O MARAVILHOSO NATAL DO “DIABRETE” (1950)

Eis mais uma homenagem que prestamos ao Diabrete, a revista infanto-juvenil que durante um longo período, de 1941 a 1951, ofereceu aos seus leitores, por tradição, as mais belas capas de Natal de toda a imprensa portuguesa.

Desde o início que essas capas eram realizadas por Fernando Bento, cujo génio gráfico, cénico e ilustrativo não parava de evoluir, rivalizando com o dos seus colegas artísticos, ao serviço de revistas com as quais o Diabrete mantinha animada competição, como O Mosquito, o Tic-Tac, O Papagaio, O Faísca e O Senhor Doutor.

Natal Diabrete 50 - poema Natal Feliz 392Algumas, apesar da sua longevidade, foram ficando pelo caminho, porque não souberam adaptar-se aos ares do tempo, aos novos gostos do público, que O Mosquito e o Diabrete tinham apurado com a apresentação de novos heróis, em aventuras mais modernas e trepidantes, ilustradas por artistas de grande craveira, e com a importância cada vez maior que davam às histórias aos quadradinhos. Em 1950, a luta entre os dois grandes rivais continuava acesa, com ligeira vantagem d’O Mosquito, que contava ainda com um importante trunfo, as excelentes criações de Eduardo Teixeira Coelho — artista ímpar no panorama nacional —, e soubera renovar-se, acompanhando a evolução das próprias modas juvenis, ao apostar em séries inglesas e americanas de estilo mais adulto (como o seu congénere Mundo de Aventuras, um novo título que começava a disputar seriamente o domínio do mercado).

Mas, mantendo viva a tradição, o Diabrete atingia sempre um ponto alto com os seus números especiais de Natal, que tinham o dobro das páginas e apresentavam um sumário bem recheado, com episódios completos e séries em continuação, além dos contos, das rubricas mais variadas, de interesse lúdico e didáctico, e dos poemas de Adolfo Simões Müller, como era norma na revista dirigida por este fervoroso educador da juventude.

Natal Diabrete O tesouro do cap Rosa [ minas de Salomão

Natal Diabrete 50 - Bob e bobette390

Não fugindo à regra, o número de Natal de 1950 — que seria o penúltimo no já longo historial do Diabrete — encheu de júbilo os leitores que o receberam como prenda nesse dia festivo, oferecendo-lhes magníficas aventuras como “O Tesouro do Cavaleiro da Rosa” (com Tim-Tim à procura do segredo do Licorne), “O Mistério do Quadro Flamengo”, episódio de outra famosa série belga (Bob e Bobette, criação de Willy Wandersteen), “As Minas de Salomão”, ilustradas por Fernando Bento, a partir do famoso romance de Rider Haggard (que muitos ainda atribuem a Eça de Queirós), “Histórias dos Velhos Deuses”, as mitológicas proezas de Teseu, herói de Atenas, revividas pelo traço de Marcello de Morais, “Aventuras do Capitão Hatteras”, versão de uma obra de Jules Verne, realisticamente adaptada por A. Maniez — que também ilustrou uma das histórias completas deste número, com o título “Os Ajudantes do Menino Jesus” —, e mais, muito mais, num total de 32 páginas que todos os fiéis amigos do “grande camaradão” liam com deleite, mergulhados num mundo de diversão e fantasia que até os fazia esquecer as outras prendas natalícias.

Natal Diabrete 50 - Ajudantes M Jesus 1 e 2

Este número — cuja capa, interrompendo a série de magníficas ilustrações de Fernando Bento, foi o trabalho de estreia, primoroso na sua simplicidade, de um novel colaborador, José Manuel Soares, a quem estava reservado um auspicioso futuro artístico — inseria ainda um Presépio ilustrado por Pili Blasco, irmã do mestre espanhol Jesús Blasco, à qual se deviam duas histórias de género romântico (mas que os rapazes também apreciavam): “O Príncipe Valente e a Menina Cega” e “O Ferreiro de Coração de Oiro”.

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Por último, não podemos esquecer o tradicional poema de Adolfo Simões Müller, cujas evocações da quadra natalícia tinham sempre uma toada diferente (podem lê-lo na abertura deste post), e a divertida história “Diabrete Pai Natal”, em que o estro humorístico de Fernando Bento, sem perder o seu cunho próprio, foi buscar inspiração a uma farsa de Cuto, o célebre herói criado por Jesús Blasco, que O Mosquito, em peripécias bem mais realistas, continuava a apresentar nas suas páginas.

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O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 13

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A fechar este breve e evocativo ciclo, com mais capas de Natal que embelezaram algumas revistas juvenis portuguesas, como O Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante e o Camarada, apresentamos outra capa ilustrada por Carlos Alberto Santos para o Jornal do Cuto, desta vez a traço e mantendo as mesmas características tradicionais de representação da imagem do Presépio.

A única diferença relativamente à que figura num post anterior, dedicado ao mesmo artista, que podem (re)ver aqui, é que Carlos Alberto mudou a indumentária de São José, dando-lhe um aspecto mais condizente com o que rezam os textos evangélicos, pois era hebreu, natural da Galileia, e não árabe.

Demonstrámos assim, com esta selecção de treze capas, que a maioria dos nossos desenhadores ao serviço de revistas para a juventude foi fiel às tradições sacras do Presépio, retratando as suas principais figuras, a Virgem Maria, o Menino Jesus e São José, quase sempre da mesma maneira. Uma das poucas excepções à regra (e sem dúvida a mais notável) foi Fernando Bento.

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 12

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Esta magnífica capa de Júlio Gil, um dos maiores mestres da ilustração e da BD portuguesas, merece figurar também nesta antologia, pela delicadeza e simplicidade com que descreve, com um traço sóbrio e espontâneo, de suave textura, a imagem enternecedora do Menino Deus nos braços de Sua Mãe.

Fugindo ao cenário tradicional do Presépio, Júlio Gil consegue sugerir a sua evocação de forma mais singela e, ao mesmo tempo, mais refinada, espelhando numa feliz síntese gráfica o significado profundo da Natividade e da mensagem redentora que ela fez chegar a todo o mundo e ao coração dos homens.

Com esta capa o quinzenário Camarada celebrou mais um Natal com os seus leitores, tornando ainda mais especial o número 26 (2ª série, 6º ano), publicado em 25/12/1963.   

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 11

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Em 1953, depois do desaparecimento d’O Mosquito, E. T. Coelho fez uma breve incursão no Cavaleiro Andante, desenhando a capa do número de Natal desse ano e as dos três primeiros números especiais. No ano seguinte, publicaria no Cavaleiro Andante uma história aos quadradinhos, com uma nova aventura de Falcão Negro, herói criado em 1946 n’O Mosquito, para a qual realizou também uma capa alusiva. Depois, como sabemos, decidiu tentar a sorte noutras paragens, onde o seu excepcional talento artístico encontrou, a breve trecho, muitas oportunidades.

A capa que aqui reproduzimos, sem rivalizar com as de Fernando Bento sobre o mesmo tema, ilustra bem a harmonia do traço e o rigor da composição que caracterizavam o estilo de E. T. Coelho, a par do sereno classicismo da forma, patente na imagem tradicional do Presépio (onde só falta S. José) e nas figuras dos anjos, mimetizando alados querubins como nas gravuras de séculos passados.

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 10

Prosseguimos esta série com mais uma belíssima e original composição de Fernando Bento, o único desenhador português que soube representar o Presépio nas capas natalícias das revistas juvenis fugindo sempre às concepções mais tradicionalistas.

A extraordinária e versátil imaginação de Fernando Bento fervilhava de imagens que nunca se repetiam, mesmo quando abordava os mesmos temas, ano após ano, como no caso das capas de Natal do Cavaleiro Andante e dos seus números especiais.

Esta que aqui reproduzimos, em mais um preito de homenagem ao génio criativo de um dos maiores mestres das artes gráficas portuguesas, pertence ao número especial que saiu no Natal de 1953, estava então Fernando Bento, aos 43 anos, na plenitude da sua carreira e da sua forma artística.

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 9

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Mais uma capa do Mundo de Aventuras (nº 123, de 20 de Dezembro de 1951), a segunda de tema natalício ilustrada por Vítor Péon, num número que, além de uma história completa de Mandrake (e do sorteio de 10 bicicletas entre todos os seus compradores!), pouco mais tinha de especial e de alusivo à quadra. Mas merece também destaque a aventura de Cisco Kid intitulada “A Cidade da Alegria”, em que pela primeira vez os leitores do Mundo de Aventuras puderam admirar uma foto de José Luís Salinas, autor dos magníficos desenhos desta série que muito iria dar que falar.

Curiosamente, em todas as suas composições natalícias — como as que já apresentámos neste blogue, relativas às capas d’O Pluto nº 5 e do Mundo de Aventuras nº 71 (1ª série) — Péon escolheu o tema do Presépio, ilustrando-o sempre de forma tradicional, com um traço sugestivo e de inspiração barroca, que os leitores, também rendidos ao seu talento como autor de histórias aos quadradinhos (e neste número são nada menos do que três, incluindo uma aventura de Tomahawk Tom), devem ter sobejamente apreciado.

O NATAL DE TINTIN (E DOS SEUS AMIGOS)

Tintin 51 Natal 1949 e 1950

Nesta data solene e festiva, aqui têm um “presente” especial: duas icónicas capas do Tintin belga, já com uma idade venerável, alusivas ao Natal dos anos de 1949 e 1950.

Cumprindo uma tradição, o Tintin reservava sempre ao seu mais famoso colaborador artístico, Georges Rémi (Hergé), a honrosa tarefa de comemorar mais um número natalício, ilustrando as suas capas com a graça e a fantasia de que só ele era capaz… sobretudo nessa época em que as carreiras dos seus mais próximos colaboradores, como Bob de Moor, Jacques Martin e Edgar-Pierre Jacobs, estavam ainda no início.

Só pelo facto de terem capas de Hergé, estes números do Tintin, recheados de temas alusivos à quadra e com aventuras dos seus heróis favoritos (juntos numa alegre roda-viva), são actualmente dos mais valorizados no mercado, chegando, nalguns casos, a custar a “módica” quantia de 40 euros… ou mais, quando em muito bom estado.

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 8

Natal Presépio Journal do Cuto 1971 252

Dando um salto em frente no tempo, eis outra interpretação serenamente clássica do tema do Presépio, pelo punho de Carlos Alberto Santos, versão essa que serviu de capa ao Jornal do Cuto nº 25, de 22 de Dezembro de 1971.

Pintor e retratista experimentado, de exuberante inspiração formal, com vasta obra exposta em museus e em galerias particulares, Carlos Alberto fugiu, porém, neste trabalho, aos padrões tradicionais, dando uma nota de naturalismo à figura de S. José, mais jovem do que rezam os textos bíblicos e vestido de árabe como muitos habitantes da Palestina.

Termina assim esta breve galeria de capas de Natal dedicadas ao tema do Presépio.

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 7

Natal Camarada 1958 bis

Celebramos o nosso 300º post com uma magnífica ilustração dupla publicada na sobrecapa do Camarada nº 26/27, 1º ano, 2ª série (Natal de 1958), que é um típico exemplo da arte vanguardista de Marcello de Morais, um dos maiores vultos da escola figurativa portuguesa dessa época e colaborador assíduo do Camarada.

Com um traçado cujas linhas se intersectam, fundindo as perspectivas num mosaico de volumes e figuras geométricas, este cenário bíblico representa o místico e o profano, atraindo a atenção para o epicentro onde convergem todos os peregrinos: um estábulo digno de Reis, que se transformou, pela tradição, na imagem (mais humilde) do Presépio.