JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 4

JFK E OS “BOINAS VERDES”

Há casos (e não são poucos) em que o sucesso de uma obra literária é passaporte imediato para a sua adaptação cinematográfica e, muitas vezes também, para a banda desenhada, onde pode dar origem a um novo caudal narrativo, numa transposição paralela entre duas artes comunicantes, o cinema e a BD, que se imitam e se completam.

Já tivemos oportunidade de abordar (nesta rubrica do Gato Alfarrabista) a presença de John F. Kennedy (1917-1963), o mais carismático presidente norte-americano, num media tão popular como o dos comics, onde foi representado ao lado de alguns dos maiores super-heróis da Marvel e da DC, com destaque para Superman, personificando, tal como este, um obreiro da paz e do progresso, sempre pronto a defender o bem-estar e a segurança dos seus concidadãos.

Registamos hoje, a título de curiosidade, outra homenagem que lhe foi prestada, mas numa categoria diferente: as tiras diárias (daily e sunday strips) publicadas em inúmeros jornais dos Estados Unidos, que rivalizavam, em larga escala, com a popularidade e difusão dos comic books.

No caso vertente, trata-se de “Tales of the Green Beret”, série criada em 1966 por Robin Moore, em que avulta — sobre o discurso demagógico e militarista do argumento, a favor da intervenção norte-americana no Vietname —, o extraordinário virtuosismo gráfico de Joe Kubert, um mestre da 9ª Arte com uma estética insuperável do claro-escuro.

Em 1985, uma pequena editora americana chamada Blackthorne compilou em três álbuns a quase totalidade desta série, composta por tiras diárias e páginas dominicais (a cores), em que figuram várias referências a JFK, venerado pelos Boinas Verdes como seu comandante supremo e um dos Presidentes americanos que, em momentos de grave crise, como a dos mísseis russos em Cuba, souberam agir com coragem, fé, energia e patriotismo. Os primeiros episódios desta série, hoje quase esquecida — ao contrário da guerra do Vietname, sempre presente nas memórias do século XX —, foram publicados no Mundo de Aventuras (2ª série) nº 259, de 14/9/1978.

Segundo declarações de Robin Moore, que ao criar as personagens se inspirou no seu best-seller com um título idêntico: The Green Beret (adaptado também ao cinema, em 1968, com grande aparato, por John Wayne), a ideia nasceu como reacção à famosa série cómica Beetle Bailey (Recruta Zero), onde os militares e os seus códigos de conduta eram satiricamente ridicularizados.

Uma edição portuguesa do livro de Robin Moore surgiu nos escaparates em 1969, com o selo da Editorial Íbis, mas a sua publicação deve-se certamente ao êxito alcançado, nas telas portuguesas, pelo filme de John Wayne, um dos actores mais populares dessa época, investido novamente nas funções de realizador e produtor, em prol dos ideais republicanos e militaristas de que também era fervoroso adepto.

Com a guerra do Ultramar ainda em curso, não admira o paralelismo que surgiu, na mente de muitos espectadores, entre este filme e a acção do exército português em África. Quanto ao projecto dos comic strips, patrocinado pelo Chicago Tribune Syndicate, esse já não teve tanto êxito. Com início em 4 de Abril de 1966, foi cancelado, cerca de dois anos depois, devido aos violentos protestos contra a guerra do Vietname, transversais, nessa época, a todos os medias e a todas as classes da sociedade norte-americana, o que levou muitos jornais a suspender a sua publicação.

Jorge Magalhães

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JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 3

JFK E A SUPERMAN FAMILY

Retomamos hoje a nossa narrativa, em homenagem a um dos mais míticos heróis do universo dos comic books, que completou 76 anos de existência no passado dia 1 de Junho, e a um Presidente que muitos ainda hoje recordam e admiram (ver a 1ª e a 2ª partes deste artigo).

Superboy 27Ainda jovem, Clark Kent desempenhou também uma missão para o Presidente Kennedy, com a identidade do Superboy de Terra-1 (o que seria cronologicamente impossível), desta vez correndo maiores riscos, pois tratava-se de proteger um projecto da NASA, com o nome de Mercúrio, ameaçado por espiões soviéticos.

A história, publicada em New Adventures of Superboy #26-27 (Fevereiro-Março de 1982), deu azo a um espirituoso cartoon do artista Fred Hembeck, em que este comenta os “deslizes” temporais que recheiam a série, provando, mais uma vez, como os editores e os argumentistas davam rédea livre à sua fantasia, sem se importarem com tais paradoxos.

Superboy (cartoon)

Lois Lane 25 (Newlyweds)Para a DC Comics, Kennedy, um Presidente relativamente jovem, dinâmico e vigoroso, era a personificação do próprio conceito dos super-heróis da Silver Age e, adiantando-se à Marvel — cuja primeira referência a JFK consta ter aparecido no Incredible Hulk #5 (Janeiro de 1963) —, apresentou-o nas páginas de algumas histórias, com destaque para “Lois Lane and Superman Newlyweds”, publicada em Lois Lane #25, Maio de 1961 (argumento de Jerry Siegel e arte de Kurt Schaffenberger), em que os dois recém-casados são hóspedes de honra numa recepção oferecida pela Casa Branca, com a presença de JFK, Jacqueline, Lyndon Johnson e a mulher deste.

Lois Lane 25 (vinheta)

A figura de Kennedy tornou-se tão popular nos comic books da DC, que por vontade do experiente editor Mort Weisinger passou a fazer parte da Superman Family, continuando a aparecer em vários episódios, como o memorável “The Superman Super-Spectacular”, publicado em Action Comics #309, Action Comics 309Fevereiro de 1964 (argumento de Edmond Hamilton, arte de Curt Swan e George Klein), em que depois de um dia exaustivo a cumprir múltiplas tarefas para o Presidente, o Homem de Aço descobre que esse plano tinha sido concertado entre JFK e Perry White, editor do Daily Planet, para o atrair ao programa de televisão Our American Heroes, onde estavam presentes muitos dos seus velhos amigos, incluindo Batman, Robin e a Legião dos Super-Heróis, dispostos a prestar-lhe calorosa homenagem.

Ao recompor-se da surpresa, Superman compreendeu que não teria tempo de se transformar em Clark Kent, cuja ausência seria notada caso se prolongasse, confirmando as suspeitas de Lois Lane e Lana Lang sobre a identidade do Super-Homem. A solução para o problema estava, porém, nas mãos de JFK, que apareceu no programa Action Comics 309 (vinhetas)disfarçado de Clark Kent, sem que ninguém notasse a diferença!

Quando esta revista foi impressa, nos primeiros dias de Dezembro de 1963, já os trágicos acontecimentos de Dallas corriam mundo, mas a DC não podia cancelá-la num prazo tão curto, sem causar sérios transtornos aos distri- buidores e aos assinantes. E assim Action Comics #309 ficou para a história como a primeira aparição de JFK num comic book, depois da sua morte.

Action Comics 309 (original art) copyHá alguns meses, o desenho original da capa (pelo traço de Curt Swan, arte final de Sheldon Moldoff) rendeu num leilão a bonita quantia de $112,016, um dos preços mais altos pagos até esse momento por uma capa da DC Comics.

Foi talvez por ter ficado apreensivo com as reacções dos leitores — que poderiam apressadamente (como alguns fizeram) acusar a DC de oportunismo (ou malabarismo) comercial, sem se lembrarem de que todas as revistas eram planeadas com larga antecedência —, que Weinsinger não se atreveu a repetir a “proeza” com “Superman’s Mission for President Kennedy”, substituindo essa história, como já referimos, no Superman #169. Só na edição seguinte, por instâncias do novo Presidente Lyndon B. Johnson e da própria viúva de Kennedy, uma outra versão, desenhada por Al Plastino, veria a luz do dia… e essa também ficou para a história!

Curiosamente, em ambos os episódios há papeis que se invertem, pois no primeiro (Action Comics #309) é JFK que ajuda o Super-Homem a preservar a sua identidade secreta (que só ele conhece), enquanto que no segundo (Superman #170) é este que acorre ao pedido do Presidente para o auxiliar junto dos jovens, na sua vibrante campanha nacional em prol dos exercícios físicos e de uma vida mais saudável.

JFK (Dell Comics)Apesar de todas as críticas, Action Comics #309 tornou-se instantaneamente um best-seller e os pedidos de reedição choveram sobre a DC, mas a prudência editorial de Mort Weisinger não se alterou.

Depois da publicação da sua biografia pela Dell Comics, em Agosto de 1964, a imagem de John F. Kennedy (salvo ligeiras referências) não voltaria a aparecer num comic book da Silver Age — uma das épocas mais gloriosas dos comics americanos, que ele próprio viu crescer como a sua carreira política e transformar-se numa constelação de super-heróis, com a mesma aura de tenacidade, coragem e patriotismo do novo Presidente.

 

JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 2

“MISSÃO DO SUPER-HOMEM PARA O PRESIDENTE KENNEDY”

Almanaque Superman 1965 (capa)Do nosso amigo Leonardo De Sá um “poço de sabedoria” nas mais diversas matérias, reputado ensaísta e investigador na área da BD, com obra extensa e de vulto, sobretudo monografias, publicada nos dois últimos decénios, em Portugal e no estrangeiro, recebemos esta magnífica imagem com a capa do Almanaque de Superman 1965, dado à estampa pela Ebal (Editora Brasil-América, Lda), companhia criada por Adolfo Aizen em 1945 e que se tornou uma das principais promotoras das histórias em quadrinhos no vasto território brasileiro e noutros países da América do Sul.

Aizen lançou muitas séries americanas de autores consagrados, como Alex Raymond, Hal Foster, Lyman YoungWilliam Ritt & Clarence Gray, Burne Hogarth, e converteu os super-heróis, com destaque para Superman, Superboy  e Batman, nos personagens favoritos, durante várias décadas, do público brasileiro.

Nesta capa, da autoria do mestre Monteiro Filho — referência incontornável das histórias em quadrinhos nacionais, na época pioneira da sua expansão nas páginas do Suplemento Juvenil, criado também por Adolfo Aizen —, é distinguida, de forma original, a histórica “Missão do Super-Homem para o Presidente Kennedy”, à qual fizemos avultada referência nos posts anteriores dedicados a JFK e a Al Plastino, o malogrado artista que desenhou esse célebre episódio para a revista da DC Superman # 170 (Julho, 1964), e que faleceu, por doença, há apenas quatro dias, na tarde de 25 de Novembro, notícia que só começou a circular no dia seguinte, depois do nosso post já ter sido editado.

Superman #170 (capa 2)Uma singular coincidência, que aproveitámos para fazer mais uma merecida e sentida homenagem a Al Plastino, complementada agora por esta bela amostra da arte de Monteiro Filho, que muitos fãs portugueses e brasileiros do Super-Homem nunca tiveram certamente diante dos seus olhos. Acresce que ela é uma peça de singular importância, única variante mundial, ao que tudo indica, da vulgar edição da DC, cuja capa, seguindo uma linha tradicionalista, versava outra aventura do Homem de Aço publicada no mesmo número, com o título “If Luthor Were Superman’s Father”.

Para evitar controvérsias com os leitores, nas ondas de choque provocadas pela trágica morte de Kennedy, o editor Mort Weisinger preferiu “jogar pelo seguro”, escolhendo uma capa puramente comercial, sem qualquer relação com a história mais emblemática desse número, ou seja, a que Al Plastino ilustrou, tendo por tema a grande campanha nacional de aptidão física que o malogrado Presidente queria promover entre a juventude americana. 

Os nossos agradecimentos a Leonardo De Sá por nos ter brindado com outro exemplo (e talvez dos mais raros) da passagem de JFK pela banda desenhada. A seguir apresentamos algumas páginas dessa edição brasileira de finais de 1964, infelizmente a preto e branco e com uma qualidade gráfica que deixava muito a desejar.

Missão do Superman para JFK (Alm)+2Missão do Superman para JFK - 3 e 4Missão do Superman para JFK - 5 e 7

IN MEMORIAM: AL PLASTINO

AL PLASTINO JÁ NÃO ESTÁ ENTRE NÓS

Al Plastino com página de Supermam 170Acabamos de ter conhecimento, por intermédio do nosso bom amigo Alberto Soares, que o legendário artista Al Plastino — um dos autores referidos com maior destaque no post que dedicámos ao aniversário da morte do Presidente John F. Kennedy e à sua aparição em vários comic books da DC e da Marvel — faleceu anteontem à tarde, por doença, já depois desse post estar pronto para ser editado e sem que a notícia fosse ainda do domínio público. Uma singular coincidência, que assinalamos com pesar.

Superman's Mission by KennedyParafraseando Alberto Soares,    o nosso post acabou por ser também uma das primeiras homenagens póstumas a Al Plastino, cuja carreira de notável longevidade proporcionou à DC Comics, durante a Golden e a Silver Ages, alguns dos seus maiores êxitos, entre os quais o memorável episódio “Superman’s Mission for President Kennedy”, publicado em Superman #170 (Julho 1964), cujas pranchas, supostamente doadas à JFK Memorial Library, Plastino tentava reaver, depois de aparecerem recentemente à venda numa galeria particular.

Al Plastino a desenhar o Super-Homem (1949)Considerada ainda hoje uma das histórias mais emblemáticas do Homem de Aço, o seu destino ficou também ligado, de maneira indelével, ao desaparecimento de Al Plastino, que se debatia há longos meses com uma grave doença.

Que descanse em paz! Os fãs de Superman, Supergirl e outros míticos heróis dos comics a que o seu fértil talento deu mais realce gráfico, não o esquecerão tão cedo!

 

JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 1

JFK E OS SUPER-HERÓIS DA MARVEL E DA DC

John F. Kennedy - tira (Fantastic Four)A figura do 35º Presidente dos Estados Unidos da América, assassinado há 50 anos, em 22 de Novembro de 1963, fez várias aparições, meses antes da sua morte, em revistas da Marvel Comics, como Tales of Suspense #41, com o Homem de Ferro e a estreia do Dr. Strange (arte de Jack Kirby e Dick Ayers), Fantastic Four #17, em que o tenebroso Dr. Doom ameaça mais uma vez a América (arte de Jack Kirby e Dick Ayers), Journey into Mystery #96, com Thor e Mad Merlin (arte de Joe Sinnott), que estavam, então, no top de vendas. Journey into Mystery 96 (Joe Sinnott)Mas foram aparições meramente pontuais (os chamados cameos), em que o Presidente era visto apenas na Casa Branca, junto dos seus assessores ou da família. A nota mais relevante vai para o comic de guerra Captain Savage #14 (Maio 1969, arte de Don Heck e Syd Shores), onde Kennedy, ainda jovem, intervém como tripulante da lancha-torpedeiro PT-109, que efectivamente comandou durante a 2ª Guerra Mundial.

Tales of Suspense& Fantastic four

PosteriormentOSVALD+ KENNEDYe, surgiram outros comic books, com várias versões alternativas da sua morte, como Avengers West Coast # 60 (Julho, 1990), onde Lee Oswald é abatido por um agente antes de disparar os tiros fatais contra Kennedy, dando corpo, assim, à “teoria da conspiração” de que foram outros atiradores ocultos a assassinar o Presidente. E os exemplos da presença de JFK nos comics da Marvel não ficam por aqui, podendo ainda ser citadas as suas intervenções, mas sem grande relevo, em The Deadly Hands of Kung Fu #16 (Setembro, 1975) e Wolverine #66 (Fevereiro, 1993), com mais destaque para Adam: Legend of the Blue Marvel #1 (Janeiro, 2009), em que os Avengers, perante a ameaça de outro poderoso inimigo, têm de recorrer a um dos seus antigos membros, que não colhe as simpatias do Presidente.

Mais tarde, em Julho de 2009 e Fevereiro de 2012, JFK foi também “ressuscitado” nas novas aventuras do Capitão América, com arte de Marcos Martin e Francesco Francavilla: Captain America #50, vol. 5  e Captain América & Bucky #625.

Captain America 2009-2012

Superman's Mission by KennedyMas foi na revista da DC Comics Superman #170, publicada pouco depois da morte de Kennedy (Julho, 1964), que surgiu um dos maiores tributos que a BD prestou à sua memória: “Superman’s Mission for Presidente Kennedy”, episódio inicialmente previsto para a edição anterior e em que Superman ajudava o Presidente a promover junto da juventude americana a sua campanha (real) de educação física. Mas o projecto foi cancelado devido ao brutal assassinato de Dallas que chocou toda a nação, surgindo nesse número outra aventura de Superman.

Artigo do New York TimesNa tradicio- nal página do correio inse- rida em Superman #168, o editor Mort Weisinger transcreveu um artigo do New York Times, de 30/8/1963, ilustrado com uma vinheta da história que nunca sairia dos prelos, anunciando que os seus originais, com textos de Bill Finger e desenhos de Curt Swan (arte final de George Klein), seriam oferecidos a Jacqueline Kennedy.

O facto da DC ter mudado de planos, por vontade expressa do novo Presidente Lyndon B. Johnson e da família Kennedy, encarregando Al Plastino de desenhar uma nova versão (embora ainda hoje não se saiba se as pranchas de Curt Swan ficaram mesmo na posse de Jacqueline), atesta o interesse mítico desta aventura do Homem de Aço, cujo disfarce Kennedy foi o único presidente americano a conhecer.

Superman meets JFK - p.1 e 2

Na última legenda de “Superman’s Mission for Presidente Kennedy”, a DC fazia a promessa de oferecer os originais desta história à John F. Kennedy Memorial Library, na Universidade de Harvard, onde o ex-Presidente fora aluno.

Superman 170 (Kennedy)Há pouco tempo, surgiu uma polémica quando Al Plastino (já com a bonita idade de 91 anos) soube que os referidos originais tinham sido postos à venda num leilão particular; mas a John F. Kennedy Memorial Library negou qualquer responsabilidade, afirmando que essas pranchas não faziam parte dos seus acervos. Será difícil descobrir como chegaram à posse de um coleccionador particular, que defende acerrimamente o seu direito de propriedade, e se Weisinger cumpriu a sua promessa — tal como permanece uma incógnita o destino das pranchas (supostamente) oferecidas a Jacqueline Kennedy. Um autêntico tesouro para quem um dia as encontrar!   

Superman's meets JFK (última pág.)