A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 14

O HERÓICO CAVALEIRO D. NUNO (1)

Crónica do Condestável 725A figura do ilustre Condestável D. Nuno Álvares Pereira — que o escritor António Campos Júnior crismou de “guerreiro e monge” — foi dada a conhecer à juventude em várias histórias aos quadradinhos (como antigamente se chamava à narração figurativa) e nalguns livros de que ainda conservo grata memória, como os de uma popular colecção da Livraria Sá da Costa, que teve largas tiragens, com títulos dedicados à Odisseia, de Homero, à Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, à História Trágico-Marítima, aos Lusíadas e a muitas outras obras de cariz histórico, entre as quais a Crónica de Nuno Álvares Pereira, com texto de Jaime Cortesão e ilustrações de Martins Barata.

A vida do Condestável 727Foi nesse livro e noutro de leitura ainda mais apaixonante, “A Vida Grandiosa do Condestável”, escrito por Mário Domingues — autor de nomeada no campo da narrativa histórica, com vasta obra publicada pelas Edições Romano Torres —, que aprofundei os meus conhecimentos sobre um dos maiores vultos da nossa História, cujo papel na luta pela independência, durante a grave crise de 1383-85, foi ainda mais decisivo que o do Mestre de Avis, futuro rei D. João I. De facto, sem o Condestável, cujo patriotismo foi um exemplo para muitos portugueses daquela época, que hesitavam entre a facção do Mestre e a do rei de Castela, Portugal estaria condenado à derrota e ao domínio estrangeiro. Mas hoje, num tempo estranho e sem alma, em que as memórias desses feitos quase se apagaram, já nem se comemoram as grandes batalhas, como Aljubarrota e Atoleiros, que ilustram a grandeza do Condestável, do seu génio militar e político, e a bravura das hostes que fielmente o seguiram, contra a vontade de muitos nobres e das próprias Cortes.

Crónica do Condestável 2 726Como escreveu Jaime Cortesão na “Crónica do Condestável” (oriunda de autor anónimo do século XV): “(…) então a honra dos fidalgos estava em amar e ser fiel a seus senhores ou reis, fonte de todos os seus bens e privilégios. Apenas os cidadãos burgueses e a gente miúda, os que não eram filhos de algo, punham a honra em amar e defender a terra em que nasceram e as liberdades que haviam conquistado”.    

Desde essas leituras, dediquei especial interesse às histórias ilustradas sobre a figura do Condestável, algumas das quais já recordámos neste blogue (como a memorável versão de Fernando Bento publicada, em 1950/51, no Diabrete).

Por sinal, este eclético artista já tinha abordado o tema numa patriótica rubrica intitulada “Histórias da Nossa História”, com textos de Adolfo Simões Müller, que deu destaque no nº 147 do Diabrete (23-10-1943) às proezas de cavalaria do jovem Nuno Álvares Pereira.

Seguidamente apresentamos mais algumas páginas, com o traço de outros desenhadores (e os cá de casa parece terem sido os únicos a interessar-se, até agora, por este capítulo da nossa nacionalidade, menos universal do que a longa gesta dos Descobrimentos).

Camarada 16 - 3º ano 728Ombreando dignamente com os seus pares da BD histórico-didáctica, José Antunes publicou no Camarada nº 16, 7º ano (8-8-1964) — com capa de Júlio Gil — um curto episódio sobre o bravo guerreiro D. Nuno, que ainda moço imberbe já fora armado cavaleiro pela rainha Dona Leonor Teles, depois de ter provado o seu valor nas primeiras escaramuças com os inimigos do reino. Longe vinham ainda os tempos de Aljubarrota, mas a profecia do alfageme de Santarém, a quem Nun’Álvares encomendou uma espada, haveria de cumprir-se, forjando o seu épico e glorioso destino.

Embora tivesse ilustrado mais narrativas históricas no Camarada, com o seu traço cheio e um pouco anguloso, sombreado por fortes pinceladas em que vibrava um tributo aos mestres Alex Toth e Frank Robbins, da escola americana que tanto admirava, José Antunes só voltou a retratar a figura do Condestável numa capa realizada para a revista mensal Pisca-Pisca.

A história “O Cavaleiro D. Nuno” foi reeditada no nº 5 dos Cadernos Moura BD, dedicado a este talentoso ilustrador, que se distinguiu também como capista em várias publicações, graças à sua versatilidade e à sua cultura que lhe permitiam abordar qualquer tema.

D Nuno josé antunes 1 e 2

Evocando outro episódio da vida heróica e piedosa de D. Nuno Álvares Pereira, eis uma página dada à estampa no nº 59 (1960) da Fagulha, com o personalíssimo traço de Bixa (pseudónimo de Maria Antónia Roque Gameiro Martins Barata Cabral), uma das melhores colaboradoras dessa revista, editada pela Mocidade Portuguesa Feminina.

fagulha-59-1960

Por último (last but not least), uma referência a Mestre José Ruy, a quem poucos podem pedir meças no domínio da BD histórica e cuja vasta obra — com um estilo desenvolto, em que sobressai o apurado uso da cor, a harmonia da forma e o rigoroso equilíbrio da composição — tem alguns capítulos, embora breves, dedicados ao valoroso guerreiro que salvou Portugal das invasões castelhanas no século XIV.

Recordemos, por exemplo, o episódio “Os Duzentos Inimigos do Condestável”, publicado no Camarada nº 5, 2º ano (28-2-1959), em que D. Nuno se bate temerariamente contra uma chusma de castelhanos, até ser socorrido pelos seus companheiros de armas… curiosamente a mesma peleja que Fernando Bento retratou nas páginas do Diabrete, com o seu traço fluido e expressivo, num vigoroso e plástico preto e branco.

José Ruy (Camarada)

Aqui fica o registo de cinco estilos gráficos diferentes, que ilustram bem a riqueza e variedade da escola realista (e modernista) que inaugurou uma nova etapa nas histórias aos quadradinhos portuguesas, a partir dos anos 40 do século passado.

(Nota: a página de José Ruy foi extraída, com a devida vénia, do magnífico blogue BDBD, orientado por Carlos Rico e Luiz Beira. As restantes pertencem à minha colecção, bem como os livros apresentados também neste post).

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 13

Título D FilipaFilipa de Lancastre, casa de Avis, Garcês

Em 25 de Julho de 1415, teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portugueses, com uma grande expedição militar chefiada por el-rei D. João I e pelo con- destável D. Nuno Álvares Pereira, cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâmicas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

Nessa heróica empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em combate, os jovens infantes D. Henrique e D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado para reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e o segundo para suceder no trono ao Rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro — que seria chamado “o das sete partidas” — foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

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Um dos episódios mais marcantes, mas talvez menos recordados, hoje em dia, dessa histórica epopeia — assinalada, 600 anos depois, como o primeiro marco da globalização que encurtou as distâncias entre os povos e acelerou a marcha do progresso económico e social —, é o que revela a profunda afeição que D. Filipa de Lencastre (a rainha mãe de virtuosos dotes e de costumes austeros, que muito Mário Domingues - Ceutacontribuiu para o bom nome e o exemplar reinado de D. João I) sentia pelos seus filhos, a quem quis entregar as espadas de cavaleiros antes da partida para Ceuta, apesar de ter caído ao leito, gravemente enferma.

Mário Domingues, um popular escritor do século XX, que produziu vários romances históricos com biografias de reis, príncipes, cavaleiros, navegadores, poetas, sacer- dotes, estadistas, generais, passando em revista os períodos mais gloriosos, mas também os mais obscuros da nossa monarquia, evocou este edificante episódio num capítulo do livro “Grandes Momentos da História de Portugal” (2º volume), editado em 1962 pela F.N.A.T. (Federação Portuguesa para a Alegria no Trabalho). Os outros são dedicados à tomada de Lisboa por D. Afonso Henriques e ao cerco de Ormuz, em que se distinguiu Afonso de Albuquerque. Páginas da nossa História que atravessam cinco séculos!…

Filipa de Lancastre, Garcês 455Vítima da peste, causadora de inúmeras mortes, que grassava em Lisboa e adivinhando que o seu fim também estava próximo, D. Filipa quis dar o primeiro sinal aos seus filhos do glorioso futuro que os esperava, para bem do reino de Portugal, recomendando a Duarte, o primogénito e herdeiro do trono, que defendesse com toda a energia os seus súbditos e zelasse pelo cumpri- mento do direito e da justiça, a Pedro que estivesse sempre ao serviço das donas e das donzelas, e a Henrique, o mais novo dos três mancebos, mas também o mais audaz e sonhador, que protegesse “os senhores, cavaleiros fidalgos e escudeiros do reino, fazendo-lhes todas as mercês a que, por razão, tivessem direito”.

Depois, abençoou os filhos, entregando-lhes as três espadas que mandara forjar para aquele momento solene e com as quais seriam armados cavaleiros pelo rei, seu pai, na mesquita de Ceuta, após a conquista que transformou esta cidade marroquina no primeiro baluarte cristão do norte de África, inexpugnável durante séculos.

tira de Flipa a entregar espadas aos filhos

Mestre José Garcês — cujos trabalhos de inspiração (e fervor) nacionalista, o consagraram, ao longo de várias décadas, por mérito, experiência artística e conhecimentos didácticos, como um dos nossos autores de maior renome no campo da BD histórica — retratou a mesma cena num livro dedicado a D. Filipa de Lencastre (Edições Asa, 1987) e numa magnífica biografia aos quadradinhos do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano (1960), com texto de António Manuel Couto Viana. Mais sucintamente, representou-a também no 2º volume da História de Portugal em BD, projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com retumbante êxito, a partir de 1985.

Filipa de Lancastre, Garcês 2 e 3

Também Eugénio Silva, outro nome consagrado da geração que recebeu o clássico testemunho dos mestres pioneiros da BD realista, como Garcês, Fernando Bento e Eduardo Teixeira Coelho, teve o condão de ilustrar com o seu traço suave e poético, em duas páginas inseridas no livro escolar para a 3ª classe “Lições de História Pátria”, a biografia da excelsa rainha nascida em Inglaterra, no ano de 1360, em cuja linhagem corria o nobre sangue dos Lencastres e dos Plantagenetas, e que veio para Portugal anos depois, ainda jovem, para contrair núpcias com D. João I. Desse enlace forjado pelo destino e pelas relações dinásticas entre velhos aliados, nasceria a “Ínclita Geração” que engrandeceu o nome de Portugal aos olhos da Europa e deu novos mundos ao mundo.

Filipa de Lancastre,Eugénio Silva 1 e 2

Filipa de Lancastre,bento diabrete 201- vinheta 463Por último, recordamos, com as devidas honras, outro grande vulto da cultura e das artes figurativas portuguesas do século XX, o saudoso mestre Fernando Bento, que também evocou a lição maternal de D. Filipa de Lencastre e a sua ilustre descendência, numa patriótica rubrica do Diabrete intitulada “Histórias da Nossa História”, com texto de Adolfo Simões Müller — à qual já aludimos diversas vezes neste blogue.

O episódio que seguidamente apresentamos, com o título “As Três Espadas”, foi publicado no nº 201 (4 de Novembro de 1944) do “grande camaradão” da juventude portuguesa, editado pela E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade), proprietária do Diário de Notícias e que, em 1952, se tornaria também editora do Cavaleiro Andante.

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