DELICIOSOS DOMINGOS

Por Marita Moreno Ferreira

O que faz do domingo um dia tão delicioso? O pequeno almoço na cama ou a sorna sem rotinas obrigatórias? A preguiça ou um filme que se vê no sofá? As almoçaradas com a família ou os amigos?

A resposta não está na convenção de um dia de descanso, como o sábado, sugerido pelas linhas-guia dos escritos religiosos. Nem no código do trabalho. Ou no ritmo hiper galopante do que consideramos ser as rotinas obrigatórias dos nossos dias.

Domingos ou outros dias para esticar preguiçosamente as pernas são dias deliciosos porque temos tempo para pensar e estar connosco. Para repensar os rumos que tomamos e fazer um balanço do que realmente vale a pena. Ou simplesmente para relaxar e sentir o corpo, respirar e outras pequenas coisas essenciais que não nos damos ao trabalho de respeitar todos os dias.

Mesmo assim há quem se infernize com a antecipação de voltar ao trabalho na segunda. Sem dar conta de que reiniciar mais uma semana também é um poderoso gatilho para mudar e começar de novo se alguma coisa não está a dar certo.

Afinal, somos todos cientistas de primeira água, ocupadíssimos, durante toda a vida, a falhar e a voltar a tentar, a aprender com os nossos erros. Por isso, todas as segundas-feiras são para ser naturalmente contabilizadas como novas fases de testes. Aproveitemos.

Voltando aos nossos deliciosos domingos, que bem sabe ficar a olhar para o tecto na cama, demorar a decidir o que se toma como pequeno almoço, o que vai deixar de se fazer porque, de repente, se tem consciência de que somos livres e podemos mudar as nossas escolhas rotineiras como nos apetecer.

O problema é que não temos noção disso todos os dias, vá lá saber-se porquê…

Domingos são dias de nada e, como o nada não existe, são dias de tudo. De todas as possibilidades em aberto. Já pensaram bem nisso enquanto se arrastam de um lado para o outro a pensar como podem aproveitar melhor a folga para ser tudo sem ser nada?

Santa Abacate nos dê muitos domingos deliciosos para entendermos de uma vez que é possível ser e ter tudo quando não nos apetece fazer rigorosamente nada.

O QUE SE SABE SOBRE AS BRUXAS

Por Marita Moreno Ferreira

O que toda a gente sabe sobre as bruxas é que elas são feias, têm narizes disformes e aduncos, verrugas nos sítios mais improváveis e que dão umas gargalhadas horríveis. 

Também se sabe que as mulheres ruivas são bruxas, como dizia a Inquisição, que aqui por terras lusas se encarregou de matar umas dezenas de milhar de mulheres por essa razão. Só ficou por explicar que outras razões levam pessoas aparentemente normais a queimar mulheres, seja por que razão for.

É igualmente sabido que as bruxas são as que empatam as fadas, se bem que hoje já se tem consciência de que as fadas se fartam de empatar as bruxas, mas elas é que ficam com a fama.

Hoje, que é o dia das bruxas, temos de convir que elas são é umas grandes malucas, com propensão para voar por aí soltas em vassouras, coisa que mais ninguém se atreve a fazer. Vão passar a noite na maior farra, a beber e a comer como se não houvesse amanhã, a explorar prazeres que a maior parte de nós nem se atreve a pronunciar.

Será isso mau? Se fosse, mesmo a sério, por que usaríamos um dia, ou melhor, uma noitada de bruxas para nos lembrar que é possível enlouquecermos um bocadinho de vez em quando? Na minha opinião, o dia destas criaturas aparentemente horrendas celebra-se para provar que nem o horrível é permanentemente mau, nem o bonito é permanentemente bom.

É possível ver bom e mau em todo o lado e gozar um pouco à maneira dos que se permitem essa liberdade, apesar dos preconceitos e das moralidades apressadas com que gostamos de nos armar em santinhas e santinhos.

Ter um dia para fazer da farra o único sentido da vida é ou pode ser tão bom como ter outro para enterrar a cabeça no trabalho (e há muitos mais dias para isso). Não é por nos concedermos essa liberdade que perdemos a face e podemos continuar a ser uns chatos entediantes e entediados o resto do ano.

Portanto, feliz dia das bruxas. Farremos!

“FUN LOVING BIRDS”

por Marita Moreno Ferreira (artista plástica e escritora)

Porque tudo o que precisamos na vida é de cor e animação. Não precisamos do veneno destilado vinte e quatro horas pela auto-intitulada comunicação social, nem das redes sociais. (Já repararam como se assemelham cada vez mais, sem controlo e sem regra?)

Também não precisamos das pessoas que, pessoalmente, invadem o espaço que temos com elas para destilar amarguras e fel, doenças e problemas, conflitos e raiva.

Tudo o que precisamos é de silêncio, risos, tranquilidade, alegria. E como se estivéssemos a navegar num mar de escolhos trazidos pelos acidentes e tragédias alheios, evitar a todo o custo embates com essa realidade.

É impossível recordar como chegámos a este mundo de horrores, em que ninguém tem espaço para coisas normais e amáveis. Ao ponto de já se levar a mal que alguém esteja feliz e normal, que se achem os namoros ridículos e descabidos, a boa disposição um insulto para quem já acorda em fúria com o mundo.

A cada um o seu tipo de masoquismo preferido. Ou colorido, bom humor e convicção de que se pode viver num mundo e numa realidade completamente diferentes, em que os problemas e catástrofes também existem, mas não definem os nossos dias nem o que somos.

Resgatemos a velha convicção de que também vale a pena viver bons momentos. Felicidades!