O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 3

EPÍLOGO (QUE ERA PARA SER UMA INTRODUÇÃO)

Em Janeiro de 2003, fui convidado pelas Edições Asa (que ainda não pertenciam ao Grupo Leya) para coordenar um livro dedicado a Vasco Granja, nome emblemático da comunicação social portuguesa nos últimos decénios do século passado, figura incontornável de programas de televisão e de colóquios, exposições e festivais de Banda Desenhada, que se realizaram, nessa época, um pouco por toda a Europa.

Granja livroPioneiro de uma abordagem mais intelectual à Narração Figurativa, 9ª Arte ou Banda Desenhada (termo que foi o primeiro a intro- duzir no nosso léxico), como se convencionou chamar, desde então, às tradicionais histórias aos quadradinhos, Vasco Granja foi alvo, nesse livro, de especial homenagem por diversos autores de BD, entre os mais notáveis do nosso meio, alguns dos quais (a maioria, aliás) ilustraram guiões escritos por mim, em que ele, Vasco, era a personagem principal.

Conseguimos reunir uma numerosa equipa — 14 desenhadores! —, mas outros ficaram de fora por razões várias que os impediram de aceitar o nosso convite. Uma delas foi a falta de tempo, por estarem ocupados com outros trabalhos. Tive, assim, de abandonar, com muita pena, algumas ideias já postas em prática e que eram destinadas a desenhadores específicos, aqueles que me pareciam ter mais aptidões ou predisposição para as ilustrar. O conto humorístico que publicámos neste blogue, com o título supra, em honra de outra grande personalidade da BD portuguesa, foi inspirado numa dessas ideias que não passaram do esboço de um guião.

A recente morte de Mário do Rosário — uma das figuras que participavam nessa história, ao lado de Vasco Granja e de outros ilustres comparsas — despertou-me memórias adormecidas e o desejo de construir uma narrativa, refazendo um tema que, há treze anos, não cheguei a concluir para ser transformado em imagens. Espero que o resultado, tanto tempo depois, seja digno da pequena homenagem que quisemos prestar a quatro grandes pioneiros da BD portuguesa, e em particular àquele cuja obra, como director e editor da emblemática 2ª série d’O Falcão, marcou também uma época.

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O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 2

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia publicada na página online do jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016 (2 de 2):

Domingo, 6 de Agosto de 1972 (12h30)

As primeiras notícias da corrida são pouco animadoras e já há apostadores desiludidos, pois registou-se um acidente, perto da Nazaré, que quase ia vitimando Mário do Rosário, o concorrente que, fazendo jus ao seu favoritismo, levava quase meia hora de avanço sobre o mais próximo perseguidor, José Baptista.

Um cão que apareceu, de repente, na estrada, diante do carro lançado a alta velocidade, fez Mário do Rosário perder o controle da viatura e embater num poste de iluminação, depois de ter rodopiado algumas dezenas de metros, sem capotar. O Volkswagen ficou muito danificado e o seu condutor, gravemente ferido, teve de ser levado para o hospital. Aguarda-se ainda o primeiro boletim médico. Mas a corrida prossegue, agora com mais hipóteses de vitória para José Baptista e a sua equipa feminina.

Outro boletim noticioso, que fez manchete na última página do jornal desse mesmo dia:

Última hora — O “Rally dos Quatro Magníficos”, como foi baptizada esta singular corrida organizada pelo Automóvel Clube de Portugal e patrocinada pelo nosso vespertino, em que os participantes são todos especialistas de banda desenhada, teve mais uma baixa. José Baptista, que substituíra o acidentado ás da velocidade Mário do Rosário no comando da prova, sofreu também um percalço, apesar de conduzir com mais segurança. Perto do quilómetro 350, a sua viatura despistou-se bruscamente, por razões desconhecidas, numa curva pouco apertada, e saiu da estrada, indo enfaixar-se numa grande meda de feno que alguns trabalhadores agrícolas removiam para dois tractores. Felizmente, nenhum deles foi colhido pelo espampanante “bólide” sem direcção.

Segundo estas testemunhas, o Buick onde seguiam José Baptista e as suas assistentes ficou totalmente coberto de feno. Só se ouviam gemidos… mas pareciam de prazer!

Ao que apurámos, estes concorrentes sofreram um choque emocional — assim como o carro, cujo motor se foi abaixo — e resolveram desistir da corrida, que termina hoje, em Bragança, já depois do fecho desta edição.

Segunda-feira, 7 de Agosto de 1972

Terminou em Bragança, como estava anunciado, o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova por etapas organizada pelo ACP, com o patrocínio do nosso jornal, que já ontem à tarde tinha ficado reduzida a dois concorrentes, Vasco Granja e Roussado Pinto, depois dos acidentes sofridos por Mário do Rosário (que continua internado, mas livre de perigo) e José Baptista, acompanhado pelas suas assistentes.

Vasco Granja, que parecia ter todas as condições para ganhar tranquilamente a corrida, pois já levava um grande avanço sobre o seu adversário — que não é adepto de grandes velocidades, como nos declarou, mantendo sempre uma média de 50 kms à hora —, foi obrigado a desistir por causa de três furos simultâneos! Um azar dos diabos (passe a expressão), provocado, segundo os juízes da corrida, por excesso de peso.

Como já referimos na nossa reportagem, este concorrente, que também é coleccionador de banda desenhada, nunca se separa dos seus álbuns favoritos, edições raras e preciosas avaliadas em muitas centenas de escudos, e transportava mais de 30 quilos de bagagem. Por esse motivo é que não pode viajar de avião! 

Desclassificado por “grave falha técnica” (parece que os juízes não gostaram do excesso de peso), viu chegar a Bragança, já de noite, o concorrente em quem ninguém apostou, dado o seu manifesto desinteresse pela corrida (mas não pela comida, pois levou consigo uma magnífica merenda, digna de Pantagruel, como se fosse para um piquenique). 

Foi, pois, Roussado Pinto o vencedor do “Rally dos Quatro Magníficos”, cometendo uma proeza que ficará para a história do automobilismo, com o recorde da mais baixa velocidade em corridas do género. O troféu ser-lhe-á entregue em Lisboa, numa cerimónia em que estarão presentes altas individualidades do desporto e do Automóvel Clube de Portugal. Segundo uma fonte do ACP, o Citroën 2CV que se cobriu de glória na corrida, sem sofrer o menor dano, será também exposto ao público, no próximo Salão Automóvel.

Quarta-feira, 9 de Agosto de 1972

Para remate da reportagem com que acompanhámos o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova que acabou com a inesperada vitória de Roussado Pinto — um concorrente que tinha afirmado, antes da partida, não ter pressa em chegar à meta —, fomos ontem de manhã ao Hospital de S. José, em Lisboa, onde está internado Mário do Rosário, devido ao grave acidente que sofreu logo no primeiro dia da corrida, quando já levava vantagem sobre os seus três adversários.

Uma perna e um braço partidos e outras contusões mais ligeiras vão obrigá-lo a permanecer no hospital durante algumas semanas, o que não parece incomodá-lo, pois mantém o seu ar descontraído, espalhando bom humor à sua volta, como se estivesse num hotel, rodeado de amigos. As enfermeiras que o digam…

Nessa mesma manhã, tinha recebido a visita dos seus ex-adversários e o encontro deixou-o visivelmente satisfeito.

Quando entrámos no quarto, onde era, de momento, o único enfermo, saudou-nos efusivamente, apesar dos membros engessados não lhe permitirem muitos movimentos, e logo nos pôs a par dos seus últimos planos:

— Os meus amigos… isto é, os meus rivais… estão fartos de gozar comigo por eu ter a mania das velocidades. Mas se não fosse aquele estúpido animal, tinha ganho a corrida… e com grande avanço! Já ninguém me apanhava!

Pelos vistos, não perdera a prosápia nem a auto-confiança, como confirmaram as palavras seguintes, em tom peremptório:

Já lhes disse que se preparem para a desforra! Estou aqui para as curvas! Sou campeão de vendas com o Falcão! E hei-de vencer a próxima corrida!

Registámos esta declaração triunfal no nosso bloco-notas e fizemos questão de observar:

— Falta aqui um dos seus amigos… o Major Alvega…

Mário do Rosário percebeu a nossa ironia, mas retorquiu imediatamente, com um sorriso melífluo estampado no rosto:

— Não falta, não senhor… Esse está sempre ao meu lado!

E mostrou-nos uma mão-cheia de exemplares d’O Falcão, com histórias do Major Alvega, que tinha em cima da mesa dos medicamentos, ao pé da cama.

— Apesar do meu acidente, o Major Alvega continuará a voar, para deleite dos seus milhares de admiradores! Comigo, o trabalho está sempre adiantado…

Não temos pejo em confessar, amigo leitor, que esta foi uma das reportagens mais singulares que já realizámos em toda a nossa carreira jornalística. E admitimos também que nunca encontraremos, com toda a certeza, outra personalidade tão pitoresca como Mário do Rosário, que faz gala em afirmar que aprendeu com o Major Alvega a ser destemido como os pilotos da RAF, heróis da Segunda Guerra Mundial!

Um homem que, fiel a um dos seus nomes de baptismo (Durão), professa altivamente o lema “Dos fracos não reza a História”!

Nota final — Alguns leitores manifestaram a sua curiosidade sobre o nome desta corrida, criado também pelo Automóvel Clube de Portugal. Pois fiquem sabendo que os “quatro magníficos” não eram os concorrentes — embora bastante apreciados na sua área profissional —, mas as míticas viaturas que tiveram o prazer de conduzir… infelizmente com resultados desastrosos para alguns deles!

FIM da reportagem (e do conto) 

Repórter anónimo: Jorge Magalhães

 

O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 1

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia vinda a público no jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016:

«Vítima de doença incurável, faleceu ontem, com 89 anos, o antigo editor, publicista e técnico de meteorologia Mário Durão Ferreira do Rosário, cuja actividade editorial, entre 1960 e 1986, ficou indelevelmente ligada ao Grupo de Publicações Periódicas e a uma pequena revista de banda desenhada bastante popular durante esse período e que ainda hoje muitos leitores recordam: O Falcão.

Mário do Rosário retrato copyMário do Rosário, que foi o principal responsável da 2ª série, introduziu na revista inúmeros heróis de origem inglesa, entre os quais o famoso Battler Britton, “ás” da RAF e combatente da Segunda Guerra Mundial, a quem deu o nome de Major Alvega, que se tornou ainda mais célebre no nosso país —  uma espécie de instituição nacional, consagrada pela própria Força Aérea, que o adoptou como sua “mascote” na guerra colonial.

Mário do Rosário — que nunca viu esta medida com bons olhos, decidindo, por isso, em retaliação, “liquidar” o seu herói, cuja última aventura se intitulou simbolicamente “Os heróis também morrem” — foi, durante largos anos, funcionário do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, onde teve como companheiro de trabalho outro grande nome da BD portuguesa, o consagrado autor de narrativas históricas José Garcês.

Amigos e camaradas de profissão, assim como colaboradores de várias revistas de banda desenhada, como o Pim-Pam-Pum (suplemento do jornal O Século), o Jacto e O Falcão, eram quase da mesma idade e tinham amigos comuns, como o Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, então residente e a leccionar em Portalegre.

Viusão - Falcão 577 170Foi José Garcês quem nos informou do falecimento de Mário do Rosário, tendo ao mesmo tempo a amabilidade de nos recordar uma reportagem que publicámos neste jornal há 44 anos, a propósito de uma corrida que ficou célebre nos anais do automobilismo português, intitulada o “Rally dos Quatro Magníficos”, em que participaram Mário do Rosário e os seus “rivais” Vasco Granja, Roussado Pinto e José Baptista, representantes das principais revistas juvenis que então se publicavam em Portugal, além de O Falcão: o Tintin, o Jornal do Cuto e o Mundo de Aventuras (todas já extintas).

Como o tema não perdeu interesse, pois José Garcês contou-nos que Mário do Rosário, trabalhador super-activo, era também um ferrenho adepto do desporto automóvel — e partiu dele a ideia de desafiar os seus colegas para uma corrida de carros antigos, com mais de 20 anos de fabrico, cujos modelos e marcas seriam escolhidos pelos concorrentes —, fomos respigar essa reportagem aos nossos vastos arquivos, já totalmente digitalizados. E encontrámo-la sem dificuldade.

O anónimo repórter encarregado de cobrir o evento, que causou sensação pelo seu ineditismo entre os automobilistas portugueses e o público em geral, desempenhou-se bem da missão, como os nossos leitores poderão constatar através do curioso relato que transcrevemos na nossa página online».

Sábado, 5 de Agosto de 1972 – Dia da partida

Esta corrida, organizada pelo Automóvel Clube de Portugal (ACP), tem apenas quatro participantes, quatro “rivais” de natureza especial, que resolveram medir forças no terreno, aceitando o desafio de um deles, o director de uma revista juvenil chamada O Falcão. Os outros também são profissionais de banda desenhada, dirigindo revistas da concorrência: o Tintin, o Jornal do Cuto e o Mundo de Aventuras.

Que levou, afinal, estes quatro homens, com os nomes de Mário do Rosário, Vasco Granja, Roussado Pinto e José Baptista, representando cada uma daquelas revistas, a degladiarem-se num “rally” que percorrerá durante dois dias o centro e o norte do país, partindo da pitoresca localidade de Sintra, nos arrabaldes de Cascais?

Apenas o desejo de demonstrarem as suas habilidades desportivas, como condutores de automóveis — neste caso, autênticas relíquias do passado, pertencentes ao ACP, que as pôs ao dispor dos concorrentes —, ou algo mais? Embora nenhum deles quisesse satisfazer a nossa curiosidade e a do público que segue com grande interesse a corrida, desde os seus preparativos encetados há uma semana, parece-nos que o verdadeiro móbil desta curiosa competição é a rivalidade jornalística que mantêm há longos anos.               

Fomos entrevistá-los momentos antes do início da corrida. Nenhum quis ser fotografado, para evitar, segundo afirmaram, banhos de multidão, pois sabem que o nosso jornal tem uma grande tiragem, chegando a todos os distritos do país.

Eis o que nos disse Mário do Rosário, transbordante de entusiasmo e de confiança, passando a mão, numa carícia, pela carroçaria do seu Volkswagen Beetle de 1950 (uma versão primitiva do célebre “Carocha”, que ainda circula nas nossas estradas):

Tenho esperanças de ganhar e vou dar tudo por tudo, como o famoso Major Alvega, um às da velocidade criado por mim no Falcão.

— Mas esse é piloto da RAF…

— E eu sou um ás em terra… Já ganhei muitas gincanas, sempre ao volante de um Volkswagen!

A seguir interpelámos Roussado Pinto, que conduz um Citroën 2CV. Reparámos que levava no carro um cesto com um farnel bem aviado. As suas declarações deixaram-nos surpresos:

— Estou aqui porque gosto de viajar. Por isso, escolhi um 2CV… Que melhor oportunidade para gozar dois dias de férias?

— Então, não se importa de ficar em último lugar?

— Qualquer me serve… Eu só quero chegar ao fim da corrida e apreciar tranquilamente a paisagem! A vida são dois dias, meu amigo… Para quê ter pressa?

Vasco Granja foi o entrevistado seguinte. Sempre aprumado e bem vestido, com as suas espampanantes gravatas, recebeu-nos junto de um típico Fiat 500 Topolino. A parte traseira estava cheia de livros.

Não leva peso a mais? — perguntámos. Granja sorriu com jovialidade:

— São álbuns de BD, edições raras e preciosas, autografadas pelos seus autores… Hergé, Franquin, Jacobs… Acha que eu ia deixá-los em casa? E se a assaltassem na minha ausência?

— Então, leva sempre esses álbuns consigo?

— Para todo o lado, camarada… para todo o lado!

— Mas podem roubá-los noutro sítio… Na rua, no hotel…

— Só se me matarem!

Pelos vistos, Vasco Granja, o mais mediático dos concorrentes, por já ter sido preso pela PIDE, não nutre também ambições de vitória, pois pareceu-nos mais preocupado com a bagagem do que com a corrida.

Faltava-nos ouvir José Baptista, também conhecido pelo acrónimo de Jobat, que não desmentia o seu ar de galã, visto estar de braço dado com duas beldades de se lhes tirar o chapéu. O carro, um Buick Roadmaster descapotável, de 1950, cheio de cromados, é tão vistoso e de formas tão atraentes como elas. 

— Sempre em boa companhia, José Baptista! Estas meninas vieram dar-lhe apoio?

— São o meu co-piloto e o meu mecânico… É mais fácil ganhar em equipa!

— Mas assim está em vantagem sobre os outros concorrentes… que conduzem sozinhos.

— Isso é lá com eles! O regulamento do ACP não me proíbe de ter ajudantes…

Com um carro como o Buick e um duo de assistentes tão “competente”, é óbvio que José Baptista também apostou forte no triunfo, sendo o concorrente que Mário do Rosário verá mais vezes pelo seu retrovisor.

Daí a pouco, foi dado o sinal de partida e as quatro gloriosas relíquias automóveis rolaram nas verdejantes estradas de Sintra, entre vetustas mansões de aspecto senhorial, até se perderem na distância como sombras do passado.

                                                                                                                     (página 1 de 2)

MORREU O “PADRINHO” DO MAJOR ALVEGA

Por amabilidade de um dos seus melhores amigos, mestre José Garcês, que nos dá também a honra da sua estima e camaradagem, soubemos do falecimento, há poucos dias, de Mário do Rosário, mítico editor de Banda Desenhada que ficará indelevelmente ligado ao popular semanário O Falcão, cuja 2ª série, em formato de bolso, dirigiu, coordenou e editou, durante mais de 20 anos.

Nas décadas de 60 e 70 do século passado, O Falcão foi uma das revistas da especialidade mais apreciadas por leitores de várias faixas etárias, graças ao formato apelativo, ao preço módico, às belas capas (muitas delas realizadas por José Garcês) e às séries e aos heróis que publicou, com destaque para um carismático piloto e “ás” da RAF, herói da 2ª Guerra Mundial, que ficou conhecido pelo nome de Mario do Rosário - Falcão 417 750 copyMajor Alvega — inventado, aliás, por Mário do Rosário, que preferiu ignorar o patronímico inglês (Battler Britton), sem poder adivinhar que tinha gerado uma autêntica lenda da história e do universo dos media portugueses do século XX.

Ainda vivo, pelo menos na memória dos leitores d’O Falcão (e dos espectadores da RTP) que vibraram com as suas aventuras, o Major Alvega deve sentir, neste momento, a falta do seu maior amigo, daquele que — ao apadrinhá-lo, dando-lhe outro nome e uma dupla nacionalidade — criou um fenómeno de culto que transcendeu as suas próprias origens nos comics de guerra do Reino Unido.

Nota: a foto de Mário do Rosário inserida neste post provém, com a devida vénia, do blogue Largo dos Correios, onde podem ler um magnífico artigo do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho intitulado “Super-Mário e O Falcão”, cujo link transcrevemos: https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/08/18/mario-do-rosario-1927-2016/

A PRIMEIRA AVENTURA DO MAJOR ALVEGA

Como já foi largamente noticiado, a mini-série de banda desenhada clássica dos anos 60 e 70 inserida na revista Visão iniciou-se com uma aventura do popularíssimo Major Alvega (aliás, Battler Britton), publicada no semanário juvenil O Falcão nº 577, em 17/8/1971, e reeditada anos depois no nº 1247 da mesma revista.

Esta dinâmica série inglesa, nascida em 7/1/1956 na revista Sun, com desenhos de Geoff Campion e guiões de Mike Butterworth (a que se seguiriam muitos outros criadores, de várias nacionalidades), fez também dezenas de aparições em episódios mais longos publicados em revistas de formato de bolso que granjearam, na época, grande sucesso: War Picture Library, Thriller Picture Library e Air Ace Picture Library, todas com o selo da Amalgamated Press/Fleetway/IPC, editora de antigas tradições localizada em Londres.

Falcão 371 - Major Alvega 175O formato e o número de páginas d’O Falcão (2ª série) eram idênticos aos dessas revistas de bolso, embora não constituíssem uma novidade no nosso mercado, pois algumas publicações da Agência Portuguesa de Revistas (APR) já o tinham adoptado muito antes. Mas O Falcão soube rechear as páginas da sua nova série com o melhor material e os mais célebres heróis oriundos das Picture Libraries, dividindo essas histórias em várias séries que abarcavam tanto o western, o policial, a ficção científica e o género histórico, como as aventuras de guerra e espionagem. 

Nestas foi o Major Alvega (assim baptizado pelo editor da revista, Mário do Rosário, num momento de feliz inspiração) que se destacou como grande favorito, permanecendo em contacto com os leitores até ao penúltimo número (1285) de um título que durou cerca de 30 anos, fazendo durante esse período acesa concorrência ao veterano Mundo de Aventuras.

Viusão - Falcão 577 170Tamanha foi a celebridade que o “ás” da RAF alcançou no nosso país que até deu origem, como é sabido, a uma série da RTP (1998-1999) interpretada por actores portugueses e de formato bastante original, pois misturava imagens reais com cenas de animação computorizada. O resultado foi mais do que satisfa- tório e o êxito da série chegou mesmo a transpor as fronteiras da RTP, que a vendeu para vários países.

Em 1989, o Major Alvega fez uma breve reaparição nas páginas da revista mensal Selecções BD (2ª série), que publicou dois dos primeiros episódios desenhados por Geoff Campion, num exímio estilo realista que dava grande dinamismo à acção bélica da série. A título de curiosidade, reproduzimos um deles (que é precisamente o primeiro de um longo rosário de aventuras) e o artigo de apresentação, da autoria de Carlos Pessoa, ambos publicados no nº 2 (Dezembro de 1998) de Selecções BD (coordenada, então, por mim).

Registe-se também a espectacular “ressurreição” de Battler Britton numa graphic novel editada em 2006 pela DC Comics, com argumento de Garth Ennis e desenhos de Colin Wilson, que chegou a ser publicada em Portugal.  

Selecção BD Major Alvega artigo

Num próximo post dedicado ao Major Alvega, divulgaremos uma lista dos seus episódios publicados n’O Falcão, em que se destacam desenhadores da craveira de Colin Merret, Solano Lopez, José Ortiz, Luis Bermejo e Hugo Pratt, entre muitos outros. A propósito, o episódio agora incluído na mini-série da Visão (que o reeditou em fac-simile, mas num formato maior que o das versões originais e num papel de má qualidade, demasiado transparente) foi desenhado pelo artista britânico George Stokes, criador de uma excelente série western largamente difundida no Mundo de Aventuras e noutras publicações de há 40/50 anos: Wes  Slade. Muitos leitores desse tempo talvez ainda se lembrem dela.

E aqui têm o 1º episódio das aventuras do famoso Major Alvega (aliás, Battler Briton).

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COLECÇÃO BANDA DESENHADA (OS VELHOS E BONS HERÓIS DA BD CLÁSSICA) – FASCÍCULOS 1 E 2

Visão - Heróis da BD

A propósito desta colecção, de que já saíram dois fascículos com a revista Visão, concordamos por inteiro com as críticas que Pedro Cleto lhe fez no seu blogue As Leituras do Pedro (ver em http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/2016/03/coleccao-banda-desenhada-com-visao.html), nomeadamente quanto à selecção dos títulos, que deixa muito a desejar por falta de critério, misturando revistas importantes com outras que não fizeram história. O mais grave, quanto a nós, é terem incluído também O Mosquito, através da sua série menos representativa, com um único número publicado em 1975. Até podia ser um número com um conteúdo interessante, como é o d’O Falcão, por exemplo, mas bem pelo contrário… pois trata-se de uma medíocre historieta inglesa. Mais valia terem optado por um número da 2ª série, dirigida e editada por José Ruy, no início dos anos 60 (período que se enquadra no desta colecção). Ou mesmo da 3ª, com quatro números apenas, mas que reeditou algumas célebres criações de grandes autores ingleses.

A ideia de aumentar o formato d’O Falcão #577, com uma aventura do popular “ás” da aviação Major Alvega (de que falaremos noutro post), não foi má de todo, mas a qualidade do papel, demasiado transparente, estragou as boas intenções. Nem mesmo as revistas desse tempo (como o Mundo de Aventuras ou o Jornal do Cuto) usavam papel tão amarelado (para não lhe chamar “ordinário”). Dá a impressão de que os autores desta colectânea quiseram dar-lhe um aspecto tão “retro” que escolheram esse tipo de papel por ser o mais adequado aos seus intentos. Mas falharam redondamente, porque mesmo revistas mal conservadas não “envelheceram” tanto (salvo em casos extremos) como aparentam os exemplares já publicados pela Visão. Tenho no meu acervo revistas bem mais antigas, algumas com 80 anos ou mais, num estado de conservação tal que parecem ter saído da gráfica há poucos meses… descontando, claro, as diferenças de impressão, pois os processos tipográficos desse tempo eram rudimentares comparados com os actuais.

A questão do formato também não nos satisfaz, pois foi preciso reduzir o de algumas revistas (caso do Mundo de Aventuras, do Jornal do Cuto e do Cavaleiro Andante) e aumentar outros (como o d’O Falcão e d’O Mosquito). Portanto, não lhes podemos chamar fac-similes, porque as revistas originais têm dimensões bastante diferentes. Preferíamos que se tivesse optado por revistas de pequeno formato, como o d’O Falcão (2ª série), já que a ideia era criar um padrão uniforme. As revistas de formato maior destoam nitidamente do conjunto, apesar da sua leitura não ser muito prejudicada. Verdade se diga, vendo a questão por outro prisma, que o formato padronizado tem vantagens para os leitores que quiserem encadernar os seis fascículos. Mas alguém lhes dará valor daqui a alguns anos?

Viusão - Encarte A 171

Quanto ao impacto desta colecção junto do público em geral, não queremos, por ora, fazer prognósticos. Trata-se, como é óbvio, de uma amálgama de títulos destinada aos leigos e não aos coleccionadores. Alguns destes, entre os mais nostálgicos, apreciarão certamente a iniciativa, os mais novos desinteressar-se-ão, em absoluto, ou poderão adquirir um ou outro título, por mera curiosidade. De qualquer forma, deve haver também um nicho de mercado para este tipo de edições, mas apresentadas de forma mais cuidada e com as devidas anotações teóricas e críticas (mesmo feitas à parte). A história da BD em Portugal também inclui, em larga percentagem, as revistas de índole mais juvenil, que ajudaram a fomentar o gosto de muitas gerações pela leitura e pelos quadradinhos. E a Visão, semanário de grande tiragem e projecção nacional, poderia ser um bom veículo para as dar a conhecer ao público de hoje. Mas faltou o “golpe de asa” a este projecto…

O 2º fascículo inserido na edição da semana passada, com uma reprodução do Mundo de Aventuras #32 (2ª série), contendo três histórias completas, entre elas uma aventura de Mandrake e Lotário, tem para mim um significado especial, pois foi no número seguinte que comecei ‘off the record’ a coordenar esta revista. Por razões que não interessa agora explicar, só bastantes números depois, quando esta série do MA chegou ao nº 100 (já com outro formato), é que o meu nome apareceu como coordenador na ficha técnica, lá se mantendo até ao último número (589), saído em Janeiro de 1987.

O fim de uma era de saudosa memória, pela qual passaram alguns dos maiores nomes da BD portuguesa, como E.T. Coelho, Vítor Péon, Fernando Bento, Simões Müller, Cardoso Lopes, Raul Correia, Roussado Pinto, Jayme Cortez, José Ruy, José Garcês, Carlos Alberto, José Antunes, José Baptista, Artur Correia, Carlos Roque, Eugénio Silva, Júlio Gil, Vítor Mesquita, Pedro Massano, Augusto Trigo, Fernando Relvas e muitos mais!…

Voltando ao MA #32, o episódio de Mandrake, desenhado por Fred Fredericks, não é dos melhores desta fase, mas nele reaparece um dos mais carismáticos inimigos do mestre da magia: o “Bando dos Oito”, o que lhe confere algum interesse. E gostei também de rever duas histórias que traduzi para este número, com o Devil Doone, um detective de origem australiana que se safava sempre do perigo, e Roland Garros, célebre herói da aviação francesa, na 1ª Guerra Mundial. Bons tempos em que uma certa ingenuidade e um saudável pendor ecléctico caracterizavam ainda a BD de cariz mais popular!

Visão encarte 2

OPERAÇÃO BD NOSTALGIA NA REVISTA “VISÃO”…

… OU O REGRESSO DOS VELHOS HERÓIS!

Visão - heróis da BD 2152

Numa iniciativa que muitos bedéfilos saudarão certamente com regozijo, a revista Visão resolveu celebrar o seu 23º aniversário de uma forma especial, oferecendo aos seus leitores, durante seis semanas, uma deliciosa [sic] colecção de Banda Desenhada antiga publicada em Portugal, que começa com o saudoso Major Alveja e engloba também outros heróis de mítica fama como Mandrake, Fantasma ou Flash Gordon.

Numa altura em que alguns jornais, com inegável destaque para o Público, têm dedicado à BD uma atenção especial, apresentando colecções baseadas nos grandes clássicos da escola franco-belga e nos maiores super-heróis norte-americanos (sem esquecer o precioso filão das graphic novels), registamos naturalmente com agrado — ainda que com algumas reservas em relação ao critério selectivo, sobretudo dos dois últimos títulos — este  “brinde” aos amantes das histórias aos quadradinhos de outra época e de outro género de heróis, quando as bancas se enchiam de revistas de cariz popular, com títulos emblemáticos que ainda hoje ecoam no imaginário de várias gerações e povoadas por trepidantes aventuras, cujos arquetípicos personagens — alguns já quase com um século de existência — parecem ter o condão de viver para sempre!

Fazemos votos de que outros heróis “adormecidos” no tempo, mas não na memória dos que com eles cresceram, sonharam e viveram muitos momentos de exuberante fantasia, possam em breve voltar à acção, em iniciativas semelhantes à que a revista Visão decidiu levar a cabo para assinalar, de forma diferente, um aniversário que decerto ficará também na memória dos seus inúmeros e fiéis leitores.  

O REGRESSO DE RIC HOCHET – 4

Ric Hochet - Relevez le gant! 467

1959 foi o ano em que o jovem repórter do La Rafale deu mais um passo importante (e decisivo) na sua carreira — até aí limitada, como já referimos, a curtos e esporádicos episódios completos —, tornando-se titular, no Tintin belga, de uma sensacional novidade: uma rubrica com o título Relevez le gant!, constituída por uma série de problemas policiais cuja decifração desafiava, na melhor tradição de Agatha Christie e Hercule Poirot, a argúcia e as faculdades dedutivas dos leitores.

Alguns desses casos, em que Ric Hochet estava sempre acompanhado pelo inspector Bourdon, foram também publicados no semanário O Falcão (1ª série), que chegou mesmo a instituir um concurso, com regulamento, destinado aos jovens sherlocks portugueses. E foi também n’O Falcão (nº 60, de 4/2/1960) que apareceu um dos primeiros episódios de Ric Hochet, com o título Ric Hochet e a “Sombra” (Ric Hochet contre l’Ombre).

Ric Hochet - Aceite o desafio + O Sombra

Pormenor curioso: enquanto que no Cavaleiro Andante e no Zorro o jovem repórter criminologista foi baptizado com nomes portugueses (embora vivesse na Cidade-Luz, trabalhando para um jornal parisiense), n’O Falcão, manteve o seu próprio nome, o que prova que a censura nada teve a ver com essa mudança de identidade.

Em 1962, Ric Hochet foi ainda protagonista de uma longa novela de mistério com o título Monsieur X frappe à minuit, cujo texto tinha também a assinatura de André-Paul Duchâteau, o argumentista que se tornou o parceiro ideal de Tibet quando a sua nova criação começou finalmente a aparecer em histórias de “longa metragem”, conquistando, em pouco tempo, o estatuto de grande vedeta do jornal Tintin.

A título de curiosidade mostramos duas páginas dessa novela, ilustrada por Tibet, tal como foi publicada no Zorro, a partir do nº 33 (25/5/1963), com um título semelhante: O sr. X ataca à meia-noite. Tempo depois, o destemido e arguto “Mário João” transitou para as histórias aos quadradinhos, vivendo três novas aventuras que o tornaram ainda mais popular entre os leitores da revista, muitos dos quais desconheciam o seu verdadeiro nome.

Ric Hochet - Sr. X

Na época anterior à consagração de Ric Hochet (que só chegou tardiamente, depois de um longo caminho, como já vimos), Tibet estava ainda “colado” à imagem de Chick Bill, o seu personagem de maior êxito, ao ponto de aparecer vestido de cowboy numa curiosa “pantomina” em que vários colaboradores do Tintin assumiam a aparência dos heróis que lhes tinham dado justa fama, “disfarçados” com a sua habitual indumentária.

Essa página, que a seguir apresentamos, foi publicada no nº 12 (14º ano), de 25/3/1959, e nela podemos reconhecer as veras efígies de alguns dos mais populares autores da BD franco-belga, fazendo honrosa companhia a Tibet.

Ric Hochet - Tintin 12

Recordamos novamente que o jornal Público, em parceria com as Edições Asa, brindou os apreciadores desta série (entre os quais nos incluímos) com algumas aventuras inéditas do dinâmico repórter detective, inseridas na colecção “Os Piores Inimigos de Ric Hochet” (12 álbuns). Os leitores interessados encontram um amplo noticiário sobre essa colecção no blogue A Montra dos Livros.

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 8

DUNLOP, O INVENTOR DA RODA PNEUMÁTICA

A garden hose provided John Dunlop with a smooth bicycle rideUm campeão chamado J. Agostinho 2

Nesta pré-época do futebol, em que todos os grandes clubes com aspirações a copiosas vitórias (e receitas) em futuros torneios tendem a contratar novos jogadores e a renovar as suas equipas técnicas, com vultuosas transferências de milhões de euros (como no mediático caso de Jorge Jesus), há outro desporto, de uma modalidade muito mais modesta (e mais antiga), que durante os longos e cálidos dias de Julho e Agosto chama também a atenção dos media e desperta o entusiasmo dos espectadores.

Claro que estamos a referir-nos ao ciclismo, cujas provas principais, como a Volta à França, a Volta à Itália, a Volta à Espanha e a nossa menos carismática Volta doméstica, já iniciaram o seu calendário, enchendo as estradas com o clássico e colorido espectáculo das longas filas de corredores, agrupados em pelotões compactos e em equipas que mal se distinguem umas das outras, numa homogénea mole humana que serpenteia pelas monótonas pistas de asfalto, plácida ou velozmente, com a natureza campestre e os cenários urbanos em pano de fundo. Lembrando-nos (sempre) um grande campeão português, Joaquim Agostinho, que mestre Fernando Bento, outro gigante, mas da arte e das histórias aos quadradinhos, retratou com o seu traço genial.

Bicicletas primitivas 2Mas já pensaram nas voltas que deu o pequeno e veloz velocípede até se tornar o símbolo de um dos desportos mais populares do nosso tempo, embora nascido na agitada era da revolução industrial? Ao princípio, as bicicletas eram de madeira, pesadas e incómodas porque a sua tracção se fazia ainda sem pedais. Imaginem os desajeitados velocipedistas, de pés assentes no solo, impelindo-as com pequenos saltos! Só muito mais tarde, cerca de 1885, o novo veículo, depois de passar por profundas transformações, ganhou velocidade e ligeireza com um sistema de duas rodas do mesmo tamanho, substituindo os modelos anteriores com uma grande roda traseira (ou ainda mais bizarros, como o da imagem anexa), que permitiam ao seu ocupante equilibrar-se melhor no selim e passear orgulhosamente nas avenidas citadinas, entre cabriolés puxados por cavalos.

John Dunlop filhoMas os acidentes não estavam afastados, porque as rodas ainda eram pesadas (já não de madeira, mas metálicas, como o resto da estrutura), e qualquer pequeno obstáculo podia provocar quedas dolorosas. Por causa da trepidação e dos numerosos acidentes, as bicicletas — utilizadas cada vez mais pela classe média e pelo operariado, ao ponto de se tornarem um símbolo da sua ascensão social — ganharam mesmo um epíteto pejorativo: “boneshakers” — isto é, em sentido figurado, “quebra-ossos”.

Dunlop na sua bicicletaFoi então (1887) que surgiu, pela mão de um médico veterinário de espírito sagaz, nascido na Escócia e chamado John Boyd Dunlop (1840-1921), um invento que trans- formou por completo a bicicleta, tornando-a um veículo mais ligeiro, mais cómodo, mais robusto e mais seguro. Graças a uma ideia de génio — pneumáticos com ar comprimido revestindo as duas rodas —, Dunlop conseguiu ultrapassar uma das barreiras que impediam a humanidade de desenvolver novos e mais eficientes meios de transporte. Foi, como tantos outros sábios e inventores, alguns por mero acaso, um elo fundamental da meritória cadeia que põe em movimento as rodas do progresso e projecta a inteligência humana até aos patamares do futuro.

Leiam seguidamente a história do médico John Dunlop e do seu precioso invento, que o nosso bem conhecido Jean Graton, um dos maiores especialistas desportivos da Banda Desenhada europeia, narrou com o seu habitual estilo prático e bem documentado, em sequências dinâmicas e realistas, dadas à estampa no Tintin belga nº 22 (12º ano), de 29 de Maio de 1957, e n’O Falcão (1ª série) nº 67, de 24 de Março de 1960.

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