A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 14

O HERÓICO CAVALEIRO D. NUNO (1)

Crónica do Condestável 725A figura do ilustre Condestável D. Nuno Álvares Pereira — que o escritor António Campos Júnior crismou de “guerreiro e monge” — foi dada a conhecer à juventude em várias histórias aos quadradinhos (como antigamente se chamava à narração figurativa) e nalguns livros de que ainda conservo grata memória, como os de uma popular colecção da Livraria Sá da Costa, que teve largas tiragens, com títulos dedicados à Odisseia, de Homero, à Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, à História Trágico-Marítima, aos Lusíadas e a muitas outras obras de cariz histórico, entre as quais a Crónica de Nuno Álvares Pereira, com texto de Jaime Cortesão e ilustrações de Martins Barata.

A vida do Condestável 727Foi nesse livro e noutro de leitura ainda mais apaixonante, “A Vida Grandiosa do Condestável”, escrito por Mário Domingues — autor de nomeada no campo da narrativa histórica, com vasta obra publicada pelas Edições Romano Torres —, que aprofundei os meus conhecimentos sobre um dos maiores vultos da nossa História, cujo papel na luta pela independência, durante a grave crise de 1383-85, foi ainda mais decisivo que o do Mestre de Avis, futuro rei D. João I. De facto, sem o Condestável, cujo patriotismo foi um exemplo para muitos portugueses daquela época, que hesitavam entre a facção do Mestre e a do rei de Castela, Portugal estaria condenado à derrota e ao domínio estrangeiro. Mas hoje, num tempo estranho e sem alma, em que as memórias desses feitos quase se apagaram, já nem se comemoram as grandes batalhas, como Aljubarrota e Atoleiros, que ilustram a grandeza do Condestável, do seu génio militar e político, e a bravura das hostes que fielmente o seguiram, contra a vontade de muitos nobres e das próprias Cortes.

Crónica do Condestável 2 726Como escreveu Jaime Cortesão na “Crónica do Condestável” (oriunda de autor anónimo do século XV): “(…) então a honra dos fidalgos estava em amar e ser fiel a seus senhores ou reis, fonte de todos os seus bens e privilégios. Apenas os cidadãos burgueses e a gente miúda, os que não eram filhos de algo, punham a honra em amar e defender a terra em que nasceram e as liberdades que haviam conquistado”.    

Desde essas leituras, dediquei especial interesse às histórias ilustradas sobre a figura do Condestável, algumas das quais já recordámos neste blogue (como a memorável versão de Fernando Bento publicada, em 1950/51, no Diabrete).

Por sinal, este eclético artista já tinha abordado o tema numa patriótica rubrica intitulada “Histórias da Nossa História”, com textos de Adolfo Simões Müller, que deu destaque no nº 147 do Diabrete (23-10-1943) às proezas de cavalaria do jovem Nuno Álvares Pereira.

Seguidamente apresentamos mais algumas páginas, com o traço de outros desenhadores (e os cá de casa parece terem sido os únicos a interessar-se, até agora, por este capítulo da nossa nacionalidade, menos universal do que a longa gesta dos Descobrimentos).

Camarada 16 - 3º ano 728Ombreando dignamente com os seus pares da BD histórico-didáctica, José Antunes publicou no Camarada nº 16, 7º ano (8-8-1964) — com capa de Júlio Gil — um curto episódio sobre o bravo guerreiro D. Nuno, que ainda moço imberbe já fora armado cavaleiro pela rainha Dona Leonor Teles, depois de ter provado o seu valor nas primeiras escaramuças com os inimigos do reino. Longe vinham ainda os tempos de Aljubarrota, mas a profecia do alfageme de Santarém, a quem Nun’Álvares encomendou uma espada, haveria de cumprir-se, forjando o seu épico e glorioso destino.

Embora tivesse ilustrado mais narrativas históricas no Camarada, com o seu traço cheio e um pouco anguloso, sombreado por fortes pinceladas em que vibrava um tributo aos mestres Alex Toth e Frank Robbins, da escola americana que tanto admirava, José Antunes só voltou a retratar a figura do Condestável numa capa realizada para a revista mensal Pisca-Pisca.

A história “O Cavaleiro D. Nuno” foi reeditada no nº 5 dos Cadernos Moura BD, dedicado a este talentoso ilustrador, que se distinguiu também como capista em várias publicações, graças à sua versatilidade e à sua cultura que lhe permitiam abordar qualquer tema.

D Nuno josé antunes 1 e 2

Evocando outro episódio da vida heróica e piedosa de D. Nuno Álvares Pereira, eis uma página dada à estampa no nº 59 (1960) da Fagulha, com o personalíssimo traço de Bixa (pseudónimo de Maria Antónia Roque Gameiro Martins Barata Cabral), uma das melhores colaboradoras dessa revista, editada pela Mocidade Portuguesa Feminina.

fagulha-59-1960

Por último (last but not least), uma referência a Mestre José Ruy, a quem poucos podem pedir meças no domínio da BD histórica e cuja vasta obra — com um estilo desenvolto, em que sobressai o apurado uso da cor, a harmonia da forma e o rigoroso equilíbrio da composição — tem alguns capítulos, embora breves, dedicados ao valoroso guerreiro que salvou Portugal das invasões castelhanas no século XIV.

Recordemos, por exemplo, o episódio “Os Duzentos Inimigos do Condestável”, publicado no Camarada nº 5, 2º ano (28-2-1959), em que D. Nuno se bate temerariamente contra uma chusma de castelhanos, até ser socorrido pelos seus companheiros de armas… curiosamente a mesma peleja que Fernando Bento retratou nas páginas do Diabrete, com o seu traço fluido e expressivo, num vigoroso e plástico preto e branco.

José Ruy (Camarada)

Aqui fica o registo de cinco estilos gráficos diferentes, que ilustram bem a riqueza e variedade da escola realista (e modernista) que inaugurou uma nova etapa nas histórias aos quadradinhos portuguesas, a partir dos anos 40 do século passado.

(Nota: a página de José Ruy foi extraída, com a devida vénia, do magnífico blogue BDBD, orientado por Carlos Rico e Luiz Beira. As restantes pertencem à minha colecção, bem como os livros apresentados também neste post).

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 3

MAIS UMA RONDA PELO “PISCA-PISCA”

PISCA-PISCA - 1Aqui têm, caros internautas que regularmente nos visitam, mais uma série de capas do Pisca-Pisca, excelente mensário juvenil que se publicou entre Janeiro de 1968 e Dezembro de 1970, num total de 33 números, sob a direcção de Álvaro Parreira, que foi também um dos directores da 2ª série do Camarada, revista editada e distribuída pela Mocidade Portuguesa (MP), uma organização juvenil para- militar que ficou para a História como um dos símbolos do regime salazarista e da doutrina do Estado Novo.

À primeira análise, o Pisca-Pisca parece imbuído pelo mesmo espírito nacio- nalista, mas de uma forma mais discreta, mais sintonizada com a cultura do que com a política, como poderá constatar quem percorrer os seus números com atenção. As alusões ao regime e às campanhas cívicas e “patrióticas” da MP eram, quanto muito, subliminares. Os tempos, aliás, tinham mudado e, mesmo com Marcello Caetano na cadeira do poder, pressentia-se já o fim da ditadura…

PISCA-PISCA - 6 e 9

Neste conjunto de capas que hoje oferecemos à vossa curiosidade, figuram os traços, facilmente reconhecíveis, de três grandes ilustradores portugueses, cada um com obras de vulto no seu género (e que não olvidaram também a Banda Desenhada): José Antunes (nºs 1, 6 e 9), Eugénio Silva (nºs 25 e 29) e Carlos Alberto (nºs 30 e 33).

No nº 6 (Junho de 1968), o destaque foi dado a uma biografia de Camões em “quadrinhos”, narrando sumariamente, pelo traço de Fernand Cheneval, desenhador oriundo do Tintin belga, a epopeia poética e aventurosa de um dos maiores heróis da nossa História. Lembro-me bem de que este foi o primeiro número do Pisca-Pisca que me veio parar às mãos, quando eu e a minha família ainda vivíamos em Angola.

PISCA-PISCA - 25 e 29

A capa do nº 29 (Julho de 1970) exibe um belo exemplo do talento pictórico e figurativo de Eugénio Silva, um dos artistas gráficos mais em foco no Pisca-Pisca, que, no sumário desse mesmo número, brindou os leitores da revista com uma magnífica (e verídica) história de aventuras juvenis, em BD, intitulada “A Gruta dos Três Irmãos”.

Quanto a Carlos Alberto Santos, o mais realista de todos os desenhadores do Pisca-Pisca, distinguiu-se pelas suas composições sobre temas históricos (entre elas, uma HQ dedicada a Vasco da Gama), fazendo gala de um estilo robusto e vigoroso, de grande apuro estético e documental, a par de excepcionais aptidões como artista plástico.

PISCA-PISCA - 30 e 33

PISCA-PISCA - IZNOGOUD621Foi devido à valiosa colaboração literária e artística de numerosos autores portugueses e estrangeiros que o Pisca-Pisca, apesar de não ter conseguido ultrapassar algumas barreiras — resistindo precariamente à concor- rência de revistas com periodicidade semanal e menos preocupações de ordem didáctica, ou seja, com outros atractivos comerciais, como o Tintin e o veterano Mundo de Aventuras —, deixou uma agradável (e indelével) recordação entre alguns leitores desse tempo.

Especialmente por ter apresentado em estreia nas suas páginas, como já referimos noutro post (ver aqui), uma das séries mais hilariantes criadas pela fértil imaginação de René Goscinny, com desenhos de Tabary: “O Califa [de Bagdad] e o Grão-Vizir”, magistral sucessão de episódios curtos, onde, num ritmo frenético, como era timbre de Goscinny, assistimos às desgraças do maquiavélico e patético Iznogoud, cujos sinistros planos esbarram sempre em dois obstáculos incontornáveis: a candura e a boa-fé do rival que sonha destronar por todos os meios ao seu alcance.

 

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

UM ANO DE SAUDADE

Faz hoje um ano que faleceu José Baptista, um dilecto Amigo que ilustrou o meu primeiro conto publicado no Mundo de Aventuras, em 1959, e com quem privei durante várias décadas, como já tive oportunidade de referir algumas vezes, citando também a estreita colaboração que mantivemos nestes últimos anos, por causa da sua rubrica Arte – Memórias da Banda Desenhada, publicada no extinto jornal O Louletano, entre 2004 e 2012, num total de 233 páginas, que continuam oportunamente (e regularmente) a ser divulgadas pelo popular blogue Kuentro-2.

JOBAT - ANO DEPOISIn memoriam deste talentoso e ecléctico profissional — formado na idónea Escola de Artes Decorativas António Arroio, e que, além de ilus- trador e autor de BD, foi coordenador editorial (na APR e na Portugal Press), maquetista, artista cerâmico, professor de desenho, e se dedicava com paixão ao estudo das ciências paranormais —, recordamos um dos seus textos mais inspirados, incluído na referida rubrica 9ª Arte, texto que parece conter uma premonição do destino que em breve o arrebataria aos seus entes queridos e ao mundo das artes e do saber que, como homem de cultura, tanto prezava:

«O tempo, esse imperceptível eterno presente, fugaz e volátil como o fumo que se evola de distraído cigarro entre os dedos, passa rápido, invisível e sorrateiro sobre os nossos sonhos, alegrias e tristezas, inclusive sobre aquilo que profissionalmente produzimos, de tal maneira o ocultando sob a patine do passado que muito do que fizemos quase o ignoramos ou esquecemos».

RETROSPECTIVA – 6

Desde há um ano, como forma de homenagear a sua memória e o seu talento artístico (para que o tempo não “o oculte sob a patine do passado”), temos vindo a apresentar neste espaço alguns dos primeiros trabalhos que José Baptista realizou no âmbito das histórias aos quadradinhos, revelando uma acentuada predilecção pelos géneros histórico e policial, embora só tivesse cultivado este último na fase inicial da sua carreira.

MA 437  584Aliás, foi com um problema policial ilustrado que se apresentou aos leitores do Mundo de Aventuras no nº 437, de 2/1/1958, onde também tiveram lugar de honra outros jovens colaboradores artísticos da Agência Portuguesa de Revistas (APR), tais como José Antunes, Carlos Alberto e José Manuel Soares.

Nesse mesmo número — cuja capa, de concepção original, com todos os heróis da revista a representarem as letras do título, foi obra da criatividade de José Antunes —, estreou-se uma das melhores produções históricas de Jobat, “O Voto de Afonso Domingues”, baseada no célebre conto de Alexandre Herculano “A Abóbada”.

Jobat Afonso Domingues 1Apraz-nos também assinalar a página policial que o Mundo de Aventuras então publicava, sob a orientação de Luís Correia, e a curiosa experiência gráfica a que José Baptista se abalançou ao transformar um enigma policial numa pequena sequência animada pelo seu traço robusto e expressivo, cheio de nuances de claro-escuro, como algumas séries norte-americanas influen- ciadas pela estética expressionista do film noir (o cinema policial de tons mais dramáticos, filmado a preto e branco).

Pena que essa experiência de Jobat — dando continuidade a outros problemas policiais do mesmo género, da autoria de Vítor Péon e Roussado Pinto, apresentados anteriormente no Século Ilustrado e no Mundo de Aventuras — não se tivesse repetido. Embora a sua afeição pelo tema, fomentada decerto pelas leituras e pelos filmes com que entretinha os momentos de ócio, desse origem, tempos depois, a um herói detectivesco do qual também já aqui falámos: Luís Vilar.

Nota: para visionar o primeiro post publicado nesta retrospectiva, com todas as páginas da história “O Voto de Afonso Domingues”, clicar aqui.

MA 437 - 2

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

RETROSPECTIVA – 5

Se ainda estivesse neste mundo, o nosso saudoso amigo e grande artista José Baptista teria feito 78 anos no passado dia 18. Ainda nos parece que foi ontem que falámos com ele pela última vez, sempre lúcido e calmo, mas já muito minado pela doença que em tão pouco tempo o vitimou, roubando-o inesperadamente ao afecto de familiares e amigos, num paradigma daquelas terríveis injustiças com que o destino (e a vida), por vezes, fulminam as efémeras e vãs esperanças humanas. No espírito de Jobat, a esperança de vencer a doença mantinha-se firme, acalentada pelo desejo de retomar a rotina familiar e o contacto com o seu mundo intelectual e artístico, logo que pudesse regressar a casa.

img504Continuando a homenagear a sua memória, através da obra que prodigalizou a milhares de jovens em tantas páginas de revistas como o Mundo de Aventuras, o Condor Popular e o Jornal do Cuto, e em inúmeros livros de colecções de bolso editadas pela Agência Portuguesa de Revistas (APR), da qual foi um dos principais colaboradores na área do desenho e da coordenação editorial, durante mais de 20 anos de profícua actividade, recordamos hoje outra das suas primeiras criações como autor de BD, dada à estampa por volta de 1958 na rara Colecção Audácia, cujos fascículos que formam o 5º volume se tornaram com o tempo os mais difíceis de encontrar.

Tal como “O Voto de Afonso Domingues”, um dos seus primeiros trabalhos de cariz histórico, já apresentado no nosso blogue (como podem ver aqui), este curto episódio evoca também um feito célebre da História de Portugal, narrando em imagens rústicas, mas de traço bem delineado, num estilo vigoroso, cheio de expressividade e movimento, a tomada do castelo de Santarém, durante as refregas com os Mouros pela expansão do território, no reinado de D. Afonso I.

Mais uma vez agradecemos a Carlos Gonçalves a colaboração que nos tem prestado, pois ficamos-lhe a dever a digitalização destas seis páginas (e respectiva capa), com a qualidade que os nossos leitores e amigos podem já de seguida apreciar.

Nota: “A Conquista de Santarém” foi publicada nos nºs 6 a 11 da Colecção Audácia, 5º e último volume. Na capa do fascículo nº 8, cujo tema central está assinado por José Baptista, notam-se também os traços de José Antunes, autor do cabeçalho, e de Carlos Alberto, que concebeu os frisos laterais, com figuras de vária índole. Os três eram, nessa época, os principais elementos da equipa de desenhadores da APR.

Conquista de Santarém 1+2Conquista de Santarém 3+4Conquista de Santarém 5+6

 

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 6

1º de Dezembro ilustração J Antunes 2

Embora oficialmente o 1º de Dezembro tenha deixado de ser feriado, a partir deste ano, não deve cair no esquecimento uma data que está associada a um dos maiores acontecimentos da História de Portugal: O Último Conjurado  277a reconquista da independência em 1640, depois de 60 anos de domínio espanhol. Uma data com este significado merecia continuar a ser assinalada em celebrações oficiais, tal como aconteceu no passado, mesmo durante um regime que aboliu a monarquia e os seus símbolos, mas não a memória dos feitos que forjaram, ao longo dos séculos, a identidade e o futuro de Portugal entre as outras nações europeias. Memória que continua viva na nossa literatura, como atesta o romance que acabei de ler, de uma nova e inspirada autora, Isabel Ricardo, com o título “O Último Conjurado” (Planeta Editora, 1ª edição: Março de 2008, capa: José Laranjeira; ilustrações: Carlos Alberto Santos).

Bento - Diabrete 138Depois de D. Afonso Henriques, que talhou a golpes de montante, contra os sarracenos e o partido de sua mãe, D. Teresa, as primitivas fronteiras de um novo reino cristão; da revolta popular de 1384, contra a tibieza do rei D. Fernando e os desmandos de sua mulher Leonor Teles, que lhe sucedeu no trono, até ser expulsa pelo Mestre de Avis, futuro rei D. João I, e por Nuno Álvares Pereira, futuro Condestável; da grande vitória de Aljubarrota, que viu nascer a aurora de uma nova e radiosa era, liberta do jugo castelhano; da herança Henriquina, prosseguida por D. João II e por D. Manuel, que levou as nossas naus e os nossos marinheiros a todos os cantos do mundo; dos faustos da Índia e do Brasil, e dos escravos de África, que alimentaram a riqueza e a ambição de uma nova aristocracia, devassa e absolutista; do heróico desvario de um jovem rei, que sacrificou a fina-flor da sua cavalaria e a liberdade da pátria a um ideal impossível, como um Galaaz perdido num areal de ilusões — depois de tantas lutas e de tantos sacrifícios, de tantas décadas de esplendor e de glória, no convénio das nações mais poderosas da Europa, Portugal caiu nas malhas de um humilhante cativeiro, sob o pesado ceptro de um império cujo domínio se estendia a dois continentes.

Bento - Diabrete 566Reconquistar a liberdade, para os conjurados do 1º de Dezembro de 1640, foi um acto patriótico, cheio de abnegação e de fé, em que empenharam a vida, a família, os bens e a honra, uma missão cujos lances eram incertos e arriscados, pois nem o rei que queriam pôr no trono, o Duque de Bragança, lhes prometera lealdade absoluta. Mas tal como o Mestre de Avis, quando entrou no paço da rainha para matar o conde Andeiro, também eles não hesitaram em invadir o palácio da Duquesa de Mântua, dar-lhe voz de prisão e atirar por uma janela o traidor Miguel de Vasconcelos. O futuro estava traçado e o preço da nova liberdade custaria a Portugal, como no tempo de D. João I, um duro esforço de guerra, até finalmente os tercios filipinos regressarem à fronteira de Badajoz, vergados sob o peso da derrota, e outros estados europeus, incluindo o Vaticano, esquecerem as suas alianças com Espanha, reconhecendo como legítima a subida ao trono de D. João IV.

A banda desenhada de fundo histórico — um dos temas que pretendemos continuar a abordar neste blogue — não omitiu a evocação desse episódio, mesmo durante as longas trevas da ditadura salazarista, que, durante 40 anos, também cerceou direitos, liberdades e garantias, como no tempo da dominação filipina.

Camarada 128Pela mão de quatro grandes ilustradores, Fernando Bento (no Diabrete nºs 138, de 21/8/1943, e 566, de 1/12/1948), António Vaz Pereira (no Camarada nº 128, 1ª série, de 2/12/1950), José Antunes (no Camarada nº 24,    2ª série, de 30/11/1963) e José Garcês (na sua grandiosa História de Portugal, Asa, 1988), mostramos neste artigo como a BD portuguesa soube prestar homenagem aos heróis da independência e ao 1º de Dezembro, que atravessou mais de três séculos de História sem que nenhum governo, absolutista ou liberal, monárquico ou republicano, se tivesse lembrado, até hoje, de o suprimir do calendário dos mais importantes festejos nacionais.

Hist]oria de Zé Antunes

hist Portugal em BDFeriado ou não, o que importa é que, tal como fizeram alguns dos nossos mais talentosos autores de BD, há muitos anos e em épocas diferentes (antes e depois do 25 de Abril), o dia da Restauração continue a ser recordado como símbolo do amor à liberdade e da coragem de um povo que nunca se resignou a viver sob o jugo de estrangeiros ou de traidores à Pátria.

E aqui têm, a terminar a nossa breve resenha,      um excerto do capítulo que José Garcês e A. do Carmo Reis, com a perfeição artística e o rigor histórico que caracterizam os seus trabalhos, dedicaram a este feito glorioso, no álbum intitulado “A Restauração da Independência”       (3º volume da História de Portugal em BD).hist Portugal em BD - pag 1hist Portugal em BD - pag 3 e 4hist Portugal em BD - pag 5 e 6 Nota: agradecemos a preciosa e célere colaboração de Carlos Gonçalves, que nos proporcionou as duas páginas da história de José Antunes, publicada no Camarada.

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 1

JOSÉ ANTUNES, CAPISTA DO PISCA-PISCA

Pisca pisca nº3Nesta rubrica em estreia do Gato Alfarrabista, vamos apresentar, uma vez por outra, algumas ilustrações que ainda hoje nos enchem o olho, escolhidas ao acaso entre as capas dos milhares de livros e revistas que atafulham todos os cantos desta casa. Até o nosso gato já tem pouco espaço para meter o nariz onde lhe apetece, porque certos caminhos lhe estão vedados e há portas (que guardam preciosos segredos, isto é, objectos muito sensíveis ao tacto e às unhas dos felinos) sempre fechadas.

Entre essas “relíquias” de papel, a nossa primeira escolha recaiu sobre algumas capas do Pisca-Pisca, revista de periodicidade mensal, nascida em Janeiro de 1968, sob a direcção de Álvaro Parreira e Olga Alves, na qual, entre outros motivos de interesse, surgiram pela primeira vez, em tradução portuguesa, as tragicómicas aventuras do ignóbil Grão-Vizir Iznogoud e do  inefável Califa de Bagdad, criadas por outra dupla de respeito: Goscinny (argumento) e Tabary (desenhos).

Com um excelente elenco de colaboradores e um lote bem escolhido de histórias aos quadradinhos, oriundas sobretudo de revistas franco-belgas, o Pisca-Pisca abriu também as suas páginas a alguns desenhadores portugueses de primeira linha, como José Garcês, José Ruy, Carlos Alberto, Eugénio Silva, Zé Manel, Fernandes Silva, Artur Correia e José Antunes — este último autor das capas que hoje vos apresentamos.

Pisca pisca nº2Com um fértil percurso artístico que o projectou desde as primeiras histórias aos quadradinhos no Mundo de Aventuras e no Camarada (2ª série) até aos píncaros da ilustração no Jornal do Exército e em inúmeras publicações de diversas editoras, José Antunes foi orientador gráfico do Pisca-Pisca, onde não fez banda desenhada, mas deixou alguns dos seus melhores trabalhos como ilustrador, nomeadamente as capas dos primeiros números, com destaque para as do nº 3 (Março 1968), assinalando a estreia da série “O Califa e o Grão-Vizir” (que se tornaram os heróis mais emblemáticos da revista), e do nº 2 (Fevereiro 1968), baseada numa curta história de William Vance, famoso desenhador belga, cujas principais criações, como Bruno Brazil, Ramiro, Howard Flynn, Bob Morane e XIII, figuram entre as mais memoráveis da moderna escola franco-belga emergente nos anos charneira de 60 e 70.

Ao encetar a sua carreira, Vance especializou-se no domínio dos récits complets de cunho histórico e didáctico, muito em voga no Tintin e no Spirou, produzindo dezenas de episódios como o que deu origem à magnífica capa de José Antunes (certamente mais completa no original, pois parece ter sofrido um corte na margem direita), sobre a famosa companhia de diligências Wells Fargo, que transportava o correio nos tempos heróicos e turbulentos do Oeste americano, como o cinema tantas vezes nos mostrou.

Pisca pisca nº4 e 5

De “encher o olho” são também as capas dos nºs 4 (Abril 1968) e 5 (Maio 1968), dedicadas a outras histórias curtas, com especial relevo no sumário desses números: a lenda medieval de “Amadis, o Donzel do Mar” e a curiosa história da girafa oferecida, em 1826, ao rei de França, ilustradas respectivamente por José Garcês, no seu estilo harmonioso e poético, e por Fred Funcken, outro versátil especialista belga deste género de episódios verídicos, criador, com sua mulher Liliane, de séries muito populares como Chevalier Blanc, Harald le Viking, Jack Diamond, Doc Silver e Capitan.

Pisca pisca nº 7 e 24 Pisca pisca nº11 escola de detectives

Chamam também a atenção as capas dos nºs 7 (Julho 1968) e 24 (Fevereiro 1970), em que Iznogoud e o ingénuo Califa continuam a ser os “reis da comédia”, sob a exímia batuta de Goscinny e Tabary; e a do nº 11 (Janeiro 1969), pondo em foco a Escola de Detectives, secção policial orientada pelo célebre Inspector Varatojo (que se estreou com uma rubrica do mesmo nome no Diabrete) e profusamente ilustrada por José Antunes.

Pisca pisca nº14+ 21

As capas dos nºs 14 (Abril 1969) e 21 (Novembro 1969), de aspecto bélico, ilustram as proezas de destemidos heróis portugueses dos séculos XVI e XVII, que andaram pelo Oriente, assunto abordado com fluência narrativa e rigor histórico por Olga Alves, Ortiz da Fonseca e outros colaboradores literários do Pisca-Pisca, onde estes temas (como noutras revistas juvenis da época) tinham grande destaque.

Pisca pisca nº 12 + 18

Outro feito memorável da nossa História, a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, levada a cabo por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, nos tempos pioneiros da aviação, serviu de tema à capa do nº 12 (Fevereiro 1969), enquanto que, na do nº 18 (Agosto 1969), o ignóbil Iznogoud desempenha novo papel, como figura de um filme de desenhos animados, cuja técnica é explicada aos leitores no interior da revista.

Realmente especial é a capa do nº 19 (Setembro 1969), que evoca um dos acontecimentos mais notáveis do século XX, tema de uma grande reportagem fotográfica inserida nesse número: a chegada à Lua, mês e meio antes, do foguetão Apolo XII, tripulado por três astronautas americanos, tendo dois deles, Armstrong e Collins, pisado, pela primeira vez na história da Humanidade, a superfície lunar.

Reparem num pormenor curioso desta capa: a presença de Iznogoud ao lado dos célebres astronautas. A razão é porque, na sua aventura desse número espe(a)cial, o malfadado Grão-Vizir entrou também em órbita!

Pisca pisca nº19 e iznogood

Pisca pisca nº23José Antunes foi responsável gráfico do Pisca-Pisca até ao derradeiro nº 33, saído em Dezembro de 1970, e continuou, por isso, a ilustrar textos e capas da revista, coadjuvado por outros desenhadores, como documentam as três ultimas que apresentamos, correspondentes aos nºs 23 (Janeiro 1970), 27 (Maio 1970) e 28 (Junho 1970), todas bons exemplos da sua maturidade gráfica, do seu sentido da composição e da mestria revelada no tratamento da cor. Lamentamos apenas que, por falta de motivação ou de tempo, não tivesse brindado também os leitores, a exemplo dos seus colegas José Garcês, Carlos Alberto e Eugénio Silva, com uma história em quadrinhos (designação que o Pisca-Pisca usava correntemente).

Na galeria de grandes ilustradores/capistas portugueses das últimas décadas, em áreas tão concorridas como a literatura e a imprensa infanto-juvenis, José Antunes (1937-2010) é seguramente, pelo seu multifacetado talento e por toda a vasta obra que realizou, um dos nomes a reter na nossa memória.

Pisca pisca nº27+28