NAQUELE TEMPO – 1

A PAIXÃO DE CRISTO (segundo Paul Cuvelier)

Paul Cuvelier (auto-retrato)Nesta quadra pascal, em que as tradições familiares e religiosas são mais unas e ungidas de fé do que noutras celebrações litúrgicas (pelo menos, nos países em que predomina o catolicismo), queremos recordar outro grande autor da escola franco-belga, Paul Cuvelier (1923-1978), pintor por vocação e artista profissional de BD por acaso e necessidade de ganhar a vida, cuja obra ainda hoje figura nos melhores compêndios dedicados à 9ª Arte, como um modelo estético e figurativo de excepcional beleza, nomeadamente a sua grande série Corentin Feldoë, nascida em 1946, com o primeiro número da revista Tintin.        

Sujeito a profundas crises de depressão, que limitavam a sua capacidade de trabalho e a vontade de obedecer às exigências dos editores e do público — fazendo-o trocar com frequência as histórias aos quadradinhos pela pintura, onde encontrava um lenitivo para as suas frustrações como autor de BD —, Cuvelier - Epoxy     634Cuvelier realizou também algumas histórias de cariz mais adulto, entre elas a admirável Epoxy, cujo argumento, proposto por Jean Van Hamme, lhe permitiu ilustrar um tema em que podia dar largas à sua mestria no desenho anatómico e à voluptuo- sidade das formas femininas.

Tintin nº 9 (1949)Em 1984, a Lombard, editora para a qual Cuvelier trabalhou durante grande parte da sua carreira, de- dicou-lhe um magnífico livro recheado de ilustrações, Corentin et les Chemins du Merveilleux, por onde des- filaram outras personagens e séries oriundas do seu fervilhante mas atormentado espírito criativo: Line, Wapi, Flamme d’Argent, Tom Colby, etc.

No género juvenil, foi também autor de algumas excelentes histórias curtas, com destaque para um episódio bíblico publicado no Tintin nº 13 (8º ano), de 1/4/1953, com o título “En ce temps-là”. Em Portugal, a sua estreia ocorreu no Cavaleiro Andante nº 171, de 9/4/1955, onde as aventuras de Corentin não tardariam também a ter um lugar especial (depois de fugaz passagem pelo Titã, revista de vida efémera, mas conteúdo digno de nota), continuando posteriormente, ainda com maior destaque, na edição portuguesa da epónima revista belga e no Mundo de Aventuras Especial.

Cuvelier - CA 422  e capa MA 10

Como referimos na abertura, esta Sexta-Feira Santa parece-nos um bom pretexto para homenagearmos Paul Cuvelier e a sua curta mas relevante obra de feição clássica, que tantos admiradores lhe granjeou entre o seu público mais fiel — o leitorado juvenil—, apresentando, na versão do Tintin, a história da Paixão de Cristo, cujo traço primoroso, em que ressaltam a perfeição anatómica e a fidelidade dos décors, parece inspirado pelas magistrais criações dos mestres da escola flamenga.

En ce temps-là  1 e 2En ce temps-là 3  e 4En ce temps-là 5       633

Nota: Por coincidência, o excelente blogue Largo dos Correios, superiormente escrito e orientado pelo Professor António Martinó Coutinho, um mestre da pedagogia e da palavra, que muito tem ensinado sobre BD (mas não só) — e cujas elogiosas referências ao Gato Alfarrabista muito nos orgulham e incentivam, pois não se devem apenas à gentileza entre confrades, por partilharmos agora a blogosfera, onde encetámos uma nova amizade —, o Largo dos Correios, como íamos dizendo, dedicou também um post a Paul Cuvelier, reproduzindo na íntegra esta história de Páscoa e outra preciosidade do Tintin belga, a capa do nº 13 (8º ano), realizada por Hergé (como podem ver e apreciar em http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/04/17/feliz-pascoa-com-tintin/).

Esta coincidência — ou melhor, convergência de ideias e de gostos — não impede que, ao iniciarmos uma nova rubrica, façamos também uma modesta homenagem ao grande mestre da escola de Bruxelas (um caso ímpar entre a equipa artística do Tintin), tal como há semanas já tínhamos planeado.

 

100 ANOS DE HISTÓRIAS AOS QUADRADINHOS EM PORTUGAL

UMA EXPOSIÇÃO QUE FICOU NA HISTÓRIA

Centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL), foto de Joaquim CarvalhoEm 1978, durante o mês de Fevereiro, cuja pluviosidade não ficou aquém desta com que S. Pedro nos tem brindado, passei muitos dias na FIL (Feira Internacional de Lisboa) — onde se realizavam as maiores mostras industriais de todo o país —, para acompanhar a primeira exposição orga- nizada pelo Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), no âmbito da FIL- gráfica/FILescola: 100 Anos de Histórias aos Quadradinhos em Portugal — Um Panorama da Banda Desenhada Portuguesa.

Graças ao apoio de algumas entidades, como a INAPA (Indústria Nacional de Papéis, Sarl), foi possível ao CPBD — ainda com escassos recursos financeiros — editar um pequeno catálogo dessa mostra, com oito páginas, averbando um artigo da responsabilidade da direcção do Clube (que reproduzimos no rodapé deste post, pelo seu interesse documental), alusivo à evolução histórica da Banda Desenhada, Histórias aos Quadradinhos ou Narração Figurativa, desde a última metade do século XIX, com Rafael Bordalo Pinheiro, até aos modernos autores do pós-25 de Abril de 1974.

FILgráfica 1978 - Capa e cc

Panorama da FIL (1957), ano da sua inauguraçãoTrês décadas e meia depois, parece já se ter perdido a memória desse evento e de outras notáveis realizações do CPBD, criado poucos anos antes e disposto a remar contra “ventos e marés” para sacudir o marasmo cultural e intelectual que, apesar de todas as conquistas e progressos gerados pelo 25 de Abril, continuava a afectar o sector das artes gráficas ligado à Banda Desenhada e às literaturas infanto-juvenis, em que só tinham voz activa as grandes editoras apostadas unicamente em aumentar os seus proventos comerciais.

Justiça se faça, porém, a António Martinó Coutinho, professor, investigador, coleccionador, ensaísta e pedagogo, a quem o estudo e aproveitamento da BD como disciplina de interesse escolar — ou seja, como instrumento didáctico e formativo, aplicado ao ensino das artes visuais — deve, em Portugal, os seus primeiros passos.

FIl (1957) - 2No seu magnífico blogue Largo dos Correios/Fonte do Rosário, onde cultiva diariamente um lúdico e fecundo in- tercâmbio intelectual — partilhando os seus vastos e eclécticos conhecimentos com muitos que também fruem os prazeres do espírito, temperados, no seu caso, pela  erudição, o bom gosto, a clareza de raciocínio e a fluência dialéctica —, publicou há dias um post (cuja amável dedicatória, pela nossa parte, agradecemos) sobre a pioneira exposição do CPBD que, entre 10 e 19 de Fevereiro de 1978, atraiu muitos milhares de visitantes à Feira Internacional de Lisboa, na Junqueira (hoje localizada no Parque das Nações).

poster 100 anosPost esse já complementado com preciosas notas sobre o Centro de Estudos de Banda Desenhada, nascido em Portalegre, por sua iniciativa, e que entre outros projectos viria a patrocinar, em Junho do ano seguinte, a exibição nessa cidade alentejana da mostra patente na FIL, que entretanto se tornara itinerante.   

Pelo seu relevante conteúdo — e na impossibilidade objectiva de dissertarmos melhor do que Martinó Coutinho sobre essas memoráveis efemérides, embora tenhamos participado directamente na primeira, com outros elementos do CPBD —, aqui deixamos, com a devida vénia ao Largo dos Correios/Fonte do Rosário, um convite a todos os nossos leitores e amigos para visitarem este blogue e apreciarem (além de outros) os mencionados posts, onde fica brilhantemente registada a importância de uma mostra que abriu novos horizontes à divulgação das histórias aos quadradinhos em Portugal.

http://largodoscorreios.wordpress.com/category/historias-aos-quadradinhos/

FILgráfica 1978 - 1 e 2Página 3 e 4

CARLOS GONÇALVES – Troféu de Honra do Amadora BD 2013: uma merecida homenagem

Amadora BD cartazEncerrou no passado domingo, dia 10, o Festival da Amadora, que nesta 24ª edição,  entre  outros prémios e homenagens, já largamente noticiados — com destaque para o vencedor do prémio nacional de BD, nas categorias de melhor álbum e melhor argumento de autores portugueses: “O Baile”, com desenhos de Joana Afonso e texto de Nuno Duarte —, distinguiu também com o Troféu de Honra (o mais prestigioso galardão do Festival e da BD portuguesa) uma figura sobejamente conhecida dos mais veteranos, em áreas como o coleccionismo, a pesquisa histórica e a divulgação jornalística, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) ou as tertúlias realizadas em todo o país, integrando adeptos do policiário e da BD.

Carlos Gonçalves - Troféu de Honra Amadora BD

História nº 102  239Trata-se de Carlos Gonçalves, colaborador durante largos anos de jornais e revistas, como o Correio da Manhã, o Diário Popular e o mensário História, para os quais redigiu inúmeros artigos sobre a 9ª Arte, coordenador de quase uma centena de números do Boletim do CPBD, editor de fanzines que criaram um padrão de qualidade, como O Aventureiro, organizador de vários eventos ligados à BD, desde a fundação em 1976 do CPBD, no qual participou activamente, tendo mesmo, como seu representante, marcado presença nos Salões de Lucca e Angoulême.

História nº 160 240Amigo também e colaborador, desde a primeira hora, do nosso blogue, que muitos favores já lhe deve, Carlos Gonçalves junta-se agora, finalmente, à numerosa lista de personalidades distinguidas com o Troféu de Honra do Festival da Amadora. Homenagem inteiramente merecida, ainda que peque por tardia, a um grande entusiasta e especialista das histórias aos quadradinhos, que muito se tem batido pelo conhecimento e pela dignificação institucional deste importante (e, por vezes, subestimado) nicho das artes figurativas portuguesas.

Mas mais eloquentes do que as nossas palavras acerca de Carlos Gonçalves são as do eminente professor António Martinó Coutinho, num recente post do seu blogue Largo dos Correios — também vocacionado, entre vários outros temas, para a banda desenhada —, cuja consulta vivamente aconselhamos. Aqui fica o registo e uma foto extraída desse post, com a devida vénia ao seu autor: http://largodoscorreios.wordpress.com/category/historias-aos-quadradinhos/

Carlos Gonçalves - Tertúlia de Lisboa (Março 2004)