A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 15

VASCO DA GAMA E O CAMINHO MARÍTIMO PARA A ÍNDIA

Conforme informação recolhida, com a devida vénia, no conhecido blogue Divulgando Banda Desenhada, eficientemente coordenado por Geraldes Lino, nosso amigo de longa data e bedéfilo dos “quatro costados”, a página supra, dedicada ao épico feito do navegador português Vasco da Gama, foi publicada na revista Eagle nº 50 (22/3/1951).

Embora o facto mereça relevo — pois os ingleses sempre ligaram mais importância aos seus feitos e aos seus heróis marítimos do que aos de outras nações —, não deixa de chamar a atenção a falta de autenticidade de alguns pormenores, a começar, desde logo, pelos navios, que pouco se parecem com as pequenas e frágeis caravelas portuguesas, de velame reduzido, facilmente manobráveis, mesmo no mar alto; pelo contrário, as imagens desta página lembram os pesados galeões dos séculos XVI e XVII com que os marinheiros e corsários ingleses conquistaram, a ferro e fogo, o domínio dos mares.

Na última vinheta, a fantasia do desenhador (cujo nome nós também ignoramos) foi ainda mais longe, ao transformar Belém, um local quase ermo, nessa época, num subúrbio ridente e populoso da capital portuguesa — que o êxito das expedições marítimas à Costa da Mina tinha transformado numa das mais ricas da Europa desse tempo.

Neste “quadradinho”, a imagem de quatro navios é outro atropelo ao rigor histórico, pois, na verdade, apenas dois regressaram da longa e tormentosa travessia até à Índia, em busca “de especiarias e de cristãos”. Os outros tiveram destino diferente: a caravela de Bartolomeu Dias deixou a frota, logo no início da viagem, para se dirigir à feitoria de S. Jorge da Mina, enquanto que a nau S. Rafael, capitaneada por Paulo da Gama, irmão do capitão-mor da armada, foi destruída pelo fogo, na costa de Mombaça, por ordem de Vasco da Gama (tal como acontecera à nau dos mantimentos, na viagem de ida, ao aportarem à Angra de São Braz), porque já eram poucos os marinheiros, no regresso da Índia, tornando ainda mais difícil a manobra e pondo em risco o sucesso da expedição.

Mais haveria a dizer, mormente quanto à estadia dos portugueses em Calecute, que não foi tão pacífica e festiva, nem tão longa, como o autor do texto dá a entender. Mas ficamos por aqui, sublinhando apenas, mais uma vez, a falta de rigor documental e histórico desta rubrica, pois a heróica epopeia de Vasco da Gama — magistralmente descrita por E.T. Coelho na sua obra-prima “O Caminho do Oriente” (Os Lusíadas da BD Portuguesa) — merecia outra abordagem, numa revista tão emblemática como a Eagle.    

Razão tem aquele velho ditado português: “no melhor pano cai a nódoa”…

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 8

Estátua Vasco da Gama  838VASCO DA GAMA (1)

Entre as personagens da História de Portugal mais em foco, todas as que estão relacionadas com a época dos Descobrimentos adquiriram um cunho e um simbolismo especiais, nomeadamente Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Diogo Cão, Gil Eanes, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães e o Infante D. Henrique.

No campo da literatura juvenil e em particular da Banda Desenhada, todas foram retratadas por vários autores portugueses e até de outras origens, embora na maioria dos casos as versões alheias tenham tido pouca ou nenhuma divulgação entre nós, reduzindo bastante o conhecimento da importância e da projecção que os feitos heróicos dos nossos antepassados tiveram (e ainda têm) para muitos especialistas de diversas áreas, incluindo a Figuração Narrativa.

Albi del Vittorioso

Hoje, vamos recordar a figura de Vasco da Gama, fidalgo da confiança de D. Manuel I, natural de Sines, que se cobriu de glória por ter comandado a expedição que desbravou o caminho marítimo para a Índia, numa longa e atribulada viagem de dois anos (ida e volta), iniciada na praia do Restelo em 8 de Julho de 1497.

Milhares de jovens leitores d’O Mosquito reviveram no seu espírito, durante um período quase equivalente ao tempo real da viagem, a epopeia dos audazes navegadores portugueses, graças às magníficas imagens, em formato maior do que o normal (quatro, três e, às vezes, só uma por página), de uma magistral criação de Eduardo Teixeira Coelho, com o título “O Caminho do Oriente”, que um eminente crítico e estudioso das histórias aos quadradinhos, António Dias de Deus, comparou aos versos imortais de Camões, cognominando-a, com acerto, “Os Lusíadas da BD Portuguesa”.

Caminho do Oriente 1

Caminho do Oriente Vinheta Simão Infante849Descrito de forma lírica e empolgante por Raul Correia — e às vezes, também, em verso, como no episódio avulso da conquista de Lisboa aos Mouros, que o marinheiro trovador Fernão Veloso narrou aos seus companheiros, num momento de calmaria da viagem —, “O Caminho do Oriente” tem como principal protagonista um ladino garoto chamado Simão Infante, que veio para Lisboa, em cata de fortuna e de aventuras, e logo teve a sorte de se cruzar com Vasco da Gama, caindo nas boas graças do futuro Vice-Rei da Índia, pela sua esperteza, honestidade, arrojo e valentia.

Essas qualidades valeram-lhe também o favor régio e permissão para embarcar na pequena esquadra que se preparava para sulcar os mares desconhecidos, tornando realidade o velho sonho de descobrir a rota das Índias, das especiarias, das terras fabulosas que ocultavam preciosos tesouros.

Caminho do Oriente 2Caminho do Oriente 3

O sonho cumpriu-se e Simão Infante, depois de muitas e aventurosas peripécias em terras distantes e exóticas, que nunca sonhara conhecer — onde havia confraternizado com gentes de várias raças, aprendendo novos costumes e novas línguas, combatido perigos e inimigos de toda a espécie, às vezes escondidos na sombra, a ruminar planos de traição, e encontrado pitorescas personagens, como Tzerine, o mestre de artes marciais, e o faustoso Samorim, rajá de Calecut, que Vasco da Gama tratava com cortesia e prudente astúcia —, regressa ao reino com os sobreviventes da expedição, mais atilado e experiente do que à partida, graças a tudo quanto vira, aprendera e padecera.

Caminho do Oriente 4Caminho do oriente 5

E, como a razão assiste aos valentes, Simão Infante não hesita em provar, mais uma vez, que é um moço de rija têmpera e um patriota dos quatro costados, quando um bufão começa a escarnecer dos perigos e tormentos da viagem, maldizendo os intrépidos mareantes que tinham passado por tantas provações, sob o férreo comando de Vasco da Gama, para levar até aos gentios o nome de Portugal e a fama dos seus heróis.

Caminho do Oriente 6

História de longa duração, como já referimos, publicada entre os nºs 749 (28/8/1946) e 941 (30/6/1948) d’O Mosquito — embora com muitos intervalos, por doença ou excesso de trabalho de E. T. Coelho —, “O Caminho do Oriente” tornou-se uma das obras mais emblemáticas da BD portuguesa, vencendo a barreira do tempo para chegar até outros leitores, através das oportunas reedições no Jornal do Cuto, em 1971/72, e mais tarde na Antologia da BD Portuguesa, a primeira edição integral em álbum (seis volumes), a partir de provas originais, com posfácios de António Dias de Deus e textos revistos (depois de obtido o beneplácito do seu autor, Raul Correia), para evitar que as legendas, por vezes demasiado extensas, tapassem parte dos desenhos.

Vasco da Gama - Caminho do oriente Futura 1 e 2

Versões curtas, em jeito de biografia resumida, sobre a homérica epopeia de Vasco da Gama e do seu punhado de marinheiros, também as houve, realizadas por outros especialistas de temas históricos, como Baptista Mendes e Eugénio Silva, autores já familiares aos visitantes assíduos deste blogue.

A título de curiosidade, aqui ficam mais duas histórias com a sua assinatura, extraídas respectivamente do Mundo de Aventuras nº 476, de 25/11/1982, e do livro escolar Lições de História Pátria, com texto de Pedro de Carvalho.

Vasco da Gama -Baptista Mendes 1 e 2Vasco da Gama - Eugénio Silva 1e 2

Capa Pisca Pisca 17Outro desenhador português de ecléctica perso- nalidade artística, que deixou largo testemunho como pintor de excepcional craveira e desenhador de apurado estilo realista (embora, na BD, preferindo o preto e branco), Carlos Alberto Santos de seu nome, evocou também a figura e os feitos de Vasco da Gama numa história publicada a cores no nº 17 (Julho de 1969) da revista Pisca-Pisca, com o título “O Almirante das Naus da Índia” e texto de Olga Alves.

Pelo seu estilo vigoroso, as cores garridas e a abordagem concisa, mas sugestiva dos factos históricos, este breve episódio merece também ser recordado — o que fazemos, com a devida vénia, em jeito de homenagem ao prodigioso talento de um Mestre ainda vivo, que consagrou alguns dos seus ócios a uma paixão menor, mas indesmentível: a Banda Desenhada.

Vasco da Gama - Carlos Alberto 1 e 2Vasco da Gama - Carlos Alberto 3 e 4Vasco da Gama - Carlos Alberto 5          856