FANZINES DE JOSÉ PIRES (FEVEREIRO 2017)

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Por cortesia de José Pires, nosso amigo de longa data, companheiro de muitas tertúlias desde os tempos heróicos em que lançámos o Fandaventuras e o Fandwestern, dois fanzines que ainda estão em publicação, graças ao incansável labor deste apaixonado pela BD clássica, que os edita mensalmente, com infalível pontualidade (mas agora a solo), apresentamos as edições distribuídas em Fevereiro, com novos episódios de duas séries carismáticas (Matt Marriott Terry e os Piratas) e a reedição da primeira história desenhada pelo saudoso artista português Vítor Péon para a mítica revista O Mosquito, na sua estreia, em 1943, como autor de banda desenhada.

Neste número, figura também uma história curta de Péon, com o título “Traidor em Fuga”, realizada em 1946 para O Pluto, revista dirigida e editada por Roussado Pinto, em que Péon foi o principal colaborador artístico, ilustrando-a de uma ponta à outra, num alarde de talento, versatilidade e energia criativa.

Estes fanzines já se encontram à venda na Loja de José Manuel Vilela, Calçada do Duque, 19-A, 1200-155, Lisboa, mas podem também ser encomendados ao editor, por quem não mora na capital, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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Recorde-se que Terry e os Piratas foi apresentada na fase final d’O Mosquito (1952-53) e posteriormente no Mundo de Aventuras, quando era desenhada por George Wunder, sucessor de Milton Caniff. Quanto a Matt Marriott é uma série inglesa, também em tiras diárias, desenhada por Tony Weare e escrita por James Edgar, que aborda com extraordinário realismo a colonização do Oeste americano em finais do século XIX, distanciando-se dos westerns da série B, nomeadamente os de feição mais juvenil.

Muitos dos seus episódios foram publicados no Mundo de Aventuras (formato pequeno) e na Colecção Tigre, como o que deu o título a este número do Fandwestern.

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JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 11

OS CAVALEIROS DO VALE NEGRO (1ª parte)

José Ruy (1950)Hoje, dia de aniversário de Mestre José Ruy, a quem endereçamos com muita amizade os nossos parabéns e votos de longa vida, começamos a publicar mais uma história realizada nos primórdios da sua carreira, quando ele era um dos mais jovens e mais activos colaboradores d’O Papagaio, vistoso semanário infanto-juvenil cuja redacção era chefiada, nessa época, por Carlos Cascais. José Ruy tinha, então, apenas 17 anos e as suas inspirações artísticas vinham de temas como as aventuras na selva, policiais, de piratas e de cowboys.

Género difícil e exigente mas apaixonante, o western, com as suas ramificações literárias e cinematográficas, que o fascinavam desde a infância, foi para José Ruy uma experiência nova nas páginas d’O Papagaio, que a acolheu com as devidas honras, reservando-lhe lugar condigno e as suas cores mais garridas, nos nºs 665 a 681, publicados entre 8 de Janeiro e 29 de Abril de 1948.

Cavaleiros do Vale Negro - 678A história, com o palpitante título “Os Cavaleiros do Vale Negro”, tinha argumento de Roussado Pinto nos primeiros episódios… mas, como José Ruy nos revelou, essa colaboração foi sol de pouca dura, porque Roussado Pinto, com o seu feitio irrequieto, decidiu, entretanto, experimentar outros voos. O facto, porém, importa ser salientado, não só como uma excepção na carreira de José Ruy (que só repetiria a experiência de desenhar aventuras de cowboys uma única vez), mas também por ter sido a primeira escrita, ainda que parcialmente, por um dos maiores argumentistas da BD portuguesa.

Nos episódios seguintes, José Ruy teve de se desenvencilhar sozinho, mas criar uma história não era problema para ele, como demonstrou sobejamente n’O Papagaio, onde até chegou a ilustrar contos da sua própria autoria… que já revelavam, além do talento artístico, uma veia literária digna do seu fértil imaginário.

A par destas primeiras páginas, reproduzimos seguidamente um breve depoimento com que José Ruy amavelmente satisfez a nossa curiosidade, respondendo a algumas questões que lhe pusemos acerca da sua primeira história de cowboys, de que em breve publicaremos os restantes episódios.

Cavaleiros do Vale negro - 1 e 2Cavaleiros do Vale negro - 3 e 4

Confesso que esta história foi uma das que mais me entusiasmou quando, ainda menino e moço, lia O Papagaio — que, nessa fase, ainda publicava as aventuras de Tintin (O Segredo da Licorne) e prosseguia a sua carreira de vento em popa, com o concurso de uma equipa jovem e talentosa, formada nas suas páginas. As palavras, agora, são de José Ruy:

«Em finais de 1947, perfaziam-se três anos que publicava ininterruptamente as minhas histórias em quadrinhos n’O Papagaio, bem como novelas e contos, quando o Roussado Pinto — que se instalara também na redacção d’O Papagaio — fez a proposta de me escrever um argumento. Era uma novidade para mim, pois até aí sempre fizera os argumentos e guiões para as minhas histórias.

O Roussado Pinto, desde que o seu jornal infanto-juvenil O Pluto acabara, estava a evidenciar-se com as suas novelas e guiões, colaborando em revistas, almanaques, no Século Ilustrado e onde podia. O Tiotónio d’O Mosquito havia-o acolhido na sua redacção, onde eu trabalhava já na selecção litográfica das cores».

Cavaleiros do Vale negro - 5 e 6Cavaleiros do Vale negro - 7 e 8

«Considero ter sido uma experiência agradável e fiquei satisfeito com a ideia. É diferente dialogarmos com alguém que nos apresenta uma ideia já estruturada e a que temos de dar resposta, do que o monólogo que existe quando somos nós próprios a fazer enredo e desenho. Ele descrevia como idealizava a cena, a posição das figuras e outros elementos, os campos de visão, quem falava primeiro e a seguir, o que obrigava a uma certa disciplina na montagem das composições.

Só tinha um contra, dava-me os guiões muito em cima da hora, o que me obrigava a fazer alguns longos serões para não falhar na entrega dos originais.

Algum tempo depois, Roussado Pinto saiu d’O Papagaio e deixou o argumento em meio. Disse-me que lhe desse continuidade, pois achava-me em condições para o fazer. E sem saber de todo o que ele havia idealizado para desfecho da história, lá fui inventando outros episódios até à sua conclusão».

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 8

Pluto nº 5

Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

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Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

Pluto - Roubo e Crime [ 3 balas

Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

Pluto - Trovão e Felizardo

Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

Pluto - Mãezinha + hoje não!1

A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números, mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde conseguiu introduzir algumas HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

Pluto - Presépio

A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, quase 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima revista.

E, como já estamos a curtos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar a todos os nossos leitores e amigos os primeiros votos de Boas Festas do Gato Alfarrabista.

Présépio 2 APrésépio 3