JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 4

JFK E OS “BOINAS VERDES”

Há casos (e não são poucos) em que o sucesso de uma obra literária é passaporte imediato para a sua adaptação cinematográfica e, muitas vezes também, para a banda desenhada, onde pode dar origem a um novo caudal narrativo, numa transposição paralela entre duas artes comunicantes, o cinema e a BD, que se imitam e se completam.

Já tivemos oportunidade de abordar (nesta rubrica do Gato Alfarrabista) a presença de John F. Kennedy (1917-1963), o mais carismático presidente norte-americano, num media tão popular como o dos comics, onde foi representado ao lado de alguns dos maiores super-heróis da Marvel e da DC, com destaque para Superman, personificando, tal como este, um obreiro da paz e do progresso, sempre pronto a defender o bem-estar e a segurança dos seus concidadãos.

Registamos hoje, a título de curiosidade, outra homenagem que lhe foi prestada, mas numa categoria diferente: as tiras diárias (daily e sunday strips) publicadas em inúmeros jornais dos Estados Unidos, que rivalizavam, em larga escala, com a popularidade e difusão dos comic books.

No caso vertente, trata-se de “Tales of the Green Beret”, série criada em 1966 por Robin Moore, em que avulta — sobre o discurso demagógico e militarista do argumento, a favor da intervenção norte-americana no Vietname —, o extraordinário virtuosismo gráfico de Joe Kubert, um mestre da 9ª Arte com uma estética insuperável do claro-escuro.

Em 1985, uma pequena editora americana chamada Blackthorne compilou em três álbuns a quase totalidade desta série, composta por tiras diárias e páginas dominicais (a cores), em que figuram várias referências a JFK, venerado pelos Boinas Verdes como seu comandante supremo e um dos Presidentes americanos que, em momentos de grave crise, como a dos mísseis russos em Cuba, souberam agir com coragem, fé, energia e patriotismo. Os primeiros episódios desta série, hoje quase esquecida — ao contrário da guerra do Vietname, sempre presente nas memórias do século XX —, foram publicados no Mundo de Aventuras (2ª série) nº 259, de 14/9/1978.

Segundo declarações de Robin Moore, que ao criar as personagens se inspirou no seu best-seller com um título idêntico: The Green Beret (adaptado também ao cinema, em 1968, com grande aparato, por John Wayne), a ideia nasceu como reacção à famosa série cómica Beetle Bailey (Recruta Zero), onde os militares e os seus códigos de conduta eram satiricamente ridicularizados.

Uma edição portuguesa do livro de Robin Moore surgiu nos escaparates em 1969, com o selo da Editorial Íbis, mas a sua publicação deve-se certamente ao êxito alcançado, nas telas portuguesas, pelo filme de John Wayne, um dos actores mais populares dessa época, investido novamente nas funções de realizador e produtor, em prol dos ideais republicanos e militaristas de que também era fervoroso adepto.

Com a guerra do Ultramar ainda em curso, não admira o paralelismo que surgiu, na mente de muitos espectadores, entre este filme e a acção do exército português em África. Quanto ao projecto dos comic strips, patrocinado pelo Chicago Tribune Syndicate, esse já não teve tanto êxito. Com início em 4 de Abril de 1966, foi cancelado, cerca de dois anos depois, devido aos violentos protestos contra a guerra do Vietname, transversais, nessa época, a todos os medias e a todas as classes da sociedade norte-americana, o que levou muitos jornais a suspender a sua publicação.

Jorge Magalhães

FANZINES DE JOSÉ PIRES (ABRIL 2017)

Imparável, cheio de energia e de uma regularidade impressionante, na sua actividade de faneditor, José Pires lançou este mês mais dois números dos seus excelentes fanzines Fandclassics e Fandwestern, o primeiro dedicado, na fase actual, à famosa série Terry e os Piratas, criada pelo mestre Milton Caniff em 1934, e que neste fanzine irá ter reprodução integral, dividida por 24 volumes, com 70 páginas cada. Um esforço digno de apreço, tanto mais que se trata do melhor período desta série, praticamente inédito no nosso país e que José Pires conta divulgar no espaço de dois anos!

Quanto ao Fandwestern, fanzine mais antigo e de prestigiosas tradições, publica neste número outro episódio da série fetiche de José Pires: Matt Marriott, a inolvidável criação de Tony Weare (desenhos) e James Edgar (argumento), estreada entre nós no Mundo de Aventuras nº 437, de 2/1/1958, com o nome do herói alterado para Calidano, o Justiceiro.

O certo é que esse bizarro nome pegou e a série fez carreira no Mundo de Aventuras e noutras publicações da mesma editora (onde sofreu “tratos de polé”, devido ao pequeno formato dessas revistas), até ter direito a aparecer com o seu verdadeiro título, quase uma década depois, no Mundo de Aventuras nº 845.

Diga-se desde já que este número do Fandwestern tem um interesse acrescido, pois apresenta um dos últimos episódios desenhados por Tony Weare, na sua maioria ainda inéditos entre nós. Mais uma  performance de José Pires que, no caso de Matt Marriott, já anunciou também a sua publicação integral, em 68 volumes, editando a propósito (para os leitores mais curiosos) um catálogo com todas as capas desta série, além das primeiras tiras e dos títulos originais dos 68 episódios que constituem a colecção.

(Nota: ver mais informações sobre os fanzines publicados por José Pires noutros blogues da nossa Loja de Papel: O Voo d’O Mosquito, A Montra dos Livros e Era Uma Vez o Oeste).

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 9

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Mais uma capa do Mundo de Aventuras (nº 123, de 20 de Dezembro de 1951), a segunda de tema natalício ilustrada por Vítor Péon, num número que, além de uma história completa de Mandrake (e do sorteio de 10 bicicletas entre todos os seus compradores!), pouco mais tinha de especial e de alusivo à quadra. Mas merece também destaque a aventura de Cisco Kid intitulada “A Cidade da Alegria”, em que pela primeira vez os leitores do Mundo de Aventuras puderam admirar uma foto de José Luís Salinas, autor dos magníficos desenhos desta série que muito iria dar que falar.

Curiosamente, em todas as suas composições natalícias — como as que já apresentámos neste blogue, relativas às capas d’O Pluto nº 5 e do Mundo de Aventuras nº 71 (1ª série) — Péon escolheu o tema do Presépio, ilustrando-o sempre de forma tradicional, com um traço sugestivo e de inspiração barroca, que os leitores, também rendidos ao seu talento como autor de histórias aos quadradinhos (e neste número são nada menos do que três, incluindo uma aventura de Tomahawk Tom), devem ter sobejamente apreciado.

IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO SANTOS (1933-2016)

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A Banda Desenhada, a Cultura e as Artes Plásticas portuguesas acabam de ficar mais pobres, pois perderam um dos seus maiores valores das últimas décadas…

Com 83 anos, faleceu ontem de madrugada, no Hospital Egas Moniz, onde estava internado há vários dias, devido ao súbito agravamento do seu estado de saúde, o pintor e ilustrador Carlos Alberto Ferreira dos Santos, nascido em 18 de Julho de 1933, em Lisboa, e cuja carreira artística começou bem cedo, depois de ter entrado como aprendiz para a Bertrand & Irmãos, apenas com 10 anos de idade. Consolidando essa iniciação nas artes gráficas, trabalhou também na Fotogravura Nacional e no atelier de publicidade de José David. 

O seu enorme talento começou a notabilizar-se noutra empresa de grandes dimensões, a Aguiar & Dias (vulgo APR ou Agência Portuguesa de Revistas), onde colaborou assiduamente desde o 1º número do Mundo de Aventuras, integrando pouco tempo depois o seu quadro de desenhadores privativos.  Embora relativamente escassa no campo da Banda Desenhada, a sua produção como ilustrador é vasta e diversificada, com destaque para a “História de Portugal” em cromos, um grande sucesso editorial, e outras valiosas colecções do mesmo género, assim como para o álbum “Camões – Sua Vida Aventurosa”, editado pela APR em 1972 e anos depois reeditado, a cores, pela ASA. Foi também autor das mais eróticas ilustrações da BD portuguesa, para a revista Zakarella da Portugal Press.

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Mais vasta e rica ainda é a sua obra como pintor, consagrada à divulgação dos grandes heróis e dos feitos mais relevantes da nossa História Pátria. Com efeito, foi a pintura (e só ela) que lhe permitiu exteriorizar a sua verdadeira personalidade artística. As suas telas estão espalhadas por diversas instituições públicas e particulares, como o Museu Militar do Porto, suscitando também o interesse de coleccionadores de todo o mundo.

O funeral de Carlos Alberto realiza-se na próxima quinta-feira, às 11h00, no cemitério do Alto de S. João, depois da missa de corpo presente, pelas 10h30, na Igreja do Santo Condestável, bairro de Campo de Ourique (onde o artista casou, em Janeiro de 1959, com a pintora Maria de Lurdes Paes).

Em memória de um extraordinário vulto das artes gráficas e plásticas portuguesas dos últimos 60 anos e de um homem de gentileza ímpar, reproduzimos seguidamente um artigo publicado na revista Temas nº 3 (Abril de 2000), em que se evoca o seu percurso, breve mas igualmente extraordinário, como banda desenhista.

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Nota – Tive a grande honra de colaborar com Carlos Alberto, como argumentista, num projecto que me encheu de satisfação (mas que seria a sua última obra em banda desenhada): a história “O Rei de Nápoles”, com 14 páginas a cores, publicada no 4º volume da colecção Contos Tradicionais Portugueses em BD, das Edições ASA (1993).

Na cena de abertura dessa história, de ambiente medieval, propus-lhe retratar uma caçada a um dos muitos animais selvagens que povoavam as florestas europeias desse tempo. Mas Carlos Alberto opôs-se, alegando respeitar, por princípio humanitário, a vida dos animais, qualquer que fosse a sua espécie. E a cena ficou assim…

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Infelizmente, os seus problemas de visão afastaram-no definitivamente da BD e até da ilustração, para se dedicar apenas à pintura, onde deixou obras que perpetuam a tradição dos grandes mestres figurativos, honrando o nosso património artístico e cultural. Mas as suas criações para o Mundo de Aventuras, o Jornal do Cuto e outras revistas de banda desenhada também não serão esquecidas!

O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 2

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia publicada na página online do jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016 (2 de 2):

Domingo, 6 de Agosto de 1972 (12h30)

As primeiras notícias da corrida são pouco animadoras e já há apostadores desiludidos, pois registou-se um acidente, perto da Nazaré, que quase ia vitimando Mário do Rosário, o concorrente que, fazendo jus ao seu favoritismo, levava quase meia hora de avanço sobre o mais próximo perseguidor, José Baptista.

Um cão que apareceu, de repente, na estrada, diante do carro lançado a alta velocidade, fez Mário do Rosário perder o controle da viatura e embater num poste de iluminação, depois de ter rodopiado algumas dezenas de metros, sem capotar. O Volkswagen ficou muito danificado e o seu condutor, gravemente ferido, teve de ser levado para o hospital. Aguarda-se ainda o primeiro boletim médico. Mas a corrida prossegue, agora com mais hipóteses de vitória para José Baptista e a sua equipa feminina.

Outro boletim noticioso, que fez manchete na última página do jornal desse mesmo dia:

Última hora — O “Rally dos Quatro Magníficos”, como foi baptizada esta singular corrida organizada pelo Automóvel Clube de Portugal e patrocinada pelo nosso vespertino, em que os participantes são todos especialistas de banda desenhada, teve mais uma baixa. José Baptista, que substituíra o acidentado ás da velocidade Mário do Rosário no comando da prova, sofreu também um percalço, apesar de conduzir com mais segurança. Perto do quilómetro 350, a sua viatura despistou-se bruscamente, por razões desconhecidas, numa curva pouco apertada, e saiu da estrada, indo enfaixar-se numa grande meda de feno que alguns trabalhadores agrícolas removiam para dois tractores. Felizmente, nenhum deles foi colhido pelo espampanante “bólide” sem direcção.

Segundo estas testemunhas, o Buick onde seguiam José Baptista e as suas assistentes ficou totalmente coberto de feno. Só se ouviam gemidos… mas pareciam de prazer!

Ao que apurámos, estes concorrentes sofreram um choque emocional — assim como o carro, cujo motor se foi abaixo — e resolveram desistir da corrida, que termina hoje, em Bragança, já depois do fecho desta edição.

Segunda-feira, 7 de Agosto de 1972

Terminou em Bragança, como estava anunciado, o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova por etapas organizada pelo ACP, com o patrocínio do nosso jornal, que já ontem à tarde tinha ficado reduzida a dois concorrentes, Vasco Granja e Roussado Pinto, depois dos acidentes sofridos por Mário do Rosário (que continua internado, mas livre de perigo) e José Baptista, acompanhado pelas suas assistentes.

Vasco Granja, que parecia ter todas as condições para ganhar tranquilamente a corrida, pois já levava um grande avanço sobre o seu adversário — que não é adepto de grandes velocidades, como nos declarou, mantendo sempre uma média de 50 kms à hora —, foi obrigado a desistir por causa de três furos simultâneos! Um azar dos diabos (passe a expressão), provocado, segundo os juízes da corrida, por excesso de peso.

Como já referimos na nossa reportagem, este concorrente, que também é coleccionador de banda desenhada, nunca se separa dos seus álbuns favoritos, edições raras e preciosas avaliadas em muitas centenas de escudos, e transportava mais de 30 quilos de bagagem. Por esse motivo é que não pode viajar de avião! 

Desclassificado por “grave falha técnica” (parece que os juízes não gostaram do excesso de peso), viu chegar a Bragança, já de noite, o concorrente em quem ninguém apostou, dado o seu manifesto desinteresse pela corrida (mas não pela comida, pois levou consigo uma magnífica merenda, digna de Pantagruel, como se fosse para um piquenique). 

Foi, pois, Roussado Pinto o vencedor do “Rally dos Quatro Magníficos”, cometendo uma proeza que ficará para a história do automobilismo, com o recorde da mais baixa velocidade em corridas do género. O troféu ser-lhe-á entregue em Lisboa, numa cerimónia em que estarão presentes altas individualidades do desporto e do Automóvel Clube de Portugal. Segundo uma fonte do ACP, o Citroën 2CV que se cobriu de glória na corrida, sem sofrer o menor dano, será também exposto ao público, no próximo Salão Automóvel.

Quarta-feira, 9 de Agosto de 1972

Para remate da reportagem com que acompanhámos o “Rally dos Quatro Magníficos”, prova que acabou com a inesperada vitória de Roussado Pinto — um concorrente que tinha afirmado, antes da partida, não ter pressa em chegar à meta —, fomos ontem de manhã ao Hospital de S. José, em Lisboa, onde está internado Mário do Rosário, devido ao grave acidente que sofreu logo no primeiro dia da corrida, quando já levava vantagem sobre os seus três adversários.

Uma perna e um braço partidos e outras contusões mais ligeiras vão obrigá-lo a permanecer no hospital durante algumas semanas, o que não parece incomodá-lo, pois mantém o seu ar descontraído, espalhando bom humor à sua volta, como se estivesse num hotel, rodeado de amigos. As enfermeiras que o digam…

Nessa mesma manhã, tinha recebido a visita dos seus ex-adversários e o encontro deixou-o visivelmente satisfeito.

Quando entrámos no quarto, onde era, de momento, o único enfermo, saudou-nos efusivamente, apesar dos membros engessados não lhe permitirem muitos movimentos, e logo nos pôs a par dos seus últimos planos:

— Os meus amigos… isto é, os meus rivais… estão fartos de gozar comigo por eu ter a mania das velocidades. Mas se não fosse aquele estúpido animal, tinha ganho a corrida… e com grande avanço! Já ninguém me apanhava!

Pelos vistos, não perdera a prosápia nem a auto-confiança, como confirmaram as palavras seguintes, em tom peremptório:

Já lhes disse que se preparem para a desforra! Estou aqui para as curvas! Sou campeão de vendas com o Falcão! E hei-de vencer a próxima corrida!

Registámos esta declaração triunfal no nosso bloco-notas e fizemos questão de observar:

— Falta aqui um dos seus amigos… o Major Alvega…

Mário do Rosário percebeu a nossa ironia, mas retorquiu imediatamente, com um sorriso melífluo estampado no rosto:

— Não falta, não senhor… Esse está sempre ao meu lado!

E mostrou-nos uma mão-cheia de exemplares d’O Falcão, com histórias do Major Alvega, que tinha em cima da mesa dos medicamentos, ao pé da cama.

— Apesar do meu acidente, o Major Alvega continuará a voar, para deleite dos seus milhares de admiradores! Comigo, o trabalho está sempre adiantado…

Não temos pejo em confessar, amigo leitor, que esta foi uma das reportagens mais singulares que já realizámos em toda a nossa carreira jornalística. E admitimos também que nunca encontraremos, com toda a certeza, outra personalidade tão pitoresca como Mário do Rosário, que faz gala em afirmar que aprendeu com o Major Alvega a ser destemido como os pilotos da RAF, heróis da Segunda Guerra Mundial!

Um homem que, fiel a um dos seus nomes de baptismo (Durão), professa altivamente o lema “Dos fracos não reza a História”!

Nota final — Alguns leitores manifestaram a sua curiosidade sobre o nome desta corrida, criado também pelo Automóvel Clube de Portugal. Pois fiquem sabendo que os “quatro magníficos” não eram os concorrentes — embora bastante apreciados na sua área profissional —, mas as míticas viaturas que tiveram o prazer de conduzir… infelizmente com resultados desastrosos para alguns deles!

FIM da reportagem (e do conto) 

Repórter anónimo: Jorge Magalhães

 

O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 1

PEQUENA HOMENAGEM A MÁRIO DO ROSÁRIO (E OUTROS) EM FORMA DE CONTO HUMORÍSTICO

Notícia vinda a público no jornal Correio da Tarde, edição de 17 de Agosto de 2016:

«Vítima de doença incurável, faleceu ontem, com 89 anos, o antigo editor, publicista e técnico de meteorologia Mário Durão Ferreira do Rosário, cuja actividade editorial, entre 1960 e 1986, ficou indelevelmente ligada ao Grupo de Publicações Periódicas e a uma pequena revista de banda desenhada bastante popular durante esse período e que ainda hoje muitos leitores recordam: O Falcão.

Mário do Rosário retrato copyMário do Rosário, que foi o principal responsável da 2ª série, introduziu na revista inúmeros heróis de origem inglesa, entre os quais o famoso Battler Britton, “ás” da RAF e combatente da Segunda Guerra Mundial, a quem deu o nome de Major Alvega, que se tornou ainda mais célebre no nosso país —  uma espécie de instituição nacional, consagrada pela própria Força Aérea, que o adoptou como sua “mascote” na guerra colonial.

Mário do Rosário — que nunca viu esta medida com bons olhos, decidindo, por isso, em retaliação, “liquidar” o seu herói, cuja última aventura se intitulou simbolicamente “Os heróis também morrem” — foi, durante largos anos, funcionário do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, onde teve como companheiro de trabalho outro grande nome da BD portuguesa, o consagrado autor de narrativas históricas José Garcês.

Amigos e camaradas de profissão, assim como colaboradores de várias revistas de banda desenhada, como o Pim-Pam-Pum (suplemento do jornal O Século), o Jacto e O Falcão, eram quase da mesma idade e tinham amigos comuns, como o Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, então residente e a leccionar em Portalegre.

Viusão - Falcão 577 170Foi José Garcês quem nos informou do falecimento de Mário do Rosário, tendo ao mesmo tempo a amabilidade de nos recordar uma reportagem que publicámos neste jornal há 44 anos, a propósito de uma corrida que ficou célebre nos anais do automobilismo português, intitulada o “Rally dos Quatro Magníficos”, em que participaram Mário do Rosário e os seus “rivais” Vasco Granja, Roussado Pinto e José Baptista, representantes das principais revistas juvenis que então se publicavam em Portugal, além de O Falcão: o Tintin, o Jornal do Cuto e o Mundo de Aventuras (todas já extintas).

Como o tema não perdeu interesse, pois José Garcês contou-nos que Mário do Rosário, trabalhador super-activo, era também um ferrenho adepto do desporto automóvel — e partiu dele a ideia de desafiar os seus colegas para uma corrida de carros antigos, com mais de 20 anos de fabrico, cujos modelos e marcas seriam escolhidos pelos concorrentes —, fomos respigar essa reportagem aos nossos vastos arquivos, já totalmente digitalizados. E encontrámo-la sem dificuldade.

O anónimo repórter encarregado de cobrir o evento, que causou sensação pelo seu ineditismo entre os automobilistas portugueses e o público em geral, desempenhou-se bem da missão, como os nossos leitores poderão constatar através do curioso relato que transcrevemos na nossa página online».

Sábado, 5 de Agosto de 1972 – Dia da partida

Esta corrida, organizada pelo Automóvel Clube de Portugal (ACP), tem apenas quatro participantes, quatro “rivais” de natureza especial, que resolveram medir forças no terreno, aceitando o desafio de um deles, o director de uma revista juvenil chamada O Falcão. Os outros também são profissionais de banda desenhada, dirigindo revistas da concorrência: o Tintin, o Jornal do Cuto e o Mundo de Aventuras.

Que levou, afinal, estes quatro homens, com os nomes de Mário do Rosário, Vasco Granja, Roussado Pinto e José Baptista, representando cada uma daquelas revistas, a degladiarem-se num “rally” que percorrerá durante dois dias o centro e o norte do país, partindo da pitoresca localidade de Sintra, nos arrabaldes de Cascais?

Apenas o desejo de demonstrarem as suas habilidades desportivas, como condutores de automóveis — neste caso, autênticas relíquias do passado, pertencentes ao ACP, que as pôs ao dispor dos concorrentes —, ou algo mais? Embora nenhum deles quisesse satisfazer a nossa curiosidade e a do público que segue com grande interesse a corrida, desde os seus preparativos encetados há uma semana, parece-nos que o verdadeiro móbil desta curiosa competição é a rivalidade jornalística que mantêm há longos anos.               

Fomos entrevistá-los momentos antes do início da corrida. Nenhum quis ser fotografado, para evitar, segundo afirmaram, banhos de multidão, pois sabem que o nosso jornal tem uma grande tiragem, chegando a todos os distritos do país.

Eis o que nos disse Mário do Rosário, transbordante de entusiasmo e de confiança, passando a mão, numa carícia, pela carroçaria do seu Volkswagen Beetle de 1950 (uma versão primitiva do célebre “Carocha”, que ainda circula nas nossas estradas):

Tenho esperanças de ganhar e vou dar tudo por tudo, como o famoso Major Alvega, um às da velocidade criado por mim no Falcão.

— Mas esse é piloto da RAF…

— E eu sou um ás em terra… Já ganhei muitas gincanas, sempre ao volante de um Volkswagen!

A seguir interpelámos Roussado Pinto, que conduz um Citroën 2CV. Reparámos que levava no carro um cesto com um farnel bem aviado. As suas declarações deixaram-nos surpresos:

— Estou aqui porque gosto de viajar. Por isso, escolhi um 2CV… Que melhor oportunidade para gozar dois dias de férias?

— Então, não se importa de ficar em último lugar?

— Qualquer me serve… Eu só quero chegar ao fim da corrida e apreciar tranquilamente a paisagem! A vida são dois dias, meu amigo… Para quê ter pressa?

Vasco Granja foi o entrevistado seguinte. Sempre aprumado e bem vestido, com as suas espampanantes gravatas, recebeu-nos junto de um típico Fiat 500 Topolino. A parte traseira estava cheia de livros.

Não leva peso a mais? — perguntámos. Granja sorriu com jovialidade:

— São álbuns de BD, edições raras e preciosas, autografadas pelos seus autores… Hergé, Franquin, Jacobs… Acha que eu ia deixá-los em casa? E se a assaltassem na minha ausência?

— Então, leva sempre esses álbuns consigo?

— Para todo o lado, camarada… para todo o lado!

— Mas podem roubá-los noutro sítio… Na rua, no hotel…

— Só se me matarem!

Pelos vistos, Vasco Granja, o mais mediático dos concorrentes, por já ter sido preso pela PIDE, não nutre também ambições de vitória, pois pareceu-nos mais preocupado com a bagagem do que com a corrida.

Faltava-nos ouvir José Baptista, também conhecido pelo acrónimo de Jobat, que não desmentia o seu ar de galã, visto estar de braço dado com duas beldades de se lhes tirar o chapéu. O carro, um Buick Roadmaster descapotável, de 1950, cheio de cromados, é tão vistoso e de formas tão atraentes como elas. 

— Sempre em boa companhia, José Baptista! Estas meninas vieram dar-lhe apoio?

— São o meu co-piloto e o meu mecânico… É mais fácil ganhar em equipa!

— Mas assim está em vantagem sobre os outros concorrentes… que conduzem sozinhos.

— Isso é lá com eles! O regulamento do ACP não me proíbe de ter ajudantes…

Com um carro como o Buick e um duo de assistentes tão “competente”, é óbvio que José Baptista também apostou forte no triunfo, sendo o concorrente que Mário do Rosário verá mais vezes pelo seu retrovisor.

Daí a pouco, foi dado o sinal de partida e as quatro gloriosas relíquias automóveis rolaram nas verdejantes estradas de Sintra, entre vetustas mansões de aspecto senhorial, até se perderem na distância como sombras do passado.

                                                                                                                     (página 1 de 2)

A GRANDE FAMÍLIA DO “MUNDO DE AVENTURAS”

Assinalando o 67º aniversário do Mundo de Aventuras — cujo primeiro número surgiu nas bancas em 18 de Agosto de 1949, aguardado com grande expectativa pelo público juvenil, depois de uma massiva campanha publicitária, que teve eco em todo o país —, recordamos outra data festiva e simbólica (a do 20º aniversário do MA) e um número especial (o 1038 da 1ª série) com 120 páginas, onde foram evocados, numa curiosa reportagem fotográfica, vários elementos da sua redacção e do seu sector comercial e gráfico, do mais importante ao mais humilde. Aqui a reproduzimos para memória futura…

MA 1038 C e D

Era o ano de 1969 e a equipa, entretanto, tinha-se renovado, mas o MA não esqueceu também os seus colaboradores mais antigos, alguns dos quais já tinham partido para outras “aventuras”, como Vítor Péon e Roussado Pinto, ou já habitavam outros “mundos”, em companhia dos mais emblemáticos heróis da Banda Desenhada, cujo destino é eterno — tal como o dos lendários heróis da Mitologia.

Por muito estranho que pareça, a verdade é que revistas como o Mundo de Aventuras — ou como O Mosquito, O Papagaio, o Diabrete, o Cavaleiro Andante, o Tintin — também não morrem, porque a sua existência física se prolonga numa espécie de estado imaterial e etéreo, onde a essência dos sonhos continua a acalentar aquele sentimento mágico que as suas páginas despertaram no espírito de milhares de leitores.

Parabéns por mais este aniversário, Mundo de Aventuras!!!  

JOSÉ BATISTA: RETROSPECTIVA – 10

A HISTÓRIA DO “TRINCA-FORTES”

JOBAT - ANO DEPOISNum tempo em que se pensa pouco e em que se pretende (exactamente sem pensar) alterar tudo ou quase tudo, cada vez mais os valores do passado e as bases sobre as quais construímos a nossa formação se tornam indispensáveis para compreendermos o presente sem o desligarmos desses valores morais, culturais, sociais e espirituais que, às vezes, tendem actualmente a ser tão menosprezados.

Felizmente, a banda desenhada e outros passatempos lúdicos continuam a ser um suporte do passado, quando nos embrenhamos, por exemplo, na leitura dos clássicos, por onde flui a corrente do tempo, recheada de memórias, citações, alegorias e ensinamentos, conjugados com os valores artísticos de épocas e escolas que nunca deixarão de ser referências para os leitores de ontem, de hoje e de amanhã.

A obra de José Batista, talvez mais conhecido entre os bedéfilos pelo acrónimo de Jobat, é uma dessas referências, embora mais breve do que a de outros artistas que marcaram também o percurso da BD portuguesa — sem deixar, apesar disso, de se destacar pela qualidade do traço, da pesquisa, da expressão de valores históricos e culturais que, em grande medida, definem também a personalidade intelectual e artística de um homem ávido de saber, aliada ao seu culto da modéstia e ao seu fervor criativo, mesmo limitado pelo recolhimento a que, nos últimos anos, se votou na sua terra natal, Loulé.

jobat Cuto camões088Continuando a homenagear a memória de um Amigo com quem partilhámos muitos momentos inesquecíveis — depois de termos apresentado nesta retrospectiva os primeiros trabalhos que fez para o Mundo de Aventuras, nos finais dos anos 50, e para outras publicações da Agência Portuguesa de Revistas (da qual foi colaborador durante cerca de 20 anos) —, recordamos hoje, dia 10 de Junho, uma curta biografia de Camões (um dos seus temas favoritos) que concebeu para o Jornal do Cuto, quando ainda não era chefe de redacção desta revista, dirigida por Roussado Pinto. Pouco tempo depois, haveria de surpreender todos os seus fãs com uma obra de fôlego, quer em termos estéticos quer narrativos, que foi indiscutivelmente a sua coroa de glória, exaltando com eloquência a figura do nosso maior vate, símbolo épico da Pátria, como poucos o tinham feito, até então, no campo da banda desenhada.

A história de seis páginas que se segue — espécie de preâmbulo da obra majestosa que já germinava no seu espírito — foi publicada em 1972 no nº 49 do Jornal do Cuto, cuja capa (também da sua autoria) reproduzimos mais acima. E esse novo trabalho de José Batista, dedicado ao 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, parece ter gerado uma polémica que motivou o seu afastamento da APR (em conflito com a administração), empresa à qual dedicara o melhor do seu talento e da sua juventude. Mas isso é outra história…

Jobat - Camões - 1e 2

Jobat - Camões - 3 e 4

Jobat - Camões - 5 e 6

COLECÇÃO BANDA DESENHADA (OS VELHOS E BONS HERÓIS DA BD CLÁSSICA) – FASCÍCULOS 1 E 2

Visão - Heróis da BD

A propósito desta colecção, de que já saíram dois fascículos com a revista Visão, concordamos por inteiro com as críticas que Pedro Cleto lhe fez no seu blogue As Leituras do Pedro (ver em http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/2016/03/coleccao-banda-desenhada-com-visao.html), nomeadamente quanto à selecção dos títulos, que deixa muito a desejar por falta de critério, misturando revistas importantes com outras que não fizeram história. O mais grave, quanto a nós, é terem incluído também O Mosquito, através da sua série menos representativa, com um único número publicado em 1975. Até podia ser um número com um conteúdo interessante, como é o d’O Falcão, por exemplo, mas bem pelo contrário… pois trata-se de uma medíocre historieta inglesa. Mais valia terem optado por um número da 2ª série, dirigida e editada por José Ruy, no início dos anos 60 (período que se enquadra no desta colecção). Ou mesmo da 3ª, com quatro números apenas, mas que reeditou algumas célebres criações de grandes autores ingleses.

A ideia de aumentar o formato d’O Falcão #577, com uma aventura do popular “ás” da aviação Major Alvega (de que falaremos noutro post), não foi má de todo, mas a qualidade do papel, demasiado transparente, estragou as boas intenções. Nem mesmo as revistas desse tempo (como o Mundo de Aventuras ou o Jornal do Cuto) usavam papel tão amarelado (para não lhe chamar “ordinário”). Dá a impressão de que os autores desta colectânea quiseram dar-lhe um aspecto tão “retro” que escolheram esse tipo de papel por ser o mais adequado aos seus intentos. Mas falharam redondamente, porque mesmo revistas mal conservadas não “envelheceram” tanto (salvo em casos extremos) como aparentam os exemplares já publicados pela Visão. Tenho no meu acervo revistas bem mais antigas, algumas com 80 anos ou mais, num estado de conservação tal que parecem ter saído da gráfica há poucos meses… descontando, claro, as diferenças de impressão, pois os processos tipográficos desse tempo eram rudimentares comparados com os actuais.

A questão do formato também não nos satisfaz, pois foi preciso reduzir o de algumas revistas (caso do Mundo de Aventuras, do Jornal do Cuto e do Cavaleiro Andante) e aumentar outros (como o d’O Falcão e d’O Mosquito). Portanto, não lhes podemos chamar fac-similes, porque as revistas originais têm dimensões bastante diferentes. Preferíamos que se tivesse optado por revistas de pequeno formato, como o d’O Falcão (2ª série), já que a ideia era criar um padrão uniforme. As revistas de formato maior destoam nitidamente do conjunto, apesar da sua leitura não ser muito prejudicada. Verdade se diga, vendo a questão por outro prisma, que o formato padronizado tem vantagens para os leitores que quiserem encadernar os seis fascículos. Mas alguém lhes dará valor daqui a alguns anos?

Viusão - Encarte A 171

Quanto ao impacto desta colecção junto do público em geral, não queremos, por ora, fazer prognósticos. Trata-se, como é óbvio, de uma amálgama de títulos destinada aos leigos e não aos coleccionadores. Alguns destes, entre os mais nostálgicos, apreciarão certamente a iniciativa, os mais novos desinteressar-se-ão, em absoluto, ou poderão adquirir um ou outro título, por mera curiosidade. De qualquer forma, deve haver também um nicho de mercado para este tipo de edições, mas apresentadas de forma mais cuidada e com as devidas anotações teóricas e críticas (mesmo feitas à parte). A história da BD em Portugal também inclui, em larga percentagem, as revistas de índole mais juvenil, que ajudaram a fomentar o gosto de muitas gerações pela leitura e pelos quadradinhos. E a Visão, semanário de grande tiragem e projecção nacional, poderia ser um bom veículo para as dar a conhecer ao público de hoje. Mas faltou o “golpe de asa” a este projecto…

O 2º fascículo inserido na edição da semana passada, com uma reprodução do Mundo de Aventuras #32 (2ª série), contendo três histórias completas, entre elas uma aventura de Mandrake e Lotário, tem para mim um significado especial, pois foi no número seguinte que comecei ‘off the record’ a coordenar esta revista. Por razões que não interessa agora explicar, só bastantes números depois, quando esta série do MA chegou ao nº 100 (já com outro formato), é que o meu nome apareceu como coordenador na ficha técnica, lá se mantendo até ao último número (589), saído em Janeiro de 1987.

O fim de uma era de saudosa memória, pela qual passaram alguns dos maiores nomes da BD portuguesa, como E.T. Coelho, Vítor Péon, Fernando Bento, Simões Müller, Cardoso Lopes, Raul Correia, Roussado Pinto, Jayme Cortez, José Ruy, José Garcês, Carlos Alberto, José Antunes, José Baptista, Artur Correia, Carlos Roque, Eugénio Silva, Júlio Gil, Vítor Mesquita, Pedro Massano, Augusto Trigo, Fernando Relvas e muitos mais!…

Voltando ao MA #32, o episódio de Mandrake, desenhado por Fred Fredericks, não é dos melhores desta fase, mas nele reaparece um dos mais carismáticos inimigos do mestre da magia: o “Bando dos Oito”, o que lhe confere algum interesse. E gostei também de rever duas histórias que traduzi para este número, com o Devil Doone, um detective de origem australiana que se safava sempre do perigo, e Roland Garros, célebre herói da aviação francesa, na 1ª Guerra Mundial. Bons tempos em que uma certa ingenuidade e um saudável pendor ecléctico caracterizavam ainda a BD de cariz mais popular!

Visão encarte 2

“LA LOI DES TERRES SAUVAGES” (por E.T. Coelho) – 2

Título da história - 2

ET Coelho no seu atelier 616Eis a conclusão de “La Loi des Terres Sauvages”, história ilustrada por E.T. Coelho e publicada nº 10 da nova série da revista francesa Pif Gadget, que por singular coincidência, como já referimos, saiu em 27/4/2005, cerca de um mês antes da morte do grande desenhador português, radicado em Florença.

Claramente inspirada por uma série com a mesma ambientação, “Ayak le Loup Blanc”, dada também à estampa no Pif Gadget, entre 1979 e 1984, esta nova criação de E.T. Coelho aborda temas caros ao célebre escritor norte-americano Jack London (que conheceu profundamente o Wild North), como os hábitos dos animais selvagens e a sua relação com os seres humanos, o equilíbrio eterno e sagrado que rege a Natureza, as secretas regras da luta pela sobrevivência.

Ayak - le loup blancEm Ayak, a sua última longa série realizada para o Pif Gadget, conta-se a história da estranha e invulgar relação entre um lobo solitário e uma rapa- riguinha recém-chegada com o seu pai ao inóspito território do Yukon, durante a grande corrida ao ouro, no final do século XIX. Dessa relação baseada na amizade e na confiança — que o selvagem instinto de Ayak sobrepunha ao temor e à hostilidade que sentia pelos homens armados com flechas ou com o “pau que troveja”, causadores de sofrimento e de morte — nasceu uma vigorosa odisseia narrada em 56 episódios (todos a cores) pelo traço exuberante e harmonioso de Eduardo Teixeira Coelho e pela prosa sóbria e lapidar, ainda que singular- mente poética, do seu velho compagnon de route Jean Ollivier — notável argumentista, versado em temas históricos e autor de vários livros sobre as viagens e explorações dos Vikings ao Novo Mundo —, falecido poucos meses depois, em 30 de Dezembro de 2005.

Os treze primeiros episódios de Ayak foram publicados no Mundo de Aventuras, por ordem cronológica, mas a preto e branco, como homenagem à obra de E.T. Coelho desconhecida da grande maioria dos leitores portugueses — sobretudo a que foi editada no mercado francófono — e que aquela revista juvenil, nos anos 80, procurou parcialmente divulgar.

“La Loi des Terres Sauvages” é mais uma história onde os lobos têm um papel de relevo, como predadores temidos por outras espécies, mas cuja vida está também ameaçada ao enfrentarem os desafios e os perigos que a Natureza lhes reserva, na luta sem tréguas pela sobrevivência. Por fim, a vitória pertence sempre aos mais fortes, aos mais astutos, aos mais pacientes… como está escrito, desde a aurora dos tempos, na lei do Wild North!

La loi des terres sauvages - 7 e 8

La loi des terres sauvages - 9 e 10

La loi des terres sauvages - 11 e 12