adaptação de dois contos que elegera entre os meus favoritos: “A Carta Roubada” e “Manuscrito Encontrado numa Garrafa” (este com alguns laivos de fantástico), ambos publicados no Mundo de Aventuras, com desenhos de Catherine Labey.

Caso raro entre as personalidades femininas ligadas ao nosso meio bedéfilo dos últimos 30 anos, pela fluidez, a espontaneidade e a delicada síntese do seu traço — e também pela especialização noutras vertentes, como editora, tradutora, retocadora e legendadora —, Catherine Labey iniciou a sua carreira no Fungagá da Bicharada, ilustrando guiões de Júlio Isidro, Maria Alberta Menéres e outros, em histórias infantis, e estreou-se no género realista adaptando de forma segura alguns contos de Mário-Henrique Leiria, cujo surrealismo latente apelava à sua imaginação.

mundo-de-aventuras-498364A esse passo em frente, numa carreira ainda breve, proporcionado pelo Mundo de Aventuras, correspondeu, algum tempo depois, uma nova experiência gráfica e estética, com desenvoltas composições de página e um estilo já mais maduro e evoluído, acentuado pelos profundos contrastes do preto e branco, que trocaria, mais tarde, pelo uso da cor, suavizando o seu traço.

Refiro-me aos dois citados contos de Poe e a outra célebre história clássica da literatura policial, escrita por Maurice Leblanc: “A Prisão de Arsène Lupin”, cuja adaptação foi também publicada no Mundo de Aventuras, depois da sua estreia, em 1981, no suple- mento Quadradinhos, do diário lisboeta A Capital.

Embora não seja, por isso, uma novidade absoluta para muitos dos que nos lêem (e relembro que apareceu também nos Cadernos Sobreda BD), este trabalho de Catherine Labey pareceu-me digno de uma nova apresentação, como homenagem ao génio de Edgar Allan Poe — cujo espírito visionário e atormentado parece harmonizar-se estranhamente com os tempos esquizofrénicos que vivemos — e ao talento artístico daquela que tem sido, de há muitos anos a esta parte, minha fiel companheira, auxiliar e colaboradora.

Cadernos Sobreda - carta roubada 1 e 2Cadernos Sobreda - carta roubada 3 e 4Cadernos Sobreda - carta roubada 5 e 6cadernos-sobreda-carta-roubada-7 e 8