IN MEMORIAM: ARTUR CORREIA (1932-2018)

Artur Correia e alguns dos seus personagens retratados por Zé Manel

O cineasta [e autor de BD] Artur Correia, que foi distinguido este ano pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio de Carreira SOPHIA 2018 e premiado, em 1967, no maior Festival de Cinema de Animação do mundo, morreu na passada quinta-feira, dia 1 de Março, aos 85 anos.

Segundo a informação divulgada pelo Cine Clube de Avanca, em cujos estúdios de animação foi produzida a série “História a Passo de Cágado”, a obra de Artur Correia “marca de forma indelével vários momentos da história do cinema de animação português”.

Artur Correia iniciou-se na animação nos anos 60 e foi o primeiro cineasta português distinguido no maior Festival de Cinema de Animação, em Annecy (França), onde o seu filme “O Melhor da Rua” ganhou o prémio Melhor Filme Publicitário (1967).

Os filmes de Artur Correia receberam várias distinções, nomeadamente no campo do cinema de animação publicitário, tendo sido laureados com prémios em Veneza, Cannes, Hollywood, Bilbau, Nova York (1968 e 1969), Argentina (1970), Tomar (1981) e Lugano (1983).

A primeira série portuguesa de animação, realizada por Artur Correia [e Ricardo Neto], em 1988, foi “O Romance da Raposa”, adaptação do célebre romance homónimo de Aquilino Ribeiro, que se transformou rapidamente num dos maiores sucessos da indústria audiovisual portuguesa.

Artur Correia aliava o seu trabalho na animação [como fundador da Topefilme] à autoria de ilustrações e de álbuns de banda desenhada. Entre eles, as obras de vulto “História Alegre de Portugal” e “Super-Heróis da História de Portugal” [em parceria com o argumentista António Gomes de Almeida], que obteve o prémio Melhor Álbum no AMADORA BD 2005. [Há cerca de dois anos, este volume foi reeditado em fascículos, com grande êxito, pelo jornal Correio da Manhã].

Em 2011, Artur Correia recebeu o Prémio de Honra do supracitado Festival de Banda Desenhada da Amadora, certame em que marcou presença desde o seu início.

Nota: texto reproduzido parcialmente do blogue “Largo dos Correios”. Para ver esse “post” na íntegra clicar em: https://largodoscorreios.wordpress.com/2018/03/02/artur-correia-1932-2018-um-notavel-autor-de-bd-e-animacao/

Ver também: https://ovoodomosquito.wordpress.com/2018/03/05/artur-correia-1932-2018-um-grande-mestre-da-bd-humoristica-e-do-cinema-de-animacao/

O CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA REALIZA NOVA ASSEMBLEIA GERAL E ESTREIA 4 EXPOSIÇÕES

Por António Martinó de Azevedo Coutinho (do blogue Largo dos Correios)

O Clube Português de Banda Desenhada convocou os seus associados para participarem numa Assembleia Geral, que se irá realizar no próximo dia 14 de Outubro (sábado), pelas 16H00, nas instalações da sede, sita na Avenida do Brasil, 52A – Falagueira – 2700-134 Amadora. A referida Assembleia terá como ordem de trabalhos a eleição dos elementos constantes de uma lista, conhecida e divulgada, candidata aos Órgãos Sociais do CPBD para o novo mandato de 2017/2019.

Os nomes propostos confirmam, na prática, os responsáveis pela corrente gestão do Clube, autores de uma obra a todos os títulos notável. Creio, por isso e dada a unanimidade reconhecida, que a continuação do excelente trabalho realizado está amplamente assegurada (…) e a qualidade/quantidade da obra é tanto mais válida quanto se deve reconhecer que este exuberante período se seguiu a décadas em que o Clube apenas sobreviveu dada a militância de uma meia dúzia de apaixonados pelos quadradinhos que nunca deixou morrer uma chama “sagrada” mínima.

A sede disponibilizada pela autarquia da Amadora, capital nacional da BD, proporcionou um local que tem sido constantemente dinamizado com diversas realizações, para além das intervenções do Clube noutros locais como, por exemplo, a Bedeteca da Amadora ou a Biblioteca Nacional de Lisboa.

No próprio dia da Assembleia Geral do Clube Português de Banda Desenhada, a nossa sede vai ser local de abertura de mais quatro (!) exposições públicas, cujos convites se anexam. Como exemplo de esclarecida, permanente e coerente intervenção em defesa da causa dos quadradinhos, dificilmente se poderia exigir mais ao CPBD…

Tenho orgulho em pertencer a uma associação tão dinâmica e tão bem dirigida, crescentemente merecedora de reconhecimento cultural público.

Nota: Texto reproduzido, com a devida vénia, do blogue “Largo dos Correios”, superiormente administrado por António Martinó de Azevedo Coutinho.

CELEBRANDO MAIS UM ANIVERSÁRIO DO “MUNDO DE AVENTURAS” (DESAPARECIDO HÁ 30 ANOS)

Nascido em 18/8/1949, o Mundo de Aventuras — um dos títulos mais emblemáticos da nossa imprensa juvenil — teve publicação ininterrupta durante cerca de 38 anos, até 15/1/1987. Um autêntico recorde de longevidade que nenhuma outra revista periódica de banda desenhada logrou sequer almejar, pois todas ficaram a grande distância dessa meta, mesmo as que no seu tempo foram tão populares como o Mundo de Aventuras.

Essa longa vida, abruptamente interrompida pela crise da Agência Portuguesa de Revistas, que acabou também pouco tempo depois, foi assinalada, como é óbvio, por várias fases de maior e menor êxito, em que o MA mudou não só de periodicidade, de formato e de aspecto gráfico, como de sede, de oficinas, de director e de colaboradores.

Transcrevemos, a propósito, um trecho da bela “dedicatória” intitulada “Em cada quinta- -feira um novo mundo”, que o nosso querido amigo Professor António Martinó colocou, há três anos, no seu magnífico blogue Largo dos Correios, onde reluz o dom da palavra e da escrita de um mestre conceituado:

“(…) Confrontando-se durante uma parte da sua longa vida com uma concorrência de peso, a revista conseguiu subsistir e atravessar diversas fases editoriais e modelos/formatos distintos. Mudando mesmo a sua filosofia, das histórias de continuação para as histórias completas, prenunciou o fim irreversível dessa saudosa fase onde aguardávamos com impaciência cada 5ª feira que nos fornecia o episódio seguinte de aventuras movimentadas, aptas a preencher um pouco da nossa própria vida. Sobrevivemos sem “play- -stations” e sem telemóveis, sem brinquedos sofisticados, até mesmo, imagine-se, sem televisão e, obviamente, desprovidos de acesso à internet… Sobrevivemos, sem traumas nem stresses, e isso deve-se em boa parte aos diabretes, aos mosquitos, aos mundos de aventuras e quejandos…”

A última série, iniciada em 4/10/1973, sob a direcção de Vitoriano Rosa, que sucedeu a José de Oliveira Cosme, falecido pouco tempo antes, teve também vários formatos e periodicidades, além de uma controversa interrupção cronológica, como se de uma nova revista se tratasse, com a numeração a voltar ao ponto de partida, após 1252 semanas de presença contínua nas bancas. O segundo director dessa série foi António Verde, que se manteve no cargo até ao último número (589), sempre coadjuvado pelo chefe de redacção (coordenador) Jorge Magalhães.

Mas o nascimento do Mundo de Aventuras está ligado a um facto pitoresco que poucos bedéfilos conhecem… a história de dois “mundos”, como a baptizou Orlando Marques (consagrado novelista e colaborador de longa data do MA), que foi um dos seus principais protagonistas.

A título de curiosidade, reproduzimos seguidamente um artigo publicado no nº 559 (15/9/1985), em que, pelo punho de Orlando Marques, se relata esse pitoresco episódio, cujo desfecho quase ia arruinando a sua carreira literária.

GALA DOS PRÉMIOS DO AMADORA BD 2016

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Encerrou ontem, domingo, o Amadora BD 2016, ao cabo de três fins-de-semana em que a animação foi a nota dominante, com a presença de muito público e de autores nacionais e estrangeiros que participaram em concorridas sessões de autógrafos.

Como habitualmente, o momento mais solene e de maior repercussão mediática foi a tradicional gala de entrega dos prémios, amadores e profissionais, que se realizou no passado dia 27 de Outubro, atraindo mais uma vez ao amplo salão dos Recreios da Amadora muitas pessoas, sobretudo jovens, que assistiram interessadas a um espectáculo de música, dança e poesia, que primou pela coordenação e pelo bom desempenho dos artistas convidados, com relevo para o declamador Napoleão Mira.

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Premiados dos concursos de BD e “Cartoon”

Na atribuição de prémios profissionais, por categorias, os principais destaques vão para os de Melhor Álbum, que coube a “Tudo Isto é Fado!” (Nuno Saraiva), Museu do Fado; Melhor Argumento para Álbum Português: “Fósseis das Almas Belas” (Mário Freitas), Kingpin Books; Melhor Desenho para Álbum Português: “Tormenta” (João Sequeira), Polvo; Melhor Álbum em Língua Estrangeira: “Sleepy Hollow” (Jorge Coelho e Marguerite Bennett), Boom!; Melhor Álbum de Autor Estrangeiro: “Presas Fáceis” (Miguelanxo Prado), Levoir; Melhor Álbum de Tiras Humorísticas: “Seu Nome Próprio… Maria! Seu Apelido, Lisboa!” (Henrique Magalhães), Polvo; Clássicos da 9ª Arte: “Revisão – Bandas Desenhadas dos Anos 70” (colectânea), Chili com Carne, e “V de Vingança” (Alan Moore e David Lloyd), Levoir; Melhor Fanzine: “Shock” (homenagem ao saudoso Estrompa), El Pep.

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Nuno Saraiva, prémio do Melhor Álbum Português: “Tudo Isto é Fado!”

A notícia mais aguardada, no entanto — sobretudo entre os veteranos que assistem, desde 1990, a este evento que transformou a cidade da Amadora na capital portuguesa da BD —, era a do laureado com o Troféu Honra “Zé Pacóvio e Grilinho”, o maior galardão atribuído pela Câmara Municipal da Amadora, no âmbito do Festival, que continua ainda hoje a consagrar personalidades de reconhecido mérito na área da BD lusa.

E desta vez a escolha recaiu sobre um desses veteranos, sobejamente popular no meio, sobretudo pela sua intensa actividade como repórter fotográfico (de que este blogue tem sido um dos beneficiários, como atestam as imagens supra), e pela estreita ligação ao Clube Português de Banda Desenhada, onde ocupa o lugar de presidente da Mesa da Assembleia Geral. Mas o currículo de Dâmaso Afonso, pois é dele que estamos a falar, engloba outras facetas, que ao longo dos anos lhe deram especial renome.

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Aqui fica um breve apontamento biográfico e respectivas fotos, extraídos, com a devida vénia, do magnífico e sempre actualizado blogue Largo dos Correios.

damaso-afonso«António José Dâmaso Afonso, alentejano, nasceu em Évora a 11 de Janeiro de 1931. Cursou a Escola Industrial e Comercial Gabriel Pereira, na sua cidade, e começou a carreira profissional como escriturário, convertendo-se mais tarde em desenhador na Direcção de Estradas do Distrito de Lisboa, depois num gabinete de Arquitectura e finalmente na Sorefame. Entretanto, publicou anedotas ilustradas no Sempre Fixe (1951), assim como em O Mundo Ri, assinando aqui também com o pseudónimo “Tony”.

Colaborou também no jornal Democracia do Sul (1955) e mais tarde em Itinerário (Boletim da Casa do Pessoal da Junta Autónoma de Estradas), no Boletim Informativo do Clube Sorefame e em D. Quixote, suplemento literário inicialmente do Jornal de Évora e depois do Diário do Sul. Ilustrou uma história para o jornal da J.O.C. e, para o Exército Português, forneceu muitos desenhos respeitantes a ginástica, atletismo, luta livre, lançamento de granadas, etc., destinados a ilustrar livros dos cursos de sargentos e oficiais, a partir de 1959.

É coordenador e redactor do suplemento e rubrica ocasionais sobre BD no Diário do Sul, com a epígrafe O Cuco, desde 1994. Foi recentemente eleito presidente da Assembleia Geral do Clube Português de Banda Desenhada [vulgo CPBD], associação que há muito acompanha de perto. Costuma elaborar os cartazes anunciadores dos frequentes eventos culturais do Clube».

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PARABÉNS E MUITAS FELICIDADES, DÂMASO AFONSO!

REPORTAGEM DO GRANDE ENCONTRO NO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Nota prévia: na impossibilidade, que humildemente reconhecemos, de melhor descrever o memorável evento levado a efeito pelo CPBD na sua nova sede, em 15 do corrente mês de Outubro — com uma palestra proferida por um ilustre convidado, o Dr. António Mega Ferreira, e a inauguração simultânea de três magníficas exposições (que os visitantes do Festival da Amadora também não devem perder) —, transcrevemos, com muita admiração e amizade, o expressivo texto do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, publicado no seu blogue Largo dos Correios, que continua a ser um sítio de paragem obrigatória e prolongada, nas nossas frequentes rondas pela Internet.

A curiosa foto-montagem que documenta o aludido evento é também obra do Professor Martinó, mas infelizmente, por razões de espaço, já conhecidas dos nossos visitantes habituais, não podemos apresentá-la na íntegra, remetendo-os, por isso, para o Largo dos Correios (https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/10/19/cpbd-quatro-em-um/) e para A Montra dos Livros (https://amontradoslivros.wordpress.com/2016/10/26/reportagem-do-grande-encontro-no-clube-portugues-de-banda-desenhada/), onde foi reproduzida a reportagem que Luiz Beira fez para o seu blogue BDBD.

CPBD – Quatro em um!

por António Martinó

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Na tarde do passado sábado cumpriu-se o anunciado programa organizado pelo Clube Português de Banda Desenhada na sua sede da Amadora. E creio que o comentário pessoal que se impõe à partida é a recomendação aos dirigentes para que dotem as instalações de maior abundância de cadeiras a fim de que todos os assistentes possam ter lugar sentado…

Esta é uma ligeira e simpática ironia que, no entanto, reflecte com rigor o êxito da iniciativa. Nunca tinha visto tanta gente interessada na sede, incluindo talvez o próprio dia festivo da inauguração.

A verdade é que a oferta programada era aliciante, com três exposições e um colóquio, quase um festival…

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Diversificado por diversas salas, o espaço dedicado à Star Wars (Guerra da Estrelas) contém uma panóplia muito variada de produtos relacionados com o autêntico mito em que a série se foi tornando ao longo dos anos. As figuras dos heróis, os cromos coleccionáveis de caderneta, os brinquedos, os jogos e as colecções de revistas e álbuns ocupam uma parte considerável da mostra, que integra expositores horizontais e painéis nas paredes. Confesso que não sou propriamente um fã do tema, pelo que me impressionou sobretudo a variedade apresentada e a atenção a esta dedicada.

Já quanto à exposição organizada com pretexto no ABC-zinho foi bem maior o meu interesse, até porque um armário cheio de fragmentos desses jornais, nas suas várias séries, constituiu um dos encantos da minha velha casa de infância e juventude portalegrense. Nomes e obras dos seus maiores criadores nacionais, e tantos foram, Cottinelli Telmo, Henrique Marques Júnior, Ana de Castro Osório, Stuart Carvalhais, Rocha Vieira, Emérico Nunes, Carlos Botelho, Ilberino dos Santos, Amélia Pai da Vida, António Cardoso Lopes, Filipe Rei e outros, preenchem o fascinante conteúdo de várias das páginas expostas, numa interessante e completa retrospectiva. Mas também alguns criadores estrangeiros como Alain Saint-Ogan, George Edward, A. B. Payne e Louis Forton, sobretudo, estão ali representados.

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Num magnífico e oportuno complemento às páginas do jornal, estão ainda expostas três construções de armar, devidamente montadas em três dimensões: um teatrinho de brincar (a sério!), um hidroavião e um presépio. Fica assim muito bem documentada a riqueza das separatas então divulgadas.

O ABC-zinho desempenhou nos tempos pioneiros da crónica dos quadradinhos nacionais um relevante papel que o CPBD em boa hora agora recordou, quando se aproxima a efeméride do seu centenário.

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Mas a exposição rainha é a dedicada a Fernando Bento, um dos maiores criadores nacionais de banda desenhada portuguesa de todos os tempos. O seu papel dominante em jornais como o Diabrete e o Cavaleiro Andante, sobretudo, marcou-lhe um lugar incontornável na galeria das referências da nossa 9.ª Arte.

A inestimável cumplicidade da sua viúva, D. Arlete Bento, gentilmente presente, permitiu ao CPBD a apresentação de algumas dezenas de preciosos originais do autor, quase todos relativos à vastíssima produção publicada no Cavaleiro Andante e também no Diabrete, páginas ou pranchas de diversas aventuras originais ou adaptadas, assim como capas e cromos. Também alguns dos álbuns mais representativos e volumes ilustrados pelo mestre figuram nessa exposição bastante significativa, reveladora da sua arte muito expressiva. Verdadeiras obras-primas dos quadradinhos estão ali representadas. 

Tive a imensa ventura de, pelos anos 80 e a pretexto das primeiras realizações públicas do CPBD na antiga FIL, conhecer e privar com Fernando Bento. A sua extraordinária qualidade como criador de quadradinhos tinha uma contrapartida personalizada nas suas naturais modéstia e afabilidade. Guardo com carinho as preciosas dedicatórias com que enriqueceu o meu espólio de álbuns e outras memórias da BD, onde destaco o incontornável Beau Geste.

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Só por si, este trio de exposições seria bastante para marcar um dia inesquecível na crónica de um Clube agora renascido, com imparável dinamismo. Mas a tarde não se resumiu a este brilhante acervo cultural.

Convidado para o efeito, pontualmente compareceu o dr. António Mega Ferreira. Na sequência da série de depoimentos de ilustres personalidades de reconhecido destaque nacional na vida social, política e cultural, em boa hora iniciada com o dr. Guilherme d’Oliveira Martins, coube agora a oportunidade do cidadão a quem se devem, entre muitos outros notáveis desempenhos, a organização da EXPO’98 e as presidências do Oceanário de Lisboa e do Centro Cultural de Belém.

Mega Ferreira começou por se considerar um vulgar apreciador dos quadradinhos, sem direito a qualquer especial menção. Pura ilusão pois à medida que o seu aliciante discurso, espontâneo e cativante, se foi desenrolando e “aquecendo”, o que revelou foi uma invulgar sensibilidade e aproximação à banda desenhada do seu tempo, incluindo a actualidade. O Cavaleiro Andante e Fernando Bento, que constituíam a atmosfera de uma sala tornada quase mágica e irreal por aquele afectuoso desfilar de memórias, ganharam vida própria.

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O invulgar jornalista e laureado escritor revelou-se ali como um contista oral de primeira água, deslumbrando os atentos ouvintes que, repito, excederam os lugares sentados disponíveis.

Uma tarde invulgar e um pleno êxito ali aconteceram no passado sábado na Amadora, capital portuguesa da Banda Desenhada, título que ficou amplamente confirmado. Os membros do CPBD a quem se deveu a arrojada iniciativa, nomeadamente Carlos Gonçalves, Geraldes Lino, Moreno Martins, João Manuel Mimoso e outros que porventura omito e por isso me desculpo, estão de parabéns. O numeroso e valioso conjunto dos interessados presentes avalizou o valor do excepcional evento e terá servido de reconhecimento, gratidão e estímulo para as aventuras a continuar no próximo número…

                                                                                           António Martinó de Azevedo Coutinho

FERNANDO BENTO – UMA MEMÓRIA SEMPRE VIVA

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Ilustrador, pintor, caricaturista, figurinista, cenógrafo (e muito mais), Fernando Bento foi um autor versátil, polivalente, que deu vida e colorido a algumas das mais belas páginas publicadas em jornais infanto-juvenis, como Diabrete, Pim-Pam-Pum, Cavaleiro Andante, O Pajem, na fase mais criativa e original de uma longa e esplendorosa carreira.

Assinalando o 20º aniversário da sua morte (14 de Setembro de 1996) — como fez, com a oportunidade e o primor habituais, o nosso colega Largo dos Correios, cujos posts diários consideramos de consulta obrigatória —, queremos também recordar uma entrevista do saudoso Mestre, que o semanário de actualidades O Século Ilustrado (então, muito em voga) publicou no nº 961, de 2 de Junho de 1956.

Sob o título “No Banco dos Réus”, esse tipo de entrevista consistia num singelo questionário, que pouco tinha de particular no tocante a aspectos de índole profissional, cingindo-se a temas mais genéricos e banais, a que os entrevistados deveriam responder com ligeireza (temperada de ironia) e bom-humor. Fernando Bento não fugiu à regra, entrando no “jogo” sem reticências, mesmo que uma das suas respostas possa suscitar alguma surpresa. Mas convém não esquecer a época e o seu contexto…

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MORREU O “PADRINHO” DO MAJOR ALVEGA

Por amabilidade de um dos seus melhores amigos, mestre José Garcês, que nos dá também a honra da sua estima e camaradagem, soubemos do falecimento, há poucos dias, de Mário do Rosário, mítico editor de Banda Desenhada que ficará indelevelmente ligado ao popular semanário O Falcão, cuja 2ª série, em formato de bolso, dirigiu, coordenou e editou, durante mais de 20 anos.

Nas décadas de 60 e 70 do século passado, O Falcão foi uma das revistas da especialidade mais apreciadas por leitores de várias faixas etárias, graças ao formato apelativo, ao preço módico, às belas capas (muitas delas realizadas por José Garcês) e às séries e aos heróis que publicou, com destaque para um carismático piloto e “ás” da RAF, herói da 2ª Guerra Mundial, que ficou conhecido pelo nome de Mario do Rosário - Falcão 417 750 copyMajor Alvega — inventado, aliás, por Mário do Rosário, que preferiu ignorar o patronímico inglês (Battler Britton), sem poder adivinhar que tinha gerado uma autêntica lenda da história e do universo dos media portugueses do século XX.

Ainda vivo, pelo menos na memória dos leitores d’O Falcão (e dos espectadores da RTP) que vibraram com as suas aventuras, o Major Alvega deve sentir, neste momento, a falta do seu maior amigo, daquele que — ao apadrinhá-lo, dando-lhe outro nome e uma dupla nacionalidade — criou um fenómeno de culto que transcendeu as suas próprias origens nos comics de guerra do Reino Unido.

Nota: a foto de Mário do Rosário inserida neste post provém, com a devida vénia, do blogue Largo dos Correios, onde podem ler um magnífico artigo do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho intitulado “Super-Mário e O Falcão”, cujo link transcrevemos: https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/08/18/mario-do-rosario-1927-2016/

VISITA À BIBLIOTECA NACIONAL (OU O APELO D’O MOSQUITO OCTOGENÁRIO) NUM DIA CHUVOSO…

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O frio, a chuva, os transportes (e até as muletas da Catherine), nada nos impediu de assistir às palestras sobre os 80 anos da mítica revista O Mosquito, realizadas na passada 4ª feira, 17 do corrente, no auditório da Biblioteca Nacional. Infelizmente, o caótico trânsito lisboeta (que piora sempre em dias de chuva) retardou a nossa chegada ao local e só assistimos à última parte da palestra de abertura, proferida por João Manuel Mimoso, sobre o tema 17 anos de capas d’O Mosquito, acompanhada pela projecção de diapositivos.

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Logo a seguir, o Professor António Martinó de Azevedo Coutinho falou do seu percurso no mundo das histórias aos quadradinhos — como se chamava, então, singelamente, a banda desenhada —, desde a sua infância, em Portalegre, e depois durante os seus anos de acção pedagógica, tanto no ensino primário como nos cursos secundário e superior. A terminar, rendendo uma justa homenagem ao seu amigo Hélder Pacheco, outro insigne professor e homem de cultura, portuense de gema, leu um texto inédito que prendeu a atenção da audiência, intitulado Há muito tempo, quando éramos pequenos, evocando memórias pessoais de Hélder Pacheco ligadas à mais popular revista infanto-juvenil de outros tempos, adorada por todos os garotos, de norte a sul do país, que já andavam na escola.

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Mestre José Ruy partilhou também connosco memórias vividas na redacção e nas oficinas d’O Mosquito, com o seu jeito descontraído, aberto e afável de comunicar, desfiando peripécias curiosas e factos que marcaram a relação entre os dois sonhadores e paladinos que criaram o “mito” mais duradouro da BD portuguesa: António Cardoso Lopes Jr. e Raul Correia, ambos residentes na Amadora, a cidade onde efectivamente nasceu O Mosquito e onde hoje funciona também a sede do Clube Português de Banda Desenhada, promotor desta iniciativa numa oportuna e louvável parceria com a Biblioteca Nacional.

Carlos Gonçalves, grande coleccionador (e conhecedor) das preciosidades que são as construções de armar e as separatas que muitas revistas infanto-juvenis publicaram ao longo da sua existência, mostrou reproduções digitais desses suplementos, assim como fotos de certas construções já montadas, como algumas peças do célebre Cortejo Real (construção publicada na revista O Senhor Doutor, que foi contemporânea d’O Mosquito).

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Depois de uma animada sessão de comentários, que prolongaram os temas das palestras durante mais meia-hora, todos nos dirigimos à sala onde a exposição comemorativa dos 80 anos d’O Mosquito, exposta em várias vitrines, foi apresentada e comentada pelos seus comissários, João Mimoso e Carlos Gonçalves. Nem mesmo a Catherine (embaraçada com as muletas) ficou para trás, tal era a sua ânsia de ver a exposição. Pena foi que o folheto alusivo a esta mostra já tivesse “voado”, como folhas secas num dia de vento…

Aqui reproduzimos algumas fotos da memorável sessão na Biblioteca Nacional, gentilmente cedidas pelo nosso amigo António Martinó (autor do blogue de referência Largo dos Correios, onde poderão ler, na íntegra, o magnifico texto de Hélder Pacheco), tiradas por ele e pelo seu neto Manuel, o mais jovem elemento da assistência, brilhante estudante universitário e que denota possuir também excelentes dotes de fotógrafo. A ambos os nossos agradecimentos, com as mais afectuosas saudações “mosquiteiras”.

Nota: Esta reportagem, com mais imagens, vai ser também postada no nosso blogue irmão (ano e meio mais novo) O Voo d’O Mosquito.

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TRÊS HISTÓRICAS REVISTAS DE BD QUE FAZEM ANOS EM JANEIRO E UMA SINGULAR HOMENAGEM DO “LARGO DOS CORREIOS”

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Nestes primeiros dias de um tristonho e pluvioso mês de Janeiro — daqueles dias em que nem apetece sair de casa, quando se tem a sorte de poder ficar no aconchego doméstico, a nossa “zona de conforto”, sem ser devido a uma incómoda gripe ou a outros motivos de força maior —, celebraram-se dois aniversários que para muitos de nós, bedéfilos inveterados, continuam a ter uma importância especial, pois assinalam o nascimento de duas das mais populares e míticas revistas do género publicadas neste país, o Diabrete e o Cavaleiro Andante, ambas editadas em boa hora pela Empresa Nacional de Publicidade e dirigidas por um dos mais distintos nomes das nossas letras, afeiçoado como poucos à literatura infanto-juvenil e às histórias aos quadradinhos: Adolfo Simões Müller.

Cavaleiro Andante nº 1 (Martinó)Facto curioso e digno de nota: em Janeiro também fazem anos O Mosquito (1936), mais velho cinco anos do que o Diabrete (1941) e dezasseis do que o Cavaleiro Andante (1952), e a sua “irmã” mais nova, a Fagulha (1958). Mas, voltando ao princípio, isto é, ao aniversário das duas revistas que surgem à cabeça de uma longa lista anual que muitos bedéfilos ainda hoje recordam e acarinham com sentida emoção, queremos partilhar com os nossos visitantes e amigos um magnífico texto dedicado ao Diabrete por um dos seus maiores cultores em crónicas que fazem história, o Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, cujo prestigioso blogue Largo dos Correios é uma referência incontornável entre todos os que se dedicam à divulgação desta nobre 9ª Arte (embora os conhecimentos, os interesses e os propósitos do Professor Martinó excedam largamente o âmbito das histórias aos quadradinhos e das revistas que lhes deram valioso suporte).

Aqui fica, pois, com a devida vénia ao Largo dos Correios, o link para esse texto admirável e inspirado, que se lê com o mesmo prazer com que degustamos uma rara e saborosa iguaria; e em cuja “inflamada” e apologética evocação do Diabrete e dos seus gloriosos companheiros de aventuras, todos os bedéfilos de alma e coração fervorosamente se revêem: https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/01/04/um-celeste-diabrete/

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Na senda do aniversário do Diabrete, o Largo dos Correios iniciou oportunamente uma nova rubrica, subordinada ao título Antologia BD, em que começou já a apresentar uma das obras que mais se destacaram na primeira etapa dessa revista, pelo traço desenvolto, de rara elegância e virtuosismo, do seu principal desenhador, Fernando Bento, que deliciou os leitores do “grande camaradão de todos os sábados” com algumas memoráveis adaptações de romances de Jules Verne, entre elas “A Volta ao Mundo em 80 Dias”.

Foi esta a escolha do Largo dos Correios para inaugurar a sua nova rubrica, cujos primeiros posts, com páginas magníficas de Fernando Bento (ainda a ensaiar, airosamente, um estilo realista), poderão apreciar aqui: https://largodoscorreios.wordpress.com/category/historias-aos-quadradinhos/

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A TRAGÉDIA DOS REFUGIADOS

O Gato Alfarrabista, embora sendo simplesmente um blogue dedicado à Banda Desenhada, não consegue alhear-se da tragédia dos refugiados — trazida uma vez mais ao lume das notícias com fotos chocantes de crianças afogadas —, e não achou nada melhor do que reproduzir, com a devida vénia, o texto do jovem Manuel, neto do nosso amigo Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, publicado no seu excelente blogue «Largo dos Correios» (que seguimos sempre com grande interesse), há menos de 24 horas.

Queremos sublinhar a maturidade, perspicácia e eloquência deste jovem, digno herdeiro dos elevados princípios cívicos, éticos e morais que norteiam a sua família, empenhado, como militante activo da Amnistia Internacional, em alertar as consciências para a urgente acção de todas as entidades e dirigentes responsáveis, no sentido de se encontrar uma solução justa, séria e humanitária deste drama colectivo cada vez mais pungente — e que a Europa (responsável, em parte, pelas causas que o provocaram) não pode ignorar, voltando as costas à realidade ou erguendo barreiras contra os refugiados.

Fazemos nossas as palavras do Manuel Azevedo Coutinho, a quem enviamos um grande abraço, solidarizando-nos totalmente com o seu vibrante e lúcido depoimento… que é também um grito de indignação e de revolta contra aqueles que permitem, com a sua inércia, que estes dramas continuem a acontecer!

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Mais uma garfada numa vida de formiga…

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O mundo abala, dia a dia, com o silêncio daqueles que no seu silêncio figuram as imagens de mortos, refugiados, sem abrigo, gente da nossa gente que, sem esperança e sem voz, fazem o que podem para sobreviver. A condição humana, a cada dia que passa, é crescentemente posta em causa das formas mais violentas, mais desumanas.

O cidadão europeu, comum, é confrontado dia a dia com esta realidade “longínqua”, famílias, idosos, crianças, adultos, no seu desespero. O longe acabou, esta realidade não é Africana, Asiática, esta realidade é Europeia, e está a bater-nos à porta. A solução tem de ser aplicada pelo continente Europeu.

Esta situação tem sido abordada pelos mais variados líderes europeus e nacionais. Num comportamento absolutamente vergonhoso, esses falam, falam, falam, vemo-los a arranjar uma solução? A resposta é não!

A extrema direita, em ascensão, fala-nos de uma praga que tem de ser expulsa do continente, um grupo de sanguessugas. A União Europeia nem fala, nada diz, numa apatia e passividade assustadoras. Um prémio Nobel da Paz não pode ficar indiferente a uma situação destas! Em Portugal, temos o nosso primeiro ministro IMG_2242imbuído da demagogia que tanto critica. Em época eleitoral, nada melhor que aproveitar para dizer: – Eu disse que temos de fazer melhor e Portugal também.

Parabéns, Dr. Passos Coelho, penso que qualquer ignorante já tinha chegado a essa conclusão.

Eu, enquanto cidadão português e europeu, sinto-me revoltado, porque este tipo de discurso não faz a diferença, o que faz a diferença são as acções, são medidas e propostas concretas, e isso eu não oiço, só ignorância, demagogia e apatia. Isto é inaceitável, estamos a falar de vidas humanas, estamos a falar de gente da nossa gente. Basta de inacção!

Outra situação é o tipo de acção que se aplica, o que se está a fazer é adiar o confronto com o problema originário deste caso. Estas pessoas não decidiram vir para a Europa porque lhes apeteceu, não! Estas pessoas vieram porque nos seus países vivem situações de pobreza, guerra, epidemias, esses são os grandes problemas, esses é que temos de resolver. Esqueçamos dívidas, lucros, receitas, PIB’S, taxas, impostos, todas essas economias que restringem a nossa acção. Estamos a falar de vidas humanas. De jovens como eu, de crianças como muitas que temos em casa ou ao nosso lado, estamos a falar de seres humanos. Se a nossa raça chegou aqui foi porque uniu a sua inteligência ao seu espírito colectivo. Falta isso nos dias de hoje. A ganância e o egocentrismo tomaram o ser humano e regem a sua acção. Ajamos com compaixão, com solidariedade.

Vivemos uma vida de movimentos pendulares, de rotina, de  stress, de turbilhão, uma vida sem vida para viver. Podemos assemelhá-la a uma vida de formiga, viver para trabalhar, trabalhar para sobreviver, viver para sobreviver, mas isso não nos retira o dever de agir nesta situação; quem nos governa não age, então temos nós, os indignados com esta situação, de agir! Da próxima vez que estiver a tomar a sua refeição e no noticiário aparecer uma notícia desta atrocidade não deixe passar, não dê a garfada seguinte da mesma maneira, reflicta, aja, porque este texto que eu escrevo pode não fazer a diferença, mas se todos escrevermos textos, falarmos, agirmos, o mundo muda, o mundo ouve!

A bola está do nosso lado, quem nos governa representa-nos, mas isso não nos retira o direito de ter uma voz activa, crítica deste caso.

 Manuel Azevedo Coutinho