NAQUELE TEMPO – 2

 EM MEMÓRIA DE FRED FUNCKEN (1)

F. Funcken (por Tibet)Ainda não tínhamos tido oportunidade, neste blogue, de homenagear condignamente Fred Funcken, embora ele seja, desde que comecei a ler o Cavaleiro Andante, um dos meus desenhadores favoritos. Falecido com 91 anos, em 16 de Maio de 2013, deixou-nos uma vasta obra, que muitas revistas portu- guesas, além do Cavaleiro Andante e dos seus Álbuns e Números Especiais, tornaram conhecida e apreciada por várias gerações, nomeadamente O Falcão (1ª série), Zorro, Pisca-Pisca, Nau Catrineta, Tintin e Mundo de Aventuras (2ª série).

L'Age d'Or - Os FunckenGrande especialista da BD histórica, criador (juntamente com sua mulher Liliane) de séries famosas como Le Chevalier Blanc, Capitan e Harald le Viking, o seu talento, durante muitos anos, dispersou-se (mas sem nunca descuidar a forma) por dezenas de episódios curtos sobre os mais variados temas e figuras históricas, que muitos rapazes desse tempo devem ter lido (como eu) com curiosidade, gosto e proveito.  

Colaborador do Spirou e do Tintin, foi sobretudo nesta revista que a sua carreira sofreu um grande impulso, tornando-se um desenhador apreciado pelo estilo fluido e minucioso, capaz de abordar todos os assuntos com extrema facilidade. Até no western, género difícil, ao alcance de poucos (como a BD histórica), conseguiu também marcar presença, com heróis populares como Jack Diamond, Doc Silver e Tenente Burton, cujo êxito comercial, embora não tivesse rivalizado com o de outras séries do género, lhe permitiu prosseguir desafogadamente a sua vida artística.

Funcken Tintin 23 e 7

Depois de se unir a Liliane pelo matrimónio e por sólidos laços profissionais — ao ponto de ser difícil destrinçar o seu trabalho em comum —, tornou-se uma das maiores autoridades em assuntos históricos, dedicando-se infatigavelmente, com a valiosa colaboração da mulher, a uma obra monumental, em vários volumes, sobre militaria, com o título genérico Le costume et les armes des soldats de tous les temps.

Le costume et les armes (Funcken) - com filetes

Funcken CA 105No Cavaleiro Andante, do qual fui leitor assíduo desde que chegou às bancas, em Janeiro de 1952, já me tinham despertado a atenção algumas histórias completas que se estrearam depois do nº 104, sobretudo as que exibiam a assinatura de Funcken, com a sua verídica abordagem de temas históricos (de todas as épocas), graças a um estilo realista até aos mínimos detalhes, em larga medida mais rigoroso e bem documentado do que o de outros desenhadores que professavam a mesma escola.

Em memória desse tempo e dessas leituras, que ainda hoje me provocam uma leve emoção nimbada de nostalgia — quando me revejo à janela, esperando ansiosamente que o ardina com os jornais (e o Cavaleiro Andante) passasse na minha rua —, aqui vos deixo mais uma história completa e inédita (entre nós), com o traço de Liliane e Fred Funcken, baseada num dos mais trágicos e sinistros períodos da Revolução Francesa, Funcken CA 106cujo advento se comemora na data da tomada da Bastilha pelo povo amotinado: 14 de Julho de 1789.

Neste curioso episódio, “Au Temps des Sans-Culottes”, oriundo do Tintin nº 40 (17º ano), de 2/10/1962, com texto de Yves Duval, colaborador assíduo dos Funcken, evoca-se o chamado “reino do Terror” (1793-94), época em que, sobre toda a França, após a queda da monarquia e a morte do rei, pairava a sombra da guilhotina e do implacável tirano Robespierre, presidente da Junta de Salvação Pública, que em 28 de Julho de 1794, devido ao golpe da véspera — 9 do Termidor, no calendário da Revolução —, seguiria o mesmo caminho das suas vítimas.

Sans culottes (sem calções), termo que designava o povo, os revoltosos, a “arraia-miúda”, acabou por ser uma das expressões mais simbólicas da Revolução Francesa.

Funcken Sans culottes 1 e 2Funcken Sans culottes 3 e 4

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 5

ATENTADO EM SARAJEVO

Atentado de Sarajevo - 3

Há 100 anos, em 28 de Junho de 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, durante uma visita oficial a Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, foi o prelúdio de um tremendo conflito que envolveu várias potências europeias, cujos interesses imperialistas estavam em jogo: a Alemanha, a Áustria, a França, a Rússia, a Turquia e a Grã-Bretanha.

Guerra das trincheiras 1917Depois da declaração de guerra da Áustria-Hungria à Sérvia, em 28 de Julho, a Europa, transformada num barril de pólvora, viu deflagrar aquela que ficou conhecida como Primeira Grande Guerra, com o ataque à Sérvia e a posterior ofensiva alemã, quebrando a neutralidade belga, até às linhas francesas.

Contrariando as previsões dos mais pacifistas, que acreditavam que este novo conflito europeu se resolveria rapidamente, o dia do armistício só chegou muito tempo depois, em 11 de Novembro de 1918, com a vitória das forças aliadas, em que estavam incluídos pequenos países como a Grécia, a Roménia, a Bélgica e Portugal. Mas o saldo foi terrível, com milhões de mortos provocados pela devastadora guerra das trincheiras, que submeteu os soldados ao fogo de morteiros e metralhadoras, ataques de tanques, bombardeamentos aéreos, e ao efeito de gases tóxicos usados, sem parcimónia, como arma de extermínio, numa estratégia agressiva que aumentou o horror e as vítimas do dramático conflito.

Guerra das trincheiras - granadasO Tratado de Versalhes, assinado em 28 de Junho de 1919 pelos beli- gerantes, pôs termo oficialmente à Grande Guerra, redesenhando não só o mapa da Alemanha, a principal vencida, como o de toda a Europa balcânica e acabando para sempre com as ambições dos impérios Austro- -Húngaro e Otomano, que desapa- receram na hecatombe.

O efeito mais positivo do tratado não foi, porém, a extinção desses impérios nem o enfraquecimento do poderio militar germânico, que não tardaria a renascer com o advento alarmante do nazismo, mas a criação da Liga das Nações, o primeiro organismo internacional destinado a promover a igualdade e a paz entre os povos por vias políticas e diplomáticas, que entrou em vigor em 1920, dando origem, depois da Segunda Guerra Mundial, à ONU (Organização das Nações Unidas).

Associando-nos à evocação do trágico acontecimento que ateou o rastilho da Primeira Guerra Mundial, apresentamos mais um trabalho artístico, bem documentado, da dupla Liliane & Fred Funcken, com texto de Yves Duval, oriundo do Tintin nº 31, de 4/8/1964: Les origines de la première guerre mondiale … ou como tudo começou.

Grande Guerra 1 e 2Grande Guerra 3 e 4