CURIOSIDADES LITERÁRIAS: CAMÕES E O SEU GATO

O curioso texto que se segue é da autoria de Théodore de Banville (1823-1891), poeta, dramaturgo e crítico francês, autor das célebres Odes Funambulesques” e de outras obras que lhe valeram o epíteto de “poeta  da felicidade”. Amigo de Victor Hugo, Charles Baudelaire, Théophile Gautier  e Arthur Rimbaud (cujo talento descobriu), foi considerado ainda em vida como um dos poetas mais eminentes da sua época.

“Le Chat”, texto traduzido por Catherine Labey, de que publicamos alguns excertos (com uma referência ao nosso maior vate e ao seu poema de dimensão universal, Os Lusíadas”), é uma apologia do gato… ou a arte de falar de tudo e de nada sobre um assunto predilecto. Para os amantes de gatos e não só, vale a pena ler o texto completo, disponível num e-book gratuito (em francês), na Internet. A ilustração deve-se também a Catherine Labey, em cujo blogue Gatos, Gatinhos e Gatarrões este texto foi inicialmente publicado.

“O GATO” – Extractos

(…) De todos os animais, o Gato é aquele em que o instinto é o mais persistente, o mais impossível de eliminar. Selvagem ou doméstico, mantém-se ele próprio, obstinadamente, com uma serenidade absoluta, e portanto nada pode fazê-lo perder a sua beleza e graça suprema. Não há condição tão humilde e aviltante que chegue a degradá-lo porque ele não o consente, e preserva sempre a única liberdade que pode ser outorgada às criaturas, a vontade e a determinada resolução de ser livre. E de facto ele é-o, porque só se entrega quando quer, concedendo ou recusando a seu bel-prazer o seu afecto e as suas festas, e é por isso que se mantém belo, ou seja, igual ao seu tipo eterno. (…)

(…) Mas tudo neles foi concebido para a cilada, a surpresa, o ataque nocturno; os seus olhos admiráveis, que se contraem e se dilatam de uma maneira espantosa, vêem melhor de noite que de dia, e a pupila que de dia é como uma estreita linha, de noite torna-se redonda e larga, polvilhada de areia dourada e cheia de lampejos. Carbúnculo ou esmeralda viva, ela não é apenas luminosa, ela é luz. Sabe-se que numa altura em que o grande Camões se encontrava sem dinheiro para comprar uma vela, o seu gato proporcionou-lhe a claridade dos seus olhos para escrever um canto d’Os Lusíadas. Ora, aqui está uma maneira verdadeira e positiva de encorajar a literatura, e julgo que nenhum ministro da educação fez alguma vez outro tanto. De certeza que, ao mesmo tempo que o alumiava, o bom do Gato lhe oferecia a sua macia e sedosa pelagem para acariciar, e vinha em busca de festas pelo prazer que elas lhe davam. (…)

“OS LUSÍADAS” ILUSTRADOS POR F. BENTO – 2

DITOSA PÁTRIA, MINHA AMADA

Os Lusíadas Bento - 1

Não se trata de Banda Desenhada — longe disso —, mas de um admirável conjunto de ilustrações de um grande e versátil Artista, cujo nome está indissoluvelmente ligado à evolução das histórias aos quadradinhos no nosso país e à chamada “época de ouro” das revistas infanto-juvenis (anos 30 a 50 do século passado).

Já aqui apresentámos vários exemplos da sua arte inimitável, do seu método veloz e espontâneo, do seu pincel tão destro a esboçar figuras de recorte humorístico como de traço mais realista. Grande mestre da aventura e da fantasia, da síntese criativa e da estilização poética, artista maior entre os maiores da narração gráfica e do simbolismo figurativo que marcou a primeira metade do século XX, Fernando Bento — para surpresa de muitos leitores do Cavaleiro Andante, no seu 2º ano de publicação, entre os nºs 61, de 28/2/1953, e 80, de 11/7/1953 — ilustrou algumas estâncias d’Os Lusíadas, de forma conceptualmente tão perfeita e tão moderna que podemos afirmar, sem cair no exagero, que o poema épico de Luís de Camões passou a ser visto com outros olhos e a ser lido com maior prazer por muitos jovens dessa época.

As páginas que aqui reproduzimos foram publicadas, pela mesma ordem, nos nºs 61, 62, 74, 76 e 78 do Cavaleiro Andante. As restantes ficam reservadas para outro post.

Os Lusíadas Bento - 2Os Lusíadas Bento - 3 Os Lusíadas Bento - 4Os Lusíadas Bento - 5